Chapter 20
A manta, porosa, fôfa, com muito ar interposto nos seus numerosos vazios, impede o terreno de aquecer e resfriar com facilidade, conserva-lhe a humidade, diminue-lhe a evaporação e embebe grandes quantidades d'agua que, pouco a pouco, infiltra nas camadas inferiores. Restitue ao solo uma parte muito importante das substancias mineraes soluveis, que elle cedera á vegetação; enriquece-o com uma grande quantidade de materia organica, que, se não é alimento directo das plantas, concorre muito efficazmente para essa alimentação, promovendo a solubilidade de muitos corpos na terra quando, ao decompor-se, obriga a entrarem em novos agrupamentos os compostos que lhe estão proximos.
279
Em cultura florestal, como veremos, o bom tratamento dos massiços anda preso ao modo de constituir a maior espessura possivel de folhada sobre o terreno, conservando-o sempre vestido de arvores, e protegendo assim esses detritos agglomerados, da acção do calor que os secca, e do vento que os espalha e lhes rouba humidade. A presença da manta nas florestas dá o motivo porque ellas aturam em boa vegetação durante muitos annos, durante mesmo muitos seculos, sem o auxilio de adubos, sem empobrecerem, antes fertilisando o terreno, emquanto os campos agricultados se esgotam em muito menos tempo, quando não recebem fortes estrumações.
Tirar a manta das florestas para adubo dos campos, ou para cama de gados, representa sempre uma perda importante para as arvores, que se traduz afinal n'uma producção menor em unidade de superficie, n'uma quantidade de lenho a menos. Desejando insistir n'este ponto, apresentamos na tabella seguinte reunidos todos os valores citados anteriormente, e onde se pode vêr expresso em kilos, quanto fica empobrecido um hectare com a tirada d'esses despojos vegetaes caidos durante um anno:
280
PERDA POR HECTARE (por anno)
FOLHAS DE
Faya (F. silvatica, L.)
Abeto (A. excelsa, DC.)
Pinheiro
Agua . . . 722k,00 522k,00 515k,00
Materia organica . . . 3147,00 2872,00 3138,00
Na materia organica.
carbonio . . . 1498,00 1358,00 1435,00
azote . . . 33,00 39,00 38,00
Materias mineraes . . . 185,50 135,90 46,50
Na materia mineral.
potassa . . . 9,87 4,82 4,84
cal . . . 81,92 60,94 18,87
magnesia . . . 12,22 6,95 4,80
acido phosphorico . . . 10,45 6,41 3,68
silica . . . 60,36 49,60 6,53
5.º - ACÇÕES DAS FLORESTAS SOBRE O SOLO
(A). - Influencia das florestas sobre as areias moveis da beiramar
Na orla littoral dos continentes, nos pontos onde a costa se levanta em pendor suave sobre o mar, encontram-se geralmente depositos de areias soltas; estas areias resultam, na maior parte, da desaggregação das rochas marinhas pelas correntes e pelo embate das ondas, que depois as vomitam na praia; a principio os granulos arenaceos dispõem-se em camadas successivas, lisas, unidas, tendo uma tal ou qual consistencia, dada pela agua que lhes serve de cimento, mas no baixa-mar a evaporação os secca e desliga dando-lhes extrema mobilidade.
281
N'esse estado o vento destaca facilmente a porção mais superficial da areia, e transporta-a a maior ou menor distancia, conforme a violencia com que sopra; ao primeiro extracto succede um outro, e dentro em breve a superficie areiada pode ser muito consideravel. Quando a areia na queda encontra um qualquer obstaculo, por pequeno que seja, um tufo de plantas, um rochedo, um madeiro, etc., agglomera-se n'esse ponto e constitue, em pouco tempo, uma grande saliencia. A força do vento é quebrada pelo pequeno obstaculo; a areia, por isso mesmo, deposita-se ahi, apresentando talude pouco inclinado para a parte do mar; novas camadas se vão assim depondo, galgam afinal o cume do corpo estranho, que as obrigou a tomarem aquella fórma e, augmentando sempre, originam uma vertente muito mais inclinada do lado da terra, por onde as areias novamente arremessadas se despenham.
Tal é a origem das dunas, ou medões. As montanhas de areia formadas na praia d'este modo variam continuamente no seu relevo, com a intensidade e a direcção variaveis do vento, no emtanto conservam quasi sempre, mais ou menos, a fórma typica que descrevemos: sobem do lado do mar com pequeno declive (entre 7 e 12 ou 20°, em relação ao horisonte), e ganham muito maior inclinação do lado opposto (30 a 50°).
Se, n'um dado logar, a força impulsiva do vento actuasse durante o anno ora do mar, ora da terra, mas com resultantes finaes identicas para um e outro lado, as areias umas vezes caminhariam para o interior, outras vezes voltariam para o mar, sem nunca excederem uma determinada linha. Mas, se vento do mar for mais aturado e mais intenso, as areias invadirão os continentes pouco a pouco, areiando uma faxa continuamente crescente. É isto que em muitos pontos do globo acontece.
Portugal tem uma linha de costa muitissimo desenvolvida; esta costa, baixa e desprotegida de rochedos em muitos pontos, recebe quantidades consideraveis de areia; o noroeste dominante, e ainda o oeste, impellem aquelles depositos siliciosos para o interior. É sobre todos pernicioso o primeiro d'aquelles ventos, mais ponteiro e forte na estação secca, quando as areias estão mais soltas; a direcção habitual das nossas dunas é de noroeste a sueste.
282
A altura d'estes medões de areia é muito variavel. Na Gascunha, segundo E. Reclus, alguns chegam a exceder 75m, podendo medir 80m, e mais; nas praias baixas d'Africa, as dunas do Cabo Bojador e as de Cabo Verde attingem 120 e 180m. Nas nossos praias, segundo o sr. Carlos A. de Sousa Pimentel, variam habitualmente entre 10 e 20m, chegando em alguns casos a 50m, e ainda mesmo a maior altura.
A areia impellida do mar, quando galga o cume de uma duna, fórma ás vezes outra parallela, começando no sopé da primeira o declive menos inclinado da segunda, que egualmente apresenta a configuração typica, tomando um talude muito mais rapido do lado da terra. Outras vezes é no dorso da primitiva duna, que a outra mais nova se origina, servindo-lhe de nucleo um qualquer obstaculo existente ali. Esta configuração em series parallelas é frequente, mas nem sempre existe; o vento, quando sopra forte, altera a regularidade a cada instante, faz e desfaz montanhas enormes de areia, quasi com a mesma facilidade com que faz e desfaz as ondas no Oceano.
A invasão progressiva das areias pelo interior dos continentes traz comsigo effeitos perniciosissimos: os campos cultivados e as povoações ficam sepultados sob a enorme toalha; as fozes dos rios obstruidas difficultam ou impossibilitam a navegação; os cursos de agua são, muitas vezes, obrigados a mudar de leito, e as aguas interiores represadas, em alguns casos, formam pantanos, muito prejudiciaes para a salubridade publica.
Todos estes desastres teem sido occasionados pelas dunas em Portugal: roubam vastissimos tractos á cultura e como prova basta vêr a superficie enorme que ellas occupam. Os srs. Francisco Maria Pereira da Silva e Caetano Maria Batalha, na sua Memoria do Pinhal Nacional de Leiria, citam a villa de Paredes, proxima ao mesmo pinhal, que era ainda bastante povoada no seculo passado, e hoje está coberta de areia; o sr. Carlos A. de Sousa Pimentel refere-se á villa de Lavos, como tendo soffrido uma egual sorte. Segundo os srs. Delgado e Carlos Ribeiro, no Relatorio ácerca da arborisação geral do paiz, as pequenas lagoas de S. Thiago do Cacem, de Melides, Albufeira, da Tocha, de Mira, etc., são produzidas pelo caminhar das dunas. As fozes dos rios Liz, Vouga, e outros, encontram-se muito damnificadas, e os seus leitos muito areiados.
283
O terreno arido e extremamente mobil, coberto de areias tão soltas, constitue verdadeiros desertos improductivos, e muitas vezes difficeis de atravessar, quando o vento sopra com força, fustiga com as innumeras particulas siliciosas que traz suspensas, e revolve a superficie do solo, variando-lhe o relevo a cada instante. Estes perigos são ainda aggravados, em sitios, com a existencia dos tremedaes, verdadeiros atoleiros formados nos valles estreitos entre dois medões proximos; dentro da agua ali abrigada e quieta os granulos de areia caídos das dunas visinhas descem sem movimento forçado, e sustentam-se em equilibrio, formando uma serie de pequenas abobadas sobrepostas, que por fim se elevam já fóra do liquido, seccam á superficie e encobrem o precipicio sub-jacente; frageis construcções, destruidas ao mais leve choque.
O caminho percorrido annualmente pelas dunas, para o interior dos continentes, é muito variavel; depende da intensidade do vento e da natureza e mobilidade das areias. O sr. Carlos A. de Sousa Pimentel, no seu livro os Pinhaes, calcula que as dunas situadas entre o Liz e o Mondego, e as d'entre Quiaios e Ovar, não terão um avanço médio inferior ao que foi determinado por Bremontier para as dunas da Gascunha - 20m a 25m por anno. Comparando as larguras do areial entre Ovar e o pinhal de Leiria, taes como as aponta José Bonifacio de Andrade e Silva na Memoria sobre o plantio de novos bosques em Portugal, e as larguras actuaes, o sr. Pimentel verificou que as distancias são as mesmas nos pontos immobilisados (parecendo isto indicar a exactidão da medida) sendo o augmento, nos pontos não fixados, tão consideravel que corresponde a um avanço annual d'entre 20 a 40m; percurso muito grande, mas de que em França ha já exemplos. Faltam-nos, no emtanto, em Portugal, dados positivos a este respeito.
284
Nos sitios onde a praia de areia está protegida do lado da terra por uma cortina de rochedos, a maior ou menor distancia, a formação das dunas torna-se impossivel e a areia apenas se depõe na estreita faxa da praia. Do mesmo modo as dunas não se formam nos logares onde as rochas se levantam logo sobre as ondas, sem apparecer a descoberto nenhuma tira de areia.
Todavia em terras altas do nosso paiz, mais no interior, encontram-se alguns tractos consideraveis cobertos pelas dunas, cuja formação de certo remonta a uma época geologica anterior, tendo-se dado já depois o levantamento dos terrenos sobre que essas areias descançam. Taes dunas apresentam uma grande differença comparativamente ás que vem terminar no Oceano; as ultimas augmentam sempre com a junção de novos materiaes trazidos pelas ondas, emquanto as primeiras avançam tambem para o interior dos continentes (embora com menos rapidez), promovem do mesmo modo todos os estragos peculiares a estas invasões, mas não se renovam com a entrada de novos materiaes. Entre Aljezur e Sines, entre a Nazareth e as Pedras Negras existem dunas separadas do mar pelos rochedos; e no Camarção, ao sul do pinhal de Leiria, encontram-se internadas e mais distantes ainda do mar.
285
O Relatorio ácerca da arborisação geral do paiz calcula a extensão aproximada coberta pelas dunas em 72:000 hectares; em alguns sitios os areiaes da costa entram muitos kilometros pela terra dentro. Se depois de escripto aquelle relatorio (1868) algumas areias teem sido fixadas com arvoredos, em compensação a superficie invadida tem progredido tambem para o interior, e infelizmente o avanço annual é muito superior aos trabalhos que lhe tem sido oppostos. O sr. Pimentel, no livro acima referido, calcula a área occupada pelas nossas dunas (1882) não inferior a 50 ou 60:000 hectares.
O meio de tornar productiva uma tão grande superficie, onde exclusivamente reinam a aridez e a desolação, o meio de impedir os effeitos desastrosos do deslocamento das areias, fixando as que já existem nos continentes e impedindo a agglomeração de outras novas, é o emprego conveniente da arborisação.
As raizes das arvores, alargando-se em todos os sentidos, profundando muito n'aquelle meio pouco resistente, dão-lhe uma certa cohesão; as folhagens da copa abrigam contra o vento a camada superficial, a primeira que se devia levantar se a duna caminhasse; a sombra das arvores modifica as propriedades da areia; a menor evaporação conserva-lhe um pouco mais a humidade; diminue o calor absorvido e reflectido; os pequenos arbustos e sub-arbustos, as plantas herbaceas, principalmente as vivazes, desenvolvidas sob a protecção das arvores, mais concorrem para vestir e segurar a camada superficial; os detritos vegetaes accumulados em manta espessa modificam ainda, com grande energia, as propriedades physicas e corrigem pouco a pouco as propriedades chimicas, transformando solos tão estereis em outros ricos e bons. Ás primitivas essencias florestaes empregadas, rusticas e pouco exigentes, podem então succeder, muitas vezes, outras menos sobrias, com tanto que a exploração seja racionalmente dirigida, não ficando nunca o chão descoberto e desprotegido. Ao mesmo tempo que os arvoredos immobilisam d'esta fórma as areias movediças, os trabalhos executados ao longo da costa, teem estabelecido uma duna artificial, com um determinado declive para o mar, vestida efficazmente de vegetação apropriada, por onde novas areias não podem galgar, evitando-se d'este modo que as sementeiras mais da orla fiquem soterradas.
286
Os granulos constituitivos das dunas apresentam composição mineralogica um pouco diversa, conforme as praias onde forem estudados. As mais das vezes são siliciosos, mas em alguns sitios são, mais ou menos, calcareos, como principalmente em alguns pontos da Normandia e da Bretanha. As propriedades physicas e chimicas d'estes depositos, tornam-os muito pouco propicios ao desenvolvimento da vegetação inicial: aquecem com muita facilidade, perdem a agua com grande rapidez, são muito pobres em substancias alibeis ás plantas, etc.; no emtanto a falta de cohesão, a sua mobilidade extrema, é o principal obstaculo que os vegetaes ali encontram para viver; com effeito, nos sitios onde a areia, mais abrigada, estaciona mais tempo, apparece logo espontanea uma flora caracteristica, comprehendendo especies sobrias, que toleram a presença do sal marinho, de ordinario com os systemas subterraneos muito desenvolvidos, para melhor se prenderem, e pesquisarem n'um campo de acção mais largo os escassos elementos mineraes nutritivos ali existentes.
A parte mais internada das dunas, segundo parece, ao depois de ter feito grandes estragos e esterilisado vastissimas superficies, pode modificar lentamente as suas propriedades physicas e chimicas, fixando-se pouco a pouco, se o homem não intervier em sentido contrario, como infelizmente acontece quasi sempre. No dizer do sr. E. Reclus, umas vezes é o oxydo de ferro, existente na agua das fontes, que immobilisa as areias, transformando-as afinal em verdadeiros rochedos; n'outras partes são cimentos organisados, que intervem, conchas quebradas, restos de infusorios; as plantas vivazes representam um grande papel tambem na obra de consolidação: assim que podem firmar-se em alguma parte do areial, seguram-o com as suas raizes e rhizomas, e promovem, no fim de seculos, a accumulação de uma leve camada de terra vegetal, que então permitte o desenvolvimento das arvores, se os rebanhos não vierem roer e destruir as primeiras hervas. Ainda segundo o sr. E. Reclus, todos os documentos historicos reunidos sobre este assumpto indicam a existencia de florestas espontaneas sobre as dunas; foi o corte irreflectido d'estes arvoredos que provocou a mobilidade invasora das areias actuaes.
287
Entre nós os pinhaes de Leiria, dos Medos, do Vallado, Pedrogão e do Urso, que teem seculos de existencia, assentes, como são, sobre dunas, podem mostrar com a maior evidencia quanto os massiços d'arvores aproveitam e melhoram os terrenos arenosos do littoral.
Modernamente - desde os fins do seculo passado até ao presente - tem-se arborisado em Portugal alguns pontos - «especialmente ao sul da praia da Vieira, entre o Oceano e o pinhal de Leiria, e nos areiaes que ficam entre o rio Liz e o Mondego, onde já estão fixadas algumas dunas nas costas de Lavos, no Urso e no Pedrogão.»
Segundo o sr. Carlos A. de Sousa Pimentel, de cujo livro transcrevemos o ultimo periodo - «é n'estes pontos que se tem concentrado o que até agora se tem feito n'este genero de operações, que todavia não excede 1:200 hectares. Algumas dezenas de hectares que todos os annos se semeiam estão longe de compensar a larga superficie de terrenos que as areias vão conquistando em todo o littoral.»
No livro especial nos referiremos á pratica d'estas arborisações.
288
(B). - Influencia das florestas na consolidação dos terrenos das montanhas, e na regularisação dos cursos d'agua
Idéas geraes. - A agua da chuva, logo depois de cair, divide-se em tres partes: uma parte infiltra-se no terreno, profunda mais ou menos, até encontrar uma camada impermeavel, circula subterraneamente, e rebenta ao depois á superficie constituindo as fontes; uma outra parte evapora-se e volta para a atmosphera; a outra parte, emfim, escorre ao longo do terreno e vem juntar-se nas linhas de maior despresão, nos thalwegs, formando os rios, e os outros cursos de agua a descoberto.
Estas tres partes em que se divide a chuva ao cair teem valores relativos muito diversos, segundo as propriedades do solo e o seu relevo, segundo as variantes do clima, e as estações, mas são sempre complementares: a somma das tres prefaz a agua caida inicialmente; logo, ao augmento de uma das partes corresponde a diminuição das outras.
Quanto menos permeavel e fofo é o solo, bem como quanto maior é a sua inclinação sobre o horisonte, menor é a quantidade da agua infiltrada, maior o volume que se reune nos thalwegs. Nos paizes montanhosos, que estejam n'aquellas condições, os cursos d'agua são numerosos, encontram-se geralmente fechados em valles profundos e estreitos, teem declives fortes por onde a agua se despenha com força, avolumam repentinamente com as cheias, muito consideraveis e subitas, porque recebem, a bem dizer, quasi toda a agua caida na sua região, e recebem-a logo emseguida á queda. Pelo inverso, nos paizes de planicie, os cursos d'agua são habitualmente em menor numero, teem leitos mais largos e com declive suave para o mar, apresentam as margens baixas, e as cheias são n'elles menos volumosas e menos repentinas, porque a infiltração maior dos solos marginaes só pouco a pouco deixa reunir as aguas nos valles.
289
Quando a agua escorre ao longo das terras, obedecendo á lei da gravidade, produz resultados mechanicos de desaggregação e de corrosão tanto mais consideraveis quanto mais desaggregavel for a natureza mineralogica do solo, quanto mais aprumada a vertente, e quanto maior a força da chuvada. Nas montanhas de encostas muito inclinadas e de terreno esboroadiço, onde as tempestades são de ordinario frequentes, este effeito é maximo. Logo que a chuva começa a cair, a agua reune-se nas menores depressões e arrasta as particulas terrosas, que servem de apoio aos fragmentos das pedras grandes e pequenas; obriga estas pedras a perderem o equilibrio e precepita-as, de envolta com a terra, no fundo do valle. Os materiaes assim despegados da parte superior das vertentes arrastam na queda muitas outras pedras e terra collocadas mais abaixo; e a montanha escava-se, primeiro em pequenos sulcos, depois em grandes regueiros, em boqueirões e ravinas. A saraiva, pela sua maior força, ainda promove destroços mais pronunciados.
Se o terreno é de facil corrosão, quando todas aquellas substancias se precipitam com força no thalweg, cavam profundamente o leito do curso d'agua, corroem-lhe a margem, obrigam-o a desviar-se e a incidir sobre a outra margem, que em pouco tempo é desfeita e corroida tambem.
É na occasião do derretimento das neves sobre as altas montanhas, ou com as grandes chuvas de trovoada, que as aguas se agglomeram em maior quantidade, e as cheias são mais funestas.
Todas as correntes transportam em suspensão, mais ou menos, substancias terrosas; insignificantes estes transportes em algumas d'ellas, tornam-se pelo contrario n'outras volumosissimos. A natureza geologica das bacias hydrographicas e a sua inclinação, assim como a intensidade e frequencia dos hydrometeoros, do mesmo modo que influem na corrosão das vertentes, actuam na quantidade dos materiaes transportados; este transporte é consequencia d'aquella corrosão. Nos paizes montanhosos, pelas razões acima expendidas, as substancias arrastadas pelos cursos d'agua são sempre em maior abundancia, e constituem depositos mais grosseiros e esterilisadores do que nos paizes planos.
C. S. 19
290
Quando o declive do leito do rio diminue de um certo ponto por diante, ou quando a secção transversal augmenta, e muito mais se concorrem as duas causas, diminue a rapidez da corrente, e os corpos estranhos depositam-se. A natureza geologica e a disposição orographica dos terrenos superiores influem muito, como dissemos, na qualidade d'estes depositos, mas não influe menos o grau de diminuição na força impulsiva da corrente. De ordinario, nos pontos onde o curso de agua passa, sem se demorar, e ainda animado de uma certa velocidade, embora menor que a velocidade trazida até ali, os depositos são grosseiros, calhaus rolados, e areias esterilisadoras, porque as particulas menos pesadas são arrastadas pela força que ainda a agua conserva. Nos logares onde a agua se demora e faz remanso é onde estes polmes mais tenues se depositam, constituindo, em innumeros casos, alluviões e nateiros da maior fertilidade.
Os cursos de agua são um elemento de incalculavel riqueza nos paizes que atravessam; augmentam-lhes a humidade, tornam possiveis as regas em pontos numerosos, são um meio de transporte muito economico, prestam a sua força a muitas industrias pondo em acção as rodas hydraulicas, podem constituir com os seus depositos campos feracissimos, etc.; mas, em contraposição, a falta de regimen das aguas correntes, torna-as, em muitos casos, em logar de elemento de vida e de riqueza, um elemento de ruina e de morte, alagando, corroendo, esterilisando com as suas cheias as terras marginaes e destruindo ás vezes as povoações visinhas.
Tudo quanto nas montanhas concorrer para augmentar o poder de imbibição dos solos e para quebrar a força corrosiva da agua, contribue muito efficazmente para a regularisação das correntes nascidas ahi. Quando a acção inconsiderada do homem abate as florestas naturaes nas bacias dos cursos d'agua, quando apascenta grandes rebanhos pelas suas ladeiras inclinadas, rebanhos que destroem parte da vegetação rasteira e ajudam a despegar a terra vegetal, a ruina é dupla, porque na montanha o solo perde-se arrastado pela chuva, e no valle, a corrente engrossando á mais pequena chuvada, invade e areia as terras proximas, como dissemos, tornando improductivas grandes superficies.
291
Em França, no departamento dos Alpes Superiores, estas acções patenteiam-se n'uma escala enorme, auxiliadas pela natureza do terreno, composto em grande parte por diversas formações calcareas muito facilmente desaggregaveis. As ruinas attingem ali uma proporção verdadeiramente assombrosa.
Os cursos d'agua podem grupar-se em diversas classes, conforme os phenomenos que patenteiam. A. Surell, nos seus classicos estudos sobre as torrentes dos Alpes Superiores, classifica em quatro grupos principaes os cursos de agua originados nas grandes montanhas.
1.º - Os rios. Caracterisados pela grande largura dos valles onde correm, pelo volume consideravel da agua que reunem e pela demora e persistencia das cheias. Correm sob uma pequena inclinação, inferior a 0m,015 por metro. Divagam n'um leito muito largo, chato, de que apenas occupam uma estreita faxa (isto é, abrem de quando em quando novos caminhos no grande leito que teem ao seu dispor, abandonando com frequencia o caminho antigo).
2.º Os rios torrenciaes. - Teem valles menores e mais apertados; correm sob inclinações inferiores a 0m,06 por metro; recebem menor volume d'agua; não divagam, ou divagam pouco, porque a fundura e a consistencia das margens lh'o não permittem.
19*
292