Curso de Silvicultura

Chapter 18

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O estudo chimico das arvores creadas n'estas duas condições diversas mostrou que o castanheiro, em circumstancias normaes, vivendo em terrenos pobres em calcareo, fixa quantidades bastante avultadas de cal, tanto nas folhas como nos eixos, mas principalmente nos eixos, ao passo que absorve quantidades insignificantes de silica (as cinzas das folhas accusaram 45,37% de cal e as dos eixos 73,26%, ao passo que a silica nas folhas era apenas 5,79% e nos eixos 3,08%). O excesso de cal no terreno augmentou a percentagem das cinzas, tanto nas folhas como nos eixos da arvore (emquanto nos solos siliciosos as cinzas das folhas eram 4,8% e as dos eixos 4,74%, nos solos calcareos as primeiras subiram a 7,8% e as segundas a 5,71%). Este augmento de cinzas realisou-se quasi todo á custa de uma fixação maior de cal, porque a percentagem de todos os outros componentes diminuiu. Parece ser a diminuição d'estes principios, principalmente da potassa e do ferro, que traz como consequencia a formação de menores quantidades de amido, a reducção superficial das folhas, as más condições da vegetação, o estado imperfeito das substancias contidas nas cellulas vegetaes. Segundo estes estudos as folhas dos castanheiros com boa vegetação, nos terrenos siliciosos, conteem, para uma dada quantidade de cal, 6,19 vezes mais potassa, que as folhas das arvores enfezadas, em terrenos calcareos, e os eixos conteem, no primeiro caso, 5,3 vezes mais potassa, que no segundo (a potassa que era, nas folhas das arvores dos terrenos siliciosos 21,67% das cinzas, e nos eixos 11,65, passou a ser, em terrenos calcareos, nas folhas 5,76, e nos eixos 2,69; o sesquioxydo de ferro, que era, em terrenos siliciosos, nas folhas 1,07, e nos eixos 2,04, passou a ser, em terrenos calcareos, 0,83 nas folhas e 1,27 nos eixos).

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O sr. Grandeau estudou tambem, sob o mesmo ponto de vista, a vegetação do pinheiro bravo e chegou a conclusões, quanto pode ser, identicas: o pinheiro bravo é ainda uma especie silicicola, ou diremos melhor calcifuga, porque egualmente não parece ter nenhuma necessidade maior de silica, absorve uma quantidade avultada de cal, mesmo nos terrenos muito pobres n'esta substancia, e á medida que a percentagem do calcareo no solo augmenta, a sua vegetação diminue de vigor, e torna-se impossivel de um certo limite por diante.

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O excesso de calcareo nos solos traz tambem ao pinheiro bravo, como consequencia, o augmento da percentagem das cinzas (emquanto nos terrenos pobres em cal as arvores accusaram 0,4 a 0,6% de cinzas, nos terrenos calcareos as cinzas subiram a 1,32 e 1,35%), mas este augmento diz só respeito ao eixos, porque as folhas conteem menos cinzas do que teriam nas condições normaes, em solos siliciosos, e n'esta parte existe uma differença entre os phenomenos particulares da vegetação do castanheiro e do pinheiro bravo nos solos calcareos. Este augmento de cinzas nos pinheiros das terras calcareas é devido, como tambem nos castanheiros, a uma fixação maior de cal, quasi todos os outros elementos entram em menor percentagem; a escassez d'esses outros principios mineraes - do ferro e sobretudo da potassa n'uma enorme proporção - parece ser a verdadeira causa da má vegetação do pinheiro sobre esses solos; diminue correlativamente o amido formado nas cellulas vegetaes, e a terebinthina, o que era de esperar, por isso que esta ultima deriva das substancias amylaceas, e que sem a potassa não ha, por assim dizer, producção de amido, conforme o mostraram as experiencias de Nobbe, Schraeder, Edmam, etc. Os pinheiros dos terrenos siliciosos accusaram percentagens de cal comprehendidas entre 37 e 44 por cento das cinzas e potassa entre 15 e 19 per cento, emquanto nas arvores dos terrenos calcareos a cal subiu a 56 por cento e a potassa desceu a 5 por cento; as variações nas quantidades de acido phosphorico, magnesia, soda e acido sulphurico foram insignificantes, ou difficeis de determinar; as variações do acido phosphorico deram-se indifferentemente nas cinzas das arvores rachiticas dos solos calcareos, ou nas cinzas das arvores robustas, creadas em terra siliciosa, ora para mais, ora para menos, n'umas e outras.

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Na vegetação florestal do paiz podem considerar-se como verdadeiramente calcifugas as seguintes especies arboreas e arbustivas mais importantes: O castanheiro (Castanea vulgaris, Lam.) e o pinheiro bravo (Pinus Pinaster, Ait.), alguns tojos (genero Ulex), o maior numero das urzes (Erica ciliaris, L., E. Tetralix, L., E. cinerea, L., E. scoparia, L., E. arborea, L., Calluna vulgaris, Salisb., etc.), um codeço (Adenocarpus complicatus, Gay.), etc. Apparece n'estes terrenos em abundancia um feto caracteristico - o feto real (Osmunda regalis, L.).

São ainda calcifugas, mas já não em grau tão absoluto, o arando (Vaccinium Myrtillus, L.), um vidoeiro (Betula pubescens, Ehrh.), a Myrica Gale, L., etc.; está nas mesmas circumstancias o feto femea das boticas, ou feto ordinario (Pteris aquilina, L.).

São quasi indifferentes, mas encontram-se em maior quantidade nas terras pobres em cal, o azevinho ou pica-folha (Ilex Aquifolium, L.), o sobreiro (Quercus suber, L.), o carvalho pardo da Beira (Quercus Tozza, Bosc.), o choupo branco (Populus alba, L.), a giesta ordinaria (Spartium junceum, L.), o sanguinho d'agua (Rhamnus Frangula, L.), etc.

O maior numero dos nossos vegetaes lenhosos são indifferentes á natureza calcarea ou não calcarea do terreno. Citaremos, entre outros: o freixo (Fraxinus excelsior, L.), o amieiro (Alnus glutinosa, Gartn.), o teixo (Taxus baccata, L.), a azinheira (Quercus Ilex, L.) (esta prefere talvez os solos calcareos), o carrasqueiro (Quercus coccifera, L.), o salgueiro branco (Salix alba, L.), o vimeiro do norte (Salix viminalis, L.), o choupo negro (Populus nigra, L.), a faya preta, ou choupo tremedor (Populus tremula, L.), o sabugueiro (Sambucus nigra, L.), o sanguinho legitimo (Cornus sanguinea, L.), a hera (Hedera Helix, L.), o abrunheiro bravo (Prunus spinosa, L.), a cerejeira das cerejas pretas miudas (Prunus avium, L.), os pirliteiros ou espinheiros alvares (Crataegus Oxyacantha, L. e C. monogyna, Jq.), as silvas (o maior numero das especies e fórmas derivadas do antigo Rubus fruticosus, L.), a pereira (Pyrus communis, L.), a maceira (Pyrus Malus, L.), a sorveira (Sorbus domestica, L.), a tramazeira (Sorbus aucuparia, L.), o mostageiro (Sorbus Aria, Crtz.), o Sorbus torminalis, Crtz., etc.

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Ainda são quasi indifferentes, mas já preferem um pouco os solos calcareos, o aderno bastardo (Rhamnus Alaternus, L.) e a zelha (Acer Monspessulanum, L.), etc.

Essencias florestaes verdadeiramente calcicolas não temos talvez nenhuma. É certo que o zambujeiro (Olea Europaea, L., α Oleaster, DC.) apenas apparece espontaneo, entre nós, nos solos calcareos, mas a cultura tem levado a oliveira aos mais diversos terrenos e encontra-se, a bem dizer, em todo o paiz. O pinheiro d'Alepo (Pinus halepensis, Mill.) não é espontaneo, e embora viva muito bem nos solos calcareos não parece ser-lhes exclusivo. Algumas Papilionaceas arbustivas, sem grande importancia florestal, caracterisam entre nós a flora espontanea lenhosa das terras calcareas, bem como a falta das plantas calcifugas ¹.

Influencia da humidade, fundura e fertilidade do solo. - O grau de humidade da terra exerce uma influencia incontestavel na distribuição das especies vegetaes. Os logares aridos e seccos teem uma flora caracteristica, assim como a teem os solos muito humidos. Todos sabem que, nas margens dos ribeiros e nos sitios mais ou menos pantanosos, existe uma vegetação lenhosa particular, constituida pelo amieiro, pelos choupos, salgueiros, etc.

A fundura e a fertilidade do solo actuam com bastante força tambem na distribuição das essencias florestaes; os terrenos superficiaes são, por isso mesmo, mais seccos do que os terrenos fundos; nos ultimos as raizes podem alargar-se até maior extensão vertical, emquanto nos solos pouco espessos só podem extender-se horisontalmente; as diversas essencias preferem umas ou outras d'estas condições conforme as necessidades dos seus organismos, e a disposição das suas raizes. Assim o roble, cujo systema radicular é profundo, que tem uma raiz mestra comprida, vive bem nas terras espessas, nos valles frescos e ricos do Minho, mas raro se encontra nas ladeiras empinadas de Traz-os-Montes e da Beira, onde, é certo, o clima lhe é bastante menos favoravel, mas onde tambem o solo, nas encostas, mais secco, mais pobre e menos fundo, lhe é menos propicio. Substitue-o ahi o carvalho pardo da Beira, cujas raizes afundam menos, e bracejam horisontalmente muito mais.

¹ As listas que antecedem são extrahidas do livro do sr. Ch. Contejean, adiante citado.

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As diversas arvores tiram ao terreno quantidades variaveis das substancias de que necessitam para se constituir. Como demonstração apresentamos a seguinte tabella onde se veem quaes as percentagens de cinzas, e quaes as percentagens de acido phosphorico, potassa e cal, extrahidas ao solo por algumas essencias. Copiamos esta tabella de um trabalho do sr. E. Henry, publicado nos Annales de la Station Agronomique de l'Est do sr. L. Grandeau:

EM 100 DE MATERIA SECCA (ARVORE COMPLETA)

Essencias Cinzas A. phosphorico Potassa Cal

Mostageiro . . . 1k,444 0k,058 0k,152 1k,001

Maceira . . . 2k,073 0k,082 0k,223 1k,531

Cerejeira . . . 0k,992 0k,041 0k,093 0k,677

Avelleira . . . 2k,557 0k,131 0k,200 1k,893

Carpinus Betulus, L. . . . 1k,477 0k,087 0k,094 1k,097

Choupo tremedor . . . 1k,771 0k,084 0k,209 1k,206

Ulmeiro . . . 2k,042 0k,070 0k,155 1k,426

Bordo . . . 1k,594 0k,078 0k,336 1k,085

Faya (Fagus silvatica, L.) . . . 1k,098 0k,052 0k,143 0k,703

Carvalho . . . 1k,483 0k,076 0k,158 1k,092

Freixo . . . 1k,446 0k,183 0k,225 0k,832

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Se disposermos estas arvores pela ordem das suas exigencias, dando o numero 1 á que exige menores percentagens dos principios considerados, obtem-se o quadro seguinte, onde se pode notar que as especies mais exigentes em acido phosphorico são tambem, salvas poucas excepções, as mais exigentes em potassa.

Essencias A. phosphorico Potassa Cal

Cerejeira . . . 1 1 1

Faya (Fagus silvatica, L.) . . . 2 3 2

Mostageiro . . . 3 4 4

Ulmeiro . . . 4 5 9

Carvalho . . . 5 6 6

Bordo . . . 6 11 5

Maceira . . . 7 9 10

Choupo tremedor . . . 8 8 8

Carpinus Betulus, L. . . . 9 2 7

Avelleira . . . 10 7 11

Freixo . . . 11 10 3

Estes numeros evidenciam o papel que a fertilidade do solo exerce na distribuição das especies lenhosas. É claro que as essencias mais exigentes hão de concentrar-se nos terrenos ferteis, porque os individuos nascidos nos solos fracos ficam rachiticos e são dominados pela mais robusta vegetação das especies menos exigentes, muito mais apropriadas, essas, ás terras pobres.

O esgotamento do solo provocado pela maior parte das essencias florestaes, quando apenas se consideram as quantidades de principios mineraes extrahidos de uma dada unidade de superficie, não é muito menos consideravel do que o esgotamento realisado pelas culturas arvenses, como se vê dos seguintes numeros transcriptos da obra do sr. Grandeau citada anteriormente:

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Culturas

Principios mineraes extrahidos de 1 hectare

Trevo . . . 319k

Prados . . . 299k

Batatas . . . 265k

Alto fuste de fayas (F. silvatica, L.) . . . 215k

Trigo . . . 174k

Ervilhas . . . 169k

Abeto (Abies excelsa, DC.) . . . 158k

Pinheiros . . . 63k

No emtanto as arvores restituem ao terreno, como veremos, sob a fórma de folhada uma parte muito importante dos principios que lhe tiraram, e alimentam-se n'um cubo de terra maior, por isso são, na realidade, muito menos esgotantes que as culturas arvenses.

Os numeros acima accusam uma grande differença entre a quantidade das substancias mineraes necessarias aos pinheiros e as quantidades precisas a todas as outras arvores e culturas. D'aqui uma das principaes razões porque esta essencia, em muitos casos, se torna tão preciosa, e a razão porque prospera em solos tão pobres como são as areias do littoral e muitas charnecas e arenatas do interior.

Hundeshagen classificou os solos florestaes, quanto ao grau de fertilidade, do seguinte modo ¹:

1.ª Classe: Solos muito ricos. - Comprehende: todas as formações calcareas, em geral - o tufo calcareo, os terrenos gypsosos e margosos; as formações vulcanicas (lavas); os terrenos basalticos, e os derivados do trapp; os solos originados pela euphotide, chlorite e serpentina, pelos schistos magnesiano e argilloso quando contem magnesia; os jazigos quartzoso-calcareos d'algumas camadas de gréses, quando formam solos calcareo-ferruginosos; os porphyros. Os terrenos d'esta classe sustentam, mesmo sem a comparencia de humus ou de estrumes, as arvores mais exigentes. Nunca se encontram n'elles os fetos, as urzes, giestas, carquejas, etc.

¹ Citado nos Études sur l'aménagement des forêts, pour L. Tassy. Paris. 1872.

C. S. 17

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2.ª Classe: Solos de média fertilidade. - Comprehende os schistos argillosos, quando são pobres em cal, em magnesia e ferro; os solos derivados dos granitos e gneiss, dos schistos siliciosos, do tufo quartzoso, do schisto micaceo e do grés primitivo, bem como das variedades mais ricas em argilla do grés variegado e do grés oolithico. As essencias mais exigentes precisam encontrar, para poderem viver n'estes solos, uma capa humifera abundante. Apparecem n'elles expontaneas as urzes, o arando, as giestas, carquejas, etc.

3.ª Classe: Solos pobres. - Abrange os gréses variegados, em geral, e os gréses de nova formação. Precisam estes terrenos muito humus. A faya (Fagus silvatica, L.), o Carpinus Betulus, L., a tilia, o abeto, o pinheiro do Norte, só com tratamento e cuidados cenvenientes podem conservar-se n'elles. O freixo, o amieiro, o bordo (Acer), nunca ahi apparecem espontaneos, mas sim os fetos em grande quantidade, as urzes e giestas, etc.

4.ª Classe: Solos muito pobres. - Formados pelos calháus rolados e pelas areias movediças.

Apezar dos numeros, que apresentámos acima, a respeito das quantidades de principios mineraes extrahidos do solo pelos arvoredos e pelas culturas arvenses, estas ultimas estão sob uma dependencia muito maior das qualidades do terreno, como dissemos. Não só as arvores se contentam com terras muito mais pobres, como ainda os massiços florestaes melhoram e enriquecem o solo, emquanto as culturas arvenses o peioram e esterilisam, se por ventura não forem acompanhadas de estrumações intensas. Este papel das florestas será melhor desenvolvido adiante, quando tratarmos da formação e propriedades da folhada. Por emquanto limitar-nos-hemos a dizer que, sobre os terrenos pobrissimos, podem sempre desenvolver-se algumas essencias lenhosas, que os enriquecem e melhoram com os detritos accumulados, podendo succeder-lhes depois as essencias mais exigentes. Esta questão da fertilidade do solo, que representa em agricultura uma influencia preponderante, tem-a, por isso, muito mais modesta em cultura florestal.

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2.º - OS TERRENOS DE PORTUGAL: SUA INFLUENCIA NA DISTRIBUIÇÃO DAS ESSENCIAS FLORESTAES

Os granitos e os schistos - nas suas innumeras variantes - constituem a feição geologica que em Portugal occupa a maior área. Se exceptuarmos a orla littoral do Algarve e uma faxa desenvolvida na costa occidental, que abrange, ao norte do Tejo, proximamente as duas regiões climatericas, denominadas pelo sr. Barros Gomes, Beira littoral e Centro littoral (regiões cujos limites descrevemos), e que ao sul do Tejo se alarga depois mais pelo interior, comprehendendo o territorio que o sr. Barros Gomes chamou Baixas do Sorraia, quasi todo o Baixo Alemtejo littoral e ainda a parte limitrophe das Baixas do Guadiana, tudo o mais, a bem dizer, é formado pelos schistos e granitos, com a predominancia ora de uns ora de outros.

A faxa mais occidental, que determinámos, é dividida em duas partes pelo Tejo; ao norte avultam os terrenos secundarios, sobretudo as formações cretacea inferior e jurassica, ao sul d'aquelle rio preponderam os terrenos terciarios. O littoral algarvio partilha d'estas duas formações, secundaria e terciaria.

Dentro da carta, que a tão largos traços esboçámos, ha um sem numero de detalhes a introduzir. N'uns pontos são as rochas eruptivas que vem intermeiar nas assentadas anteriores; n'outros pontos apresentam-se depositos mais modernos; finalmente n'outros sitios o encontro de especies mineralogicas diversas inprime-lhes, a uma ou a todas, modificações importantes. Assim, por exemplo, no Minho e em Traz-os-Montes os schistos apresentam, em partes, erupções graniticas e dioriticas, e n'esta ultima provincia calcareos crystallinos. No Alemtejo esses mesmos calcareos crystallinos, as dyorites e os porphyros irrompem com frequencia; os porphyros sobretudo no centro da provincia. Desde as faldas da serra do Bussaco até proximo de Thomar, passando por Coimbra, estende-se uma faxa de grés vermelho. Na Estremadura tambem se encontram os gréses; e por outras partes proximo a Lisboa, no terreno cretaceo, apresentam-se erupções basalticas. Ao longo do littoral, em toda a parte onde a costa é baixa, corre uma faxa de areias marinhas, que, em alguns pontos, se encontram tambem, nas costas mais altas, como diremos: estas areias incultas e medões da costa são calculadas pelo Relatorio ácerca da arborisação geral do paiz em 72:000 hectares. Nas bacias de alguns rios apparecem formações modernas - quaternarias e post-diluvianas - bem como n'uma estreita faxa no littoral occidental.

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Na grande zona schisto-granitica, apezar das erupções calcareas n'um ou n'outro ponto, a cal escasseia e, considerada em geral, a vegetação lenhosa espontanea é calcifuga, ou indifferente. Na zona mais littoral as formações calcareas, como dissemos, originam, em partes, solos ricos n'aquelle corpo e onde a vegetação é calcicola, ou indifferente. Á primeira vista, quem não conhecer o nosso paiz e apenas tiver lido o que deixamos escripto, ha de notar um facto apparentemente contradictorio e inexplicavel; a região calcarea ao norte do Tejo fica comprehendida na zona do pinheiro bravo, que traçamos no livro anterior, apezar d'esta essencia ser calcifuga em tamanho grau. Todavia a contradicção é apenas apparente: na Beira littoral e no Centro littoral existem, com os terrenos calcareos, muitos outros que o não são, e exactamente n'estes é que se encontram os pinhaes.

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O pinheiro bravo e o castanheiro apresentam entre nós as mesmas tendencias calcifugas que teem nos outros paizes. Transcrevemos, em abono d'esta asserção, os periodos seguintes d'umas informações, que obtivemos, sobre este assumpto, do nosso tão distincto silvicultor o sr. Carlos A. de Souza Pimentel, chefe da Divisão Florestal do Centro:

«Só conheço bons pinhaes bravos em solos quartzosos, graniticos ou de schistos siliciosos, isto é, terrenos sem calcareo algum; mas nas terras que teem este principio em pequena quantidade o pinheiro bravo tambem vegeta, porem fica muito longe de attingir o desenvolvimento que toma n'aquelles solos. Em chão que contenha grande quantidade de calcareo não me lembra de ter visto pinhal, e sei de uma sementeira que se fez n'uma terra de cré, não escapando um só pinheiro bravo; nasceu bem, mas mezes depois tinham seccado todos os pinheirinhos. O calor e a côr branca d'este terreno tambem deve ter contribuido para este resultado.»

«... Quanto ao castanheiro posso dizer o mesmo; bons soutos só os conheço em chão granitico ou schisto-silicioso. Parece-me que não sendo grande a percentagem do calcareo, tambem o terreno poderá servir para o castanheiro.»

Os grandes accidentes orographicos do paiz ao norte do Tejo originam, especialmente na região mais interna, um grande numero de ladeiras aprumadas d'onde o revestimento terroso tem sido, em grande parte, arrastado pelas chuvas, pelas neves e pelas geadas, e que n'uns pontos se apresentam mal cobertas com matos rasteiros, emquanto n'outros a rocha sub-jacente irrompe a descoberto, escalvada e nua, ou apenas vestida pelos musgos e lichens. Sobre estes terrenos, completamente desaproveitados, os arvoredos representariam uma dupla missão, tornando productivas superficies tão vastas, concorrendo efficazmente para a regularisação dos cursos d'agua, que d'ali se despenham, e protegendo das corrosões e depositos esterilisadores os terrenos collocados mais abaixo. O Relatorio ácerca da arborisação geral do paiz calcula os terrenos incultos ao norte do Tejo em 2.322:000 hectares, a maior parte dos quaes podiam com vantagem ser arborisados, e representam cumiadas e ladeiras em muitos pontos abruptas. Estas montanhas alternam, ás vezes, com terras profundas e muito ferteis, aproveitadas com grande vantagem pela agricultura.

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Na região sul do Tejo, mais plana, a área inculta é tambem muito consideravel, embora ahi apresente um aspecto muito diverso; o relatorio anteriormente citado calcula esta área desaproveitada em 1.956:000 hectares, que muito conviria egualmente cobrir de arvoredos. N'esta superficie comprehendem-se as lendarias charnecas do Alemtejo, onde apenas se encontra uma vegetação lenhosa arbustiva e sub-arbustiva, predominando as urzes, as estevas, os tojos, o lentisco, o carrasqueiro, etc., e cujo solo, constituido em sitios por arenatas mais ou menos soltas, é n'outros pontos, relativamente, muito mais favoravel.

Resumindo: - o clima influe mais na distribuição das nossas essencias florestaes do que a natureza do solo. O castanheiro não se encontra nas terras calcareas, e na grande zona do paiz pobre em cal escolhe de preferencia os pontos onde o clima lhe é mais favoravel. O pinheiro bravo agglomera-se, ao norte do Tejo, na faxa littoral e em parte do centro da região, por uma exigencia climaterica particular, e procura ahi os terrenos mais pobres em cal, onde só pode viver. O zambujeiro espontaneo apenas quasi se encontra nos terrenos calcareos do Tejo, do Mondego, do Guadiana e do Algarve, mas a cultura tem-o levado a todos os pontos do reino, e a oliveira existe productiva, e em boas condições de vegetação, sobre outras formações geologicas muito diversas. O carvalho pardo da Beira, o roble e o carvalho portuguez distribuem-se no paiz, indifferentes á composição do solo, segundo as suas exigencias climatericas; a profundidade e a riqueza da terra é que actuam um pouco n'esta distribuição, como dissemos. São ainda causas climatericas as que substituem, ao sul, o pinheiro bravo pelo pinheiro manso, e, pode-se dizer, causas da mesma natureza actuam na distribuição da azinheira e do sobreiro, que vivem em solos de composição mineralogica variavel, embora a primeira, dizem, prefira um tanto os solos calcareos, e o segundo os feldspathicos. Nos terrenos bastante humidos, nas beiras dos cursos de agua, a vegetação lenhosa peculiar é constituida pelos salgueiros, choupos, amieiro, freixo, etc., indifferentes á natureza chimica da terra, e pouco influenciados pelas variações do clima.

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3.º - AS DIVERSAS QUALIDADES DO SOLO E A SUA INFLUENCIA NAS QUALIDADES DOS LENHOS E NA VIDA DAS ARVORES

As condições do solo que influem no porte das arvores, na sua longevidade e na qualidade dos seus productos, são, especialmente, o grau de riqueza e a percentagem de humidade.

Quanto mais fertil é o terreno - em egualdade de todas as mais circumstancias - maior é o desenvolvimento das especies lenhosas, em altura e grossura, e maior é a duração de cada individuo. Nos solos muito pobres, aridos, superficiaes, collocados sobre um sub-solo por onde as raizes não consigam introduzir-se, as arvores não podem viver e apenas algumas moitas arbustivas se encontram. Nas terras que apresentam condições um pouco mais favoraveis as arvores apparecem já, mas ficam enfezadas, nodosas, com pequeno porte, grossura mesquinha, e vivem, relativamente, muito menos tempo do que as dos solos mais ricos.

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