Curso de Silvicultura

Chapter 22

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As essencias mais importantes na arborisação florestal do paiz são o pinheiro bravo e o pinheiro manso, os sobreiros, a azinheira, o carvalho portuguez, o carvalho negral e o roble, o castanheiro e a alfarrobeira. A estas especies deve juntar-se a oliveira, se quizermos exprimir a feição exacta dos nossos principaes arvoredos; mas a oliveira, pela fórma porque é explorada, pertence antes ao dominio da arboricultura, e por isso a não incluimos n'estes estudos; o zambujo, como tem importancia muito mais restricta, entra no segundo agrupamento em que dividimos as nossas arvores silvestres.

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O pinheiro bravo ¹

(Pinus Pinaster, Ait. var. acutisquama Bss.: P. maritima, Brot.)

O pinheiro bravo encontra-se abundantemente em Portugal, constituindo ás vezes massiços consideraveis; pode mesmo dizer-se que os nossos massiços florestaes maiores e mais homogeneos são formados por esta essencia. Vive, melhor ou peior, em quasi todo o paiz, mas prepondera sobretudo na região littoral ao norte do Tejo e na parte central da Beira, onde encontra optimas condições de desenvolvimento, e onde se agglomera em mais dilatados massiços.

Clima. - O pinheiro bravo é uma arvore essencialmente do littoral, ávida de humidade na atmosphera, e por isso mesmo a sua distribuição em Portugal corresponde ás regiões de menor seccura. No emtanto, se as terras baixas das proximidades do Oceano lhe são muito propicias, ainda assim consegue viver nas montanhas, mesmo a altitudes já consideraveis. Na serra da Estrella, como dissemos, o pinheiro bravo sobe bastante alto, e em Traz-os-Montes, mais longe do mar, encontram-se alguns pinhaes, em terras muito elevadas; é certo que perdem ahi a importancia que teem na zona littoral, e a sua vegetação é muito menos vigorosa.

¹ Para a determinação e caracteres botanicos differenciaes das especies estudadas veja-se o nosso Esboço de uma flora lenhosa, que constitue o 2.º volume d'este curso, e onde se encontram numerosas gravuras de flores, fructos, folhas, etc.

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Solo. - É uma essencia silicicola ou, melhor, calcifuga, como vimos. Nos terrenos calcareos não vinga, ou fica enfezado, conforme a percentagem de cal. Afóra esta exigencia o pinheiro bravo é uma arvore muito frugal, e bem o demonstra a pequena quantidade das suas cinzas, relativamente ás outras essencias; contenta-se com terrenos muito pobres, até com as areias maritimas e com os solos pedregosos e alcantilados. Vive em todas as formações não calcareas, comtanto que não originem terrenos muito compactos, nem pantanosos, e que exista alguma humidade no subsolo, seja a que profundidade for.

Entre nós os pinhaes bravos encontram-se, de ordinario, nos peiores terrenos, nas areias moveis, nos gréses, etc., e assim aproveitam grandes extensões, que não seriam faceis de explorar com outra cultura, tão grande é a pobreza de muitos d'esses solos.

Radicação. - Tem systema radicular muito desenvolvido; é arvore que se prende á terra com segurança. Quando o subsolo não é muito humido, nem formado por qualquer rocha compacta, impenetravel ás raizes, a raiz mestra engrossa e profunda muito, e desenvolvem-se conjuntamente numerosas raizes lateraes, que se alargam a grandes distancias, originando novos eixos orientados na vertical. Esta disposição particular das raizes, a profundarem e a estenderem-se para os lados ao mesmo tempo, torna o pinheiro bravo apropriadissimo para a arborisação das dunas.

É claro que, nos solos superficiaes, esse enraizamento modifica-se e torna-se muito menos vigoroso.

Porte, crescimento e duração. - O pinheiro bravo apresenta um tronco mais ou menos conico, segundo as condições em que tem vivido, ramificação verticillada, como a de todos os pinheiros, e copa pyramidal. Nas arvores velhas a copa torna-se irregular, e arredondada superiormente pelo fraco desenvolvimento da flecha. N'estas arvores velhas a copa é, de ordinario, pequena em relação ao fuste, mas essa relação, assim como a fórma do tronco e da ramificação variam bastante, conforme o clima, as qualidades do solo, a densidade do massiço, etc.

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É arvore de crescimento rapido, e cuja altura total, segundo os dados fornecidos pelo sr. C. de Sousa Pimentel, no seu livro os Pinhaes, está ordinariamente comprehendida entre 20 a 25 metros por 0m,5 a 0m,7 de diametro, no pé. No emtanto estas dimensões podem ser muito excedidas, e o mesmo auctor cita uma arvore no pinhal de Leiria, que mede 40 metros de altura, por 1 metro de diametro na base, numeros estes superiores aos mais altos, que tem sido determinados nos outros pontos da Europa onde vive o pinheiro bravo.

O sr. Pimentel calcula a maturação d'esta arvore, em condições normaes, dos 80 aos 100 annos; mas, entrada na ultima phase da vida ainda pode viver muito tempo. Em condições favoraveis a decrepitude começará decerto mais tarde. O sr. Pimentel encontrou já cepos de pinheiros cortados com 250 camadas lenhosas, e ainda sãos, isto é, que teriam vivido mais tempo se os deixassem.

Madeira e casca. - A madeira do pinheiro bravo, ou do pinho, como vulgarmente se diz por abreviatura, tem o cerne avermelhado e o alburno branco; a proporção das duas formações varia bastante, conforme as condições da vegetação: quanto menos favoraveis ellas forem menor a quantidade do cerne. Os crescimentos annuaes são bem apparentes, e quasi sempre largos, mas esta largura depende muito das circumstancias que concorreram. Os canaes resiniferos são abundantes; apparecem no corte transversal do cerne como traços, ou pontos mais escuros, pela agglomeração da resina, que se concretou; no córte das ultimas formações deixam escapar uma gota de terebinthina.

Esta madeira é muito resinosa, dura, pesada, pouco elastica. Conforme já dissemos, e é geral a todos os pinheiros, a madeira é de tanto melhor qualidade quanto mais reduzidos os crescimentos annuaes, porque então prepondera o tecido mais denso e mais resinoso do outono. Um exemplar d'esta madeira da collecção do Instituto (secco ao ar) tem a densidade 0,607; mas os crescimentos annuaes d'este exemplar são bastante largos, e existem no paiz madeiras de pinho com densidades muito superiores.

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A casca do pinheiro bravo, nos primeiros annos, ou nos ramos novos, é delgada e esverdinhada; ao depois torna-se cinzenta e esfolia-se superficialmente em pequenas placas, devido isso á formação de uma lamina suberosa muito pouco funda, superior ao liber e ao parenchyma cortical. Mais tarde (aos 8 ou 10 annos), origina-se no tronco um rhytidoma profundo, vermelho-escuro, muito gretado em escamas largas, persistente; a assentada suberosa, que origina este rhytidoma, invade um grande numero das formações liberianas, e destroe a vitalidade de tudo quanto fica para o exterior. Nos ramos, e no extremo do tronco, a casca é sempre mais delgada, e esfolia-se em placas muito menos grossas.

Folhagem. - As folhas do pinheiro bravo, como as de todos os pinheiros, são de duas naturezas: as primeiras folhas que apparecem no individuo muito novo são solitarias, rigidas, aguçadas; dos dois annos por diante, em logar d'estas folhas, vem outras escamiformes, seccas, triangulares, agudas, em cujas axillas se desenvolvem as agulhas geminadas, envolvidas por uma bainha membranosa. Estas agulhas teem 10 a 20 centimetros de comprimento, e são grossas, rigidas, carnudas, verde-retintas, ás vezes um pouco enroladas. Duram dois a tres annos; a arvore é, portanto, sempre-verde, como todas as do mesmo genero. Apezar de ter as folhas compridas, o pinheiro bravo tem a folhagem pouco apertada; dá pequeno coberto, isto é, assombrea pouco o terreno inferior.

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Temperamento. - É arvore muito robusta; não pode viver em massiço apertado sem se resentir; cresce então muito em altura, mas sem engrossar quasi nada, fórma poucas folhas, e amesquinha-se a ponto de, em alguns casos, não resistir. No emtanto, é arvore social e muito apropriada a formar massiços, quando os convenientes desbastes lhe regularisem o espaço e a luz de que precisa.

Floração e fructificação. - A floração é monoica; as flores masculinas dispõem-se em amentilhos ovoides, amarellados, que se reunem na base dos rebentos annuaes; as flores femininas grupam-se tambem em amentilhos, verticillados aos dois ou quatro (raras vezes solitarios, ou em maior numero) no cimo dos rebentos annuaes, inferiormente ao botão terminal. A floração realisa-se de fevereiro a março.

De ordinario as flores femininas n'este, como nos outros pinheiros, desenvolvem-se em maior quantidade nos rebentos superiores, e as flores masculinas nos rebentos inferiores. A pollinisação dá-se sem a intervenção dos insectos; é promovida pelo vento e muito facilitada pelas duas pequenas cavidades lateraes cheias de ar, que existem no granulo do pollen, como dissemos, tornando-o mais leve, e facultando-lhe a subida até ás flores femininas.

As pinhas espalham a semente passados dois annos. Só no anno seguinte ao da fecundação se completam; amadurecem no outono, e na segunda primavera, quando o calor começa a augmentar, abrem, deixando cair as sementes; as escamas lenhosas descerram-se, curvam-se para traz, as sementes escapam-se, e a pinha, aberta e vazia, fica presa na arvore algum tempo. Na primavera um pinheiro adulto apresenta pinhas em todos estes estados: no cimo as que foram fecundadas ha pouco, muito pequenas ainda; mais abaixo as do anno anterior, incompletamente desenvolvidas n'essa época; no verticillo inferior a este, as pinhas de dois annos, que começam a abrir; e d'ahi para baixo, pinhas mais antigas, já muito abertas e vazias.

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A pinha madura do pinheiro bravo é sessil, ou quasi sessil, oblongo-conica, aguda, avermelhado-amarellada, um pouco lustrosa, com 10 a 20 centimetros de comprimento; tem as escamas terminadas n'um escudo muito proeminente, mucronado, limitado transversalmente por quilhas agudas. As sementes incluidas n'este falso fructo, duas na base de cada escama lenhosa, teem 8 a 10 millimetros de comprido, são ovadas, deprimidas, negras e lustrosas n'uma das faces, baças e pardas na outra, com manchas negras, e teem uma aza membranosa, fosca, manchada, quatro vezes maior que a semente, com um dos bordos recto e o outro convexo. A esta semente dá-se vulgarmente o nome de penisco.

O pinheiro bravo produz, na edade adulta, muita semente, e é muito precoce. As arvores isoladas e as das margens dos massiços, mais expostas á luz, já dão semente aos 8 e 10 annos. Esta primeira semente não deve nunca escolher-se para sementeira.

As sementes do pinheiro bravo, armadas com tão bom apparelho disseminador, voam a grande distancia, e podem executar a sementeira natural ¹ em áreas extensas.

Germinação. - O penisco conserva durante tres a quatro annos o poder germinativo, mas não é prudente semeal-o com mais de dois annos. Semeado na primavera nasce geralmente dentro de quinze dias a um mez; semeado no inverno demora muito mais tempo na terra. As plantas novas germinam com oito folhas cotyledonares, são muito robustas, e crescem bem a descoberto, sem nenhum abrigo; a sombra das outras arvores acanha-as e amesquinha-as. A parte subterranea dos pinheiros muito novos desenvolve-se com grande força nos primeiros annos, principalmente nos terrenos arenosos e seccos; n'estas condições encontram-se pinheiros que, aos dois annos, apresentam uma raiz mestra de 0m,5, emquanto o caule, muitas vezes, não excede 0m,1.

¹ Denomina-se sementeira natural, como veremos quando tratarmos da cultura, a que se realisa pelas sementes caidas das arvores de pé; diz-se em contraposição sementeira artificial aquella em que as sementes são espalhadas pela mão do homem.

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Productos e usos. - Os pinheiros, como sabemos, teem pouca tendencia a organisar botões lateraes (apenas os formam na base do botão terminal), e não teem olhos dormentes, nem botões adventicios; por isso só podem ser explorados em alto fuste. Os productos d'estes altos fustes variam muito com a edade em que se executam os córtes.

A madeira do pinheiro bravo não é de primeira qualidade, mas pode ser empregada com vantagem em muitos usos. Serve bastante na construcção civil sob a fórma de barrotes, taboas, etc.; tem grande extracção para travessas de caminho de ferro, postes telegraphicos e estacarias nas construcções hydraulicas; usam-a tambem na construcção naval, mas menos que o pinheiro manso; tem, emfim, uma infinidade de empregos em pequenas industrias.

A lenha é boa, tanto melhor quanto mais resinosa, e utilisam-a muito no paiz, bem como a rama, para aquecer os fornos do pão, da cal, das fabricas de louça, etc. As pinhas são muito procuradas para fogões. O carvão do pinheiro bravo não é de boa qualidade.

Os succos resinosos, muito abundantes, d'esta arvore podem ser-lhe extrahidos, como se pratica no pinhal de Leiria, por meio de uma operação que se denomina gemmagem, ou resinagem. A gemma é formada pela solução da resina na essencia de terebinthina; d'esta gemma extrahem-se diversos productos industriaes, como a essencia de terebinthina, o pez louro, differentes oleos, etc. O alcatrão, o pez e o breu são obtidos pela distillação secca da acha do pinheiro; e da agua ruça, que sobrenada aos alcatrões, muitos productos se podem tirar, como o alcool methylico, o acido pyrolenhoso, etc. A combustão incompleta dos detritos resinosos fornece o negro de fumo.

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A casca pode empregar-se, como substancia tanninosa, para curtimento de pelles, mas tem muito menos valia que a dos carvalhos. As agulhas podiam servir para a extracção de uma lã vegetal, como na Silesia, ha já annos, se pratica das folhas de outros pinheiros, obtendo-se materias filamentosas que, segundo a finura e resistencia, se empregam para encher estofos, ou para fiar e tecer.

O pinheiro manso ou pinheiro negro

(Pinus Pinea, L.)

Encontra-se um ou outro pinheiro manso disseminado em todo o paiz, mas no territorio ao sul do Tejo, sobretudo na beiramar, é onde esta arvore existe em maior quantidade e onde principalmente se reune em pequenos grupos, ou massiços: nas margens do Sado, em alguns pontos do littoral algarvio, etc. No emtanto o pinheiro manso não tem, na região sul, a importancia florestal do pinheiro bravo na região norte.

Clima. - O pinheiro manso resiste á seccura bastante mais do que o pinheiro bravo, e pede calor elevado e luz intensa; é a resinosa caracteristica da zona mediterranea, a cujas paizagens dá um cunho especial. Por isso vegeta muito melhor nas nossas provincias do sul que nas do norte. Parece procurar sobretudo as planicies e os valles, e nas proximidades do mar, ou junto aos rios, como dissemos, é onde se agglomera em maiores massiços e onde apresenta os maiores desenvolvimentos.

Solo. - Prefere os solos fundos, leves, um pouco frescos; mas contenta-se mesmo com os terrenos pedregosos, comtanto que apresentem fendas por onde as raizes possam introduzir-se, e vive perfeitamente nas areias maritimas. Receia menos que o pinheiro bravo os terrenos compactos, mas parece fugir, com identica repugnancia, das terras calcareas.

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Radicação. - O systema radicular d'esta arvore é profundo e forte; apresenta raizes verticaes e horisontaes muito vigorosas; estas ultimas engrossam ás vezes tanto como as mais volumosas pernadas da copa, e podem aproveitar-se depois para curvas de construcção naval, se estão no mesmo plano do tronco.

Porte, crescimento e duração. - O pinheiro manso é uma grande arvore, com o tronco despido e alto, mais ou menos cylindrico; a copa, muito larga, tem a fórma caracteristica de uma umbella; apresenta as ramificações principaes muito grossas, sobretudo quando a arvore cresce isolada, e os ramos lateraes compridos, recurvados na ponta, quasi da altura da flecha, circunscrevendo assim uma superficie superior plana, ou proximamente plana.

As dimensões do pinheiro manso são, de ordinario, mais reduzidas que as do pinheiro bravo; a sua altura, segundo o livro citado do sr. Carlos de Sousa Pimentel, em média, oscilla entre 15 e 20 metros e pouco excede este ultimo limite; o mais alto pinheiro manso encontrado por aquelle silvicultor tinha 25 metros. A sua grossura, relativamente, é maior que a do pinheiro bravo: muitas vezes eguala, ou excede, a d'esta essencia. Tem grande duração.

Madeira e casca. - A madeira do pinheiro manso tem quasi a mesma côr e a mesma estructura da do pinheiro bravo; os crescimentos annuaes são egualmente visiveis, e o cerne distincto do borne. No emtanto apresenta menos canaes resiniferos, e é menos resinosa, por onde se pode distinguir. Como a do pinheiro bravo, e como a de todos os pinheiros, é de tanto melhor qualidade quanto mais estreitos os crescimentos annuaes; assim um exemplar d'esta madeira da collecção do Instituto, com os crescimentos bastante largos, accusou-nos a densidade 0,488, emquanto um outro exemplar, com os anneis lenhosos muito mais apertados subio a 0,738.

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A casca, nos troncos adultos, é tambem um rhytidoma, fendido, rugoso, escamoso, avermelhado-escuro, e cuja formação é semelhante á que tem no pinheiro bravo. As cascas d'estes dois pinheiros adultos distinguem-se em ser menos grossa a do pinheiro manso, e fragmentar-se em placas mais largas.

Folhagem. - As folhas são egualmente de duas naturezas: umas seccas, escamiformes, e as outras compridas, estreitas, acerosas, verdes, geminadas n'uma bainha membranosa (agulhas); estas ultimas são mais curtas que as do pinheiro bravo (teem 8 a 15 centimetros de comprimento), mas assombream mais o terreno, dão maior coberto. São persistentes, como as de todos os pinheiros.

Floração e fructificação. - A floração do pinheiro manso realisa-se, entre nós, de fevereiro a março. Os amentilhos masculinos são oblongos, amarellados, e os femininos ovoides, esverdinhados; uns e outros affectam situações identicas ás que teem no pinheiro bravo, e a pollinisação dá-se do mesmo modo.

A evolução das sementes é mais demorada; as pinhas só abrem passados tres annos.

A pinha madura é grande, ovoide-obtusa ou quasi globosa, sessil ou quasi sessil, avermelhado-escura ou amarellada, lustrosa, virada para baixo, ou sub-horisontal; tem 8 a 10 centimetros de comprido. Estas pinhas umas vezes são solitarias, outras vezes geminadas ou ternadas. As escamas são lenhosas, persistentes, grandes, e teem um escudo rhomboidal, levemente pyramidal, com 5 a 6 arestas radiantes e no centro uma pequena saliencia obtusa.

Cada escama supporta na base duas sementes grandes, que se denominam pinhões (teem 16 a 20 millimetros de comprimento); são obovadas, comprimidas, arredondadas nas extremidades, com uma aza membranosa muito curta e muito caduca; o tegumento d'estas sementes umas vezes é duro e lenhoso (pinhões durazios), outras vezes tenue e fragil (pinhões mollares), e apresenta-se coberto de efflorescencia pulverulenta negro-violacea, muito caduca, ficando, ao depois d'ella ter caido, castanho-amarellado; dentro existe uma amendoa comestivel amylaceo-oleosa.

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O pinhão dissemina-se a muito menor distancia que o penisco, por ser mais pesado e não ter apparelho de disseminação. O pinheiro manso é menos precoce na fructificação que o pinheiro bravo.

Germinação. - O pinhão rança com facilidade, e perde mais cedo o poder germinativo que o penisco; é prudente não semear o que tiver mais de um anno. O pinheiro manso germina com 10 a 12 folhas cotyledonares muito glaucas, planas, ponteagudas, dentadas nos bordos; durante muitos annos ficam apparecendo algumas folhas semelhantes, mas mais pequenas, de envolta com as folhas geminadas. A planta nova é maior e mais grossa que a do pinheiro bravo.

O pinheiro manso é de temperamento robusto e muito ávido de luz; não precisa, mesmo em novo, a protecção das arvores superiores, antes, pelo contrario, esta sombra lhe é nociva.

Productos e usos. - Esta arvore, como todas as suas congeneres, só em alto fuste pode ser explorada. Os seus productos principaes são as madeiras e as sementes.

A madeira do pinho manso é muito mais estimada que a do pinho bravo; empregam-a bastante em construcção naval, dá peças direitas, e boas curvas tiradas das pernadas principaes e das raizes mais grossas; é usada em construcção civil, em grandes peças e em tabuame, e tambem em trabalhos hydraulicos, no fabrico de rodas, etc.

A lenha d'esta essencia tem menos valor que a do pinheiro bravo, por ser menos resinosa, e a rama é muito menos procurada para aquecimento dos fornos, por serem as agulhas mais curtas e mais densas, e não levantarem chamma tão alta.

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A semente é comestivel e agradavel; come-se em natureza ou em diversas conservas doces. É muito oleosa, e d'ella se pode extrahir um oleo doirado, muito siccativo, com cheiro e sabor resinoso, proprio á pintura e preparo de vernizes.

A casca pode empregar-se para cortumes. Os succos resinosos não são utilisados, por serem menos abundantes que no pinheiro bravo; apenas se empregam um pouco para a preparação do breu.

Os sobreiros

(Quercus suber, L., e Quercus occidentalis, Gay.) ¹

Sob o nome vulgar de sobreiro confundem-se em Portugal duas especies botanicas muito proximas, notaveis ambas pelo espesso tegumento suberoso dos troncos, egualmente utilisavel na industria, o de uma e outra, com a denominação commum de cortiça. Das duas especies, o Quercus suber é, incomparavelmente, a mais vulgar; encontra-se em todo o paiz, sobretudo na região sul do Tejo, e ahi com maior particularidade ainda no Baixo Alemtejo, constituindo só, ou acompanhado pela azinheira, extensos arvoredos conhecidos com o nome de montados, e que são uma das maiores riquezas ruraes d'aquellas provincias; na região ao norte do Tejo esta essencia encontra-se tambem, por quasi todo o paiz, até ao alto Traz-os-Montes, embora com menos preponderancia, isolada ou disseminada em pequenos grupos. O outro sobreiro, o Quercus occidentalis, parece ser muito menos frequente e conhecido; acreditamos que elle se encontrará disseminado nos montados do sul, e mais ou menos em alguns pontos da região do centro. Conhecemos exemplares d'este sobreiro, bem authenticos, das proximidades de S. Thiago do Cacem.

¹ Ácerca da existencia d'estas duas especies em Portugal veja-se o que dizemos no 2.º volume d'este curso (Esboço de uma flora lenhosa).

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Clima. - Os sobreiros são arvores dos paizes de temperatura elevada; são proprios da zona mediterranea. Exigem, conjuntamente, elevada temperatura e forte intensidade luminosa. Vão bem nas planicies, e nas montanhas até uma certa altura. O Quercus occidentalis parece subir mais ao norte.

Solo. - Os terrenos mais convenientes a estas arvores são os feldspathicos e schistosos; vivem nos solos calcareos, mas não adquirem n'elles tamanho desenvolvimento. As terras onde melhor prosperam são as profundas e pouco apertadas, mas contentam-se com as superficiaes, e até com as areias movediças das dunas, onde muitas vezes se encontram. Os terrenos muito compactos, ou humidos, são dos mais desfavoraveis a estas essencias.

Radicação. - O systema radicular dos sobreiros é sempre vigoroso; seja qual for a espessura do terreno a arvore fica solidamente presa. Nos terrenos fundos a raiz mestra alonga-se muito e as raizes lateraes bracejam bastante; nos solos pedregosos e superficiaes a raiz mestra desenvolve-se pouco, mas as ramificações lateraes crescem muito para os lados.

Os sobreiros rebentam bem de touça e até edade avançada, todavia nunca se exploram em talhadio, porque a cortiça e os fructos são os principaes productos d'estas arvores, e uma e outra producção exigem o tratamento em alto fuste.

Porte, crescimento e duração. - O sobreiro (Quercus suber) tem o tronco mais ou menos cylindrico, bastante grosso em relação á altura, com o tegumento fortemente suberoso; este tronco divide-se em arrancas vigorosas que supportam a copa ampla, com a ramificação pouco apertada.

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A copa é arredondada, mais ou menos irregular; nos terrenos humidos os ramos tomam, ás vezes, a fórma pendente ¹.