Curso de Silvicultura

Chapter 16

Chapter 163,722 wordsPublic domain (Wikisource)

Quanto mais pobre em agua for o tecido, quanto mais concentrados os liquidos cellulares, com maior força é a agua retida, menor a quantidade congelada e menores os effeitos destructivos. É, em grande parte, por este motivo, que umas especies resistem mais do que outras; por este motivo são tão prejudiciaes os frios já tardios da primavera, que apanham os rebentos novos em via de formação, seivosos, tenros, turgidos de liquidos. Pela mesma razão o congelamento é mais perigoso para as arvores novas, e em cada individuo para as folhas mais succosas, de menos edade.

A duração dos frios tambem influe muito, por sua parte; as plantas dos climas seccos resistem, ás vezes, a temperaturas de 2° e 3°, quando são pouco aturadas, e morrem expostas a 1°, quando esta temperatura persiste por mais tempo.

Em algumas localidades, durante os invernos rigorosos, varias especies lenhosas chegam a converter-se, pela acção do frio, n'um agglomerado de crystaes cujas agulhas podem até fazer hernia para o exterior, tornando-se os ramos delgados frageis como vidro. Ás vezes, na occasião do resfriamento, ouvem-se detonações, no meio do arvoredo, semelhantes ás da artilheria, devidas á ruptura violenta dos troncos; como gelam primeiro as camadas externas, e este congelamento as torna rigidas, oppõem-se ao depois mechanicamente á dilatação dos tecidos mais internos, provocada pela solidificação da agua que conteem, e são por isso despedaçadas com força e grande ruido.

Convem ter presente, em todo este estudo, que a temperatura d'um vegetal lenhoso não é a mesma do ambiente; é problema sempre muito complicado procurar a relação entre a temperatura da arvore e a da atmosphera, tão grande é o numero de circunstancias a attender. No periodo da actividade vegetativa a temperatura do tronco é principalmente influenciada pela das camadas do solo onde as raizes vão abastecer-se d'agua; os troncos delgados, e que teem raizes muito curtas, apresentam quasi a temperatura da atmosphera em redor, mas já não acontece o mesmo ás arvores de troncos grossos e de raizes compridas; a madeira conduz mal o calor, aquece e esfria mais de vagar que a atmosphera: de noite os troncos estão mais quentes do que o ar e de dia mais frios. As folhas e todos os orgãos onde se realisa a transpiração estão já n'outras condições; ahi importa attender ao resfriamento produzido pela transpiração e á grande superficie irradiante. Durante o inverno, como pára a circulação da agua no interior do vegetal, as variações de temperatura tornam-se mais fortes no lenho, porque é menor a correcção dada pelo calor trazido do solo na seiva.

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Os phenomenos de congelamento, taes como os referimos, podem trazer a morte dos vegetaes, ou produzir-lhes varios accidentes funestos: já nas flores, destruindo ás veses a fructificação de um anno; já nos rebentos, matando as extremidades mais herbaceas e obrigando os eixos a crescerem á custa dos botões lateraes, o que em alguns climas é habitual a determinadas especies.

As boas qualidades futuras da madeira podem egualmente ser muito prejudicadas; aquellas acções, ás vezes, provocam fendas no lenho, o descollamento parcial, ou total, das camadas annuaes, ou trazem a morte de uma porção do alburno, que não se transforma ao depois em cerne, e passados annos fica preso nos crescimentos posteriores, tornando o tronco defeituoso n'aquelle ponto, quando não se decompõe, e provoca a decomposição dos tecidos sãos em redor.

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Acção da luz. - A desegual intensidade da luz, e o desegual comprimento do periodo luminoso, influe tambem muito na vida dos individuos vegetaes pertencentes á mesma especie.

Como sabemos, a irradiação solar é indispensavel á formação da chlorophylla, a não ser em casos muito restrictos e ainda hoje inexplicados (esverdinhamento, na escuridão, das cotyledones das Coniferas, das samaras dos bordos, etc.), como é indispensavel para a decomposição do anhydrido carbonico nas cellulas chlorophyllianas. Da luz fica portanto dependente a constituição das molleculas organicas iniciaes, d'onde derivam todos os principios immediatos, que cooperam na organisação dos vegetaes.

A arvore que soffre falta de luz amesquinha-se, fórma uma quantidade menor de principios immediatos. Nas orlas dos massiços apertados as arvores bracejam sempre com mais vigor para o lado de fóra, onde ha mais luz, e no centro do massiço toda a actividade da vegetação se exerce no sentido do alongamento do eixo, em procura da luz, tornando os fustes relativamente mais altos e menos grossos.

As plantas dos logares bem expostos ao sol florescem em maior numero do que as dos sitios assombreados; calcula-se, em geral, que chega a entrar em flor um numero de individuos, da mesma especie, tres vezes maior ao sol do que á sombra. Segundo Sendtner, nas estufas esclarecidas lateralmente só um decimo das plantas florescem, emquanto nas estufas esclarecidas por cima e pelos lados floresce uma terça parte.

A qualidade dos fructos depende tambem muito da intensidade luminosa; no interior dos massiços não só as arvores fructificam menos, como tambem as sementes são peiores, e tanto que é preceito não as escolher para sementeiras artificiaes.

Acção da agua. - A acção da agua sobre o modo de vida das arvores é accentuadissima.

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Quando a agua no terreno escasseia, diminue o desenvolvimento das plantas, porque diminue tambem a entrada dos elementos mineraes necessarios á organisação do vegetal. O excesso de agua é egualmente nocivo, porque a maior diluição da seiva torna os lenhos mais porosos, menos densos.

Convém não esquecer, que estas variações da quantidade de agua devem ser consideradas em jogo simultaneo com a temperatura. Onde a temperatura e a agua augmentarem, dentro dos limites que a arvore supporta, o seu desenvolvimento é maximo; onde o calor augmente sem uma subida identica na agua, ou vice-versa, a arvore morrerá talvez, ou terá pequenos crescimentos, ou lenho de má qualidade.

As arvores apresentam grandes superficies de evaporação e precisam, por isso, encontrar agua, relativamente, em abundancia no solo. As chuvas de inverno, e as nevadas, abastecem os depositos inferiores do terreno e tornam-se-lhes, por esta razão, muito importantes; ás vezes os estios seccos não são tão prejudiciaes aos arvoredos como os invernos pobres em chuvas.

Se a quantidade e a distribuição das chuvas influe muito no modo de vida das arvores, não influe menos o estado hygrometrico do ar, a sua humidade relativa. Do grau de humidade depende a evaporação. O vapor de agua condensado sob a fórma de nuvens ou de nevoeiros diminue a intensidade da luz e mitiga o resfriamento nocturno.

Debaixo d'este ultimo ponto de vista pode-se dizer que a humidade atmospherica é um verdadeiro regulador da temperatura do ar: equilibra e transporta o calor; os climas mais seccos são os que teem temperaturas mais extremas; na atmosphera secca do deserto é vulgar a temperatura baixar de repente a 0°, ao pôr do sol, em seguida aos dias de maior calma, em que o thermometro sobre a areia chega a marcar 45°.

Acção do vento. - O vento exerce uma influencia directa sobre as arvores, independentemente das acções indirectas importantissimas provocadas pelas suas correntes, já uniformisando a composição do ar, já influindo nos hydro-meteoros, etc.

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Aquella acção mechanica directa é muito consideravel: tão consideravel que parece chegar a impedir a vegetação arborea em alguns pontos. Na America dilatam-se extensas planicies entre os Andes Chilenos e o Atlantico, conhecidas com o nome de Pampas, onde não se encontra nem uma planta lenhosa; ali, o periodo vegetativo não é encurtado pelo frio, as chuvas são abundantes, posto que, na verdade, mal repartidas; todavia essa falta de arvores é attribuida, não tanto aos intervallos de secca prolongada que alternam com as chuvas torrenciaes de tempestade, como á violencia dos ventos, cuja força não encontra a quebral-a nenhum accidente no meio de uma planura tão vasta.

O vento moderado é favoravel ás arvores: imprime-lhes movimentos e flexões continuadas, que lhes estimulam o desenvolvimento em espessura. Quando se ata uma arvore nova a um tutor, de modo que uma porção do tronco e a copa fiquem livres, a parte immovel não engrossa, ou engrossa pouco, emquanto a parte movel engrossa, proporcionalmente, muito mais. Se a arvore estiver presa de maneira que a flexão apenas n'um sentido possa realisar-se, o engrossamento é maior n'essa direcção do que na direcção perpendicular. A acção mechanica é ainda favoravel ás arvores, transportando o pollen de muitas especies, e promovendo ao depois a disseminação dos fructos.

Mas, se actua com força, o vento é muito nocivo; contorce as arvores, enfeza-as, torna-lhes o crescimento excentrico, menor do lado mais açoutado, pode quebrar-lhes os ramos, ou mesmo arrancal-as pela raiz; esta ultima acção é sobretudo promovida pelos ventos acompanhados de chuvas intensas, que amollecem o terreno.

Quando as arvores estão carregadas de neve e de geada, quando uma parte da seiva congela, os ramos tornam-se-lhes frageis, como dissemos, e muito mais facilmente são então quebrados pelo vento.

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O roçar dos troncos e dos ramos uns contra os outros, quando muito agitados, produz-lhes, ás vezes, feridas; a agitação violenta pode descollar, em partes, a casca, matando o cambium desnudado, d'onde resulta a não adherencia, ao depois, do annel lenhoso seguinte ao annel inferior, e pode até provocar fendas verticaes.

Admitte-se praticamente, com tal ou qual aproximação, que, a estes effeitos, correspondem as seguintes velocidades do vento:

Velocidade expressa em metros por segundo

Calmaria completa . . . 0

Leve brisa, apenas apreciavel . . . 4

Vento que agita as folhas das arvores . . . 8

Vento que agita as folhas e os raminhos delgados . . . 12

Vento moderado, que agita os ramos grossos . . . 16

Vento bastante forte . . . 20

Vento forte, que sacode os troncos das arvores . . . 24

Vento muito forte: quebra os ramos . . . 27

Vento de tempestade: quebra as pernadas e os arbustos . . . 30

Furacão: arranca pela raiz e quebra as arvores grossas . . . 35

Furacão violento: destroe as casas . . . 38

Influencia da exposição. - Uma das causas, a que muito importa attender no estudo da variação do clima local, é a exposição. Em pontos muito proximos as diversas exposições do solo recebem a irradiação luminosa, as chuvas e os ventos por maneiras muito deseguaes; a cada uma exposição correspondem desenvolvimentos dessemelhantes nas arvores, e differentes qualidades nos seus lenhos.

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Na exposição a nascente a insolação realisa-se de manhã, quando os raios solares teem ainda pouca força; a temperatura e a acção directa da luz são por isso ahi fracas, relativamente á exposição ao poente, onde o sol actua perpendicular nas horas de maior calor. Na exposição norte a temperatura é mais fria ainda que ao nascente, não recebe durante o dia inteiro, em algumas épocas do anno, a insolação directa a hora nenhuma; pelo inverso, na exposição sul a insolação é maxima.

A influencia dos ventos e das chuvas tambem se faz sentir por modo muito differente nas diversas exposições; assim, no nosso paiz, como os ventos mareiros são humidos, e os ventos da terra são seccos, frios no inverno e quentes no estio, as exposições cismontanas recebem, como vimos, maior quantidade de chuvas, que as exposições transmontanas. A corrente aerea tropical que se dirige aos polos, desviada do mais curto caminho pela força do movimento da terra, sopra, n'este hemispherio, do sudoeste, e a corrente polar do nordeste; o primeiro d'esses ventos é quente e humido, o segundo frio e secco, e estas influencias egualmente se reflectem nas exposições respectivas.

Nos terrenos expostos ao nascente as arvores adquirem, de ordinario, boas dimensões e uma textura forte; como o desabrolhamento só tarde ahi se realisa, as geadas da primavera não são muito para receiar, mas sim as do outono que, n'esta exposição, vem cedo e podem ainda apanhar a vegetação em actividade. Ao norte as arvores teem crescimento rapido e chegam a grandes alturas, mas apresentam habitualmente os lenhos menos densos. Na exposição ao poente as arvores adquirem flexibilidade e textura forte, mas são muito açoutadas pelo vento. A exposição sul é a peior de todas: o desabrolhamento apparece ahi cedo e as geadas da primavera tornam-se, por isso, muito perigosas, bem como o são os ventos fortes, carregados de humidade, que sopram com frequencia d'este quadrante.

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No limite do seu habitat cada essencia procura corrigir as demasias do clima, já pouco propicio, com estas variações da exposição; assim, proximo do seu limite norte, cada especie prefere a exposição sul, agasalhada, e pelo inverso junto ao limite meridional abriga-se na exposição norte, mais fria.

As differenças entre as esposições tornam-se, em regra, tanto menos accentuadas, quanto maior a altitude considerada.

Influencia da altitude. - A altitude, como sabemos, modifica muito o clima local, pelas variações que provoca na temperatura, na humidade, na intensidade luminosa, na quantidade das chuvas, etc. A estas variações climatericas correspondem manifestações da vegetação já faceis de prever: a diminuição do porte e do crescimento das arvores, a delimitação norte das zonas de habitação das especies, etc.

A acção da altitude sobre o crescimento dos troncos das arvores é caracteristica; tende a diminuir o crescimento em altura, sem diminuir, ou diminuindo muito pouco, o crescimento em espessura, o que torna os troncos baixos e grossos, dando-lhes um aspecto particular. Segundo os estudos do sr. Rivoli, feitos na serra da Estrella com o pinheiro bravo, resulta que a diminuição média em altura, para cada 100m de elevação, é a seguinte, correspondente ás diversas edades indicadas.

Edade das arvores (Pinheiro bravo)

Diminuição média na altura do tronco (Por cada 100 metros de elevação)

1 a 20 annos . . . 0m,046

21 a 40 annos . . . 0m,025

41 a 80 annos . . . 0m,016

Dos trabalhos executados em 1873 pelo sr. R. Weber, no laboratorio de Aschaffenbourg, conclue-se que a altitude tem uma grande influencia no tamanho das folhas das arvores: a mesma essencia apresenta as folhas com uma superficie tanto mais diminuta quanto maior a altitude. Estes estudos foram feitos com a faya (Fagus silvatica); as folhas medidas pertenciam a arvores que se procuraram em massiços collocados, o mais possivel, em condições identicas de solo, de vegetação, etc., e apenas diversos pela altitude. Eis os resultados obtidos:

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Altura acima do nivel do mar

Superficie total de 1:000 folhas (expressa em met. quad.)

133 . . . 3,414

237 . . . 2,128

324 . . . 2,112

438 . . . 1,822

500 . . . 1,843

514 . . . 1,674

685 . . . 1,500

700 . . . 1,472

1:043 . . . 1,083

1:182 . . . 1,351

1:344 . . . 0,910

Na penultima estação a lei que acima enunciámos acha-se muito contrariada, mas provou-se ser isto devido a uma estrumação excepcional, resultante da demora do gado n'aquella parcella. A analyse chimica comprovou bem esta explicação, pelas percentagens elevadas de ácido phosphorico encontrado n'essas folhas.

A altitude não só influe na fórma dos troncos e nas dimensões das folhas, como tambem influe na composição d'estas ultimas. Conforme os dados fornecidos pelo sr. Ebermayer e pelas estações florestaes da Baviera, a altitude diminue a percentagem das substancias mineraes das folhas, na mesma essencia, como se vê nos numeros seguintes:

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Essencias

Altura acima do nivel do mar

Percentagem das cinzas (Por cento)

Fagus silvatica, L. . . .

1:334 . . . 3,94

685 . . . 5,52

324 . . . 6,70

237 . . . 6,97

Abies excelsa, DC. . . .

1:110 . . . 3,58

915 . . . 5,43

730 . . . 6,25

130 . . . 10,19

Larix europaea, DC. . . .

1:068 . . . 2,49

880 . . . 2,77

476 . . . 3,57

171 . . . 6,02

Paizes de planicie e paizes montanhosos. - As influencias da altitude e da exposição, modificando tanto os climas e os arvoredos, permittem uma grande distincção climaterica entre os paizes de planicie e de montanha.

Nos paizes planos o clima é menos variavel n'uma grande área. Nos paizes montanhosos a variação dá-se em áreas muito restrictas; diversificam a cada passo as exposições e as altitudes; as elevações do terreno ora se assombream e quebram a força dos ventos, umas relativamente ás outras, ora, encanando as correntes de ar pelas suas gargantas, lhes mudam a direcção, e as fazem incidir com diverso sentido, e em pontos onde aliás não incidiriam.

Nos valles profundos o calor é forte de dia, concentra-se e reverbera das suas paredes; a humidade atmospherica ahi é mais abundante, os nevoeiros espessos, e os ventos actuam com menos força. Nas encostas o calor e a humidade atmospherica diminuem, a luz é viva, a acção electrica intensa, os ventos fortes e habitualmente sopram n'uma direcção constante; nas encostas a vegetação é menos precoce que nos valles. Nos plan'altos são frequentes as nuvens e as chuvas, a vegetação tem crescimento lento e pouco vigoroso; de resto, estas acções dependem muito da altitude considerada.

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Nos paizes de montanha a vegetação quasi sempre apresenta uma grande variedade; proximas umas das outras podem encontrar-se especies de zonas climatologicas diversas, exactamente porque proximas se dão tamanhas variações nos phenomenos meteorologicos. Pela mesma causa é habitual achar, em pontos muito pouco afastados, na montanha, a mesma especie com portes muito differentes, e passando em épocas do anno bastante deseguaes as phases da sua vegetação - o desabrolhamento e a queda das folhas, a floração e a fructificação.

4.º - INFLUENCIA DAS FLORESTAS SOBRE O CLIMA

A influencia das florestas sobre o clima tem sido ponto muito discutido; emquanto uns a negam completamente, outros, pelo contrario, consideram dependentes da acção dos arvoredos, do seu córte ou da sua multiplicação, todas as modificações climaterias realisadas nos ultimos tempos. Para tornar a questão mais complicada ainda, os que sustentam a ultima affirmativa, nem sempre de acordo entre si, chegam a attribuir ás florestas influencias modificadoras diametralmente oppostas, impossiveis de harmonisar.

A falta de dados positivos onde firmar conclusões seguras, e a extrema generalidade com que se quiz formular o problema, são as principaes causas que demoraram a sua resolução.

É facto indubitavel o terem-se realisado alterações nos climas de muitas localidades, desde épocas ainda não muito afastadas.

Na Inglaterra, na Bretanha e na Normandia existiam vinhas productivas, conforme demonstrou Arago, e hoje essa cultura tem um limite norte inferior; estas mudanças climatericas notam-se desde o decimo quinto seculo, e parecem continuar ao presente, pelo menos na Inglaterra, que prevê a impossibilidade de cultivar, dentro em breve, a maceira. De resto, não é necessaria uma grande oscillação na temperatura média para fazer recuar bastante uma cultura; a media em Londres é 9°,8, e em Paris 10°,7, a differença não chega a ser de um grau, e todavia a ultima d'estas cidades está cercada de vinhas, e a primeira não as pode cultivar.

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A Groelandia foi uma colonia florescente; mas em pouco tempo deixou de ser a terra verde dos primeiros descobridores, e os gelos amontoados pelo frio tornam-a hoje quasi inhabitavel. Factos anologos podem citar-se a proposito da Islandia, do Spitzberg, das costas da Noruega, etc. Em contraposição na Africa austral o calor parece augmentar rapidamente, matando florestas inteiras de pé, seccando lagos e cursos d'agua, cujos leitos meio apagados na areia apenas encontram os viajantes. Se, no hemispherio boreal, os gelos se accumulam ao norte cada vez em maior massa, se o resfriamento se accentua, no hemispherio austral parece acontecer o contrario.

Querer explicar todos estes phenomenos pelas acções derivadas da presença, ou ausencia, dos arvoredos, como foi tentado por alguns, é de certo ir muito além da verdade. A Inglaterra, já quasi desarborisada, poucas florestas tem para cortar, e o resfriamento continua ainda ali, como dissemos. Evidentemente é necessario procurar uma causa maior, mais energica, geologica ou astronomica, para motivar uma tão profunda alteração, que parece abraçar os dois hemispherios, patenteando-se por fórma desegual n'um e n'outro.

Tem-se abusado muito d'este papel attribuido ás florestas, como elemento modificador do clima. Portugal n'uma época relativamente proxima, de que existem ainda bastantes documentos, estava coberto da matas apertadas e selvagens, e todavia o seu clima não divergia tanto do clima actual, que não fosse a mesma a feição dos arvoredos espontaneos; no Alemtejo, a presença das essencias de folhas persistentes e coriaceas, já então indicava, como hoje, apezar de ser n'esse tempo muito mais arborisado, a elevação de temperatura, e a seccura atmospherica.

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No emtanto, se as florestas não são a causa de todas as alterações climatericas notadas no globo, se não podem modificar os phenomenos meteorologicos geraes a uma grande região, exercem, é certo, uma acção local, mais ou menos pronunciada, embora não tão energica como sustentavam muitos. Está isso perfeitamente demonstrado.

É esta influencia restricta, local, que nós vamos estudar, procurando firmal-a, não já sobre raciocinios e deducções mais ou menos empiricas, que podem facilmente conduzir ao erro, mas sobre os dados da observação meteorologica.

A este respeito são sobretudo importantes os trabalhos das Estações Florestaes da Baviera, emprehendidos sob um plano uniforme, sabiamente combinado, e executados em 87 parcellas de differentes matas, variaveis pelas condições do solo, do clima, das essencias, do estado dos povoamentos, etc., isto é - representando no conjuncto a constituição média das florestas bavaras. Os elementos colhidos por estas estações florestaes são juntos e coordenados pelo sabio professor Ebermayer, que os reune e lhes tira as devidas conclusões; vamos resumil-os, bem como os trabalhos realisados em França, na Escola Florestal de Nancy, pelo sr. Mathieu, servindo-nos para este resumo dos livros do sr. Grandeau citados no fim.

Influencia das florestas sobre a temperatura do ar. - A atmosphera das florestas, comparativamente á dos campos desarborisados, tem médias annuaes de temperatura mais baixas. Segundo os dados das estações da Baviera, a uma altura de 1m,5 acima do terreno, a diminuição encontrada na floresta, em média, foi de 0°,75.

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Esta differença, para menos, não se encontrou repartida com egualdade pelas quatro estações: foi maxima no estio, minima no inverno, intermédia na primavera e no outono. Eis as differenças médias correspondentes ás quatro estações, attendendo só ás temperaturas diurnas:

Primavera . . . 1°,02

Estio . . . 1°,68

Outono . . . 0°,45

Inverno . . . Quasi nulla.

D'aqui se deve concluir que as massas de arvoredos tornam menos fortes as differenças de temperatura entre as estações, porque se diminuem um pouco a média do inverno, diminuem proporcionalmente muito mais a média do estio.

Esta acção reguladora da floresta tem mesmo uma amplitude maior, porque faz oscillar as maximas e as minimas de temperatura dentro de mais curtos limites; conforme os elementos obtidos em Nancy, estes limites extremos, na floresta, estavam mais proximos 2°,87 comparativamente aos dos terrenos desarborisados.

Uma acção reguladora identica foi encontrada com proposito ás temperaturas das diversas horas do dia; a temperatura na floresta sobe menos durante o dia e desce menos durante a noite, que nos campos sem arvores; este facto provoca as brisas, que de dia sopram da floresta menos aquecida para os terrenos circumvisinhos, e de noite sopram em direcção opposta.

O papel dos massiços de arvoredos sobre a temperatura da atmosphera é pois bem semelhante ao do mar: actuam como regulador. As florestas, muito embora provoquem uma pequena diminuição na média geral, corrigem as demasias extremas da temperatura de cada estação, de cada mez, de cada dia.