Curso de Silvicultura

Chapter 24

Chapter 243,648 wordsPublic domain (Wikisource)

As folhas adultas são coriaceas, caducas, mas só no tarde, no principio ou ás vezes no fim do inverno. No outono esta essencia distingue-se bem das outras congeneres mesmo a distancia: o roble e o carvalho negral apresentam-se então despidos, os sobreiros, a azinheira e o carrasqueiro cobertos de folhas verdes, e o carvalho portuguez tem as folhas marcescentes, seccas, mortas, amarellecidas, mas presas ainda ¹.

¹ As folhas do carvalho negral aindanovo tambem ás vezes persistem um pouco de inverno, já seccas e amarellas.

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A copa d'esta essencia bastante ramosa e muito folhuda produz coberto forte.

Temperamento. - O carvalho portuguez é uma arvore robusta, que, como todos os carvalhos, para se desenvolver bem, pede insolação directa. No emtanto a sombra das arvores superiores não o prejudica tanto como aos sobreiros e azinheira.

Galhas. - São muito frequentes e abundantes as galhas sobre estes carvalhos; as fórmas mais communs são a globosa e a coroada. A maior parte dos auctores consideram o Q. lusitanica synonymo do Q. infectoria, Oliv., que produz as galhas d'Alepo, tão empregadas no commercio. Que esta synonymia seja ou não exacta, as galhas que temos visto do carvalho portuguez differençam-se bastante das galhas d'Alepo; as ultimas são mais pesadas e mais esbranquiçadas internamente. De resto é muito facil admittir estas differenças, admittida mesmo a egualdade dos dois carvalhos productores.

As galhas d'Alepo são muito ricas em tannino, chegam a conter 70%, e tambem se lhes encontra o acido galhico (10 a 18%). N'uns estudos que fizemos no laboratorio do Instituto, com as galhas do carvalho portuguez, apenas lhes encontramos quantidades minimas de tannino, e o acido galhico existente tambem não era em excesso; muito provavelmente isto foi motivado pelas más condições em que ellas estavam, porque em Hespanha o sr. D. Carlos Castel determinou nas galhas d'este carvalho 43,22% de tannino.

Floração e fructificação. - A floração realisa-se em março, abril, e ás vezes maio.

Os fructos são ordinariamente sesseis (já encontrámos uma fórma pedunculada), solitarios ou geminados, ovados ou oblongos, apiculados, de tamanho diverso. A cupula tem as escamas apertadas, cotanilhosas, gibosas no dorso.

A maturação é annual; dá-se em setembro, outubro. O carvalho portuguez, o que de resto é commum, mais ou menos, a quasi todos os carvalhos, só produz abundantemente em periodos de certo numero de annos.

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Os fructos são adstringentes.

Germinação. - A germinação realisa-se pouco tempo depois da queda natural dos fructos, no outono. As plantas novas são desde logo muito robustas.

Productos e usos. - A madeira d'esta essencia é muito estimada e serve com vantagem nas construcções civis e navaes, para o que dá boas curvas. Empregam-a um pouco no fabrico de aduella, mas tem de ser aberta á serra, porque não offerece boa fenda. Fornece boa lenha e carvão.

A casca é bastante tanninosa e utilisa-se para curtumes. As galhas, colhidas em boas condições, podem usar-se em tinturaria, ou para curtimentas, mas para este ultimo fim teriam o inconveniente de serem muito leves, o que obrigaria a empregar grandes volumes, e o inconveniente de cederem promptamente o tannino, o que leva a preferir-lhes as cascas e entrecascas tanninosas.

O fructo pode servir para a ceva dos porcos.

O carvalho roble, carvalho commum ou alvarinho

(Quercus pedunculata, Ehrh.: Quercus Robur α L.: Quercus racemosa, Lam. e Brot.)

Encontra-se o roble, em Portugal, sobretudo na região mais baixa do paiz de entre Douro e Minho; a extrema divisão da propriedade n'esta provincia, trazendo comsigo o grande aproveitamento da terra pela cultura, é incompativel com a conservação d'extensos massiços florestaes, por isso o roble existe ahi formando moitas nas encostas das montanhas, ou grupado em pequeno numero de individuos, ou plantado nas margens dos campos, servindo quasi sempre de apoio ás videiras altas, que tornam tão caracteristico o aspecto d'esta rica e bella região. Na Beira, nem muito para o littoral nem muito para o interior, ainda esta essencia representa papel consideravel na arborisação, em partes misturada com o cerquinho, em partes preponderante. No Alto Alemtejo, na serra de Portalegre, tambem se encontra, posto que muito menos frequente.

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Clima. - O roble occupa na Europa, uma grande área que se eleva até á Noruega, a 63°. Entre nós procura os pontos de maior humidade atmospherica, na região norte, as exposições cismontanas, as planicies e os valles. De ordinario não sóbe muito alto nas montanhas, ou pelo menos só ahi apparece disseminado.

Solo. - Prefere os terrenos ricos, profundos, frescos ou mesmo humidos, o que está em harmonia com a textura herbacea das suas folhas; vae admiravelmente nos valles ferteis do Minho; parece indifferente á natureza mineralogica do terreno, quando aquellas condições se achem realisadas. Nos solos seccos e superficiaes, ou nas ladeiras muito inclinadas, fica sempre enfezado; em contraposição nas margens dos cursos d'agua, nas depressões do terreno onde a humidade se junta, mas sem formar pantano, adquire magnifica vegetação.

Radicação. - O roble tem sempre enraizamento vigorosamente desenvolvido. Nos solos fundos e leves a raiz mestra conserva-se muitos annos, crescendo sempre, muito pouco ramificada nos primeiros tempos, e ao depois acompanhada de muitas raizes lateraes. Nos solos compactos, ou muito humidos, a raiz mestra deixa de se desenvolver cedo, mas as raizes lateraes são grossas e potentes.

Rebenta bem de touça e até edade avançada; essa rebentação é principalmente devida aos numerosos olhos dormentes que esta essencia apresenta.

Porte, crescimento e duração. - O roble chega, entre nós, a grandes proporções em altura e grossura. Tem porte caracteristico: apresenta, em adulto, um fuste mais ou menos regular, e uma grande copa, quando cresce isolado, constituida sobre poucas arrancas muito grossas, d'onde se originam ramos e raminhos curtos, tortuosos, terminados em rebentos pouco desenvolvidos, cuja folhagem se agglomera nas extremidades, em virtude do aborto frequente de muitos botões, e do pequeno crescimento dos entre-nós nos eixos novos. Este phenomeno é geral, mais ou menos accentuadamente, a todos os carvalhos; todos elles são essencias robustas, que pedem a acção directa do sol; em todos se desenvolvem com mais vigor os botões da extremidade, melhor esclarecidos, ficando os da base, muitas vezes, dormentes; mas no roble acontece isto em mais alto grau.

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O crescimento d'esta arvore não é demorado, mas é menos rapido que o do cerquinho. Pode adquirir grande duração.

Madeira e casca. - A madeira do roble tem cerne e borne muito bem delimitados, o primeiro acastanhado, puxando a avermelhado, e o segundo branco; tem crescimentos annuaes muito apparentes, bem mais do que a madeira do cerquinho, por serem maiores e mais numerosos os vasos da zona de outono. Como todos os carvalhos, tem os raios medullares deseguaes, largos e bastante numerosos. É madeira dura, pesada, resistente, mas cujas qualidades variam muito com as condições em que foi produzida. Geralmente a sua densidade é menor que a do cerquinho; dois exemplares (seccos ao ar) da collecção do Instituto deram-nos as densidades 0,606 e 0,697, mas devem existir lenhos bastante mais densos.

A casca é lisa, brilhante, cinzento-prateada, delgada até aos 20 ou 30 annos; até essa época é formada pelo liber, pelo parenchyma cortical e por um involucro externo suberoso. D'ahi por diante transforma-se n'um rhytidoma escuro, com fendas largas longitudinaes, produzido pelo desenvolvimento de uma assentada de cortiça atravez as camadas do liber, que provoca a morte de todos os tecidos mais externos.

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Os raminhos novos são glabros.

Folhagem. - As folhas do roble são caducas logo no fim do outono, verde-claras, herbaceas, glabras d'ambos os lados, baças ou muito pouco lustrosas na pagina superior, levemente glaucas na pagina inferior, quasi sesseis ou com pedunculos muito curtos, obovado-oblongas, com o maior diametro transversal a 2/3 do comprimento, adelgaçando gradualmente até á base, pouco symetricas, quasi auriculadas na base, sinuadas ou pinnatilobadas, com 4-5 lobulos inteiros, muticos, irregulares, obtusos, umas vezes onduladas, menos vezes planas.

A disposição da folhagem, a que nos referimos já, agglomerada em tufos, deixando grandes vazios, assombrêa pouco o terreno inferior, dá pequeno coberto.

Floração e fructificação. - O roble floresce de abril a maio, e fructifica de setembro a outubro. A maturação é annual. As flores teem a mesma disposição que as dos outros carvalhos.

Os fructos são de fórma variavel, mas, habitualmente, ovoides ou oblongos, lustrosos, inseridos 1-5 sobre um eixo delgado, comprido, quasi sempre pendente. A cupula tem as escamas planas, triangulares, pouco numerosas, glabras ou levemente cotanilhosas, encostadas.

O fructo, pesado e sem apparelho de disseminação, como o de todos os carvalhos, pouco se afasta na queda da arvore-mãe.

De ordinario o roble fructifica em uma edade bastante adiantada, que depende muito da arvore provir de semente ou de rebentão de touça, de crescer isolada ou em massiço, da qualidade do terreno, etc. Geralmente a fructificação não se realisa regularmente todos os annos, mas em periodos de abundancia e de escassez quasi absoluta. Os fructos são adstringentes.

Germinação. - A germinação dos fructos do roble é rapida, e a sua conservação difficil, mesmo até á primavera seguinte. As arvores novas são robustas logo desde o principio, e pedem, desde logo, a insolação directa.

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Productos e usos. - A madeira é muito estimada para construcção e variadissimos usos; em alguns casos dá boa fenda e serve para optimo vasilhame. Fornece lenha e carvão de muita boa qualidade.

A casca, apezar de menos tanninosa de que a da azinheira e a do cerquinho, pode empregar-se com vantagem em curtumes, e o fructo, embora menos nutritivo do que a bolota e a lande, utilisa-se na ceva dos porcos.

No Minho esta arvore, emquanto viva, tem ainda, muitas vezes, uma outra utilidade: serve de supporte ás uveiras, que entrelaçam os pampanos pelas altas ramagens da sua copa.

O carvalho negral ou carvalho pardo da Beira

(Quercus Tozza, Bosc.: Quercus pubescens, Brot.)

O carvalho negral é o carvalho das montanhas na zona interior do paiz. Predomina em Traz-os-Montes e na parte limitrophe, e mais accidentada, da provincia do Minho, bem como em toda a Beira serrana seguindo, pelas montanhas, até Portalegre. A sua organisação apropria-o admiravelmente a este habitat. Encontra-se em moitas mais ou menos enredadas e altas, conforme a pujança do solo; encontra-se explorado em talhadios, e, menos vezes, apparece com o porte arboreo, disseminado ou em pequenos massiços, só ou misturado com outras essencias.

Clima. - Assim como os sobreiros e a azinheira são proprios á zona portugueza de maior calor e seccura, assim como o cerquinho é proprio á zona temperada, e o roble aos valles e planicies da região mais humida, assim o carvalho negral é, entre nós, a essencia das montanhas, onde sobe a mais de 1:000 metros sobre o mar. Menos exigente do que o roble resiste nas exposições transmontanas e nas altitudes elevadas onde elle perde a importancia.

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Solo. - Prefere os solos leves e pouco frescos, mas a sua radicação muito especial permitte-lhe viver nas ladeiras alcantiladas, sobre os terrenos áridos, onde os outros carvalhos não se podiam sustentar. As terras baixas, humidas, argillosas, onde prospera o roble não lhe convém nada. Em Portugal encontra-se quasi sempre sobre schistos ou granitos, que são as formações principaes da zona interior montanhosa, mas é tido como indifferente á composição mineralogica do solo.

Radicação. - O systema radicular do carvalho negral é composto de uma raiz mestra, maior ou menor, segundo a fundura da terra, e de raizes lateraes muito compridas, que bracejam quasi horisontalmente ao longe, originando, em diversos pontos, rebentões numerosos. Esta fórma de radicação permitte-lhe segurar-se com vigor nas ladeiras onde a terra é pouca, e facilita-lhe a alimentação, alargando-lhe a área lateralmente explorada pelas radiculas. Por outro lado esse enraizamento é apropriadissimo para segurar a terra nas encostas, impedindo o desnudamento. Todas estas razões tornam o carvalho negral uma essencia preciosa para a arborisação de muitos pontos do paiz.

As touças rebentam com vigor extraordinario; esta qualidade, junta á que teem as raizes de originar rebentões, apropria muito o carvalho negral para a exploração em talhadio, cuja regeneração é, para assim dizer, illimitada.

Porte, crescimento e duração. - O porte d'esta arvore é, de ordinario, inferior ao do roble, o que talvez dependa, em parte, das peiores condições em que vegeta. Apresenta-se muitas vezes tortuoso, contorcido, e fórma, em muitos sitios, moitas arbustivas ou arborescentes. Em melhores terrenos é uma arvore de grandeza mediocre, com a copa grande, irregular, quasi sempre originada a menor altura do tronco do que no roble e cerquinho.

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Tem crescimento demorado e attinge grande duração: seculos de existencia.

Madeira e casca. - A madeira d'esta arvore tem qualidades menos apreciaveis que a do roble, mas aproxima-se-lhe na estructura: tem o alburno maior, e nem sempre nitidamente limitado; é de ordinario mais porosa, pelo maior desenvolvimento da zona de primavera, e tem os raios medullares mais largos e mais numerosos. É muito sujeita a contorcer-se, a empenar e a abrir.

A casca pouco tempo se conserva lisa e viva até á superficie. Apparece em breve um rhytidoma profundo, escuro, quasi negro, escavado em grandes sulcos.

Os raminhos novos são pubescentes.

Folhagem. - As folhas do carvalho negral são pecioladas, obovado-oblongas, sinuado-lobadas ou irregularmente pinnatifendidas, com os lobulos inteiros; são, de ordinario, maiores e mais recortadas que as dos outros carvalhos indigenas. Em adultas são verde-escuras na pagina superior, com alguns pellos estrellados, e na pagina inferior esbranquiçadas ou amarelladas, muito avelludadas; em novas apresentam-se, assim como os raminhos, vestidas de pellos avelludados, macios e densos.

Estas folhas são caducas. O coberto do carvalho negral é fraco, não só por causa dos profundos recortes das folhas, como por ellas não serem muito abundantes, nem a ramificação apertada.

Floração e fructificação. - A floração, monoica e amentacea como a de todos os carvalhos, realisa-se em maio. A maturação é annual; os fructos caem em setembro e outubro.

Os fructos teem fórmas variadas; são cylindrico-oblongos, ovoides ou sub-globosos; ás vezes encontram-se quasi sesseis, mas, de ordinario, agglomeram-se dois a quatro sobre um pedunculo recto, levantado, grosso, curto. A cupula é acinzentada, cotanilhosa, com as escamas aguçadas, frouxamente imbricadas.

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Os fructos são adstringentes.

Germinação. - A germinação não é demorada. As plantas novas são desde logo robustas e dispensam a sombra e abrigo superior.

Productos e usos. - A madeira é das menos estimadas d'este genero. No emtanto, em Portugal, nas provincias do norte, é bastante empregada, e com vantagem, em muitos usos, tal como para madeiramentos de casas, peças de moinhos e azenhas (e resiste muito nas peças que teem de trabalhar debaixo de agua), instrumentos de lavoura, etc.

Esta madeira dá optima lenha, melhor que a do roble, e para carvoaria é tambem mais estimada.

A casca é tida como superior, para curtumes, á do roble. Os fructos são empregados em alguns pontos da Beira para a engorda dos porcos; são reputados menos nutritivos que os fructos dos outros carvalhos, mas são tão abundantes que algumas arvores chegam a produzir 40 a 50 alqueires.

O castanheiro

(Castanea vulgaris, Lam.: Fagus castanea, L. e Brot.)

O castanheiro encontra-se em Portugal, com mais ou menos abundancia, em toda a grande zona schisto-granitica. Prepondera em Traz-os-Montes, na Beira serrana, nos arredores de Portalegre, e na mancha granitica que corôa a serra de Monchique. Encontra-se em massiços cortados em talhadio (soutos), ou é explorado pelo fructo, em alto fuste, mas então quasi sempre isolado, ou em pequenos grupos. No norte acompanha muitas vezes o carvalho negral, e acompanha-o nas montanhas, mas sem subir tão alto como elle. Na região d'entre Douro e Minho acompanhava, de ordinario, o roble, mas a doença, que se manifestou nos ultimos tempos, tem-o reduzido muito n'essa provincia.

Clima. - O castanheiro provavelmente poderia viver em quasi todo o paiz, se não fosse a sua tendencia calcifuga, que o afasta dos terrenos calcareos. Prefere as regiões accidentadas, chegando a subir nas montanhas a mais de 1:000 metros de altitude. Entre nós encontra-se nas exposições trans e cismontanas.

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Solo. - As terras profundas, frescas, leves, graniticas ou schistosas são as que mais lhe convém; mas pode viver, embora mais acanhado, nas terras seccas. Nos solos humidos cresce muito alto e muito viçoso, mas a madeira fica-lhe de má qualidade, e a arvore é muito atreita a tornar-se ôca no tronco. Os terrenos argillosos, muito compactos, são-lhe nocivos, e sobre os calcareos, como já dissemos, torna-se-lhe a vida impossivel, logo que a cal exceda 4 por cento.

Radicação. - O castanheiro resiste perfeitamente ao vento; tem systema radicular muito forte. A raiz mestra é grossa e comprida, mas menor que a dos carvalhos; as raizes lateraes são numerosas e robustas, com tendencia a profundarem.

Rebenta optimamente de touça; fórma rebentões em grande quantidade, muito vigorosos e dotados de crescimento rapido. É por isso vantajosa a exploração do castanheiro em talhadio.

Porte, crescimento e duração. - Quando vegeta isolado apresenta pequeno fuste e a copa extraordinariamente larga, assente em pernadas muito desenvolvidas e muito ramificadas. Em massiço adquire bastante altura. É vulgar em Portugal a existencia de castanheiros com grandes dimensões: com 6 e 7 metros de circumferencia na base, por 30 metros de elevação. O maior castanheiro que temos visto foi em Lamego, proximo á ermida da Senhora dos Remedios; mede 9m,6 de circumferencia. Este castanheiro tem o tronco muito curto, dividido em grossas pernadas levantadas, e a sua altura não é consideravel.

Tem crescimento rapido, muito mais rapido que os carvalhos, principalmente até aos 50 ou 60 annos. Tem grande duração, mas de certa edade por diante é sujeito a tornar-se ôco no centro, continuando a viver ainda muito tempo.

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Madeira e casca. - A madeira do castanheiro, ou castanho por abreviatura, é parecida com a do carvalho, mas distingue-se d'ella perfeitamente, sem que possa haver a menor confusão, porque tem os raios medullares muito delgados, muito pouco apparentes, emquanto nos carvalhos são deseguaes, muito grossos, muito visiveis. Tem as camadas annuaes bem delimitadas e o borne esbranquiçado, distincto do cerne, e de ordinario em menor percentagem que o dos carvalhos. Esta madeira dá boa fenda, e as suas qualidades dependem bastante das condições em que foi creada. Geralmente é menos densa que a do carvalho, mas esta densidade varia muito; em tres exemplares da collecção do Instituto determinámos as densidades 0,534, 0,587 e 0,701; n'estes limites devem, com aproximação, comprehender-se os limites de densidade apresentados pela madeira d'esta essencia no paiz.

A casca nas arvores novas e nos raminhos é escura, pontuada com lenticulas alongadas, que, com a edade, se estendem cada vez mais para os lados. Depois torna-se cinzento-prateada, como a do roble em novo, e assim persiste até aos 15 ou 20 annos. D'esta edade por diante é substituida por um rhytidoma persistente, espesso, escuro, muito gretado na vertical, semelhante ao dos carvalhos, e egualmente devido ao desenvolvimento de uma lamina suberosa isoladora atravez as camadas do liber.

Folhagem. - As folhas do castanheiro são pecioladas, oblongo-lanceoladas, compridas (com 0,m2 de comprimento, proximamente), rigidas, glabras nas duas paginas, de côr verde mais intensa na pagina superior, com dentes fundos, numerosos, que correspondem a outras tantas nervuras (15 a 20 de cada lado). Estas folhas são caducas, mas conservam-se algum tempo marcescentes nas arvores, sobretudo nos talhadios.

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A folhagem é abundante, e as folhas pouco recortadas, grandes e inseridas quasi horisontalmente, tornam bastante espesso o coberto d'esta arvore.

Temperamento. - O castanheiro não exige tanta luz como os carvalhos, o que está em harmonia com a maior espessura da sua folhagem; pode por isso constituir massiços mais apertados.

Floração e fructificação. - As flores masculinas d'esta essencia estão dispostas em amentilhos compridos, cylindricos, delgados, interrompidos, levantados, que se desenvolvem na axilla das folhas inferiores dos rebentos: as flores femininas reunem-se 1 a 5 dentro de um involucro de bracteas accrescente, e encontram-se situadas quasi sempre na base dos amentilhos masculinos.

A floração dá-se em maio, junho, quando a arvore já está vestida de folhas desenvolvidas. A maturação realisa-se em outubro, novembro.

Os fructos (castanhas) são achenios com o pericarpo delgado, secco, lustroso externamente, providos na base de uma grande cicatriz; a semente apresenta amendoa muito volumosa, comestivel, com as cotyledones muito grossas, amylaceas. Os fructos estão incluidos 1 a 5 n'um involucro quasi lenhoso, que tem o aspecto de pericarpo, dehiscente em 4 valvulas, externamente coberto de espinhos rigidos, agudos, fasciculados, divergentes; este involucro tem o nome vulgar de ouriço, e é formado pela reunião das bracteas accrescentes.

Os fructos caem naturalmente pela dehiscencia dos ouriços, e como são muito pesados pouco se afastam, ou nada, da arvore que os produziu.

O castanheiro entra muito novo em fructificação e, de ordinario, é abundante em fructos.

Germinação. - A castanha conserva-se pouco tempo apta para a germinação. A germinação dá-se com facilidade; a vegetação das plantas novas é rapida desde os primeiros annos e não lhe é tão nocivo, como aos carvalhos, o coberto das arvores superiores.

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Productos e usos. - O castanheiro é explorado entre nós para a producção de madeira ou de fructo.

A exploração mais regular da madeira realisa-se em talhadios; os productos d'estes talhadios variam com a edade da revolução: em muito novos dão madeira para arcos, flexivel, que se dobra com facilidade; mais adultos produzem varas muito direitas e compridas, empregadas com vantagem na construcção civil, e n'um grande numero de usos. A madeira de maiores dimensões é muito estimada para os mais variados serviços: para taboame, para marcenaria, para tanoaria (e dá boa fenda no fabrico de aduellas), etc. Não existe em Portugal a exploração desenvolvida d'esta arvore em massiços d'alto fuste para a producção de madeira; as maiores peças de castanho, ordinariamente, são tiradas das arvores isoladas, ou de uma ou outra reserva ¹, que deixam nos talhadios, mas decerto essa exploração seria muito vantajosa.

A lenha do castanheiro é menos estimada que a do carvalho, e o carvão, que produz, é de qualidade mediocre.

A exploração d'esta essencia para fructo realisa-se quasi sempre em arvores isoladas ou reunidas em pequenos grupos. A castanha é largamente empregada no paiz na alimentação do homem e dos animaes. Segundo as tabellas de Wolff a composição da castanha fresca é a seguinte:

¹ Denomina-se reserva, como veremos na Cultura florestal, a arvore que fica depois do córte das outras em volta; assim se diz reserva de uma, duas, tres revoluções, a que ficou depois de passado um, dois, tres córtes das arvores em redor.

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Humidade . . . 49,2

Cinzas . . . 1,4

Lenhoso . . . 2,9

Materias gordas . . . 1,4

Materias azotadas . . . 6,4

Extractivo ternario (analogos do amido, etc.) . . . 38,7

100,0