Chapter 21
3.º As torrentes. - Apresentam valles muito curtos; teem cheias fortes e que apparecem e desapparecem com grande rapidez; o declive do seu leito é muito variavel em pequenas distancias, e quasi sempre superior a 0m,06 por metro não descendo nunca de 0m,02. As torrentes corroem na montanha, depositam no valle e divagam depois. Em linguagem vulgar a palavra torrente tem outra accepção: applica-se a todo o curso d'agua impetuoso.
4.º Os ribeiros ou regatos. - Apresentam pequeno volume de agua, teem de ordinario pequena inclinação, não corroem, e as suas aguas, limpidas quasi sempre, não depositam, ou depositam muito pouco.
Esta classificação não é absoluta, o mesmo auctor o faz sentir. Alguns cursos d'agua não podem ser rigorosamente comprehendidos em nenhuma das classes, outros, pelo contrario, pertencem a mais de uma, quando se consideram em pontos diversos da sua carreira.
As differenças principaes entre aquelles grupos são devidas, não tanto á diversidade dos phenomenos que caracterisam, como á intensidade d'elles. Assim, por exemplo, Surell considera nas torrentes uma bacia de recepção, com a fórma typica de um largo funil onde as aguas se reunem e corroem o terreno, um canal d'esgoto, mais ou menos desenvolvido, por onde a agua sae, e o leito de dejecção, espaço mais largo nos valles, onde os depositos são abandonados; nos rios, embora em área menos condensada, passam-se phenomenos identicos e existem regiões semelhantes: os seus deltas são verdadeiros leitos de dejecção por onde a agua divaga; estes deltas não se formariam se a corrente não trouxesse materiaes suspensos, isto é, se não tivesse uma bacia de recepção a corroer; o canal d'esgoto, que nas torrentes é muito pequeno, fórma quasi todo o curso do rio. A natureza especial das margens dos rios torrenciaes e a intensidade minima dos phenomenos passados nos ribeiros, individualisam principalmente estas duas classes.
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Transcrevemos a classificação de A. Surell porque em muitos casos poderá ser applicada aos cursos de agua do nosso paiz, senão considerados sempre em toda a sua extensão, ao menos suppondo-os divididos em differentes secções.
As montanhas de Portugal, e os seus cursos de agua. - Em Portugal o solo das grandes montanhas, constituido na maior parte por formações antigas, não é, considerado em geral, muito facilmente desaggregavel. No emtanto dentro do typo granitico e schistoso existem innumeras variantes, com propriedades physicas muito deseguaes, algumas de facil pulverisação e que abandonam avultados detritos aos cursos d'agua das suas regiões. Os estragos d'esta natureza occasionados entre nós não tomam decerto as proporções a que se elevam no departamento francez dos Alpes Superiores, cujo solo é tão esboroadiço, como dissemos, mas são, ainda assim, muito attendiveis e ruinosos.
Salva uma ou outra excepção local muitissimo restricta, as nossas montanhas estão quasi de todo desarborisadas; as suas encostas, asperas e aprumadas em muitos pontos, ou se encontram mal vestidas de matos rasteiros, ou, em muitos casos, apresentam-se desnudadas, tendo descaido a terra sob a acção das chuvas, das neves e das geadas, ficando só o esqueleto informe, a rocha sub-jacente escalvada. São enormes os tractos de terreno assim desaproveitados e que podiam ser entregues quasi todos á exploração florestal.
Por outro lado, os nossos cursos d'agua correm entregues a si proprios, alagando com as cheias os campos visinhos, esterilisando muitos e corroendo outros; em sitios, as aguas da cheia não conseguem, quando o volume diminue, voltar ao primitivo leito, e constituem pantanos prejudicialissimos á saude: tal acontece, por exemplo, em alto grau, junto ás margens do Sado, com grande prejuizo das povoações proximas. A má regularisação dos cursos d'agua do paiz é tanto mais para lastimar, que as veigas situadas nos seus valles são terras das mais ferteis, e bem importava protegel-as.
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A acção das nossas principaes correntes sobre os terrenos visinhos é diversa bastante, conforme o typo da corrente, e todos os phenomenos que concorrem.
O Douro e todos os seus affluentes transmontanos passam entre ribas fragosas, muito altas e apertadas; o valle do Douro, constituido por granitos e schistos é, relativamente, o mais profundo e estreito do paiz. Estes rios só n'um ou n'outro ponto se espraiam em veigas mais dilatadas, que formam outras tantas excepções: assim o valle do Douro alarga-se um pouco junto á Regoa, o Sabor no fertilissimo valle da Villariça, o Tua nos campos de Mirandella, e o Tamega na risonha veiga de Chaves. Todos estes rios, cujos cursos são tão apertados na sua maior extensão, apresentam indole torrencial e cheias volumosas e rapidas. O mesmo acontece ainda ao Zezere, mas este differença-se mais pela quantidade grande das substancias terrosas arrastadas em suspensão. O Douro corre entre margens cultivadas em geios, ou socalcos, que seguram muito a terra, pela sua composição pouco esboroadiça, como tambem o são as ribas dos seus affluentes, emquanto o Zezere passa, em muitos pontos, entre granitos grosseiros, facilmente desaggregaveis.
O Lima, o Minho, o Vez, etc., correm em paiz montanhoso, como os anteriores, tambem entre paredes alcantiladas de granitos e schistos, mas apresentam já um typo diverso; os seus valles são largos, as penedias levantam-se afastadas do veio d'agua, contornando bellissimos campos por onde os rios serpeam. Soffrem cheias tambem grandes e pouco demoradas, mas estas cheias alteam constantemente os leitos das correntes pelos depositos que abandonam, e são uma constante ameaça ás terras marginaes, agricultadas e ricas.
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O Tejo e o Mondego, quando considerados em pontos differentes, revestem modos de ser deseguaes: ambos na parte superior (do Tejo consideramos apenas o curso em Portugal) correm em valles estreitos e fundos e em leitos penhascosos; as fragas n'esta porção do Tejo são constituidas pelos schistos, e no Mondego pelos schistos e granitos, os ultimos grosseiros e desaggregaveis, o que torna mais abundantes os materiaes transportados pelo Mondego, ainda além d'isso enriquecido com os transportes dos seus affluentes, que passam em terrenos semelhantes. Na segunda parte dos seus cursos ambos estes rios teem leitos muito largos, margens baixas, e apresentam um typo muito distincto do que têem superiormente.
O valle do Tejo, para áquem de Tancos, dilata-se a constituir as campinas da Gollega, Vallada, Azambuja, Chamusca, Almeirim e Salvaterra, avaliadas em 60:000 hectares, e que formam os ferteis campos do Ribatejo; a feição mineralogica do solo é então muito diversa; desapparecem os granitos e os schistos, predominam as camadas de grés, de argilla e calcareo, pertencentes ao periodo quaternario; o declive do leito do rio diminue, e de Tancos para baixo o Tejo transforma-se n'uma corrente de leito movel, deslisando no estio caprichosamente por uma vasta planicie e repartindo as suas aguas por diversos braços, emquanto no inverno transborda com as cheias e alaga todas essas enormes superficies. Os seus affluentes são torrenciaes, mais ou menos. Os depositos abandonados na linha de curso, conhecidos pelo nome de mouchões, obrigam a corrente a dividir-se em braços, corroendo os campos marginaes, e originando extensas goivas de um dos lados, emquanto do lado opposto a menor velocidade da agua abandona areias estereis. O Mondego apresenta, na segunda parte do seu percurso, phenomenos analogos; o valle onde corre tambem se alarga muito, é egualmente muito fertil, e tambem constituido pelos gréses, pelos calcareos e margas, sem a comparencia já dos granitos; as suas cheias estendem-se, do mesmo modo, em grandes superficies; tambem apresenta depositos no meio do leito, conhecidos com o nome de insuas, cuja formação e resultados podem comparar-se aos mouchões do Tejo.
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Finalmente, como ultimo typo, alguns dos nossos cursos d'agua que percorrem paizes menos accidentados e de formações geologicas menos antigas, como são os affluentes do Sado, alguns do Tejo, etc., teem valles pouco profundos, margens baixas, mas apresentam, em muitos casos, indole torrencial, alagando no inverno as terras visinhas, formando pantanos, corroendo as margens e abandonando depositos muito esterilisadores.
N'um paiz tão montanhoso, como é o nosso, a falta de revestimento florestal nas encostas das serranias, traduz-se n'uma perda enorme, pelo desaproveitamento de tanto chão, e pela falta de regimen das aguas correntes, com todas as ruinas, com todos os destroços que são a companhia inseparavel d'esse abandono.
Influencia dos arvoredos sobre as montanhas. - Os arvoredos podem impedir, ou attenuar, as acções desastrosas da agua anteriormente referidas; a sua influencia, em resumo, exerce-se dos seguintes modos:
1.º As florestas seguram as terras nas ladeiras, e por esse facto diminuem os materiaes arrastados pelos cursos de agua, ao mesmo tempo que aproveitam com os seus productos lenhosos e corticaes terrenos aliás desaproveitados.
2.º A manta da floresta, eminentemente porosa, diminue a fracção da agua da chuva que escorre ao longo do solo, e torna, por isso, as cheias dos rios menos volumosas e sobretudo menos repentinas.
3.º As florestas, diminuindo a evaporação do solo e augmentando, como dissemos, a quantidade da chuva, concorrem para tornar mais numerosos os cursos de agua, ao mesmo tempo que os regularisam pelo melhor regimen.
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4.º Se a arborisação das bacias hydrographicas melhora consideravelmente o regimen das aguas, o revestimento florestal nas margens baixas de alguns rios protege muito os campos visinhos, quebra a força da corrente, attenua os effeitos dos estoques d'agua e pode obrigar á deposição de ferteis colmatas.
Vejamos mais detalhadamente cada um d'estes pontos:
Quando o solo desnudado de vegetação é exposto em forte declive á acção das chuvas, como já dissemos, a agua escorre á superficie em grande quantidade, reune-se nas mais pequenas depressões, escava primeiro pequenos sulcos que dentro em breve se transformam n'outras tantas ravinas, arrasta a camada terrosa, começando pelos pequenos granulos até terminar nas pedras mais consideraveis, e por fim na montanha corroida e atacada, ou só ficam a descoberto as rochas subjacentes, se teem dureza sufficiente para resistirem ao ataque, ou se esta rocha é branda e facilmente desaggregavel continua a fragmentação, mudando o solo de relevo, para assim dizer, a cada instante, transportado para longe pela acção niveladora das aguas. Mas, se as arvores vestirem estas mesmas encostas, as coisas passam-se de um modo muito differente: as raizes consolidam o solo, envolvendo as particulas terrosas na rede das suas numerosissimas malhas; os troncos, os rebentões das raizes, os vegetaes arbustivos e herbaceos que se desenvolvem espontaneos sob as arvores quebram a cada passo a força da agua que escorre pelo terreno, e tornam a corrosão muito menos energica; por outro lado, as folhas e os ramos da copa attenuam a força da chuva, ficando o solo menos comprimido e com maior poder de imbibição, emquanto a folhada e a camada humifera, muito esponjosas, augmentam extraordinariamente este poder, como dissemos, auxiliadas ainda estas acções pelas raizes, que estabelecem uma especie de drenagem ao longo da qual se divide a toalha liquida superficial, dando-se muitas infiltrações.
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As florestas operam na montanha segurando-lhe a terra, augmentando a infiltração da chuva, diminuindo a agua que escorre superficialmente, aproveitando superficies abandonadas; atacam na origem os perniciosos effeitos das correntes, diminuindo os materiaes terrosos por ellas arrastados, dando-lhes indole menos torrencial e melhor regimen; isto é - fazem com que o nivel das aguas correntes não baixe tanto no estio, não suba tão alto no inverno, e que as cheias sejam menos repentinas e menos prejudiciaes. Surell e Demontzey citam factos do apparecimento de torrentes (na accepção que ligam a esta palavra) com todos os seus effeitos desastrosos, pelo simples corte de arvoredos, e factos reciprocos.
N'um paiz em que o desenvolvimento da população obriga a aproveitar, pela cultura arvense, as terras mais ferteis, mais fundas, menos inclinadas, a exploração das arvores silvestres colloca-se naturalmente nas areias moveis do littoral, nas charnecas aridas do interior, e nas ladeiras das montanhas, onde teem a representar ao mesmo tempo papeis tão complexos e tão bemfazejos.
Entre a floresta e a montanha existe um complicado jogo de harmonias as mais intimas. Os lenhos adquirem nas regiões montanhosas qualidades de dureza, de resistencia e densidade que os torna muito apreciados. As arvores, fixando e enriquecendo os solos das montanhas, contribuem para fixar egualmente e desenvolver ali a população indigena, que, reflectindo, como as arvores, a aspereza do clima natal, é tão caracteristica pela sua energia, robustez e amor ao trabalho; aliás, dos serros escalvados e despidos, d'onde a terra vegetal productiva foi desaggregada, onde as torrentes passam entregues a si proprias, seguidas da ruina e do estrago, a emigração dá-se, em extraordinaria escala, para os paizes mais favorecidos; esta falta das arvores acarreta a perda do solo e a perda da população.
As montanhas da Europa estavam cobertas de arvoredos espontaneos, e o seu desnudamento foi obra dos homens. A ruina d'estas montanhas proveiu do córte impensado das arvores, e da pastoreação abusiva dos rebanhos nos espaços desguarnecidos; os rebanhos aggravam e apressam o desmoronamento das terras, sobretudo quando o revestimento vegetal é fraco, porque os animaes roem as plantas e arrancam algumas, esmagam as que vem a nascer, e destacam numerosas pedras e particulas terrosas.
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Em Portugal aconteceu isto mesmo, como diremos n'outro logar. A maior parte do paiz estava coberta de grandes matos e de florestas apertadas, onde os animaes bravios se acoitavam; os documentos historicos ainda se referem a muitos d'esses arvoredos. Se era de necessidade e de vantagem o córte de muitos d'elles, para arrotear campos para a lavoura, os córtes exagerados, em sitios onde o chão se não prestava a outras culturas, e que ficaram ermos e despidos, trouxeram as funestissimas consequencias anteriormente esboçadas. O problema hoje, na maior parte d'estes casos, reduz-se apenas a procurar renovar as antigas e naturaes condições: não se trata de uma arborisação, mas de uma rearborisação.
Mas as florestas, ao mesmo tempo que regularisam as correntes, dando-lhes um regimen muito mais constante - e debaixo d'este ponto de vista são verdadeiros diques contra as inundações - tambem augmentam as aguas das fontes e nascentes, com decidida vantagem para a cultura, facilitando as regas em maior escala.
O augmento das aguas subterraneas nos paizes arborisados resulta da maior infiltração que se dá n'esses terrenos, motivada, como dissemos já, pelas propriedades physicas da manta da floresta, pela drenagem natural que as raizes das arvores constituem, pelos obstaculos numerosos encontrados pela parte da chuva que escorre superficialmente, bem como pela diminuição de evaporação.
Citam-se numerosos exemplos do apparecimento de fontes, depois de arborisados certos tractos de terrenos, e, pelo inverso, factos de seccarem outras, em seguida ao córte de determinados massiços. Referiremos um unico d'estes exemplos, citados pelo conde de Bouvoir na sua Voyage autour du monde, e transcripto na obra referida de A. Surell: - «... Na Australia o grande mal é a secca; o dr. Müller destina quasi todos os fundos do Jardim Botanico de Melbourne a combatel-a, e consegue-o. Repartiu, no interior, milhões de arbustos nascidos nos seus viveiros; pequenos regatos se formam rapidamente n'esses massiços novos. Os resultados são já soberbos, e cada anno se reconhecem outros mais. Em terras aridas e nuas creou, em mais de cem pontos, outros tantos bosques e outros tantos regatos.»
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Advertiremos, todavia, que estas acções das florestas sobre o regimen dos cursos de agua, e sobre o augmento das fontes, teem sido negadas por alguns escriptores, entre os quaes especialisaremos o sr. Vallés. No emtanto, depois dos estudos de Surell, Cezanne, Demontzey, Ebermayer, etc., esta acção é evidente e indiscutivel.
A resolução d'este vasto problema da consolidação das montanhas e regularisação das suas correntes abrange os trabalhos de arborisação na bacia da corrente e ao longo do seu curso, e trabalhos hydraulicos especiaes - barragens, revestimentos, etc. - que teem de completar a obra efficaz das arvores. A vegetação lenhosa ao longo das margens dá protecção efficacissima, ajudando a suster com as raizes a terra, e quebrando em parte a força com que o liquido vem animado. Adiante trataremos da pratica d'estas arborisações.
Muito embora tenhamos no paiz tantas montanhas, que conviria vestir de arvoredos, nada ainda entre nós se tem tentado a este respeito: continuam desaproveitadas tão grandes superficies, e os cursos de agua, que d'ali se despenham, continuam a evidenciar, com as ruinas e destroços que provocam, as funestas consequencias d'aquelle abandono.
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Arborisação das dunas e das montanhas são dois problemas dos mais importantes da nossa silvicultura. Para a resolução do primeiro alguma coisa se tem trabalhado, embora pouco; o segundo é completamente novo para Portugal.
(C). - Infuencia das florestas na formação dos solos agricolas, no seu enxugo e fertilidade
As raizes das arvores teem um grande poder de penetração, mesmo nos solos duros e pedregosos. Em algumas circumstancias, se a rocha é atacavel, conseguem atravessal-a, perfurando-a, ou esfarelando-a com os seus succos acidos. Outras vezes as radiculas introduzem-se pelos mais pequenos intersticios, pelas mais ligeiras fendas das rochas, e com a sua expansão, quando engrossam, operando como verdadeiras cunhas, conseguem desunir e fragmentar as especies mineralogicas mais duras e resistentes.
Debaixo d'este ponto de vista as arvores podem considerar-se grandes preparadoras do solo agricola; profundando primeiro a terra, pela fragmentação da rocha subjacente, e enriquecendo-a depois com os seus detritos organisados.
Já nos referimos n'outro logar ao modo por que as florestas augmentam a fertilidade do solo e a importancia d'esta acção. Emquanto as culturas arvenses diminuem a riqueza da terra a ponto da continuação d'essas culturas, no mesmo logar, ser possivel só com o auxilio de grandes estrumações, uma revolução unica de alto fuste torna muitas vezes um terreno quasi esteril em terreno fertil.
A acção das florestas como preparadoras e melhoradoras do solo agricola é evidente; o córte de muitos massiços florestaes tem sido instigado não só pelo valor dos productos lenhosos, como tambem pela cubiça de sujeitar á cultura arvense, de muito mais prompta e facil realisação, o terreno enriquecido com os despojos da mata. Em muitos d'estes casos a cultura nos primeiros annos tornou-se vantajosissima, mas o solo depressa esgotado, pela falta da conveniente adubação, negou-se depois a produzir com lucro, e afinal, abandonado, esse espaço, antigamente coberto de viçosa e forte vegetação lenhosa, transformou-se n'uma charneca sáfara, mal vestida com algum mato rasteiro.
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Sobre as terras pantanosas as arvores podem ainda exercer uma influencia bastante notavel, que vamos accentuar em poucas palavras.
A humidade excessiva do solo, sobretudo quando provém de agua estagnada, não é favoravel nem ás culturas herbaceas, nem ás culturas lenhosas; é ponto este incontroverso. Em taes terrenos só as junças e juncos, os caniços, espadanas, etc., se desenvolvem bem (exceptuando a insalubre cultura do arroz); as arvores, ou não podem viver, ou vivem mal, e ficam com os lenhos muito pouco consistentes e pouco aturadiços.
Racionalmente, antes de entregar á cultura um terreno encharcadiço, deve-se enxugal-o. Mas se, em these geral, se pode quasi sempre sustentar a conveniencia d'este enxugo quando se trate das culturas arvenses, nem sempre o mesmo se pode dizer quando tenha de se empregar a exploração florestal, vistas as despezas d'aquellas obras, e o pequeno rendimento dos massiços de arvores. N'este caso é possivel, muitas vezes, utilisar esses terrenos sem o enxugo prévio, empregando as essencias melhor adaptadas a esse meio especial, e sujeitando-as a processos particulares de plantação e tratamento.
A floresta pode até modificar muito efficazmente aquellas más propriedades do solo, diminuindo-lhe a humidade, e varios exemplos se podem citar em abono d'esta asserção.
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Á primeira vista não se comprehende esta affirmativa; os arvoredos, como sabemos, diminuem a evaporação do solo, e portanto parece que deviam antes exacerbar do que corrigir aquelle erro. Mas, em contraposição, as arvores consomem grandes quantidades de agua (tanto mais quanto mais rapido for o seu crescimento e mais abundante a folhagem, e d'isto se devem tirar indicações para a escolha e adaptação das essencias), e além d'isso abrem com as raizes o sub-solo impermeavel, constituindo uma drenagem natural, por onde a agua se infiltra e escôa nas camadas mais profundas, emquanto, por outro lado, a manta, dotada de forte poder de imbibição, chama a si, retem, quantidades grandes de agua, como vimos.
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AUCTORES PRINCIPALMENTE CONSULTADOS N'ESTE LIVRO III.
CH. CONTEJEAN. - Géographie Botanique. Influence du terrain sur la végétation. Paris, 1881.
J. VALLOT. - Recherches physico-chimiques sur la terre végétale et ses rapports avec la distribution géographique des plantes. Paris, 1883.
L. GRANDEAU. - Annales de la Station Agronomique de l'Est. Paris, 1878.
CARLOS RIBEIRO e J. DELGADO. - Relatorio ácerca da arborisação geral do paiz. Lisboa, 1868.
GERARDO A. PERY. - Geographia e estatistica geral de Portugal e colonias. Lisboa, 1875.
B. BARROS GOMES. - Cartas elementares de Portugal. Lisboa, 1878.
ELISÉE RECLUS. - Les phénomènes terrestres. Paris, 1882.
CARLOS. A. DE SOUSA PIMENTEL. - Pinhaes, soutos e montados. Lisboa, 1882 (1.ª parte: Pinhaes).
JOSÉ BONIFACIO DE ANDRADA E SILVA. - Memoria sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques em Portugal. Lisboa, 1815.
F. MARIA PEREIRA DA SILVA e CAETANO M. BATALHA. - Memoria sobre o pinhal nacional de Leiria. Lisboa, 1859.
BAUDRILLART. - Dictionnaire général des eaux et forêts. Paris, 1823.
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RELATORIO DA ADMINISTRAÇÃO GERAL DAS MATAS, relativo ao anno economico de 1879-1880. Lisboa, 1881.
A. SURELL. - Études sur les torrents des Hautes Alpes, deuxième édition, avec une suite par Ernest Cezanne. Paris, 1870-1872.
P. DEMONTZEY. - Traité pratique du reboisement et du gazonnement des montagnes. Paris, 1882.
VITTORIO PERONA. - Trattato di selvicoltura. Firenze, 1880.
ADOLPHE E. DUPONT et BOUQUET DE LA GRYE. - Les bois indigènes et étrangers. Paris, 1875.
F. VALLÉS. - De l'aliénation des forêts aux points de vue gouvernamental, financier, climatologique et hydrologique. Paris, 1865.
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C. S. 20
LIVRO IV
Essencias florestaes
Dividiremos as arvores silvestres, cujo estudo vamos emprehender, em tres agrupamentos; incluimos no primeiro as essencias verdadeiramente importantes na arborisação florestal do paiz; no segundo as arvores silvestres que não se encontram em massiço, e só existem isoladas, ou em pequenos grupos, ou misturadas com as outras essencias, bem como os arbustos mais vulgares nas florestas; no terceiro agrupamento incluimos as especies exoticas já hoje um pouco introduzidas, e cuja exploração silvicola conviria propagar.
1.º - ESSENCIAS PRINCIPALMENTE IMPORTANTES NA ARBORISAÇÃO FLORESTAL DO PAIZ