Chapter 25
Os porcos engordados com a castanha, no norte, apresentam menos tecido gorduroso e mais tecido muscular que os engordados no sul com a bolota e com a lande. Este facto prende-se principalmente com a diversidade da raça explorada nos dois pontos, mas tambem depende da composição dos dois fructos. Comparando esta analyse com as analyses, anteriormente apresentadas, da bolota e da lande, vê-se que n'estes ultimos fructos diminuem os azotados e augmentam consideravelmente as substancias gordas.
Quando os castanheiros estão em bom terreno, e á larga, produzem ás vezes castanha muito grande, a que chamam rebordãa; mas, de ordinario, os castanheiros bravos costumam ser melhorados pela enxertia, quando se exploram em producção de fructo. Estes castanheiros enxertados denominam-se mansos, ou longaes, e produzem fructos mais abundantes, maiores, mais saborosos, e com a pelle menos adherente.
O sr. Carlos de Sousa Pimentel n'um seu estudo sobre a creação dos soutos, publicado no Jornal de Horticultura Pratica (anno de 1883), dá conhecimento das seguintes variações culturaes, como transcrevemos textualmente:
«Tempora, andrediz ou dos barros. - Castanha grossa e redonda abundante e precoce. Não se descasca bem, senão depois de alguma coisa avellada.
«Jaca, ou longal. - É um pouco sobre o comprido, grossa, abundante e saborosa. Descasca-se com facilidade.
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«Portelã. - Não tão grande como a anterior, menos productiva, um tanto mais serodia. Descasca-se com facilidade.
«Colherinha ou colleirinha. - Comprida e achatada; menos volumosa e abundante.»
E accrescenta: «para a enxertia preferem-se geralmente as arvores que dão a castanha longal, ou a temporã, por serem as que fructificam mais, e as que dão melhor fructo.»
Na alimentação do homem a castanha emprega-se em fresco, ou pilada, isto é, conservada secca e já descascada.
A alfarrobeira
(Ceratonia Siliqua, L.)
A alfarrobeira encontra-se, em Portugal, representando papel importante na arborisação do Algarve, onde está perfeitamente naturalisada. Sobe mais ao norte, e nos arredores de Lisboa, por exemplo, fructifica muito bem, e um ou outro pé apparece sub-espontaneo, mas fóra da provincia do Algarve perde toda a importancia.
Clima. - A alfarrobeira parece ser originaria do Oriente, mas está naturalisada em todo o littoral mediterraneo; esta situação indica evidentemente que precisa temperatura elevada. Entre nós é na orla meridional que vive em melhores condições. Resiste perfeitamente ás grandes seccuras estivaes d'essa região.
Solo. - Cresce em todos os terrenos, comtanto que não sejam pantanosos, ou mesmo muito humidos. Os solos frescos e profundos são-lhe os mais favoraveis, mas vive até nos terrenos pedregosos, inclinados, e fraqueiros, patenteando bastante rusticidade. É nas formações calcareas onde, em Portugal, mais habitualmente se encontra; prefere talvez os solos calcareo-argillosos.
Radicação. - Tem systema radicular vigoroso, e rebenta bem de touça. Deita numerosas raizes lateraes, compridas e pouco fundas.
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Porte, crescimento e duração. - Varia muito o porte da alfarrobeira segundo as condições em que se desenvolve; nos peiores terrenos constitue moitas arbustivas muito enredadas; em solos mais favoraveis é, de ordinario, arvore de mediana grandeza, podendo em boas circumstancias attingir 15 metros de elevação e mais; tem o tronco grosso, sempre dividido a pequena altura em pernadas robustas, e a copa grande, arredondada, mais ou menos aberta para os lados. No Algarve, a copa d'estas arvores chega a adquirir, ás vezes, 12 a 15 metros de diametro; os ramos das extremidades apresentam-se com frequencia pendentes, dando á copa um aspecto muito caracteristico.
A alfarrobeira tem crescimento lento, mas que, ainda assim, depende muito da fertilidade do chão. Pode chegar a edade bastante avançada.
Madeira e casca. - A madeira da alfarrobeira tem o alburno branco-amarellado e o cerne vermelho-rosado com muitas venações; o seu tecido é muito apertado e os raios medullares muito delgados, quasi eguaes, numerosos; tem os vasos isolados, ou reunidos 2 a 4 por uma aureola de parenchyma lenhoso mais brando e mais claro. É madeira muito homogenea, mas com os crescimentos annuaes muito visiveis, dura, pesada, densa, susceptivel de bom polido e dando boa fenda.
A casca é lisa, delgada, acinzentada; nas arvores bastante velhas é um rhytidoma aspero e rugoso.
Folhagem. - As folhas são persistentes, paripinnuladas, com 3 a 5 pares de foliolos grandes, ovados ou ellipticos, obtusos, ás vezes levemente chanfrados no cimo, coriaceos, verdes e lustrosos na pagina superior, baços e mais claros na pagina inferior, com a nervura central saliente.
Esta folhagem é espessa e assombrea bastante com o seu coberto. As folhas persistem dois annos.
Floração e fructificação. - A floração é dioica, muito raras vezes polygamica. Tanto as flores masculinas como as femininas, distituidas de corolla, estão dispostas em cachos amentaceos; são esverdinhadas e pequenas. Desenvolvem-se abrigadas pela sombra das folhas nos ramos de 3 e 4 annos, e é frequente apparecerem implantadas até nas ramificações já muito grossas. A floração dá-se de fins de agosto a outubro. Ao individuo masculino chamam no Algarve alfarrobeirão.
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O fructo amadurece passado proximamente um anno, em agosto, setembro do anno seguinte. É uma vagem polposo-coriacea, indehiscente, comprimida, recta ou arqueada, escura, com 10 a 20 cent. de comprido, mais ou menos saccharina; as vagens d'algumas variedades conteem 12 a 16 sementes, as d'outras conteem apenas 2 a 5. Estas sementes são ovadas, comprimidas, amarello-escuras.
A alfarrobeira tem fructificação abundante. Existem muitas arvores que dão 4 e 5 arrobas de vagens, subindo este rendimento, em casos muito menos vulgares, a 10, a 15, a 20 arrobas e mais.
Germinação. - As sementes não teem difficil germinação; germinam naturalmente passados uns 20 dias a um mez. Como o seu tegumento é muito duro, é util, quando se faça a sementeira artificial, sujeital-as primeiro á acção de uma lixivia alcalina fraca.
Productos e usos. - A madeira da alfarrobeira pode ser empregada em varios usos, mas não é muito apreciada; fabricam d'ella trem de lavoura, engrenagens para moinhos, etc. Dá boa lenha, e como tal é bastante empregada no Algarve. As cascas e as folhas são tanninosas e podem servir para curtume.
O principal producto da alfarrobeira é o fructo; conhecem-se no Algarve quatro variedades d'este fructo, que teem valores muito diversos: a alfarroba mulata, canella, galhosa e de burro; segundo alguns, o numero das variedades existentes é muito mais consideravel.
A vagem da alfarroba mulata é escura, quasi negra, direita ou um pouco curva, polposa, de todas a mais doce e estimada. Pela enxertia, teem transformado, no Algarve, o maior numero dos alfarrobaes, n'esta variedade. A vagem da alfarroba canella é, como o nome o indica, côr de canella, e é considerada a segunda em riqueza saccharina e em valor nutritivo. As outras duas variedades são muito mais adstringentes, muito menos doces e nutritivas, mais pequenas, menos polpudas, e já pouco se encontram. Nas alfarrobas maduras, segundo uns estudos a que procedemos no laboratorio do Instituto, conjuntamente com a glucose não é o tannino que se encontra, mas o acido galhico, pelo menos nas duas variedades mais doces.
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Uma parte da alfarroba produzida no Algarve é exportada, uma parte é dada como penso aos animaes, e a restante é hoje alcoolisada em grande escala.
Como penso aos animaes a alfarroba entra, no Algarve, em logar de ração; passa por ser bom alimento, dando vigor e fazendo crear bom pello. Esta pratica não está em harmonia com o que dizem os auctores francezes ácerca das qualidades nutritivas da alfarroba, mas não é para admirar que no clima muito mais quente do Algarve ella adquira melhores qualidades.
N'uns estudos, que executámos no laboratorio do Instituto, obtivemos nas nossas analyses valores que se afastam bastante dos das analyses francezas, mas que estão em harmonia com a pratica do Algarve acima referida. Esses estudos versaram sobre as duas variedades mais saccharinas, mas não deve esquecer que as condições de vegetação devem influir bastante na composição do fructo.
Ambas as amostras vieram do Algarve; a analyse só recaiu nos pericarpos. A relação encontrada entre os pericarpos e as sementes foi a seguinte, em peso:
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Alfarroba mulata Alfarroba canella
Pericarpos . . . 93,50 . . . 89,17
Sementes . . . 6,50 . . . 10,83
100,00 100,00
Nos pericarpos determinámos:
Alfarroba mulata Alfarroba canella
Humidade . . . 14,960 . . . 15,150
Cinzas . . . 1,870 . . . 1,560
Lenhoso . . . 5,183 . . . 5,920
Materias gordas . . . 4,712 . . . 3,552
Materias azotadas . . . 14,300 . . . 12,077
Extractivo ternario (analogos do amido, glucose, etc.) . . . 52,475 . . . 50,911
93,500 89,170
Nas cinzas da primeira encontrámos 0,149 de anhydrido phosphorico e nas da segunda 0,138.
Quanto ao valor da alfarroba como materia alcoolisavel, n'estas duas amostras, foi dado pelos numeros seguintes:
Alfarroba mulata Alfarroba canella
Glucose existente naturalmente . . . 15,220 . . . 10,415
Glucose produzida pela saccharificação chlorhydrica . . . 24,992 . . . 24,996
Total . . . 40,212 35,381
Isto é: não mettendo em linha de conta o alcool prestado pela semente, cada arroba (15k) d'aquellas alfarrobas daria o seguinte rendimento theorico em alcool absoluto a 0°:
Alfarroba mulata . . . 3l,60
Alfarroba canella . . . 3l,18
C. S. 23
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É claro que este rendimento theorico deve na pratica soffrer grandes deducções, inherentes aos mesmos processos do fabrico industrial, por mais perfeitos que elles sejam.
A industria da alcoolisação da alfarroba tem tomado grande desenvolvimento nos ultimos tempos, e decerto lhe está reservado um bom futuro. As sementes, depois de amollecidas pela cosedura, ou reduzidas a farinha, são empregadas na alimentação dos animaes, com bons resultados. O seu valor nutritivo é bastante grande; segundo uma analyse que praticamos no laboratorio do Instituto, teem a seguinte composição:
Humidade . . . 15,50
Cinzas . . . 4,97
Materia organica . . . 79,53
100,00
Na materia organica:
Substancias azotadas . . . 11,07
Substancias gordas . . . 1,05
Lenhoso . . . 6,84
Extractivo ternario . . . 60,57
79,53
Nas cinzas:
Anhydrido phosphorico . . . 0,890
Cal . . . 0,924
Silica . . . 0,211
Ferro, alcalis, etc. (por differença) . . . 2,945
4,970
Estas sementes podem aproveitar-se tambem em tinturaria.
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2.º - ESSENCIAS MENOS IMPORTANTES NA ARBORISAÇÃO FLORESTAL: ARBUSTOS DAS MATAS, DAS CHARNECAS E DAS AREIAS MARITIMAS
O ulmeiro, nigrilho ou mosqueiro
(Ulmus campestris, L.)
O ulmeiro, nigrilho (em Traz-os-Montes) ou mosqueiro (no Alemtejo) encontra-se abundantemente em todo o paiz, bordando as estradas, á beira dos campos, proximo das casas, ou misturado com as outras arvores, mas não constitue nunca massiço florestal.
Clima. - Parece que o ulmeiro prefere os climas temperados, onde adquire o maior desenvolvimento; entre nós é talvez mais frequente no norte do que no sul.
Solo. - Vae bem em todos os solos comtanto que não sejam nem muitos áridos nem muito humidos; nos terrenos fundos, leves e frescos adquire grandes proporções e rapido crescimento; se a humidade for excessiva o lenho fica de ruim qualidade.
Radicação. - Tem radicação muito potente; nas terras soltas e profundas a raiz mestra desenvolve-se bastante, acompanhada de ordinario por duas ou tres raizes lateraes grossas, muito ramificadas e cheias de cabellame, que se estendem a grandes distancias na horisontal, dando numerosos rebentões. Nas terras mais compactas o desenvolvimento da raiz mestra cessa em muito pouco tempo, mas encontram-se sempre as raizes grossas, obliquas e profundas, e as raizes horisontaes.
Esta propriedade, que teem as raizes do ulmeiro de bracejar muito longe, e de crear muitos rebentões, faz com que, nem sempre, esta arvore seja conveniente para bordadura dos campos cultivados. Ainda mesmo depois de cortada a arvore-mãe, é difficil extirpar os rebentões que apparecem por todos os lados. Temos visto as raizes do ulmeiro, a muitos metros de distancia, arruinarem paredes e até levantarem os lagedos no interior das casas proximas.
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Porte, crescimento e duração. - O ulmeiro é uma grande arvore, com o tronco direito e grosso, despido, alto, e com a copa muito ramosa, cheia de folhas, irregular. Tem crescimento muito rapido e pode chegar a grande altura; o maior ulmeiro que temos visto media quasi 4 metros de circumferencia na base e 25 metros de altura, mas estava muito decrepito, ôco e já muito destroncado; a sua altura, provavelmente, teria chegado a 30 metros. Tem vida muito dilatada, mas é sujeito a tornar-se ôco, passado uma certa edade.
O ulmeiro é atacado por muitos insectos, uns que vivem no lenho, outros na casca e outros nas folhas; sobre estas ultimas desenvolve-se um pulgão que pica o limbo foliar e provoca a formação de galhas volumosas, ôcas, entumecidas, irregulares. Estas galhas não teem prestimo, e como se encontram cheias de insectos, d'ahi veiu a esta arvore o nome vulgar de mosqueiro, com que em muitas localidades do sul a conhecem.
Madeira e casca. - A madeira tem cerne e borne muito distinctos: o primeiro é vermelho-acastanhado; o segundo, bastante avultado, branco-amarellado. Esta madeira apresenta os raios medullares um pouco deseguaes, não muito grossos, e os vasos com calibre muito differente, reunidos pelo parenchyma lenhoso, desenhando arcos e linhas flexuosas concentricas; os de maior calibre constituem uma zona muito porosa, correspondente á camada de primavera.
Esta madeira é dura, pesada, elastica, pouco propria para fenda.
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A casca das arvores adultas é um rhytidoma escuro, com fendas aproximadas e mais profundas na vertical, produzido pelas laminas suberosas que se formam atravez o liber. Os eixos novos apresentam umas vezes a casca lisa, outras vezes coberta de um involucro suberoso acastanhado-claro, bastante desenvolvido, muito fragil, fendido profundamente, e que torna os ramos alados (variedade suberosa, Koch.). Esta cortiça cae naturalmente quando se fórma o rhytidoma, e não tem nenhum prestimo.
O liber d'esta arvore é muito fibroso e tenaz; segundo o sr. Mathieu (l. c.) pode empregar-se no fabrico de esteiras e cordas grosseiras.
Folhagem. - As folhas do ulmeiro são caducas, ovado-ellipticas, acuminadas, obliquas na base, duplamente serradas, mais ou menos asperas, disticadas; teem peciolos curtos. São muito abundantes e dão espesso coberto.
Floração e fructificação. - A floração realisa-se em fevereiro e março, quando a arvore está ainda despida de folhas; é muito abundante, e realisa-se todos os annos quasi com a mesma intensidade, em condições normaes. As flores são pequenas, apetalas, hermaphroditas, e estão dispostas lateralmente nos raminhos em fasciculos globosos.
O fructo é uma samara glabra, arredondada, profundamente incisa no cimo; amadurece pouco depois da floração e cae em março e abril; ainda antes de apparecerem as folhas já a arvore está coberta de fructos desenvolvidos e verdes, ás vezes tão numerosos que de longe parecem as primeiras folhas. Estas samaras voam a grande distancia, levadas pelo vento.
O ulmeiro fructifica em bastante novo, mas no principio as sementes que produz são estereis; mesmo depois de adulto, muitas sementes estereis se encontram de envolta com as sementes ferteis.
Germinação. - Semeado logo em seguida á disseminação natural germina passados alguns dias, e a planta nova ainda cresce rasoavelmente n'esse anno.
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O crescimento da pequena arvore é rapido; apezar do seu temperamento robusto, ás vezes é conveniente abrigal-a nos primeiros tempos, principalmente nos annos quentes e nas terras seccas.
Productos e usos. - A madeira do ulmeiro é muito estimada; resiste bem á humidade; é muito vantajosa para quilhas de embarcações, bombas, rodas hydraulicas, etc.; é preciosa para carroçaria, para artilheria, para construcção de machinas, para veios, etc.; raras vezes se emprega em taboame.
A lenha d'esta essencia é reputada de inferior qualidade, bem como o carvão fabricado com essa lenha.
As folhas são empregadas para forragem em muitos pontos do paiz; os carneiros, bois e porcos comem-as sem difficuldade. Em Traz-os-Montes alugam-se os nigrilhos para lhes ripar as folhas.
Esta arvore é uma das que, pela combustão, deixa maior peso de cinzas, com percentagens mais elevadas de potassa.
O freixo
(Fraxinus angustifolia, Vahl., e Fraxinus excelsior, L.?)
O freixo é arvore muito frequente em todo o Portugal; encontra-se nas margens dos campos e dos caminhos, nas beiras dos cursos de agua, ou misturado com as outras essencias, mas em parte nenhuma do paiz fórma massiço florestal.
Clima. - O freixo vive bem em todas as nossas provincias: nas planicies, nos valles, nas collinas, e sobe bastante alto nas montanhas.
Solo. - É pouco exigente nas qualidades do solo que pede; vive em todos os terrenos, excepto nos muito compactos. É nas terras frescas e ferteis, nos valles e á beira d'agua que melhor vegeta e mais se desenvolve.
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Radicação. - O systema radicular do freixo compõe-se de muitas ramificações, das quaes umas profundam bastante e as outras se alargam horisontalmente a grandes distancias. Estas raizes horisontaes formam rebentões, mas teem essa propriedade em menor escala do que o ulmeiro; ainda assim o freixo torna-se ás vezes nocivo aos campos cultivados proximos, quando é explorado em bordadura. Rebenta muito bem de touça.
Porte, crescimento e duração. - O freixo é uma arvore de grande porte, com o tronco cylindrico, ás vezes prolongado até ao cimo, com a copa ovado-pyramidal ou arredondada. As suas dimensões, a altura do fuste e a fórma da copa variam muito com as condições de vegetação; citam-se freixos de grandes proporções, no paiz; o sr. Carlos de Sousa Pimentel, n'um artigo publicado no Jornal Official de Agricultura, refere-se a uma d'estas arvores, existente no campo de Trancoso, que tem 8 metros de circumferencia na base e perto de 30 metros de altura.
O freixo tem crescimento muito rapido nos primeiros annos, e grande duração, que vae além de um a dois seculos. Em condições normaes, aos 50 a 70 annos chega ao perfeito desenvolvimento e pode explorar-se com vantagem.
Madeira e casca. - A madeira é branca, ou levemente rosada, untuosa ao tacto, nacarina, sem distincção entre cerne e alburno, com as camadas annuaes muito apparentes. Tem os raios medullares eguaes, muito delgados, e os vasos deseguaes, grupados por laminas visiveis de parenchyma lenhoso, dispostas em linhas, ou arcos esbranquiçados concentricos; os vasos maiores reunem-se na zona de primavera, tornando-a bastante porosa. Esta madeira é dura, muito elastica e muito tenaz; apezar de ser branca, e não ter distincção entre o cerne e o borne, é bastante densa; um exemplar (secco ao ar) da collecção do Instituto tem a densidade 0,862.
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A casca é lisa, acinzentada, nos primeiros tempos; succede-lhe depois, em uma edade já relativamente avançada, um rhytidoma persistente, semelhante ao do carvalho, mais fendido, rugoso, escuro.
Folhagem. - As folhas do freixo são caducas, oppostas, compostas de foliolos imparipinnulados, sesseis e dentados. A folhagem é pouco basta e assombrea pouco o terreno inferior.
Floração e fructificação. - A floração realisa-se em fins de dezembro ou janeiro, muito antes da folheação, que se dá em fins de fevereiro ou março. As flores são nuas, polygamicas, dispostas em cymeiras paniculadas.
O fructo é uma samara foliacea, comprimida, com uma aza muito comprida. A disseminação realisa-se em outubro, novembro, e os fructos são levados pelo vento a grande distancia; algumas vezes a disseminação só tem logar na primavera seguinte, persistindo os fructos presos á arvore durante o inverno.
O freixo produz sementes ferteis desde muito novo, e geralmente fructifica em abundancia todos os annos.
Germinação. - Quando a semente é deitada á terra no outono, umas vezes germina na primavera seguinte, outras vezes só na segunda primavera; semeada em março, germina ás vezes logo em maio, mas, se o chão é secco, só nasce passado um ou dois annos. As plantas novas crescem pouco nos primeiros 4 ou 5 annos, porque toda a actividade da sua vegetação se concentra na raiz, cujo gavião profunda muito; d'essa época por diante adquire grande crescimento annual, até edade adiantada. Na primeira época da vida a sombra das arvores superiores não lhe é malfazeja, antes pelo contrario é efficaz.
Productos e usos. - A madeira do freixo é muito procurada para carroçaria, trem de lavoura, caimbas de rodas, cabos, temões, remos, arcos de pipa, coronhas d'espingarda, para torno, marceneria etc; em poucas palavras, para todas as obras que exijam madeira tenaz e flexivel. Dá boa lenha, e carvão estimado.
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As folhas do freixo são empregadas como forragem; e as cinzas d'esta arvore são bastantes ricas em potassa.
Os choupos, alemos ou fayas ¹
(Especies do genero Populus)
O choupo ordinario, ou negro, ou alemo negro (Populus nigra, L.) e o alemo ordinario, ou branco, ou choupo branco, ou faya branca (Populus alba, L.) são as duas especies, d'este genero, mais vulgares no paiz. Encontram-se, com abundancia, espontaneas ou cultivadas, principalmente nas terras humidas e nas margens dos cursos d'agua; ás vezes estão dispostas nas orlas dos campos cultivados, ou á beira dos caminhos, sobretudo o choupo negro. O choupo tremedor, ou faya preta, ou alemo lybico (Populus tremula, L.) existe nas provincias do norte, mas é menos frequente que as especies anteriores. O choupo d'Italia (Populus pyramidalis, Roz.) e o choupo do Canadá (Populus monilifera, Ait.) cultivam-se hoje, principalmente o primeiro, á beira das estradas e caminhos, e junto á agua. Nenhuma d'estas especies constitue massiço florestal; ou apparecem em alinhamentos, ou isoladas. No nordeste da Europa o choupo tremedor constitue massiços; as outras essencias não os formam em parte nenhuma, nem a sua organisação o tolera.
Clima. - O choupo negro e o choupo branco são arvores espontaneas das regiões médias e meridionaes da Europa; o choupo tremedor sobe mais ao norte, quasi tão alto como o vidoeiro. N'estes factos se pode prender a distribuição d'estas arvores em Portugal; o choupo tremedor é das tres essencias a que não apparece espontanea nas provincias do sul, e a que sobe mais alto nas montanhas; o choupo branco é o que fica a menores altitudes.
¹ Importa muito ter presente que nós chamamos impropriamente fayas a alguns choupos. A verdadeira faya, a Fagus silvatica, L., é arvore muito diversa e não existe espontanea em Portugal; apenas se cultiva, n'um ou outro ponto muito restricto, como curiosidade botanica, tal no Bussaco, etc.
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Solo. - Os choupos preferem as terras fundas, frescas ou humidas, não muito compactas, sobretudo as terras ferteis; são indifferentes á composição mineralogica do solo. São apropriadissimos á beira dos cursos d'agua, onde adquirem grandes dimensões e onde prestam bons serviços na consolidação das terras marginaes.
Radicação. - O systema radicular de todas estas especies é superficial, principalmente o do choupo tremedor, que apenas se compõe de raizes delgadas, muito compridas, d'onde se desenvolvem numerosos rebentões. Os choupos negro e branco apresentam egualmente raizes horisontaes, mas teem algumas outras profundas, sobretudo o primeiro, e por isso elle resiste mais ao vento. De ordinario o choupo branco produz mais rebentões de raiz que o choupo negro. O choupo d'Italia tem radicação um pouco semelhante á do choupo negro.