Curso de Silvicultura

Chapter 15

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2.ª - Sub-região da Beira littoral: limitrophe com a anterior, comprehende a parte sub-plana da Beira mais proxima do oceano, entre o Douro e o massiço de Porto de Moz, tendo por limite a leste as montanhas do interior, proximamente pela curva de nivel de 200 metros. N'esta sub-região, em relação á anterior, a humidade e a chuva decrescem (a chuva é inferior em mais de metade) e a temperatura augmenta.

A sua média mensal de humidade relativa é de 65 a 80 por cento. A média geral da chuva é de 700 a 1:200 millimetros, e as chuvas de verão não são ainda muito inferiores ás do Minho; a média de temperatura annual é de 15° a 16°.

3.ª - Sub-região do Centro littoral: comprehende a faxa costeira, limitada pela sub-região anterior e pelo Tejo até ao Zezere; as chuvas são já ahi mais diminutas, a evaporação maior, a temperatura mais alta, sobretudo nos pontos expostos ao vento do Alemtejo. É caracterisada por médias mensaes de humidade relativa de 60 a 85 por cento nas vertentes mais bafejadas do mar (Lisboa), e 85 a 40 por cento nas mais internadas e expostas ao Alemtejo. A média geral da chuva é de 800 a 700 millimetros; a média das chuvas de verão é de 20 a 30 millimetros. A temperatura média é de 15°, 15°,2 e 16°, conforme os pontos considerados. A evaporação é 7 vezes mais forte nas margens do Tejo do que nas do Mondego, como se comprova pelo estudo da salinação n'um e n'outro local.

Na zona norte do interior o sr. Barros Gomes considera as seguintes sub-divisões:

1.ª - Sub-região Transmontana: abrangendo todo o espaço áquem e além Douro, comprehendido entre as serras do Gerez e Marão e as serras que se estendem desde Lamego até á Guarda, limitado ao norte e ao nascente pela Hespanha. Este espaço, fechado aos ventos do mar pelas altas montanhas, que o rodeiam, é bastante escasso de chuvas em comparação do paiz de Alemdouro littoral com que confina; uma parte importante da humidade, trazida pelos ventos mareiros, fica condensada na região chuvosa cis-montana. A quantidade das chuvas totaes é inferior em metade, ou ainda em menos, ás do Minho, mas esta differença é sobretudo accentuada nas chuvas de inverno e de outono, não é tão consideravel nas de primavera, e é muito pequena nas chuvas de estio, o que explica ter esta sub-região prados naturaes (lameiros) de muito boa qualidade, cujos fenos podem rivalisar com os fenos da Europa central no valor nutritivo, como tivemos occasião de demonstrar.

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As médias mensaes de humidade relativa, n'esta sub-região, são de 40 a 100%. As chuvas annuaes são de 1:000 millimetros na Guarda e apenas de 500 millimetros em Moncorvo; as chuvas estivaes são de 70 a 80 millimetros. As oscillações da temperatura são consideraveis: nas baixas, no verão, o calor e a seccura são grandes, emquanto nos pontos altos, no inverno, se encontra a neve em abundancia.

2.ª - Sub-região da Beira central: Confina com a Beira transmontana e com a Beira littoral, tendo como limite sul as cumiadas da Estrella. Muito montanhosa e cotando altitudes muito consideraveis, esta sub-região differença-se bem, climatericamente fallando, da sub-região transmontana, pela orientação das suas montanhas mais elevadas; está aberta aos ventos do mar e abrigada do nascente pela mais alta cordilheira do paiz, possuindo assim optimas condições para a precipitação dos vapores aquosos.

A Beira central, pelas razões expostas, tem mais chuvas do que o paiz transmontano, embora este fique mais ao norte. Na Beira central as médias mensaes de humidade relativa são de 65 a 100%; as chuvas annuaes medem de 700 a 1:200 millimetros, sendo as chuvas de verão como nas sub-regiões confinantes.

3.ª - Sub-região da Beira meridional: Comprehendida entre as cumiadas da Estrella e o Tejo, e limitada ao poente pela sub-região do Centro littoral; fechada aos ventos do mar, exposta aos ventos seccos do Alemtejo, esta faxa meridional da Beira apresenta-se, de toda a grande região ao norte do Tejo, a mais secca e a mais escassa em chuvas de estio, mais ainda que o paiz transmontano, tendo temperaturas médias, nos pontos de menor altitude, um pouco mais altas.

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A região climaterica ao norte do Tejo é representada florestalmente, como dissemos, pelos carvalhos de folhas caducas e membranosas; são tres as especies predominantes: o carvalho negral na zona montanhosa do interior, o roble na zona do littoral, sobretudo na parte mais ao norte e nos pontos cis-montanos de maior humidade, e o carvalho portuguez no Centro littoral, e em algumas partes da zona interna montanhosa, fazendo a transição para a região do sul do Tejo. Esta ultima especie, peculiar á Peninsula, á Argelia e ao Oriente, é intermédia nas exigencias do meio onde se desenvolve, respectivamente aos dois grupos de carvalhos - o de folhas perennes e o de folhas caducas - como é tambem intermédia aos dois na organisação: como os primeiros, tem as folhas coriaceas, apropriadas a corrigir os excessos da evaporação dos climas seccos; como os segundos, tem-as caducas, embora não membranosas; para que a transição seja ainda mais pronunciada, a queda das suas folhas é habitualmente mais tardia do que no roble e no carvalho negral; emquanto estes dois ultimos se despem no outono, as folhas do carvalho portuguez amarellecem no outono, ou no inverno, e só no inverno ou na primavera seguinte se despegam da arvore.

Uma outra essencia florestal se desenvolve em muita abundancia n'esta região do norte, e pode servir bem a caracterisar alguns dos seus climas locaes - é o pinheiro bravo. Caracterisa as sub-regiões de mais abundante humidade, porque exactamente a humidade atmospherica é uma das suas exigencias climatericas tão saliente, que esta arvore não se afasta muito do mar, e esse habitat especial lhe grangeou o nome de Pinus maritima com que Brotero o descreveu. O pinheiro bravo caracterisa, pelos seus massiços consideraveis, a zona littoral norte, e ainda a Beira central, que, embora tão afastada do oceano como a região Transmontana e a Beira meridional, tem muito maior humidade, pela sua exposição aberta aos ventos mareiros, e pela orientação das montanhas, que a rodeiam.

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Duas outras essencias se encontram ainda, com frequencia, na região ao norte do Tejo - o castanheiro e a oliveira; mas a distribuição de uma e outra prende-se mais com factos agrologicos, como diremos adiante, do que com factos climatericos. O castanheiro encontra-se em toda a zona montanhosa, indifferente á exposição cis ou transmontana, e a oliveira tem sido levada pela cultura a quasi todas as regiões portuguezas.

O vidoeiro, por ultimo, é a arvore que caracterisa, entre nós, as alturas elevadas; encontra-se no Gerez, nos concelhos de Melgaço e Arcos de Val de Vez, no Marão e na Estrella, onde tem o limite sul.

Resumindo: os climas florestaes da região portugueza ao norte do Tejo, no seu conjuncto, podem caracterisar-se pelos carvalhos de folhas caducas. Ao longo do littoral corre uma faxa de maior humidade, que se prolonga, no interior, até á Beira central; esta zona, mais humida e chuvosa, é caracterisada pelo pinheiro bravo.

Não deve todavia esquecer que a irregularidade das exposições, das altitudes, dos mil accidentes do terreno, em paiz tão montanhoso, vem alterar a cada passo, n'uma excepção local mais ou menos restricta, as indicações geraes, que deixámos esboçadas; e, por isso, é commum encontrar as especies mais do sul misturadas com as predominantes. Exactamente a grande variabilidade climaterica é um dos caracteristicos do paiz ao norte do Tejo.

Limites da vegetação arborea impostos pela altitude. - Calculou o sr. Rivoli que, na serra da Estrella, a temperatura média decresce 0°,65 cent. por cada 100 metros de elevação. Esta differença reparte-se do seguinte modo pelas quatro estações:

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Inverno . . . 0°,54 cent.

Primavera . . . 0°,72

Estio . . . 0°,71

Outono . . . 0°,63

Segundo o mesmo auctor, e segundo o «Relatorio da Secção de Botanica da Expedição Scientifica em 1881», apresentado pelo sr. dr. Julio A. Henriques, sabe-se que, n'esta serra, até 400 metros de altura domina a flora mediterranea, a qual, de 800 metros para cima, desapparece de todo. A cultura do centeio termina a 1:500 metros, e a esta altitude as arvores são já rarissimas; o castanheiro pouco sobe de 900 metros; o pinheiro manso tem-lhe ficado inferior, e o pinheiro bravo pouco mais alto chega; o carvalho negral vae até 1:000 metros; o teixo vive a 1:500 metros; o azevinho e o vidoeiro chegam a 1:800 metros. De 1:500 metros para cima as urzes (Erica umbellata, L., E. arborea, L., E. lusitanica, Rud., E. aragonensis, Wk., Calluna vulgaris, Salisb.) formam matos arbustivos; a 1:700 metros as urzes perdem a força e o zimbro toma a predominancia, sendo a unica planta arbustiva, que se encontra, de 1:750 a 1:858 metros. O zimbro adquire ahi um aspecto caracteristico, e um porte muito especial, ficando rasteiro e applicado contra a terra, em grandes tufos, com as folhas pequenas e conchegadas (Juniperus nana, W.). D'aquelle limite para diante segue a flora alpina, caracterisada principalmente pelas gramineas curtas e rigidas, e pelas cryptogamicas cellulares - lichens e musgos.

Segundo o recente estudo do sr. dr. Julio A. Henriques ácerca do Gerez ¹ sabe-se que, n'esta serra, mais arborisada que a Estrella, até 900 metros, predomina o roble, o platano bastardo, o azereiro, o azevinho, o medronheiro e o carvalho negral; o roble pouco passa de 1:000 metros, e o carvalho negral de 1:200 metros. Segue uma zona em que predomina a vegetação rasteira (urzes, Genista micrantha, etc.), e onde as unicas arvores que se encontram são o vidoeiro e o teixo; ambos páram a 1:300 metros. De 1:400 metros para diante apparece o zimbro (Juniperus nana, W.) e alguns pequenos arbustos rasteiros. Como se vê, na serra do Gerez, mais ao norte, os limites superiores de quasi todas as arvores são inferiores aos limites que apresentam na Estrella.

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Região sul, ou dos carvalhos de folha perenne. - Na parte do paiz, que se estende ao sul do Tejo, as chuvas diminuem muito, comparativamente á região do norte, sobretudo as chuvas d'estio, cujas médias oscillam entre 40mm e 20mm, emquanto no Minho chegam a 70mm e 80mm. Esta escassez das chuvas estivaes é peculiar, como dissemos, a toda a zona mediterranea e portanto ao nosso paiz, que n'ella está comprehendido: emquanto na Europa não mediterranea as chuvas d'estio sobem a 25 e 35 por cento da chuva total, não descendo as mais das vezes de 100mm a 200mm, em Portugal teem apenas valores comprehendidos entre 3 a 10 por cento. É nas nossas regiões d'Alemtejo que este facto mais se accentua, e que se encontram aquellas percentagens minimas.

A essa falta mais consideravel de chuvas de verão junta-se, no paiz ao sul do Tejo, a maior elevação de calor e o estado de seccura da atmosphera, tornando muito activa a evaporação. Emquanto no Porto a humidade relativa estival apresentou a média de 72 por cento, (nos annos de 1867 a 1872); em Campo Maior, no mesmo periodo, accusou apenas 38 por cento. No verão de 1870 a evaporação, em Campo Maior, subiu a 16mm,5, e a chuva em todo esse tempo não passou de 18mm,4; aquella evaporação é uma das maiores que se tem registrado na Europa. Os estudos da salinação nas marinhas do Sado mostram uma evaporação dez vezes maior ali do que nas salinas do oeste da França, cuja evaporação é muito proxima á do littoral da nossa Beira.

¹ Boletim da Sociedade Brotériana III. Fasciculos 3.º e 4.º - 1884. - Coimbra. 1885.

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Esta grande seccura no estio é um dos principaes caracteristicos climatericos da região d'Alemtejo; é ella que sobretudo imprime o seu cunho peculiar á vegetação lenhosa, adaptada a poder resistir n'um tal meio; arvores ou arbustos de folhas perennes e coriaceas, com os tecidos menos seivosos, com as camadas sub-epidermicas convenientemente reforçadas.

Ali, poucos dias, ás vezes mesmo poucas horas, de sol forte, nos fins ou nos meiados da primavera, são o bastante para seccar a vegetação herbacea, de subito, deixando-a como se tivesse sido queimada. As arvores de folhas caducas despem-se prematuramente, debaixo da intensidade d'aquella acção, largando as folhas verdes, mas queimadas, e teem assim, além da queda outonal, ess'outra precoce com que procuram estabelecer prompto equilibrio entre a humidade do solo, cada vez mais diminuta, e a superficie evaporante, reduzindo-a d'esta fórma. Até as arvores de folhas perennes, apezar da sua especial organisação, accusam esse augmento de seccura; é então que os pinheiros, a oliveira, a azinheira e o sobreiro deixam cair com abundancia as folhas mais velhas, e estas arvores apenas vestidas pelas folhas novas, nas extremidades dos ramos, parecem concentrar ali, n'essa época, toda a sua vegetação.

A superficie do terreno muito mais plana ao sul do Tejo do que ao norte, dá a toda esta região menor variabilidade nos climas locaes. Ao sul, como ao norte, a humidade decresce do littoral para o interior, mas na primeira região decresce em escala muito mais reduzida do que na segunda; é por isso que, emquanto ao norte a faxa mais proxima do mar tem uma essencia peculiar a caracterisal-a - o pinheiro bravo - no sul os carvalhos de folha perenne alargam-se tanto na faxa do interior, como na do littoral, chegando quasi á beira mar.

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Ao longo do oceano, n'esta região sul, o sr. Barros Gomes considera as duas sub-regiões seguintes:

1.ª - Sub-região do Baixo Alemtejo littoral: caracterisada pela grande seccura e evaporação estival, de que dá bom indicio a salinação nas marinhas do Sado, como dissemos. Tem temperaturas médias annuaes de 16° e 16°,5.

2.ª - Sub-região do Algarve: o ponto do littoral menos chuvoso do paiz; tem grande escassez de chuvas d'estio, sendo as médias inferiores a 20mm. A humidade e as chuvas, como se vê, decrescem constantemente do norte ao sul; o Minho e o Algarve representam os dois extremos - as maximas e as minimas; identicamente diminuem as chuvas do verão. A temperatura média n'esta sub-região é de 17°,5 na costa e 16°,5 mais para o interior.

A zona alemtejana interior é assim subdividida pelo sr. Barros Gomes:

1.ª - Alto Alemtejo: comprehendendo as terras altas e as serras de Portalegre a Evora. É caracterisado por médias mensaes de humidade relativa de 40 a 80 por cento; as suas chuvas annuaes são de 700mm a 500mm, e as estivaes de 30mm a 50mm. As temperaturas médias são de 16° a 17°.

2.ª - Baixo Alemtejo: comprehende as baixas do Sorraia e do Guadiana: é n'esta sub-região que se encontra a maxima seccura do ar, em Portugal; a média mensal de humidade relativa é de 30 a 80 por cento, e as suas chuvas estivaes são tão diminutas que só as do Algarve lhe são inferiores. A temperatura média d'esta sub-região deve ser bastante elevada, talvez 17°.

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A região ao sul do Tejo tem, como dissemos, por genuinos representantes do seu clima o sobreiro e a azinheira; o primeiro dominando sobretudo no Alto Alemtejo e nos pontos mais afastados do littoral, e a segunda apresentando uma disposição inversa.

O pinheiro bravo, cuja existencia está presa a um certo grau de humidade atmospherica, só nos pontos muito proximos do mar ou dos rios pode aqui prosperar, mas perde a importancia florestal que tem ao norte; primeiro apparece misturado com o pinheiro manso, depois cede o logar a este ultimo, que pede temperaturas mais elevadas. O pinheiro manso, em Portugal, é sobretudo peculiar a esta região, mas não tem n'ella a importancia que o pinheiro bravo adquire ao norte do Tejo. É frequente a oliveira e, em partes, o castanheiro.

Finalmente, a zona mais meridional do nosso paiz, o Algarve, tem uma vegetação particular muito caracteristica, em harmonia com as suas condições climatericas: á azinheira, á figueira e oliveira, sobretudo dominantes, associa-se em grande quantidade a alfarrobeira e a palmeira anã.

Damos, na carta seguinte, o traçado d'estas zonas climatericas, extrahido das interessantissimas cartas do sr. Barros Gomes:

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3.º - INFLUENCIA DAS VARIAÇÕES LOCAES DO CLIMA NO MODO DE VIDA DE UMA MESMA ESPECIE LENHOSA

Cada especie vegetal adquire o seu melhor desenvolvimento, como dissemos, onde encontra os graus de calor, luz e humidade, que sobre todos lhe são mais favoraveis, mas fóra d'esse logar de mais propicia vegetação pode ainda viver, nos pontos onde as oscillações, para mais ou para menos, em redor d'aquelle grau optimum, são permittidas pelo seu organismo. Estudemos agora a acção d'estas variações locaes.

Épocas das diversas phases da vegetação. - Nas sementes, depois de completas, a vida fica latente; é muito insignificante a troca de gazes entre ellas e o meio em redor, até que principie a germinação. As sementes parecem insensiveis aos maiores frios; o sr. Boussingault sujeitou sementes de trevo, de centeio e de trigo a temperaturas inferiores a -100° cent. sem lhes destruir a faculdade germinativa; d'aqui a razão por que as plantas annuaes são apenas influenciadas pela temperatura dos seus periodos vegetativos.

Mas, desde que a vida se começa a manifestar, cada periodo do desenvolvimento de cada especie necessita, para se poder dar, como sabemos, determinadas quantidades de calor, luz e humidade. É claro, portanto, que as variações do clima local hão de apressar, ou retardar, as épocas annuaes d'estes diversos periodos.

Assim se explica por que razão sementes, exactamente eguaes, n'uns pontos germinam mais cedo do que n'outros, e a razão por que o desabrolhamento, a floração, a fructificação, a queda das folhas de uma mesma especie, se realisam em diverso tempo, nos differentes logares onde ella habita.

No emtanto a época da passagem de uns d'estes periodos evolutivos para os outros não depende exclusivamente de simples acções physicas do meio ambiente; será erro muito grave n'essa apreciação querer pôr de lado o modo de ser - a vida - do organismo em questão. Assim, em muitos pontos da zona mediterranea, o mez de novembro é tão quente como o de abril, a humidade não escasseia em nenhum dos dois, e apezar d'isso muitas arvores de folhas caducas despem-se no primeiro d'aquelles mezes, e os seus botões já formados não se desenvolvem, emquanto no segundo desabrolham, cobrindo-se de folhas e flores.

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Alguns querem explicar este facto lembrando que no outono a marcha das temperaturas decresce, emquanto na primavera, pelo inverso, augmenta; será esta subida, segundo elles, que provoca o desabrolhamento; outros dão como explicação, a necessidade de um certo intervallo de tempo para que se dê a maturação das reservas nutritivas da arvore. Mas nenhuma das duas hypotheses explica bem o motivo por que, nas diversas localidades, as mesmas essencias não passam as phases de vegetação sempre pela mesma ordem: assim, segundo o sr. Vaupell, desde o Baltico até Munich desabrolha primeiro a faya, depois o carvalho e em seguida o freixo, emquanto na Belgica desabrolha primeiro o freixo, depois a faya e por ultimo o carvalho, e em Dijon seguem estas essencias já outra ordem, o carvalho primeiro, o freixo, e só depois a faya. O clima do centro de vegetação d'onde a especie é originaria, o clima que lhe é sobre todos favoravel, parece imprimir indelevelmente a sua acção em todas as phases do desenvolvimento individual; por isso as arvores do norte passam estas phases, nos climas meridionaes, relativamente tardias, e vice versa; por isso, ainda, mais uma razão por que as differentes especies, de uns certos limites climatericos por diante, não podem viver.

Porte e crescimento annual das árvores. - O clima local influe muito no porte e no crescimento annual das plantas lenhosas, conforme as condições mais ou menos favoraveis com que actua. Já dissemos que o ricino passa de ser uma planta lenhosa arborea a planta herbacea annual, ou biennal, com a diminuição da temperatura. Para tornar bem frisante a acção do clima nas dimensões da camada lenhosa, e na qualidade das madeiras, diremos que o Pinus silvestris chega a apresentar no sul da França crescimentos annuaes com 0,m01 d'espessura, emquanto na Suecia, entre os parallelos 60 e 63 (d'Upsal a Hernösand), em média, só engrossa annualmente 0,m001, no parallelo 60 apenas 0,m0006, e a 70° o engrossamento é quasi nullo.

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A relação entre a espessura da camada annual e as qualidades do lenho depende muito da organisação da especie considerada, como vimos no livro anterior. As resinosas do norte, cujo crescimento é muitissimo vagaroso, que apresentam as camadas annuaes muito reduzidas e quasi sem a zona porosa da primavera, são notaveis pela sua densidade, rijeza e elasticidade, e por isso muito procuradas para mastreação e outros usos; mas já o mesmo não acontece, por exemplo, aos carvalhos, cuja madeira é tanto melhor quanto mais largas as camadas annuaes, porque é então que prepondera a zona apertada do outono.

Acção do calor forte e do frio sobre as arvores. - As differentes especies, conforme a sua organisação, supportam desegualmente os extremos oppostos da temperatura.

O calor elevado destroe a vitalidade das cellulas vegetaes coagulando, segundo parece, as substancias albuminoides componentes do protoplasma; essa coagulação depende de muitas outras circumstancias independentes da temperatura, e sobretudo da quantidade d'agua que a cellula contiver. Para provocar esta acção são precisas temperaturas relativamente muito elevadas; de ordinario, é por outra fórma que os excessos do calor contrariam as arvores: augmentam-lhes a transpiração, e quando as quantidades d'agua contidas no solo não chegam para acudir a essa maior despeza, o vegetal soffre muito e pode até morrer. A acção do calor sobre as arvores deve portanto ser estudada conjunctamente com todas as outras condições, taes como a fundura e as qualidades physicas do terreno, a sua humidade, etc.

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Em geral, as arvores resistem tanto melhor a um golpe de sol forte e repentino quanto a sua transpiração for menor, isto é, quanto menos aquosos e tenros os seus tecidos, bem como quanto mais profundo tiverem o systema radicular; por isso as arvores novas, e as que teem raizes superficiaes, lhe resistem menos.

A insolação intensa promove muitas vezes a queda prematura das folhas, o que chega a occasionar, em algumas circumstancias, a morte da arvore; este accidente, mesmo quando não é fatal, traz comsigo transtornos graves, que se não limitam apenas á diminuição da camada lenhosa correspondente; as folhas assim mortas em plena vida caem sem terem abandonado aos tecidos de reserva os seus principios mais uteis á vegetação (albuminoides, phosphatos etc.), como abandonariam se morressem naturalmente, o que representa, no caso d'aquelle accidente, uma diminuição importante na substancia organisadora da arvore.

O frio, quando é pouco intenso, suspende apenas temporariamente as funcções cellulares, como dissemos, mas se actua com maior força obriga a congelar uma parte da agua contida na cellula, matando-a em alguns casos. Pelo congelamento solidifica-se uma porção da agua do succo cellular e do protoplasma, ficando um e outro mais concentrados, e solidifica-se uma porção da agua inter-mollecular da membrana, obrigada por isso a diminuir de volume, a contrahir-se. O tecido, d'esta fórma modificado, perde a turgidez primitiva e soffre muitas vezes pregas e rupturas, que ainda assim quasi nunca lhe são causa de morte.

Quando a descongelação se realisa pouco a pouco os crystaes de gelo fundem-se na base, a agua liquida é logo absorvida pela membrana, pelo succo cellular e pelo protoplasma, e as propriedades primitivas da cellula podem regenerar-se, se a alteração não foi muito profunda. Mas quando, pelo contrario, o desgelo é rapido, uma parte da agua escorre nas lacunas do tecido, antes de poder ser absorvida pelas cellulas, perde-se, e ellas não podem voltar ao seu estado inicial. D'onde se deve concluir que o descongelamento influe mais na sorte do orgão vegetal do que a propria acção do congelamento.

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