Chapter 23
O crescimento do sobreiro não é muito demorado, principalmente até certa edade; ao sobreiro novo chamam na região d'Alemtejo chaparro, e ao sobreiro velho, de grandes dimensões, mudam-lhe o sexo e denominam-o sobreira.
Existem em Portugal sobreiras colossaes, sobretudo pela grossura, que a altura poucas vezes excede 18 a 20 metros; é frequente encontrar algumas com 6 metros de circumferencia, e em mais raros casos com 8 e 9 metros. O sr. Carlos de Sousa Pimentel, n'um artigo publicado no Jornal Official de Agricultura, refere-se a uma sobreira, abatida no concelho de Palmella, com 12 metros de circumferencia.
O sobreiro tem grande duração; vive um, dois seculos e mais.
Madeira e casca. - A madeira do sobreiro (Quercus suber) tem o cerne acastanhado, mais ou menos escuro, ás vezes puxando a avermelhado, mal delimitado do alburno. Os crescimentos annuaes, sem serem muito apparentes, lêem-se perfeitamente; os vasos não desenham, é certo, uma zona porosa bem nitida, mas reunem-se em maior numero, e teem mais largo calibre, no bordo interno de cada formação annual. Os raios medullares são muito deseguaes, numerosos, largos e altos. Esta madeira é bastante compacta. Um exemplar (secco ao ar) da collecção do Instituto, proveniente da região norte, tem a densidade 0,810, mas encontra-se no paiz sobro mais denso.
¹ Durante a impressão d'este nosso trabalho tivemos conhecimento de um curioso artigo, publicado pelo sr. visconde de Coruche, na Agricultura Contemporanea (n.º 6, de 16 de julho), a este proposito. Esse artigo diz que os fructos do sobreiro de ramos pendentes reproduziram esta mesma fórma, pela sementeira n'outro chão, o que parece indicar, se o facto se verifica, se existe a fixidez hereditaria bem provada, que o sobreiro de ramos pendentes deve ser tomado como uma variedade, enão como uma fórma do Quercus suber.
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Sob o tegumento cortical dos sobreiros, exclusivamente suberoso, o parenchyma cortical e o liber persistem vivos até á morte da arvore, mas pouco desenvolvidos, porque toda a actividade geradora da região cortical se concentra na formação mais externa. A cortiça, como dissemos já, é originada sob as cellulas epidermicas, pelas primeiras camadas do tecido subjacente, e engrossa constantemente pela bipartição das cellulas geradoras; das novas cellulas a mais externa morre e se suberifica, e o conjunto das mais internas, vivas e capazes de novas bipartições, constitue a assentada geratriz, ou mãe da cortiça. A cortiça só apparece nos eixos aereos, e quando já teem um ou dois annos.
Ao descortiçar as arvores ha sempre todo o cuidado em não offender a assentada geratriz; a superficie d'esta camada posta a nu sécca, tomando primeiro a côr vermelho-amarellada e depois vermelho-escura, muito caracteristica; é sob a protecção da parte morta que se regenera inferiormente o novo involucro suberoso, á custa da porção viva do tecido gerador.
A cortiça pode extrahir-se em periodos successivos, muito numerosos, á mesma arvore, e outras tantas vezes se regenera. A cortiça da primeira tirada é sempre muito inferior, pouco homogenea, cheia de grandes fendas, e denomina-se cortiça virgem, ou cortiça macha.
Folhagem. - Os sobreiros são arvores sempre-verdes. As folhas do Quercus suber persistem, em condições normaes, dois a tres annos; todavia na região d'Alemtejo caem muitas vezes com pouco mais de um anno, sob a influencia da grande insolação e seccura. As folhas do Quercus occidentalis duram apenas um anno, mesmo em condições normaes, mas despegam-se depois de já desenvolvidas as folhas novas, e por isso a arvore encontra-se vestida sempre. Em ambos os sobreiros as folhas são coriaceas, ovado-oblongas, quasi sempre dentadas, com os dentes espinescentes, glabras e um pouco lustrosas na pagina superior, brancas e cotanilhosas na pagina inferior. A folhagem de uma e outra d'estas arvores dá pequeno coberto.
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Temperamento. - Não existem em Portugal observações culturaes que individualisem o temperamento dos dois sobreiros, confundidos sempre ambos. Os auctores francezes apontam, a este proposito, differenças pronunciadas entre um e outro; segundo elles, o Quercus occidentalis é mais proprio dos climas temperados, e o Quercus suber dos climas quentes; o primeiro é de temperamento menos robusto que o segundo, e soffre melhor a sombra das outras arvores, principalmente em novo, desenvolvendo-se bem em massiço com o pinheiro bravo.
Floração e fructificação. - A floração dos sobreiros, como a de todos os carvalhos (genero Quercus), é monoica; as flores masculinas dispõem-se em amentilhos interrompidos, pendentes, e as flores femininas são solitarias e cercadas de um involucro de bracteas estereis; estas inflorescencias femininas reunem-se ás vezes, pouco numerosas, sobre um eixo curto. Nos dois sobreiros as flores femininas estão inseridas no rebento annual.
O Quercus suber entra muito novo em fructificação; dos 10 aos 15 annos já dá algum fructo, mas só mais tarde, dos 25 aos 30 annos, tem fructificação abundante. Floresce de março a abril. O Quercus occidentalis floresce um pouco mais tarde.
O Quercus suber tem maturação annual; os seus fructos maduros encontram-se implantados no rebento vestido de folhas, muito embora apparentem ás vezes de biennaes, quando a arvore fórma dois rebentos n'um só anno. Esta essencia apresenta, de ordinario, tres camadas de fructos: a primeira cae em setembro, e chamam-lhe no Alemtejo bastão; a segunda cae em novembro, e dão-lhe o nome de lande, propriamente, ou do tempo; a terceira vem em dezembro e janeiro, e chamam-lhe landisco, ou lande serodia. A quantidade da lande está em razão inversa com a do bastão; o landisco é muito contingente, por causa dos frios e geadas do fim do anno.
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O Quercus occidentalis tem maturação biennal; os fructos desenvolvem-se muito pouco no primeiro anno, e só no segundo se completam e amadurecem; encontram-se então implantados no raminho sem folhas do anno anterior.
O fructo dos sobreiros (lande) é um achenio; o pericarpo secco, delgado, coriaceo, envolve uma semente volumosa. Geralmente a lande apresenta-se solitaria, ou geminada, inserida n'um pedunculo axillar, curto, grosso, esbranquiçado, cotanilhoso; quasi sempre é grande, ovoide ou ellipsoide, terminada n'uma pequena saliencia central, e está meio incluida n'uma cupula lenhosa. No Quercus suber a cupula tem as escamas salientes, maiores a partir da base, e terminadas em appendices molles, frageis, compridos, levantados ou um pouco abertos para os lados. No Quercus occidentalis as escamas da cupula são pequenas e encostadas umas contra as outras.
Estes fructos são pesados, e como os de todos os carvalhos pouco se afastam na queda da arvore que os produziu.
Germinação. - A lande, caída naturalmente no outono, germina de ordinario no mesmo outono; semeada na primavera nasce passadas quatro ou cinco semanas. As plantas novas do Quercus suber são robustas e supportam bem, sem abrigo, a acção do sol e do ar; já dissemos que esta arvore precisa de luz directa e não soffre a sombra das outras arvores. O Quercus occidentalis, pelo menos nos climas menos quentes em que tem sido observado no estrangeiro, tem outras exigencias, como vimos.
Productos e usos. - Os sobreiros são arvores de alto fuste em Portugal, porque os seus productos principaes são a cortiça e os fructos; n'uma situação economica em que a entrecasca tanninosa fosse o producto principal, conviria antes exploral-os em talhadio.
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O rendimento d'estas arvores é importantissimo no paiz.
A cortiça, nos ultimos tempos, tem adquirido grande valor. É tirada em periodos de 5 a 10 annos. O valor depende muito das suas qualidades - finura, elasticidade, homogeneidade, etc.; em regra, é tanto melhor quanto menor o crescimento, isto é, quanto menos rico o terreno.
A cortiça dos dois sobreiros passa por ser identica. Não conhecemos nenhuns estudos, nem mesmo no estrangeiro, ácerca da sua formação n'uma e outra essencia, todavia parece-nos isso bem digno de interesse. Evidentemente os dois sobreiros teem uma organisação e um modo de vida muito differentes: a persistencia das folhas dois annos ou um anno só, a maturação dos fructos annual ou biennal, deve influir em todas as formações da arvore. Admittida a egualdade da cortiça das duas arvores parece-nos muito util verificar qual das duas fórma annualmente maior camada suberosa.
As landes são adstringentes, mas empregam-se muito na ceva dos porcos. Em landes frescas, não descascadas, produzidas no Ribatejo, verificámos a seguinte composição, pela analyse chimica, no laboratorio do Instituto:
Humidade . . . 38,50
Cinzas . . . 0,75
Lenhoso bruto . . . 5,56
Materias gordas . . . 2,07
Materias azotadas . . . 3,10
Extractivo ternario (analogos do amido, glucose, tannino, etc.) . . . 50,02
100,00
A madeira do sobreiro não é muito estimada; tem muito peso, apodrece facilmente exposta ás alternativas de seccura e humidade, é muito atreita a gretar e a contorcer-se, a empenar. Empregam-a bastante para o fabrico de peças que teem de soffrer grandes attritos, roldanas, cavilhas, peças de machinas, etc.; usam-a muito na construcção de instrumentos de lavoura. Para construcção naval tem grandes defeitos, mas já foi empregada em larga escala.
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O sobro dá lenhas de muito boa qualidade, e carvão tido em grande apreço.
A parte viva da casca, ou entrecasca, é muito rica em tannino e optima para curtumes; segundo os dados fornecidos pelo sr. Mathieu, na sua Flore Forestière, a quantidade de tannino d'esta entrecasca está, em média, para o tannino da casca do roble como 1,62:1. No emtanto esta exploração é relativamente restricta entre nós, porque é preciso sacrificar a arvore para lhe extrahir a entrecasca, e não ha n'isso vantagem nenhuma emquanto ella pode produzir cortiça e fructos. Em casos normaes a entrecasca só se aproveita nas sobreiras abatidas por decrepitude.
A azinheira
(Quercus Ilex, L., Q. rotundifolia, Lam. e Q. Ballota, Desf.)
A azinheira encontra-se desde o Algarve até Traz-os-Montes, em quasi todo o paiz, mas é na região sul, sobretudo no Alto Alemtejo, onde fórma arvoredos mais extensos, só ou em companhia do sobreiro; nas provincias do norte existe disseminada em pequenos grupos. Na região sul a azinheira e o sobreiro são as arvores mais importantes, e que especialmente predominam no revestimento florestal.
Clima. - A azinheira pede temperatura elevada; resiste bem aos maiores ardores do sol, mesmo nas provincias mais quentes e mais seccas. É essencia peculiar á zona mediterranea, de cujo clima é decerto um dos genuinos representantes. Nas planicies e outeiros pouco elevados é onde vegeta com mais robustez e viço.
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Solo. - É pouco exigente nas condições do terreno; prefere os solos leves e soltos, quer sejam siliciosos ou calcareos, mas contenta-se até com os mais áridos. É claro, no emtanto, que nas terras muito pobres fica sempre de porte mais acanhado. Nos terrenos muito humidos vegeta mal, e nos encharcadiços não pode viver.
Radicação. - O systema radicular da azinheira é forte e desenvolvido. Tem raiz mestra comprida e grossa, e muitas raizes lateraes. A fundura do solo modifica todavia bastante a fórma da radicação; nas terras superficiaes a raiz mestra pouco pode desenvolver-se e os braços lateraes tomam grande comprimento.
Esta essencia rebenta bem de touça, com muito vigor, até edade avançada, e tambem dá rebentões de raiz.
Porte, crescimento e duração. - A azinheira é uma árvore de razoavel altura (raras vezes excede 18 a 20 metros), com o tronco direito ou levemente contorcido, quasi sempre ramificado a pequena elevação; tem arrancas vigorosas e copa arredondada. No emtanto este porte é muito modificado nos solos fracos e nos climas pouco propicios, onde é vulgar encontrar a azinheira constituindo moitas arbustivas ou arborescentes.
A azinheira tem crescimento lento, e pode chegar, em condições favoraveis, a grande duração; 2 seculos, e mais.
Madeira e casca. - A madeira d'esta arvore é muito facil de differençar das madeiras dos outros carvalhos (genero Quercus), porque tem os crescimentos annuaes muito pouco distinctos, ou mesmo confundidos de todo; este caracter só pertence tambem ao lenho do carrasqueiro, que de ordinario se distingue facilmente da azinheira pelas maiores dimensões d'esta ultima. Os raios medullares na madeira do azinho são muito grossos, muito numerosos, e muito deseguaes. Existe cerne e alburno, mas esbatidos um para o outro, e não delimitados nitidamente; o cerne é avermelhado, puxando a cor de castanha. Esta madeira é durissima, muito compacta e homogenea; dois exemplares seccos ao ar, da collecção do Instituto, deram-nos as densidades 0,863 e 0,922.
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A casca da azinheira adulta é um rhytidoma escuro, rugoso, com muitas fendas longitudinaes estreitas e pouco fundas. Os rebentos e os raminhos são cotanilhosos, mais ou menos esbranquiçados.
Folhagem. - As folhas da azinheira são muito polymorphas; não só variam bastante de arvore para arvore, como variam na mesma arvore com a edade, e até, muitas vezes, simultaneamente, de uns ramos para outros. Teem o contorno elliptico, ovado ou orbicular (Q. rotundifolia, Lam.); são ponteagudas ou obtusas, planas ou onduladas nas margens, inteiras (principalmente nas arvores de mais edade), ou dentado-espinhosas (sobretudo nas arvores e ramos novos). São coriaceas; na pagina superior verdes, glabras e mais ou menos lustrosas, e na pagina inferior esbranquiçadas, cotanilhosas. As suas dimensões variam egualmente muito.
A azinheira da bolota doce (Q. Ballota, Desf.) tem as folhas ordinariamente mais compridas, mais inteiras, e mais esbranquiçadas na pagina inferior.
A azinheira é uma arvore sempre-verde; em condições normaes as folhas persistem dois annos, e caem no principio do terceiro anno. A folhagem é bastante espessa e produz coberto intenso.
Floração e fructificação. - As flores d'esta arvore affectam as disposições que teem em todos os carvalhos. A floração realisa-se em fins de março; é um pouco mais tardia, na mesma localidade, que a do sobreiro.
A azinheira entra muito nova em fructo, e produz em abundancia até edade avançada; aos 8 ou 10 annos já dá alguns fructos, mas só aos 20 ou 25 annos fructifica regularmente.
Os fructos (bolotas) teem maturação annual; amadurecem em setembro e outubro do mesmo anno em que se deu a floração. Encontram-se solitarios ou geminados, sesseis ou inseridos sobre pedunculos muito curtos e grossos, pardo-cotanilhosos; estão collocados, é claro, no rebento vestido de folhas. A fórma e as dimensões d'estes fructos variam muito: são mais ou menos oblongo-cylindricos, mais ou menos globosos, terminados sempre n'uma saliencia forte, cylindrica, glabra: umas vezes são muito maiores do que a cupula, longamente salientes, outras vezes estão n'ella incluidos até ao meio, ou até mais de meio. A cupula tambem apresenta fórmas diversas; é pardo-cotanilhosa, com as escamas pequenas, triangulares, planas ou um pouco granulosas, estreitamente apertadas umas contra as outras.
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Os fructos uns são amargos, adstringentes (Q. Ilex, L.), outros são doces, comestiveis, e de ordinario maiores (Q. Ballota, Desf.). Segundo uma analyse, que fizemos, d'uns e outros d'estes fructos, no laboratorio do Instituto, nas bolotas maduras, quer doces ou amargas, o tannino existe em muito pequena quantidade; o que se encontra é o acido galhico e a glucose, em quantidades inversas nos dois fructos; é o excesso de acido galhico que dá a adstringencia das bolotas amargas. Na bolota doce encontrámos 1,2% de glucose e 0,73 de acido galhico (na substancia secca), e na bolota amarga 0,75 de glucose e 1,55 de acido galhico. Ambos estes fructos eram procedentes do Alemtejo.
Esta variedade, a azinheira da bolota doce, é considerada por alguns auctores como especie distincta e propria aos pontos de temperatura mais elevada. Não acceitamos este modo de vêr, porque as differenças entre as duas arvores são baseadas nas folhas, caracter este de muito pequena importancia em arvores tão polymorphas, ou na doçura e adstringencia dos fructos, caracter a que tambem não ligamos grande valor, mas que ainda que o tivesse, apresenta formas accentuadamente intermedias. Tivemos occasião de analysar, no Instituto, umas bolotas, vindas do Alemtejo, cuja composição é intermediaria aos dois typos referidos acima: tinham 1,028% de glucose e 1,016 de acido galhico. De resto todos os praticos sabem isto, e o paladar bem o demonstra: entre as bolotas muito doces e as muito amargas da azinheira encontram-se passagens successivas e graduaes.
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Entre nós a azinheira da bolota doce encontra-se misturada abundantemente com a da bolota amarga (Q. Ilex typico), nas provincias do sul, onde é bastante mais estimada do que esta ultima.
Germinação. - Caida naturalmente no outono, a bolota germina n'essa mesma estação; semeada na primavera nasce em 4 ou 5 semanas. A bolota, como a lande, como os fructos de todos os carvalhos, não se conserva para sementeira além da primavera proxima á queda.
A azinheira é uma arvore robusta que pede logo desde nova a insolação directa; a sombra das arvores superiores não só lhe é desnecessaria, mas até desvantajosa.
Productos e usos. - Um dos principaes productos da azinheira é o fructo; emprega-se um pouco na alimentação do homem e muitissimo na engorda dos porcos. A bolota é mais nutritiva que a lande, e a bolota doce mais nutritiva que a amarga. A differença alimenticia d'estas duas ultimas não provem só das quantidades variaveis de assucar, como se pode vêr das seguintes analyses, que fizemos no Intituto:
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Bolota amarga (Q. Ilex.)
Bolota doce (Q. Ballota)
Humidade . . . 36,000 . . . 36,500
Cinzas . . . 0,992 . . . 1,100
Lenhoso . . . 5,760 . . . 4,210
Materias gordas . . . 3,840 . . . 6,400
Materias azotadas . . . 4,300 . . . 5,800
Glucose . . . 0,480 . . . 0,762
Acido galhico . . . 0,992 . . . 0,467
Extractivo ternario (analogos do amido, etc.) . . . 47,636 . . . 44,761
100,000 100,000
Estas analyses referem-se á bolota não descascada. A casca representa proximamente 25% do peso total.
Calculam no Alemtejo que, em condições ordinarias, são necessarios quarenta alqueires de bolota para engordar um porco, cincoenta de lande, e sessenta do fructo dos outros carvalhos - negral, cerquinho e roble - sendo reputado o fructo d'este ultimo superior ao dos outros dois.
A madeira da azinheira é muito estimada pela sua dureza e homogeneidade. Recebe muito bom polido e conserva-o por muito tempo, apresentando, quando é convenientemente cortada, bonitos ondeados e venações. O seu defeito principal é ser muito sujeita a rachar, e a contorcer-se, pela desseccação. É muito usada, entre nós, no fabrico de instrumentos de lavoura.
Esta madeira dá lenhas de primeira qualidade, e o carvão do azinho é excellente, e muito procurado.
A casca das azinheiras, sobretudo em novas, é muito tanninosa, e muito boa para curtumes; segundo as analyses feitas em Hespanha pelo sr. D. Carlos Castel a quantidade de tannino na casca do tronco vae de 8,07 a 15,3%, sendo a média, em arvores novas de 20 a 25 annos, 11 a 13%.
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A azinheira explora-se entre nós principalmente pelo fructo, em alto fuste. Nas provincias do norte, onde é menos abundante, e o fructo amargo menos estimado, é ás vezes cortada em talhadio nos massiços onde apparece disseminada; tem, n'este caso, em relação aos carvalhos de folhas caducas, o inconveniente de ser bastante demorado o seu crescimento.
O carvalho portuguez e o carvalho cerquinho
(Quercus lusitanica, Lam., e Q. lusitanica Lam., var. baetica, Wbb. Quercus hybrida, Brot.)
O carvalho portuguez e o carvalho cerquinho pertencem a uma só especie, de que o primeiro pode ser considerado como typo, e o segundo como variedade bem definida; em linguagem vulgar confundem-se, de ordinario, os dois sob a denominação mais commum de carvalho cerquinho. Um e outro preponderam na região intermédia do paiz: na Extremadura e em muitos pontos da Beira, mas encontram-se, com frequencia, em quasi todo o reino, desde o Algarve até ao Alto Traz-os-Montes. Esta especie é intermédia no habitat, como na organisação, aos carvalhos de folha persistente e aos de folha caduca.
Clima. - É o carvalho espontaneo de folha caduca que resiste a mais elevada temperatura; o unico que, sem se resentir, affronta a seccura atmospherica do Alemtejo. Encontra-se, em Portugal, nas mais variadas situações, desde as planicies baixas do sul, até ao valle do Douro, e ás terras altas de Traz-os-Montes.
Solo. - Prefere os terrenos substanciaes, frescos e profundos, mas contenta-se até com os que apresentam as mais oppostas qualidades: graniticos, schistosos, calcareos, etc. Nos terrenos secundarios, calcareos, da margem direita do Tejo desenvolve-se em grande abundancia.
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Radicação. - O systema radicular d'este carvalho é profundo, mas menos que o do roble. Tem raiz mestra, e muitas raizes lateraes vigorosas; a arvore fica sempre presa com grande solidez.
Rebenta muito bem de touça.
Porte, crescimento e duração. - O carvalho cerquinho (a variedade baetica) é, de ordinario, de maior porte que o carvalho portuguez typico. No emtanto, um e outro apresentam portes muito variaveis, segundo os terrenos e as condições em que vivem; n'uns pontos tomam a fórma de moita arbustiva ou arborescente, n'outros pontos adquirem grande desenvolvimento. Constituem então arvores com o tronco alto e grosso, mais direito que o do carvalho negral, e com a ramificação mais regular e mais numerosa do que a do roble.
Estas arvores podem chegar a grandes dimensões: a 6 metros de circumferencia por 30 metros de altura, e mais. O sr. Pimentel refere-se, no Jornal Official de Agricultura, a um carvalho portuguez, existente na mata nacional de Ourem, cujo tronco, na base, tem 5m,4 de circumferencia, e a copa tem 26 metros de largura: refere-se a um que deu 50 travessas para caminho de ferro, e a um outro d'onde sahio uma peça para construcção naval medindo 4 metros cubicos.
O crescimento d'esta essencia não é muito demorado. Tem grande duração.
Madeira e casca. - A madeira do carvalho portuguez e do cerquinho tem cerne e borne bem delimitados, o primeiro acastanhado, mais ou menos escuro, e o ultimo esbranquiçado. Tem raios medullares largos, numerosos, aproximados, deseguaes. As camadas annuaes são distinctas, mas a zona porosa de primavera é pouco desenvolvida, tem poucos vasos, e esses mesmo de calibre delgado. Esta madeira é muito pesada e densa; as suas qualidades são intermédias ás madeiras dos carvalhos de folha persistente e dos de folha caduca. Um exemplar da collecção do Instituto accusou-nos a densidade 0,713, mas existem lenhos bastante mais densos.
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A casca das arvores adultas é um rhytidoma um pouco parecido ao da azinheira, fendido em sulcos longitudinaes muito proximos e pouco fundos, atravessados por outros horisontaes, mais afastados. Os ramos novos são cotanilhosos, esbranquiçados ou amarello-esverdinhados (var. alpestris, Bss.).
Folhagem. - N'um genero tão polymorpho como o genero Quercus esta especie é uma das mais polymorphas. As folhas do carvalho portuguez são variadissimas na fórma, no tamanho e no tomento. Como fórma typica pode dizer-se que são ellipticas, elliptico-lanceoladas ou obovadas, onduladas nas margens, regularmente serradas, ás vezes levemente espinhosas, arredondadas ou cordiformes na base, pecioladas; em adultas são verdes e glabras na pagina superior, e na inferior cinzento-cotanilhosas. No emtretanto, ás vezes, apresentam-se cunheadas na base; outras vezes inteiras nos bordos; n'uns casos planas; n'outros casos, muito grandes, larga e obtusamente crenadas (var. baetica). Algumas são tão espinhosas que fazem quasi lembrar as do carrasqueiro; outras são sub-glabras na pagina inferior; ou pubescentes tambem na pagina superior; ou estrellado-cotanilhosas mesmo em adultas (var. alpestris), etc.