Chapter 19
A qualidade dos productos florestaes umas vezes é proporcional á maior fertilidade do chão, outras vezes, pelo contrario, é inversa com esta riqueza. É nos terrenos pobres e delgados, onde o crescimento é muito demorado, que o sobreiro apresenta a melhor cortiça - elastica, homogenea, tochada - muito embora ahi o involucro suberoso attinja annualmente muito menor espessura que nos terrenos mais ferteis. Quanto aos lenhos as suas boas qualidades podem ser provocadas, ou contrariadas, em grande parte, pela riqueza do solo, segundo o modo de vida particular a cada essencia; a maior pujança do terreno corresponde a maior espessura do annel lenhoso annual; nas especies em que este maior alargamento se faz á custa da zona porosa da primavera, ficando constante a zona tochada do outono, como nos pinheiros, a madeira fica mais densa, mais apertada, mais resistente e elastica, nos solos menos ferteis, e o contrario acontece áquellas essencias em que o augmento do annel lenhoso annual se effectua á custa da zona de outono, ficando constante a de primavera, como são os carvalhos e o freixo, por exemplo.
O grau de humidade do terreno influe tambem muito no crescimento das arvores e na qualidade dos lenhos. Os terrenos frescos, ricos em humidade, mas sem que haja estagnação, de ordinario, são os mais favoraveis. O sr. Chevandier obteve os seguintes numeros, como média dos resultados dos seus estudos, feitos nos Vosges, ácerca do crescimento annual do abeto em solos diversamente humidos:
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Crescimento médio annual (em madeira secca)
Natureza do solo
Edade média das arvores cortadas
1k,84 . . . Lamacento . . . 101,88
3k,43 . . . Secco . . . 71,57
8k,25 . . . Secco, provido de fossos que reteem a agua pluvial . . . 74,45
11k,57 . . . Secco, regado com agua corrente . . . 99,45
Quando a agua existe nos solos em grande excesso, as arvores vivem ahi geralmente mal, e muitas não podem mesmo viver em taes condições; esta abundancia de humidade é prejudicial ás raizes, e veda o accesso do ar, que lhes é tão necessario.
As madeiras, nos solos muito humidos, ficam muito porosas, muito cheias de vasos, pouco resistentes e pouco aturadiças; a seiva, muito diluida, torna os elementos anatomicos do lenho mais grosseiros e menos incrustados. Nos solos muito seccos, onde a humidade escasseia, as arvores amesquinham-se muito, porque entram menos substancias mineraes da terra, e menos agua, uma e outras indispensaveis á organisação vegetal. Quando o terreno é excessivamente secco, quando não existe algum deposito de agua profundo, onde as raizes vão abastecer-se, pode mesmo tornar-se impossivel a vida das arvores.
4.º - A FOLHADA E A CAMADA HUMIFERA: SEU PAPEL NA VEGETAÇÃO DA FLORESTA
O solo florestal; partes de que se compõe. - Todas as folhas das arvores, como sabemos, caem naturalmente n'um periodo mais ou menos longo; nas especies de folhas caducas as folhas duram apenas um cyclo vegetativo, nas especies de folhas perennes persistem mais de um cyclo, mas, n'um e n'outro caso, todas ellas afinal se despem da arvore-mãe. As folhas mortas, os ramos seccos, os pericarpos e involucros fructiferos, as cascas velhas, etc., juntam-se sobre o terreno, no interior dos massiços de arvores, e todos estes detritos, recalcados pela chuva, conjuntamente com a vegetação rasteira de cryptogamicas, lichens e musgos, que n'esse meio apparecem, constituem um tapete, mais ou menos espesso, que denominaremos manta da floresta.
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Os fragmentos organisados constituitivos d'este tapete apresentam-se em decomposição tanto mais adiantada quanto são mais antigos, isto é, quanto mais profundo for o extracto que considerarmos. Nas camadas modernas superficiaes a decomposição é ainda nulla, ou quasi nulla, os diversos orgãos e tecidos conservam as fórmas primitivas, e a estas assentadas mais externas daremos o nome de folhada. De uma certa profundidade por diante a manta da floresta é constituida por uma substancia negra, ou escura, já sem a fórma primordial, quasi pulverulenta, resultante da humificação da folhada, e que chamaremos cobertura humifera.
O solo nos massiços florestaes compõe-se pois de duas partes: a manta, ou extracto superior, formada pela accumulação das folhas e outros restos vegetaes, onde ainda se pode considerar, conforme o grau de decomposição d'estas substancias, a folhada e a camada humifera; e sob a manta a terra propriamente dita, que resulta da fragmentação, mais ou menos grosseira, das diversas rochas, de mistura com algumas materias organicas.
As folhas, as cascas, e os ramos quando morrem naturalmente, como já dissemos, estão bastante empobrecidos, em relação aos mesmos orgãos vivos, porque uma parte dos seus componentes, e exactamente dos componentes mais uteis, pela sua raridade, á vida vegetal, teem emigrado para os tecidos de reserva. Ainda assim a agglomeração d'estes detritos no solo da floresta é importantissima para a boa vegetação das arvores.
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A espessura da manta, nos massiços florestaes, depende muito das essencias, das propriedades do solo e do clima, da edade dos povoamentos e dos processos da exploração. É mais espessa quando as arvores são muito folhudas, quando o solo e o clima são favoraveis, quando os povoamentos são adultos e robustos, quando o methodo de exploração não deixa nunca o terreno a descoberto, e a copa das arvores o protege contra o vento e contra o sol.
Segundo Ebermayer, baseado nos numeros obtidos nas estações da Baviera, eis a média geral do peso da folhada caida annualmente n'um hectare de massiços com diversas edades; escolhemos para exemplo uma essencia folhosa e uma résinosa ¹:
Massico de fayas (Fagus silvatica, L.) de 30 a 60 annos . . . 4:182 kil.
» » » » de 60 a 90 annos . . . 4:094
» » » » acima de 90 annos . . . 4:044
Massiço de pinheiros - de 25 a 50 annos . . . 3:397
» » - de 50 a 75 annos . . . 3:491
» » - de 75 a 100 annos . . . 4:229
Procedendo ás pesagens da folhada, não annualmente, mas de tres em tres annos, e de seis em seis annos, Ebermayer notou que, nos massiços de fayas (Fagus silvatica, L.), no fim de tres annos, o peso da folhada é sensivelmente o dobro da que se fórma por anno, e no fim de seis annos este peso duplo conserva-se ainda constante; d'onde conclue necessitar a humificação d'esta folhagem proximamente tres annos. Tendo praticado identicamente para com os pinheiros, viu que as folhas mais seccas d'estas arvores teem mais lenta decomposição, regulando por tres annos e meio.
¹ Estes numeros, bem como todo este estudo ácerca da formação da manta das florestas, são extrahidos dos Annales de la Station Agronomique de l'Est, do sr. L. Grandeau, citados adiante.
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No emtanto estes numeros não teem nada de absolutos; assim nas florestas bem tratadas, e d'onde nunca se tire folhada, aquelles valores são mais altos; n'essas condições a humificação nos massiços de fayas (Fagus silvatica, L.) demorou dois annos e meio, e nos massiços de pinheiros cinco annos; o peso médio da folhada, por hectare, chegou então aos seguintes numeros:
Massiço de fayas (Fagus silvatica, L.) . . . 10:417 kil.
Massiço de pinheiros . . . 18:279
Querendo passar dos valores ponderaes, que apresentamos, para os valores volumetricos correspondentes, podem-se admittir, segundo Ebermayer, as relações seguintes: - 1m3 de folhas de faya (Fagus silvatica, L.), completamente seccas, pesam, em média, 62k. O mesmo volume de agulhas de pinheiro pesa, em média, 101k, estando bem seccas, e 121k se estiverem meio humificadas.
Composição da folhada. - Na composição chimica da folhada consideraremos a humidade, a materia organica e a materia mineral. Por materia mineral tomamos o peso das cinzas, que ficam depois da calcinação; por materia organica tomamos a differença do peso total para a somma dos pesos da humidade e das cinzas.
A. Humidade. - As folhas novas, quer das folhosas quer das resinosas, são mais aquosas na primavera e perdem agua nas outras estações; em maio as percentagens de agua variam entre 60 e 78 por cento, em junho oscillam entre 50 e 60 por cento, e d'ahi por diante conservam-se quasi eguaes até ao fim da vegetação. Quando as folhas caem, mortas naturalmente, contéem 30 a 50 por cento de agua; perdem uma parte por evaporação e apenas conservam uns 20 a 30 por cento, quantidade esta que ainda diminue, passado mais tempo de exposição ao ar, ficando em 15 a 20 por cento.
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Devemos, porém, advertir que a folhada é bastante hygroscopica e tem um grande poder de imbibição, por isso a sua percentagem de agua varia muito com a estação, com o estado da atmosphera e com os phenomenos meteorologicos, que se tiverem dado.
Ebermayer calculou, para as seguintes especies, que a folhada caida annualmente na superficie de um hectare, pode absorver estas quantidades de agua de chuva:
Massiço de fayas (Fagus silvatica, L.) . . . 12m3,90
Massiço de abetos (Abies excelsa, DC.) . . . 5m3,42
Massiço de pinheiros . . . 4m3,89
Segundo o mesmo auctor, as folhas da faya (Fagus silvatica, L.), completamente embebidas pela agua, reteem de liquido 175 por cento do seu peso; as folhas do abeto 94 por cento; as do pinheiro 144 por cento; os musgos 234 por cento.
B. Substancia organica. - Segundo experiencias muito numerosas effectuadas nas estações da Baviera, a média, em peso, de materia organica, fabricada annualmente em cada hectare das seguintes essencias, tem estes valores:
Massiços de fayas (Fagus silvatica, L.) . . . 6:278 kil.
Massiços de abetos (Abies excelsa, DC.) . . . 6:272
Massiços de pinheiros . . . 6:339
D'onde Ebermayer conclue que, em média, um hectare de arvoredos produz annualmente a mesma quantidade de materia organica, seja qual for a essencia. Estas experiencias versaram sobre muitos massiços, com edades diversas, pertencentes ás tres especies acima referidas.
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Da materia organica assim formada, metade, proximamente, é empregada na construcção do tronco e dos ramos, e a outra metade constitue a folhagem, isto é, passa depois para o solo, originando a manta da floresta. Ou, por outra, metade da materia organica fabricada pelas matas sae na exportação dos productos lenhosos, e a outra metade fica a enriquecer o solo. Em abono d'esta proposição transcrevemos as relações, determinadas por Ebermayer, entre o peso total da materia organica produzida, e o peso da materia organica da folhada, em massiços das tres essencias sobre que estes estudos versaram:
Relação, em peso, entre a materia organica da cobertura, e a materia organica total
Massiço de fayas (Fagus silvatica, L.) . . . 50,0%
» de abetos (Abies excelsa, DC.) . . . 45,7%
» de pinheiros . . . 49,5%
Toda a substancia organica, como é sabido, é um composto, mais ou menos complexo, mas em que entra sempre como elemento o carbonio. Ebermayer admitte, em média, que o peso da materia organica produzida n'um hectare de floresta annualmente, contém 3:040 kil. de carbonio, ficando um pouco mais de metade d'este carbonio na fórma de madeira, e passando um pouco menos de metade a constituir a folhada.
A composição elementar das diversas essencias florestaes afasta-se muito pouco da seguinte média:
Carbonio . . . 45,0% (da substancia secca)
Oxygenio . . . 42,0 » »
Hydrogonio . . . 6,5 » »
Azote . . . 1,5 » »
Cinzas . . . 5,0 » »
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O lenho, nas essencias européas, é um pouco mais rico em carbonio do que as folhas. As resinosas conteem 1 a 2 por 100 mais de carbonio total que as folhosas.
A folhada apresenta sensivelmente a composição elementar acima transcripta, salva a percentagem de azote, que é inferior, e não passa de 1,18 a 1,25 por cento.
O carbonio fixado pelas florestas em tamanha quantidade deriva todo, como sabemos, da decomposição do anhydrido carbonico existente na atmosphera. Um massiço de um hectare consome pois 11:150 kil. de anhydrido carbonico, que equivalem a 5:660 metros cubicos d'este gaz (a 0° de temperatura e á pressão de 760mm).
Embora a percentagem d'esse corpo na atmosphera seja bastante reduzida (4 litros por 10:000 litros de ar, em média), os vegetaes encontram sempre, de sobejo, a quantidade que precisam, porque a agitação constante do ar os põe em contacto com enormes massas gazosas, durante a actividade da vegetação. Por outro lado, apezar de uma tamanha causa de empobrecimento, a atmosphera apresenta quasi constante percentagem de anhydrido carbonico, (ou pelo menos variavel em pequenos limites), porque muitas origens o desprendem a todos os momentos, como diversas combustões, a putrefacção e outras decomposições, a respiração dos seres vivos, etc.
Quanto á percentagem de materia organica que entra na composição centesimal da folhada, Ebermayer avalia-a do seguinte modo:
Materia organica por %
Folhada da faya (Fagus silvatica, L.) . . . 78 a 80
» do carvalho . . . 82
» do pinheiro . . . 85 a 86
Musgos diversos . . . 81 a 82
A composição immediata d'esta substancia organica é muito complexa: todos os principios immediatos componentes podem todavia grupar-se em duas classes - não azotados e azotados - distinctos pela ausencia, ou pela presença do azote.
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O primeiro grupo constitue a parte incomparavelmente mais avultada, em peso, tanto nos tecidos vivos vegetaes, como nas folhadas que d'elles derivam, e por sua vez o lenhoso é, d'este grupo, o principio que entra em maior percentagem. Nas folhas vivas o lenhoso augmenta com a edade, passa de 7 por cento a 28 por cento; na folhada é o principal componente do humus.
Os principios immediatos azotados encontram-se em todos os tecidos vegetaes: entram na composição do protoplasma - o corpo vivo da cellula - e accumulam-se em excesso nas sementes. Na manta da floresta os azotados promovem e apressam a decomposição, decompondo-se elles tambem e abandonando o azote na fórma de nitratos e de ammoniaco, fórma em que a vegetação fixa e utilisa este elemento.
As folhas verdes das diversas essencias, colhidas na mesma época, teem quantidades muito deseguaes de azotados, como se vê das seguintes analyses, feitas em Tharand, e transcriptas do livro do sr. Grandeau, de que nos temos soccorrido em toda esta parte:
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Folhas de
Materia azotada, por 100 de substancia secca
Alnus incana, DC. . . . 17,76
Tilia parvifolia, Ehrh. . . . 14,86
Platano bastardo (Acer Pseudoplatanus, L.) . . . 14,86
Avelleira (Corylus Avellana, L.) . . . 14,50
Carvalho . . . 14,36
Tilia grandifolia, Ehrh. . . . 13,86
Acacia. . . . 12,44
Salix pentandra, L. . . . 12,34
Ulmeiro . . . 11,71
Tramazeira (Sorbus aucuparia, L.) . . . 11,34
Freixo . . . 11,21
Vidoeiro . . . 10,96
Faya (Fagus silvatica, L.) . . . 10,64
Choupo tremedor, faya preta (Populus tremula, L.) . . . 10,08
Amieiro . . . 9,13
Carpinus Betulus, L. . . . 7,81
A média d'estas analyses dá 12,36% de substancias azotadas. Debaixo d'este ponto de vista as folhas vivas das arvores equivalem ao bom feno, e são superiores ao feno de má qualidade. Mas, á medida que as folhas vão envelhecendo, a quantidade dos albuminoides diminue, como a seguinte tabella mostra:
AZOTADOS POR %
Mezes Folhas de carvalho Folhas de faya Folhas de Larix europaea, L.
Maio . . . 25,9 . . . 28,2 . . . 28,7
Junho . . . 14,6 . . . 18,9 . . . 12,2
Julho . . . 14,0 . . . 18,3 . . . 10,7
Agosto . . . 9,9 . . . 17,8 . . . 6,9
Setembro . . . 7,0 . . . 14,3 . . . 6,4
Outubro . . . 6,6 . . . 12,0 . . . 5,5
Novembro . . . - . . . 7,8 . . . -
As folhas mortas, e portanto a folhada, são muito mais pobres em azotados que as folhas vivas. Segundo Krutzsch 100 partes de folhas seccas das diversas essencias abaixo enumeradas, de ramos, pinhas, etc., conteem as seguintes percentagens de azotados:
C. S. 18
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Folhas de faya (Fagus silvatica, L.) . . . 5,00 a 7,81
» de carvalho . . . 6,62
Agulhas de abeto (Abies excelsa, DC.) . . . 8,43
» de pinheiro . . . 11,81
» do Larix europaea, L. . . . 5,50
Ramos de abeto (Abies excelsa, DC.) . . . 3,56
Pinhas do pinheiro . . . 2,31
Musgos (segundo Hoffmann) . . . 5,25 a 8,94
A madeira é tanto mais azotada quanto menos grossa. Por isso os processos de exploração em que as arvores sejam cortadas bastante novas exigem ao terreno maior quantidade de azote, comparativamente aos processos em que se effectua o corte n'uma edade mais tardia.
C. Principios mineraes (cinzas). - Nos orgãos das plantas lenhosas as substancias mineraes repartem-se com desegualdade, accumulando-se em tanta maior abundancia quanto mais novos os tecidos; assim a quantidade de principios mineraes decresce nos seguintes orgãos, d'uma mesma arvore, do primeiro ao ultimo - folhas, cascas, raminhos, ramos, pernadas e tronco. D'onde se deve concluir que o esgotamento do solo em principios mineraes ha de variar muito com a edade da revolução; quanto menor ella for, quanto maior o numero e o peso dos ramos delgados produzidos n'uma dada área, em egualdade de tempo, maior a exportação de principios mineraes, maior o empobrecimento do terreno. As florestas cujos productos sejam apenas troncos de grandes dimensões são de todas as menos esgotantes.
Ebermayer admitte que as tres essencias a que nos temos referido principalmente n'este estudo, tiram por hectare as seguintes quantidades de mineraes (expressas em kilos), assim divididas pela madeira e pelos orgãos que constituem depois a folhada:
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Faya (F. silvatica, L.) Abeto (A. excelsa, DC.) Pinheiro
Tronco . . . 29,60 . . . 22,56 . . . 16,54
Folhada . . . 185,54 . . . 135,92 . . . 46,52
215,14 158,48 63,06
As diversas essencias florestaes empobrecem pois desegualmente o terreno. Nos exemplos anteriores o pinheiro destaca-se perfeitamente das outras arvores, pela sua frugalidade; já notámos mais atraz que esta especie é optima para a arborisação dos solos pobres.
A quantidade mais avultada dos principios mineraes extrahidos pelas arvores á terra, seja qual for a essencia, fica na folhada, permanece na floresta, contribuindo assim muito efficazmente para a boa vegetação das subsequentes gerações.
É certo que, antes de cairem naturalmente as folhas mortas, os ramos e as cascas seccas, uma parte consideravel do acido phosphorico e da potassa tem retrogradado para os troncos, mas a parte remanescente é ainda importante, e se a folhada é apenas um adubo mediocre para as terras de lavoura, o tiral-a é muitissimo funesto para os arvoredos, cuja producção é diminuida por este facto.
Segundo Ebermayer, 1 hectare de floresta das essencias abaixo mencionadas recebe na folhada caida annualmente, em média, as seguintes quantidades de potassa, cal, magnesia, acido phosphorico e silica:
18*
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Potassa Cal Magnesia A. phosphorico Silica
Folhada da faya (F. silvatica, L.) . . . 9,87k . . . 81,92k . . . 12,22k . . . 10,45k . . . 60,36k
Folhada do abeto (A. excelsa, DC.) . . . 4,82 . . . 60,94 . . . 6,95 . . . 6,41 . . . 49,60
Folhada do pinheiro . . . 4,84 . . . 18,87 . . . 4,80 . . . 3,68 . . . 6,53
Formação do humus. - O humus resulta da putrefacção, ou combustão lenta, das materias organicas. A temperatura, a humidade e a renovação do ar influem muito na formação e propriedades da camada humifera, que se encontra nos massiços florestaes.
Nos massiços adultos, de meia edade, nem muito novos nem muito velhos, a camada humifera é mais espessa; quanto menores forem os vazios deixados pela folhagem, quanto mais bem resguardado estiver o terreno contra o sol e contra o vento, quanto maior a humidade do solo, mais favoraveis são as condições para a formação do humus. As florestas exploradas em alto fuste apresentam muito maior camada humifera do que os talhadios; uma unica revolução de alto fuste enriquece tanto o terreno com os despojos vegetaes, que pode transformar um chão ruim e quasi esteril n'uma terra excellente.
O numero de annos que a folhada leva a transformar-se em humus depende de muitas causas; depende da natureza da mesma folhada e das circumstancias que concorrem durante a putrefacção. Os orgãos seivosos, molles, tenros, decompõem-se muito mais depressa do que os orgãos duros e seccos; assim as folhas coriaceas resistem muito mais do que as brandas, e os ramos das arvores, os troços das urzes e outros matos rasteiros são difficeis de decompor. As substancias mais ricas em azotados humificam-se com maior rapidez. Os orgãos que conteem ceras ou resinas são, pelo inverso, menos facilmente atacaveis, porque o inducto ciroso ou resinoso lhes diminue a acção do ar. As substancias ricas em tannino precisam absorver muito oxygenio para seguirem as suas successivas transformações; se encontram ar em abundancia, decompõem-se com grande energia, mas se o ar lhes escasseia, resistem por muito tempo; as folhas tanninosas dos carvalhos, vidoeiro, amieiro, etc. humificam-se, por isso, rapidamente nos solos seccos, onde o ar seja bem renovado, mas conservam-se pouco alteradas, muito tempo, nos solos humidos e cobertos d'agua. Geralmente as plantas que teem mais potassa, ou cal, transformam-se, em egualdade de circumstancias, mais depressa do que se fossem pobres n'estes corpos, e pelo contrario as plantas ricas em silica teem mais difficil humificação. Nos solos calcareos o humus fórma-se, de ordinario, mais depressa que nos solos siliciosos. As mil influencias locaes podem apressar ou retardar muito esta decomposição; Ebermayer admitte que, em média, nas florestas da Baviera, a humificação demora dois a tres annos, nos massiços das folhosas, podendo em alguns casos chegar mesmo a quatro e cinco annos. As agulhas seccas das resinosas teem decomposição mais demorada, que varía, segundo elle, entre cinco e oito annos.
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Ebermayer classifica o humus formado nas florestas em quatro classes, a saber:
1.ª Humus fertil. - Quando é constituido em condições convenientes de humidade, de temperatura, renovação de ar, sobre terrenos ferteis em principios mineraes uteis á vegetação, nos grandes massiços, sem espaços vazios, com boa vegetação, onde a folhagem abrigue a terra do vento e do sol.
2.ª Humus pulverulento. - Terriço formado ao ar livre, sem a protecção da folhagem superior, em sitios seccos, que soffreu excesso de calor, falta de humidade e renovação de ar demasiada. É constituido, em grande parte, pelas urzes e lichens; tem o aspecto de um pó secco, leve, escuro, com decomposição ulterior muito difficil, sendo, por isso, pouco favoravel á vegetação.
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3.ª Humus acido. - Produz-se em diversas condições: nos terrenos humidos, nos terrenos cobertos d'agua estagnada algum tempo, onde seja incompleta a renovação de ar; nos solos pobres em bases alcalinas, ou alcalino-terrosas, onde os acidos organicos da decomposição não podem ser neutralisados, quando as substancias organicas tenham pequena percentagem de azotados, porque aliás o ammoniaco desenvolvido pela humificação pode neutralisar aquelles acidos. Em quaesquer d'estes casos o humus apresenta reacção acida, d'onde lhe vem o nome; o humus pulverulento é, quasi sempre, acido ao mesmo tempo.
Este humus é prejudicial á vegetação de quasi todas as nossas essencias florestaes; apenas o vidoeiro e o amieiro podem viver bem nos solos acidos; uma flora especial caracterisa e prefere estas formações; citaremos entre as especies indigenas as urzes e os rhododendrons, e entre as especies exoticas as camelias e azaleas. A drenagem, a addição da marga, da cal ou da cinza são os meios de corrigir estes terrenos.
4.ª Humus adstringente. - Provém da decomposição das substancias ricas em tannino, folhas de carvalho, de amieiro, de vidoeiro, etc., quando esta decomposição se realisa n'uma atmosphera pouco renovada. Não é muito vulgar o humus adstringente, porque as substancias tanninosas putrefazem-se com grande rapidez, se aquella circumstancia especial da falta de oxygenio se não realisa.
Importancia da manta nas florestas. - Do que temos dito é facil deduzir a importancia da folhada e da cobertura humifera na vegetação das florestas. As propriedades physicas e chimicas do solo são por ellas muito modificadas, com os mais beneficos resultados.