Chapter 17
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Influencia das florestas sobre a temperatura do solo. - O solo inferior aos grandes massiços florestaes apresenta á superficie uma camada mais ou menos espessa de substancias organicas em diversos estados de decomposição - detritos de folhas, de ramos, de pericarpos, etc. - juntas com musgos e lichens, que ali se desenvolvem em abundancia. Esta camada denomina-se manta da floresta; apresenta-se fôfa, porosa, cheia de ar, e exerce uma grande influencia nas propriedades physicas e na fertilidade do solo florestal.
O ar preso mechanicamente na manta torna-a má conductora para o calor, transformando-a n'um abrigo do terreno subjacente; este abrigo diminue a irradiação do solo e a quantidade de calor absorvido, tornando-lhe assim mais lentas as alternativas de temperatura.
Segundo as observações na Baviera, a média annual da temperatura do solo vestido de arvores e protegido pela manta é inferior á do solo nú (1°,3 a 1°,5).
Esta differença repartiu-se tambem com muita desegualdade pelas quatro estações. Foi sobretudo pronunciada no estio, por occasião dos grandes calores; em média, n'esta estação a differença foi de 3 graus proximamente, para menos, no solo florestal (até á profundidade de quatro pés).
A influencia da floresta e da manta foi, pelo contrario, quasi nulla no inverno; facto que explica a presença quasi constante de uma camada isoladora de neve no solo dos massiços onde recaiu a experiencia. O terreno florestal gelou á mesma profundidade que o dos prados, mas a temperatura do primeiro ficou sempre um pouco mais elevada que a dos segundos.
As médias e as minimas de temperatura, no solo da floresta, oscillaram tambem dentro de limites menores que nos campos despidos de arvores. Á superficie, a maxima do estio na floresta diminuiu, comparativamente ao terreno desarborisado, 5°,35, e a minima de inverno subiu 0°,65. Com o augmento da profundidade estas differenças tornaram-se menos accentuadas.
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Pode pois dizer-se que a acção das florestas sobre a temperatura do solo é analoga á acção sobre a temperatura do ar: diminue egualmente a média annual, mas corrige as demasias, regularisa, provoca menores variantes; n'um e n'outro caso são as temperaturas mais elevadas do estio as que soffrem correcção maior.
Influencia das florestas sobre a humidade absoluta do ar. - Segundo os dados das estações da Baviera, as florestas não parecem exercer grande acção sobre a humidade absoluta atmospherica. A quantidade de vapor de agua contido n'um mesmo volume de ar, a 1m,5 de altura, na floresta e fóra da floresta, apresentou médias annuaes quasi identicas, com uma differença muito leve a favor da região desarborisada; as médias correspondentes ás quatro estações, n'um e n'outro local, accusaram tambem muito pequenas variantes.
Na atmosphera das florestas a forte transpiração das arvores e a maior humidade do solo, tornado poroso e hygroscopico pela manta, parece que deveriam augmentar a quantidade de vapor, mas em contraposição, n'essa atmosphera mais socegada, mais protegida contra o vento, e com temperatura menor, como dissemos, a evaporação do solo é mais fraca, e estas causas desencontradas equilibram-se naturalmente, como indicam os numeros achados pelas experiencias referidas.
Mas - convém não o esquecer - não é a humidade absoluta (a quantidade de vapor existente) que tem particular influencia na vegetação, mas sim a humidade relativa, isto é, a relação entre a quantidade de vapor a uma determinada temperatura e a quantidade de vapor necessaria para, a essa mesma temperatura, provocar a saturação. Ora, se as florestas não exercem influencia sobre a humidade absoluta, exercem-a, e grande, sobre a humidade relativa, como vamos dizer.
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Influencia das florestas sobre a humidade relativa do ar e sobre as chuvas. - Quando a quantidade absoluta do vapor de agua atmospherico for constante, e a temperatura variavel, o grau de saturação variará identicamente; assim, por exemplo, 1 metro cubico de ar a 5 graus de temperatura poderá dissolver mais 5gr,705 de agua, quando a temperatura subir a 15 graus, e este excesso de agua condensar-se-ha, se a temperatura descer outra vez a 5 graus.
As florestas, como dissemos, não alteram, ou pouco alteram, a quantidade absoluta da humidade atmospherica, e provocam uma diminuição na temperatura média; logo, devem identicamente augmentar a humidade relativa. As estações florestaes da Baviera acharam que este augmento é de 6,36 por cento, em média, oscillando entre 3 e 9 por cento, conforme a distancia do ponto considerado ao mar.
A differença da humidade relativa encontrada repartia-se muito desegualmente pelas quatro estações, sendo maxima no estio, pela mesma fórma porque n'essa estação tambem a differença da temperatura é maxima entre a floresta e o campo sem arvores. Eis as médias dos numeros achados:
Differença de humidade relativa, a favor da floresta
Primavera . . . 5,87
Estio . . . 9,28
Outono . . . 5,22
Inverno . . . 5,24
Cotejando as médias mensaes de humidade relativa, dentro e fóra da floresta, nota-se que as maiores differenças coincidem com os mezes mais quentes, e as menores differenças com os mezes mais frios; isto é, a maior correcção dá-se exactamente nas épocas que mais a precisavam. Aquelle excesso de humidade nos mezes de estio é muito favoravel aos arvoredos, diminuindo a evaporação do solo e das arvores novas; por outro lado as differenças, ainda apreciaveis, a favor da floresta, na primavera e no outono, mitigam a irradiação nocturna, o que, junto á menor oscillação das temperaturas minimas, tornam as geadas menos frequentes e menos intensas.
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A floresta, ao mesmo tempo que augmenta a humidade relativa, regularisa-a; os quadros das variações hygrometricas durante cada dia apresentam maiores oscillações nos campos sem arvores.
O augmento da humidade relativa atmospherica nos paizes arborisados traz mais, como consequencia, a maior copia de aguas meteoricas. Nas experiencias da escola de Nancy a chuva caida nos pontos arborisados estava para a chuva dos terrenos nús como 100 ou 97 para 81.
É certo que uma parte da agua caida na floresta não chega ao solo, fica retida pela folhagem e perde-se por evaporação. Esta quantidade assim perdida varía muito, conforme o massiço é de arvores sempre-verdes ou de folhas caducas, e segundo a folhagem é espessa ou ligeira; mas, apezar d'esta causa de diminuição, todos os dados mostram que as médias annuaes da chuva recebida no solo da floresta são mais elevadas, que nos campos sem arvoredos.
A perda da agua retida pela folhagem não é tão importante como pode parecer á primeira vista. Sobre as folhas de muitas essencias as pequenas gottas liquidas tomam a fórma espheroidal, apresentando-se como outras tantas perolas brilhantes; n'esse estado, como sabemos, a agua resiste energicamente á evaporação; sacudida pelo vento desprende-se ao depois, caindo afinal sobre a terra; ninguem ignora que, já passado muito tempo em seguida ao ter parado a chuva, quem atravessar por debaixo das arvores é molhado ainda pela agua, que a agitação das copas faz desprender.
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Segundo as experiencias da escola de Nancy, realisadas em massiços de essencias de folha caduca (Fagus silvatica, Carpinus Betulus, e Quercus), a quantidade média da agua interceptada pela copa das arvores foi a seguinte:
De novembro a abril (arvores sem folhas) . . . 5,84%
De maio a outubro (arvores com folhas) . . . 11,00%
Isto é, as folhas apenas duplicam a retenção exercida pelos ramos.
As chuvas leves, essas é que não chegam a molhar o terreno da floresta: em parte ficam perdidas na folhagem, em parte são presas pela manta. Nas épocas de secca, apenas interrompida por chuvas fracas, o terreno das matas recebe menos agua que os solos desarborisados; mais uma razão da influencia benefica dos invernos chuvosos e abundantes em nevadas, que abastecem os reservatorios profundos da terra, tornando-se tão propicios aos massiços florestaes.
Influencia das florestas sobre a evaporação do solo. - A atmosphera mais fria e mais socegada das matas diminue a evaporação do solo. N'um massiço a que tinha sido tirada a manta, segundo as médias de cinco annos das estações bavaras, a evaporação do solo, em numeros redondos, foi metade da dos terrenos desarborisados.
A manta, porosa, hygroscopica, rica em substancias ávidas de agua, diminue ainda muito aquelle valor; n'essas condições a evaporação do solo nas florestas é quatro ou cinco vezes mais fraca do que nos campos sem arvores.
Quem quizer uma demonstração directa de quanto a evaporação é menor nos massiços florestaes, bastar-lhe-ha percorrer um, no dia seguinte ao de uma boa chuvada; os campos e os caminhos em redor já estão enxutos, mas sob as arvores a agua persiste em abundancia, nas hervas e arbustos, e molhará completamente os pés e as pernas de quem se arriscar a esse passeio.
C. S. 16
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Influencia das florestas sobre o vento e sobre a salubridade das povoações proximas. - Os arvoredos attenuam a força dos ventos e servem de abrigo e protecção ao paiz visinho. Junto á costa maritima, quebrando o embate dos ventos mareiros, quasi sempre tão violentos, e em alguns pontos das montanhas, é onde esta sua influencia apparece mais frisante e mais benefica.
Os massiços florestaes contribuem tambem para a salubridade do ar, já pelas emanações resinosas, ou outras, já pelo ozone, que abunda tanto mais na atmosphera quanto mais forte a vegetação e maior a sua actividade organisadora. Citam-se factos de determinadas povoações serem preservadas de certas doenças paludosas pela interposição dos arvoredos, respectivamente ao foco onde os germens do contagio se originavam.
Influencia do coberto das arvores sobre a vegetação inferior. - É um facto de observação vulgar, que os vegetaes desenvolvidos a coberto das arvores apresentam menor robustez e menor porte. Nas vinhas que teem pelo meio fiadas de oliveiras, as cepas mais proximas d'essas arvores são as menos productivas e as mais enfezadas; as culturas arvenses resentem-se muito nas beiras dos campos orlados com arvores silvestres ou fructiferas; no interior dos massiços florestaes a vegetação espontanea é sempre muito mais enfezada que ao ar livre. Esta acção é mesmo tão energica e evidente que nos massiços apertados e compactos de algumas folhosas nem os arbustos, nem as phanerogamicas herbaceas, podem viver, e apenas se encontram lichens, musgos, algumas hepaticas, e ás vezes os fetos.
Esta influencia nociva tem-se pretendido explicar por diversos modos: pelo empobrecimento da terra occasionado pelas raizes da arvore; pela diminuição da luz; pela acção da luz verde reflectida das folhas, etc.; ultimamente o sr. Grandeau attribuiu-a, em grande parte, á falta de electricidade atmospherica sob o coberto das arvores.
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Aquelle observador cultivou diversas plantas (o tabaco, o milho e o trigo) em caixotes cheios de terra egual, formando dois lotes, onde todas as condições da vegetação eram identicas, excepto a acção electrica, supprimida completamente n'um dos lotes, por meio de uma gaiola isoladora de fio delgado de ferro, por entre cujas malhas o ar e a luz podiam circular em liberdade. Por comparação entre as plantas desenvolvidas ao ar livre e as que viveram sob a gaiola isoladora, chegou ás seguintes conclusões:
- Sob a gaiola isoladora as plantas experimentaram no seu desenvolvimento e na sua evolução uma diminuição e uma demora bastante consideravel; constituiram menos substancia viva do que ao ar livre (30 a 50 por cento menos), parecendo a formação do amido, da glucose, etc., ser particularmente influenciada pela electricidade atmospherica; diminuiu o numero das flores e dos fructos, bem como o peso das sementes. Sob a gaiola isoladora as plantas ficaram mais ricas em agua e mais pobres em substancias mineraes.
Tendo verificado depois a ausencia total da tensão electrica, comprovada pelos mais sensiveis electrometros, na atmosphera inferior ás arvores, repetiu as experiencias referidas acima, collocando umas das plantas ao ar livre, e as outras, não sob a gaiola isoladora, mas a coberto de uma arvore. Os resultados obtidos foram identicos aos anteriores, d'onde concluiu:
- «As grandes arvores, os massiços de verdura, uma gaiola de madeira coberta de plantas vivas, comportam-se, em relação ás plantas que dominam, como a gaiola isoladora de fio de ferro: roubam a electricidade atmospherica e subtrahem completamente á sua acção os objectos situados entre elles e o solo. O perimetro de protecção de uma arvore de grande porte contra a influencia electrica da atmosphera é maior do que a superficie da projecção vertical da sua copa. Quando a arvore é despida de ramos até uma certa altura do terreno, a luz directa, o calor solar, a chuva, etc., podem actuar livremente, como na gaiola isoladora de fio de ferro, e só a electricidade atmospherica é annullada.»
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Devemos todavia notar que estas experiencias do sr. Grandeau, repetidas novamente por outros observadores, parece não terem sido coroadas de bom resultado, e o sr. Dehérain inclina-se a negar a influencia da electricidade sobre a vegetação ¹.
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Terminando este estudo ácerca da influencia climaterica das florestas, chamaremos ainda a attenção sobre um ponto: esta influencia, mesmo local e restricta como é, depende, na intensidade, de muitas causas - da extensão dos arvoredos, da sua orientação, da altura das arvores, da edade em que se cortam, dos processos de exploração, etc. Os numeros, que deixámos apontados, procuram evidenciar a acção das arvores sobre a temperatura, sobre a humidade, etc., mas por modo nenhum devem ser reputados como medida uniforme de uma influencia identica em paizes diversos e em condições deseguaes.
¹ M. Dehérain. - «Chimie agricole. Nutrition de la plante. - Encyclopèdie chimique, publiée sous la direction de M. Fremy» - Paris, 1885.
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AUCTORES PRINCIPALMENTE CONSULTADOS N'ESTE LIVRO II.
A. GRISEBACH. - La végétation du globe d'après sa disposition suivant les climats (traduit de l'allemand par P. de Tchihatchef). Paris, 1877.
L. GRANDEAU. - Cours d'agriculture de l'École Forestière Vol. I. Paris, 1879.
- Annales de la station agronomique de l'Est. Paris, 1878.
J. G. BAKER. - Lições elementares de Geographia Botanica (traducção do dr. Julio A. Henriques). Coimbra, 1879.
B. BARROS GOMES. - Notice sur les arbres forestières du Portugal. Lisbonne, 1878.
- Cartas elementares de Portugal para uso das escolas. Lisboa, 1878.
- Condições florestaes de Portugal. Lisboa, 1876.
DR. JULIO A. HENRIQUES. - Relatorio da secção de botanica da expedição scientifica á serra da Estrella. Lisboa, 1883.
RELATORIO DA ADMINISTRAÇÃO GERAL DAS MATAS, relativo ao anno economico de 1879-1880. Lisboa, 1881.
ADOLPHE E. DUPONT et BOUQUET DE LA GRYE. - Les bois indigènes et étrangers. Paris, 1875.
A. PARADE. - Cours élémentaire de culture des bois. Paris, 1883.
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MARIÉ-DAVY. - Météorologie et physique agricoles. Paris, 1875.
A. D'ARBOIS DE JUBAINVILLE et J. VESQUE. - Les maladies des plantes cultivées, des arbres fruitiers et forestières. Paris, 1878.
ALEXANDRE SURELL et E. CEZANNE. - Études sur les torrents des Hautes Alpes. Paris, 1872.
DEHÉRAIN. - Chimie agricole. Nutrition de la plante: Encyclopédie chimique, publiée sous la direction de M. Fremy. Paris, 1885.
DR. JULIO A. HENRIQUES. - Boletim da Sociedade Broteriana III. Fasciculo 3.º e 4.º, 1884. Coimbra, 1885.
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LIVRO III
Agrologia Florestal
1.º - INFLUENCIA DO SOLO NA DISTRIBUIÇÃO DAS ESPECIES FLORESTAES
A influencia do solo na distribuição das especies vegetaes é innegavel, mas as causas a que esta influencia deve ser attribuida são questionaveis, e teem sido consideradas por diversos modos. Uns derivam a acção do solo exclusivamente das suas propriedades physicas, sem ligarem importancia á natureza chimica dos elementos constituitivos, senão pela influencia que essa diversidade de composição pode ter sobre as propriedades physicas; outros, pelo contrario, dão o primeiro papel á composição chimica da terra, tendo em nenhuma, ou quasi nenhuma attenção as suas propriedades physicas.
Postas em confronto as duas theorias - que uma e outra teem tido a seu favor numerosos defensores - a ultima apresenta-se muito mais verdadeira; no emtanto qualquer d'ellas é decerto absoluta de mais, e a questão ganharia em não ser enunciada com tamanho exclusivismo.
A influencia chimica do solo na distribuição das especies vegetaes torna-se particularmente evidente quando se estudam dois terrenos de composição mineralogica bem diversa, mas cujas propriedades physicas sejam semelhantes, em virtude de quaesquer causas accidentaes (grau de fragmentação das particulas terrosas, etc.), ou quando, pelo contrario, se comparam dois terrenos chimicamente analogos, mas com propriedades physicas diversas. Em muitos d'estes casos estudados as floras locaes variam com a composição chimica, conservando-se identicas ao diversificarem as propriedades physicas.
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O melhor e mais seguro modo de resolver este problema é, sem duvida, o exame botanico feito nas condições que acabámos de dizer, e muitos dados valiosos teem sido reunidos já por esse processo, mas o raciocinio tambem pode mostrar quanto a feição chimica do solo deve influir. Com effeito, estando provado que os vegetaes absorvem da terra substancias indispensaveis á sua organisação, e que as diversas especies absorvem estas substancias em quantidades muito deseguaes (como o demonstram as analyses das suas cinzas), será logico suppor cada especie dependente da composição do solo pelo alimento que elle lhe pode dar.
Assim os terrenos graniticos, os calcareos, os basalticos, os argillosos, etc., teem, cada um d'elles, uma flora especial; mas as principaes differenças da vegetação, motivadas pela composição chimica do solo, são devidas sobretudo á presença ou ausencia do sal marinho, e á comparencia ou não comparencia da cal n'umas certas percentagens.
Influencia do sal marinho. - A presença ou ausencia do sal marinho no terreno permitte uma primeira divisão de todos os vegetaes em dois grupos - maritimos, ou dos salgadiços, e terrestres. Ao primeiro grupo pertencem as plantas das proximidades do mar e as dos terrenos do interior onde apparecem efflorescencias salgadas, as plantas que precisam, ou talvez antes que toleram, a presença do sal marinho em excesso; incluem-se no segundo grupo os vegetaes que não podem viver n'um meio tão salgado; dá-se-lhes vulgarmente o nome de terrestres, por fugirem das visinhanças do mar.
Parece que nenhuma exigencia particular pelo chloreto de sodio prende o maior numero das especies ditas maritimas aos terrenos salgados, podendo quasi todas viver perfeitamente nos solos onde falte o sal, mas, pelo inverso, as plantas terrestres é que não podem vegetar nos solos onde aquelle corpo abunde: isto é, as plantas terrestres são salifugas, sem ás plantas maritimas caber, segundo parece, o nome de salicolas. O não existirem plantas maritimas longe dos solos salgados pode explicar-se talvez, na hypothese de ellas não terem nenhuma exigencia particular pelo sal marinho, com as leis da concorrencia - com a lucta pela vida - entre as plantas dos dois grupos. As especies ditas terrestres estarão melhor armadas para a lucta e por isso vencerão as do outro grupo, excepto nos meios salinos, onde as primeiras não podem viver, e que por isso mesmo se tornam campo aberto ao desenvolvimento das segundas.
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A salgadeira (Atriplex Halimus, L.), a salicornia (Salicornia fruticosa, L.), a tamargueira (Tamarix Gallica, L.), etc., dão-nos exemplos de arbustos e sub-arbustos maritimos. A Myrica Gale, L., vive perfeitamente nas praias, mas é já quasi indifferente aos meios salgadiços e penetra mais para o interior. O pinheiro bravo é, das nossas essencias florestaes, uma das que mais se chega á zona maritima.
Influencia da cal. - Nas acções exercidas pelo solo sobre a distribuição das plantas, a cal, como dissemos, representa um grande papel. A este respeito as especies vegetaes podem dividir-se em tres agrupamentos - calcicolas, silicicolas e indifferentes, conforme se desenvolvem nos solos calcareos, siliciosos, ou indifferentemente n'uns e outros.
As especies caracteristicas dos solos calcareos estão presas a esses solos pela necessidade da cal, sem ella não podem viver, e por isso cabe-lhes bem aquella denominação de calcicolas, mas já o mesmo não acontece a proposito das silicicolas. Os estudos mais autorisados, feitos com estas plantas, parecem demonstrar que ellas não teem nenhuma necessidade mais urgente, ou mais forte, pela silica, apresentando, pelo inverso, uma grande repugnancia pela cal, que é extraordinariamente nociva aos seus organismos; se habitam os terrenos siliciosos é apenas por elles serem pobres em cal; isto é, estas especies devem ser antes chamadas calcifugas, do que silicicolas.
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O castanheiro dá-nos um optimo exemplo de uma especie calcifuga. Não parece ter, conforme diremos adiante, nenhuma necessidade particular de silica, e só vive nos terrenos onde as percentagens da cal sejam inferiores, segundo o sr. Chatin, a 3 por cento. A distribuição d'esta arvore em Portugal é curiosa, e está em harmonia com a ultima d'aquellas asserções; o castanheiro, entre nós, prepondera sobretudo na região transmontana, na Beira meridional, no Alto Alemtejo e na serra de Monchique, porém encontra-se em muitos outros pontos, na Beira central, no Minho, etc., mas sempre em terrenos não calcareos. Nos arredores de Lisboa, proximo a Cascaes, n'um solo calcareo, vimol-o nascer, attingir enfezado a grossura de 0m,01 e morrer em seguida, emquanto bem perto, em Cintra, encontra-se frondoso e cheio de viço na pequena mancha granitica d'aquella serra.
Os estudos dos srs. Grandeau e Fliche, ácerca da vegetação dos castanheiros nos solos calcareos e não calcareos, mostram que ella é tanto mais fraca quanto maior vae sendo, na terra, a proporção da cal, até que, de um certo excesso d'esta substancia por diante, a arvore não pode viver, nem mesmo sujeita a um grande numero de cuidados. Á medida que a percentagem da cal augmenta diminue o crescimento em altura e em espessura, diminuem as dimensões das folhas, principalmente as dos extremos dos eixos, as estipulas persistem nos tres ou quatro nós superiores, e a côr verde das folhas altera-se, tornando-se amarellada nas folhas inferiores e quasi branca nas folhas superiores.