Curso de Silvicultura

Chapter 2

Chapter 23,542 wordsPublic domain (Wikisource)

Independentemente do seu papel como apparelho fixador, as grossas ramificações subterraneas ainda por outras fórmas contribuem para a vida vegetal; estabelecem, por determinados tecidos, a communicação entre as radiculas e o tronco, dando passagem aos principios immediatos constituidos na parte aerea, sob a acção da luz, e necessarios para a organisação do systema descendente, como dão passagem, em direcção inversa, á agua e aos mineraes soluveis tirados do solo, e que egualmente se tornam precisos para a formação do systema ascendente. Ainda mais, as grossas ramificações da raiz, desenvolvendo-se na terra, alargam o campo de acção das radiculas presas nas suas extremidades, e augmentam assim o cubo de alimentação da planta, do mesmo modo por que, na parte aerea, os ramos caulinares espalham as folhas na atmosphera, tornando-lhes mais favoravel o accesso da luz e a renovação do ar.

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Existe uma relação, mais ou menos prefixa, para cada especie, entre o desenvolvimento da parte aerea e radicular. Mas esta relação, mesmo em egualdade de circumstancias, até para cada individuo, varia com a edade, podendo dizer-se que é maxima a raiz no primeiro tempo da vida da planta, comparativamente ao tronco. Quanto ao numero das ramificações, comparados os dois systemas, aereo e subterraneo, o primeiro apresenta, de ordinario, n'um espaço egual, menor numero de divisões que o segundo.

Raizes adventicias e raizes latentes. - Já dissemos o que são raizes adventicias e em que se differençam das raizes normaes. As raizes adventicias podem apparecer expontaneamente, ou provocadas por certas praticas de cultura, mas n'um e n'outro caso a facilidade com que se desenvolvem varia muito, segundo as essencias. Os pontos onde se originam com mais frequencia são aquelles onde ha um entumecimento de qualquer ordem: um nó, os bordos de uma ferida, o engrossamento resultante da applicação de uma ligadura, ou de uma torção, etc.

Só os parenchymas novos contendo feixes fibro-vasculares teem a possibilidade de formar raizes adventicias; os tecidos exclusivamente cellulares não as formam nunca. Só as raizes desenvolvidas sobre o caule teem importancia em silvicultura.

A reproducção por estaca, que se pode empregar para muitas especies lenhosas, é baseada no apparecimento das raizes adventicias sobre o fragmento d'um caule ou d'um ramo, collocado em condições apropriadas. O systema radicular assim obtido não tem raiz mestra, por isso mesmo que não provem da ramificação de uma radicula primitiva. No emtanto, accidentalmente, em raros casos, pode este systema de raizes apresentar tambem um gavião, formado por um dos seus eixos que se orientou na vertical e tomou maior desenvolvimento.

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Denominam-se raizes latentes ou dormentes, aquellas que, sendo tolhidas no seu desenvolvimento logo ao principio, ficam fechadas, um espaço de tempo maior ou menor, ou mesmo indefinidamente, dentro das formações subsequentes. Estas raizes se, por qualquer acaso, encontram no futuro condições mais favoraveis, rasgam os tecidos que as prendiam, e alargam-se então no meio exterior com grande rapidez. Os salgueiros teem, com frequencia, raizes n'este estado latente ou dormente.

2.º - TRONCO

O tronco, nas especies lenhosas indigenas, é o eixo da ramificação ascendente; tem direcção mais ou menos vertical, e desenvolve-se em sentido opposto ao da raiz mestra. Seja qual for a posição em que a semente fique na terra, estes dois orgãos, a raiz e o caule, tomam sempre as suas direcções naturaes, ainda mesmo quando para isso seja necessario dar-se uma torção completa na radicula e no cauliculo, se porventura a semente caíu com a posição inversa da que devia ter.

O tronco apresenta duas partes distinctas, cuja separação é muito facil, sobretudo em determinadas épocas do anno, e conhecidas vulgarmente com os nomes de lenho, ou madeira, e casca.

Medulla e canal medullar. - Quando se corta por um plano horisontal o tronco adulto de um dos nossos vegetaes lenhosos vê-se, na secção mais ou menos circular do córte, uma pequena parte no centro, bem delimitada do resto do lenho, e constituida evidentemente por um tecido diverso - é a medulla.

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A medulla é formada por cellulas que, de ordinario, teem as paredes delgadas, deixam entre si grandes meatos e decrescem em tamanho do centro para a peripheria. Este parenchyma é circumscripto pelo canal medullar, onde se encontram vasos reticulados, annelados, e em espiral (tracheas), que lhe são caracteristicos; esses vasos resultam, como todos os mais, de uma fiada vertical de cellulas cujas paredes, nos pontos de contacto, foram reabsorvidas, no todo ou em parte, constituindo-se d'este modo um longo tubo; o engrossamento da parede cellular primitiva, respeitando determinados pontos em annel, em espiral, etc., deu-lhes essas fórmas particulares.

Na maior parte das essencias indigenas a medulla é pouco consistente. As suas cellulas teem sempre curta vitalidade; depois de secca, n'um grande numero de especies enche completamente o canal medullar (fig. 2, B), mas n'outras contrae-se em discos sobrepostos, que alternam com outras tantas cavidades (nogueira, loureiro, etc.), (fig. 2, A). A relação entre o tamanho da medulla e o do lenho em redor varia bastante com as essencias, e muito com a edade da secção considerada, por isso que a medulla não engrossa nunca mais e o tecido lenhoso todos os annos adquire maior espessura.

Fig. 2. A. Córte longitudinal de um raminho de nogueira (Juglans regia, L.) mostrando a medulla interrompida (1:1). B. Córte longitudinal de um raminho de sabugueiro (Sambucus nigra, L.) mostrando a medulla continua (1:1).

C. S. 2

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A fórma do canal medullar é mais ou menos angulosa, e caracteristica para muitas especies. O numero dos seus angulos está em relação com o numero dos feixes lenhosos primitivos do caule, e até certo ponto com a ordem de inserção das folhas: é pentagonal nos carvalhos e choupos, triangular no vidoeiro e amieiro, etc.

Prosenchyma fibroso. - A parte restante, e incomparavelmente mais consideravel do lenho (quando se não trata de um raminho muito novo), apresenta-se á vista desarmada como um todo compacto, dividido em zonas mais ou menos concentricas, que se distinguem muito facilmente em algumas especies, pela differença de coloração nos pontos onde se dá o contacto, e pelo apertado do tecido nos mesmos pontos; estes circulos, em todas as madeiras, estão ainda divididos em sectores, por traços radiantes, mais ou menos visiveis, que partem da medulla (fig. 3).

No tecido apertado, a que nos referimos, encontram-se cellulas muito alongadas no sentido do eixo longitudinal da planta, que se denominam fibras. Estas cellulas terminam em ponta e tomam o aspecto fusiforme; estão dispostas em fiadas parallelas e insinuam as extremidades entre os intervallos das cellulas collocadas superior e inferiormente, não deixando espaços inter-cellulares, isto é, constituem pela sua reunião um prosenchyma. As dimensões das fibras do lenho variam muito nas diversas essencias, bem como variam em cada uma com as condições da vegetação, e até em cada individuo conforme a região do tronco. Conteem, de ordinario, agua ou ar; ás vezes encontram-se-lhes alguns granulos e restos do protoplasma primitivo.

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As fibras lenhosas teem a membrana mais ou menos engrossada e lenhefeita; este espessamento respeita certos pontos, que se correspondem sempre com exactidão nas faces de contacto de duas fibras visinhas, constituindo outros tantos canaliculos. Quando a fibra perde o protoplasma, e morre, a membrana primitiva, que separava os dois canaliculos em correspondencia, reabsorve-se, de ordinario, communicando então por elles livremente as cavidades cellulares.

Fig. 3. Secção transversal de um tronco de carvalho roble (Quercus pedunculata, Ehrh.) (1:3).

Quando a pontuação da parede cellular conserva o mesmo calibre em toda a sua extensão desenha-se de frente limitada por um contorno unico e diz-se uma pontuação simples (fig. 4, C). Se o calibre do pequeno canaliculo não é uniforme, se a sua secção externa não é egual á secção intermedia, a pontuação vê-se de frente com o aspecto de dois circulos concentricos e diz-se n'este caso aureolada (fig. 4, A, B); taes são nas fibras lenhosas das Coniferas. As pontuações aureoladas teem o diametro relativamente consideravel; quando a membrana primitiva se reabsorve n'esses pontos, o conjuncto de fibras aureoladas passa a constituir um systema de tubos irregulares, que só se differençam dos vasos verdadeiros em as cellulas componentes não estarem n'uma serie longitudinal. Alguns auctores chamam-lhes vasos fechados ou tracheides.

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Fig. 4. A. Fibra aureolada do pinheiro manso (Pinus Pinea, L.) (proximamente 100:1). B. Corte de uma pontuação aureolada (proximamente 200:1). C. Fibra com pontuações simples, do roble (Quercus pedunculata, Ehrh.) (proximamente 100:1).

As propriedades physicas das fibras, e em geral de todas as cellulas muito alongadas, diversificam bastante, conforme se consideram na direcção do maior comprimento, na direcção do raio, ou no da tangente transversal. A elasticidade, a conductibilidade para a agua, som, electricidade e calor teem valores maximos no sentido do maior comprimento da fibra, e valores minimos no sentido da tangente transversal; pelo inverso, a dilatação pelo calor e o entumecimento pela agua são muito maiores na direcção do raio do que na do comprimento. Como veremos, nas Artes Florestaes, é de primeira importancia, attender a estas variações das propriedades physicas, no aproveitamento ulterior das madeiras.

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Vasos. - Quando se olha com cuidado a secção horisontal de um lenho notam-se, em muitas essencias, mesmo á vista desarmada, pequenos furos, mais ou menos circulares, espalhados ou reunidos em grupos por diversas fórmas. Cada um d'estes furos representa o corte de um vaso.

Os vasos tiveram a mesma origem que as tracheas do estojo medullar, apenas é diversa a esculptura das suas paredes, que são pontuadas, quasi sempre. O protoplasma e o nucleo das suas cellulas constituintes desappareceram, sendo substituidos por uma columna d'agua interrompida com bolhas d'ar.

Os vasos teem maior calibre do que as fibras, e por isso destacam entre o tecido em redor; teem a parede cellular mais delgada e a cavidade central com maior diametro. No córte longitudinal do lenho apresentam-se com o aspecto de pequenos sulcos.

Nem todas as nossas essencias florestaes teem vasos; faltam nas Coniferas, que apenas no estojo medullar conteem os vasos caracteristicos d'aquella região.

O calibre dos vasos varia muito com as especies e com as condições particulares da vegetação. N'umas especies o mesmo individuo tem os vasos todos sensivelmente com o mesmo diametro (platano, choupos, salgueiros, etc.) e n'outras são elles sensivelmente deseguaes (carvalhos, castanheiro, freixo, ulmeiro, etc.)

O seu numero diversifica tambem muito nas diversas arvores: assim emquanto os choupos e os salgueiros teem muitos vasos, o buxo tem muito poucos. Podem ser em proporção superior, ou inferior, ao tecido fibroso; quando predominam contribuem para tornar a madeira mais porosa, mais leve; mas nem só d'elles dependem estas qualidades: tambem, e muito, da natureza das fibras, quanto ás suas dimensões, espessura das paredes, grau de incrustação, etc.

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N'umas especies os vasos encontram-se disseminados, sem nenhuma ligação - quer estejam solitarios, quer reunidos em pequenos grupos de dois a dez, ou mesmo mais, apparecendo então no córte transversal em pequenos aggregados, ou series simples radiantes, pouco apparentes (platano, salgueiros, vidoeiro, nogueira, etc.). N'outras especies juntam-se em pontos determinados, muito numerosos, muito proximos uns dos outros, muito apparentes, formando no córte transversal desenhos variados, de côr baça e mais clara: umas vezes dispostas em linhas radiantes flexuosas e ramificadas (carvalhos, castanheiro), outras vezes em pequenos arcos concentricos (freixo, amoreira, acacia bastarda), em linhas concentricas muito onduladas (ulmeiro, lodão bastardo), ou em curvas reticuladas, constituindo uma especie de renda ou rede (tojo, aderno, sanguinho bastardo).

Parenchyma lenhoso. - O agrupamento dos vasos torna-se ainda mais apparente, em algumas essencias, pelo tecido especial com que, n'essas madeiras, estão envolvidos; referimo-nos ao parenchyma lenhoso. Este parenchyma é formado por cellulas obtusas, ou troncadas nas extremidades, mais curtas, com as paredes mais delgadas, a cavidade central maior, e a côr mais clara do que as fibras. As paredes d'estas cellulas teem pontuações simples, fechadas; de inverno, entre outras substancias, encontra-se-lhes amido.

O parenchyma lenhoso falta em algumas das essencias indigenas: nas Coniferas, por exemplo. É pouco desenvolvido, e escapa facilmente á observação n'outras, taes como nos salgueiros, choupos, vidoeiro, medronheiro, urzes, etc., onde nem com o auxilio da lente se percebe, mas é bem visivel em muitas especies, mesmo á vista desarmada. Está misturado com o prosenchyma fibroso: n'uns casos disperso, sem nenhuma relação com os vasos - ou espalhado e difficil de observar, ou disposto em laminas onduladas, concentricas, como no carrasqueiro; mas n'outros casos envolve cada vaso, ou cada grupo de vasos, apresentando-se no córte transversal com o aspecto de pequenas aureolas mais claras (alfarrobeira) ou reune-os mesmo entre si, formando desenhos caracteristicos (amoreira, freixo, acacia bastarda, etc.), e assim melhor os destaca do tecido fibroso.

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Raios medullares. - As linhas radiantes, que dividem em sectores a secção horisontal do lenho, denominam-se raios medullares. São constituidos por series de cellulas comprimidas, alongadas no sentido do raio; estas series estendem-se, mais ou menos profundamente, sob a fórma de laminas verticaes, separando diversas porções dos tecidos que descrevemos. O conjuncto das fibras e vasos comprehendidos entre dois raios denomina-se feixe fibro-vascular.

Umas vezes as cellulas do raio medullar são menos resistentes que o tecido fibroso, outras vezes são mais duras (carvalhos), e n'este ultimo caso, quando a madeira soffre grandes fricções, os raios medullares gastam-se menos e apparecem em alto relevo.

Alguns d'estes raios partem da medulla e dizem-se então completos; outros nascem n'uma assentada mais exterior e dizem-se incompletos (fig. 3); mas, n'um e n'outro caso, uma vez formados, prolongam-se até á peripheria e se, algumas vezes, parecem afilar-se, e terminar antes d'ali chegarem, é devido isto apenas á inclinação do corte observado, que ficou obliqua em relação a elles.

Os raios medullares são rectos n'umas especies, flexuosos n'outras. A sua espessura (no sentido horisontal) é muito variavel e depende do numero de cellulas que se collocaram ao lado umas das outras para os formar: pode ir desde 0m,002 (sobreiro, azinheira) até 0m,00002, como nos pinheiros e salgueiros, onde são constituidos por uma unica fiada de cellulas. É claro que nas primeiras essencias são muito mais visiveis do que nas segundas; em algumas madeiras são tão estreitos que é difficil percebel-os á vista desarmada.

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N'um mesmo individuo os raios podem apresentar espessura egual (castanheiro, platano, pinheiros, etc.), ou diversa (roble, sobreiro, etc.). De ordinario a desegualdade dos raios é peculiar ás especies que teem raios grossos.

A altura, isto é, a dimensão no sentido longitudinal, varia tambem muito: emquanto nos carvalhos está comprehendida entre 0m,1 a 0m,05, no freixo é de 0m,0005, e no buxo 0m,0002.

A disposição que a madeira apresenta a deixar-se fender com mais ou menos facilidade depende do arranjo regular, e parallelismo, das fibras e vasos, e está intimamente ligada á fórma dos raios medullares, sobretudo á sua largura: se são largos, a contextura fibro-vascular é mais tortuosa e a madeira fende mal; se são delgados, as fibras ficam parallelas na vertical, e o lenho dá boa fenda. A fig. 5 dá uma idéa d'um e d'outro d'estes casos.

Fig. 5. Corte longitudinal, tangencialmente aos raios medullares: A. no lenho da azinheira (Quercus Ilex, L.). B. no lenho do roble (Quercus pedunculata, Ehrh) (1:1).

O numero dos raios medullares é, de ordinario, tanto maior quanto são mais delgados; no emtanto este numero varia muito. Entram com percentagem variavel na constituição da madeira, ás vezes até quasi por metade (tamargueira) mas, na maior parte das essencias, entram em relação menor.

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Quando se corta uma peça de madeira, segundo um plano perpendicular aos raios medullares (fig. 5), estes desenham-se no corte como traços longitudinaes, ou com a fórma lenticular, quasi sempre mais escuros, com largura e comprimento variaveis, segundo as essencias. Quando a peça de madeira é cortada verticalmente na direcção dos raios, elles formam placas espelhadas, mais ou menos juntas e compridas, com ondeados, claros ou escuros, de bonito effeito. Este conhecimento é importante em marcenaria e na serragem das madeiras para ornamentação.

Canaes resiniferos. - Na madeira de algumas essencias indigenas apparecem, no corte transversal, pequenos furos, que podem, á primeira vista, ser confundidos com os vasos, mas que são elementos diversissimos pela sua organisação e funcções. Referimo-nos aos canaes resiniferos das Coniferas.

Estes canaes resiniferos são espaços inter-cellulares, mais ou menos compridos e tubulosos, onde as cellulas limitrophes exsudam o producto da sua secreção. São inicialmente constituidos pelo afastamento de um certo numero de cellulas, ou fiadas verticaes de cellulas, quasi sempre quatro (fig. 6), e que permanecem durante bastante tempo capazes de divisão; essas divisões ulteriores originam as cellulas mais numerosas que habitualmente se encontram a circumscrevel-os.

As cellulas segregadoras distinguem-se das outras cellulas em redor pelas dimensões, de ordinario, menores; pela fórma levemente convexa na face livre; pela membrana delgada, não lenhifeita, sem esculptura; e pela côr amarellada ou acastanhada.

Fig. 6. Canal resinifero do pinheiro bravo(Pinus Pinaster, Ait.) (proximamente 360:1). (Corte transversal).

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Os canaes resiniferos podem estar dispostos longitudinal ou transversalmente, entremeados no tecido fibroso ou acompanhando os raios medullares.

A resina é segregada para o espaço inter-cellular atravez as paredes das cellulas que o limitam. Ás vezes, quando a secreção é abundante, a resina espalha-se nos tecidos em volta, obstruindo as fibras, dando-lhes uma côr escura, e a transparencia e a dureza cornea.

N'uma secção transversal, feita de fresco, os canaes resiniferos das formações mais modernas deixam escapar uma gotta de terebinthina, e isto pode ajudar a distinguil-os dos vasos. A extensão vertical muito maior d'estes ultimos differença-os tambem, mas este caracter é, na pratica, de pequena importancia, por ser de difficil apreciação. O processo facilimo de distinguir estes dois elementos consiste em verificar a posição onde se encontram, em maior numero, se no bordo exterior ou interior de cada zona circular da madeira (camada annual), conforme veremos adiante.

Classificação dos elementos anatomicos do lenho. - Do que fica dito, a proposito da composição do lenho, deprehende-se que os seus elementos anatomicos podem grupar-se em duas divisões: uns, que chamaremos elementos anatomicos necessarios, encontram-se nas madeiras de todas as essencias indigenas - são as fibras e os raios medullares; outros, que denominaremos elementos anatomicos accessorios nem em todas as madeiras se encontram - são os vasos, os canaes resiniferos e o parenchyma lenhoso.

O estudo anatomico das madeiras, feito com o auxilio de uma lente simples, pode, como veremos na parte respectiva, servir a distinguir os lenhos das diversas essencias - pelo numero e dimensões dos raios, pela presença, ou ausencia, dos vasos e dos canaes resiniferos, pela fórma de agrupamento e calibre dos vasos, pela disposição do parenchyma lenhoso, etc.

Cambium. - Fazendo a transição do lenho para a casca encontra-se uma camada geradora, denominada cambium, constituida por cellulas vivas e capazes de divisão. Estas cellulas teem as paredes delgadas e tenras de cellulose não incrustada (principalmente durante as estações de actividade vegetativa, porque no inverno essas paredes engrossam um pouco), teem protoplasma espesso, granuloso, e um nucleo.

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A fórma das cellulas do cambium é precisamente a das cellulas correspondentes, com que contactam, para o lado do lenho e da casca; são curtas na continuação dos raios medullares, alongadas em frente do tecido dos feixes.

Esta assentada representa um papel importantissimo na vida do vegetal, como diremos; d'ella, por successivas partições, nascem novos elementos anatomicos para um e outro lado, que vão augmentando a espessura da madeira e da casca, e assim engrossam a arvore ou o arbusto.

Durante o periodo da vegetação não existe um limite nitido entre o lenho, o cambium e a casca, tão graduaes vão sendo as passagens, mas a differença accentua-se no inverno.

Tecidos internos da casca - liber e parenchyma cortical. - A camada interna da casca, a que está mais em contacto com o cambium, denomina-se liber. No liber encontram-se elementos anatomicos analogos aos do lenho, modificados, é certo, em virtude da sua diversa especialisação.

Aos vasos e cellulas vasculares (fibras aureoladas) do lenho correspondem as cellulas e tubos crivados do liber, que são o seu elemento mais importante. Estas cellulas teem a fórma alongada, cylindrica ou prismatica, e encontram-se sobrepostas em fiadas longitudinaes; nas suas paredes existem grandes pontuações, onde a membrana fica mais delgada, e se enche de pequenos e numerosos orificios, que a fazem assemelhar a um crivo microscopico. Este tecido, como veremos, tem uma grande influencia na vida do vegetal.

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Ás fibras lenhosas correspondem as fibras liberianas, egualmente alongadas e prosenchymatosas, mas flexiveis e tenazes, e não lenhifeitas como as da madeira. As fibras liberianas podem estar isoladas ou dispostas em feixes, grupar-se em zonas concentricas mais ou menos regulares, separadas pelos outros tecidos mais molles (carvalhos, choupos, ulmeiro, nogueira, sabugueiro, oliveira, etc.), ou ficar disseminadas, sósinhas ou em pequenos grupos, no meio d'esses outros tecidos (figueira, amoreira, lodão bastardo, etc.)

As fibras são a parte mais resistente do liber. Muitas vezes empregam-se industrialmente como materias textis.

Os raios medullares continuam-se tambem no liber, mas teem, na parte correspondente a esta região, as paredes mais delgadas, e menos incrustadas, que no lenho. O parenchyma lenhoso está representado na casca pelo parenchyma liberiano, que apparece associado aos tubos e cellulas crivadas.

Estes tecidos alternam todos regularmente em algumas especies: assim no teixo e nos cyprestes a uma assentada de fibras succede uma de tubos crivados, uma outra de parenchyma, uma nova assentada de tubos crivados, seguindo-se outra vez a camada de fibras, e assim successivamente.

Como é diversa a consistencia das camadas componentes do liber é facil, muitas vezes, isolal-as por maceração. O tecido mais brando destroe-se e as fibras separam-se então, em muitos casos, ás folhas, que teem o aspecto de uma renda. Essa fórma foliacea deu ao conjuncto d'esta região da casca o nome de liber (livro).

A importancia relativa dos elementos do liber é bastante diversa. As fibras faltam n'algumas especies lenhosas.