Curso de Silvicultura

Chapter 14

Chapter 143,660 wordsPublic domain (Wikisource)

Zona artica (de 72° a 66°) - Caracterisada pelas pastagens, arbustos e vidoeiros.

Zona sub-artica (de 66° a 58°) - Região das Coniferas, vidoeiros e salgueiros.

Zona temperada fria (de 58° a 45°) - Caracterisada pelas fayas, carvalhos, prados e cereaes.

Zona temperada mais quente (de 45° a 34°) - Caracterisada pelas arvores de folha persistente, e pela cultura da vinha, da oliveira e do milho.

Zona sub-tropical (de 34° a 23°) - Caracterisada pela murta, loureiro, limoeiro, laranjeira, algodoeiro, canna de assucar e arvore do cha.

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Zona tropical (de 23° a 15°) - Caracterisada pelas figueiras (Ficus), fetos arboreos, palmeiras, canna de assucar e cafeeiro.

Zona equatorial (de 15° latitude norte a 15° latitude sul) - Caracterisada pelas palmeiras e bananeiras.

Causas que podem alterar as indicações climatericas deduzidas da latitude. - Não deve esquecer que, muito embora seja de grande importancia a acção da latitude, muitas outras causas importa ter em vista na determinação do clima de um dado logar; essas causas podem contrariar completamente aquella influencia. As principaes são, como sabemos, a altitude, a proximidade ou o afastamento do mar, o traçado das correntes oceanicas, afóra muitas outras, taes como a exposição, etc.

Com o augmento da altitude a temperatura atmospherica decresce, por causa da maior rarefacção do ar; debaixo d'este ponto de vista subir uma montanha equivale a caminhar para o polo, muito embora o motivo do resfriamento seja diverso nos dois casos; Charles Martin calculou que, na França, 81m,81 de ascensão vertical equivalem, climatericamente, ao avanço de um grau para o norte, na planicie. Em contraposição, e pela mesma causa, a luz torna-se mais intensa nas montanhas. As nuvens, os nevoeiros e as chuvas são ahi mais frequentes.

A proximidade do mar regularisa a temperatura, tornando-a mais constante, augmenta a humidade atmospherica e as chuvas na intensidade e na frequencia; representando por 1 a quantidade da chuva caida annualmente em S. Petersbourgo, será 1,2 a que cae nas planicies da Allemanha, 1,4 a chuva do interior da Inglaterra, 2,1 a que recebe o littoral da Mancha. É tão pronunciada esta influencia da proximidade do mar que permitte a divisão dos climas em dois grupos - maritimos e continentaes.

Quanto á acção das correntes oceanicas recordal-a-hemos de certo bem evidentemente com este exemplo unico: um braço do Gulf-stream, que passa nas proximidades de Portugal, largando uma parte do calor que traz de regiões mais quentes, eleva a temperatura média de Lisboa a 16°,5 cent. emquanto a temperatura média da Virginia, no mesmo parallelo, é apenas de 13°,3.

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Regiões florestaes da Europa. - Como já dissemos, na zona polar não podem existir arvores; a temperatura é muito baixa e o periodo vegetativo tão curto que, no Spitzberg, as plantas apenas teem seis semanas, ou quando muito dois mezes, para florir e fructificar.

A flora é ahi muito pobre e encerra um numero relativamente grande de cryptogamicas cellulares - lichens e musgos. As phanerogamicas são, pela maior parte, herbaceas vivazes, com o systema subterraneo muito desenvolvido e com os eixos aereos, em proporção, muito curtos, o que lhes dá um aspecto caracteristico, porque as folhas juntam-se tanto, pela pequenez dos entre-nós, que parecem dispostas em roseta. São muito poucas as plantas annuaes. Encontram-se alguns arbustos, mas de porte muito acanhado: salgueiros cujos rebentos deitados ao longo do solo pouco sobresaem por entre as massas dos musgos e lichens, tendo, o maximo, 0,m 12 de comprimento. Os rebentos do Salix polaris não excedem 0,m 013; desenvolvem só duas folhas e um amentilho. O Vaccinium uliginosum, em muitas partes, apenas se eleva 0,m 02 acima do terreno.

As regiões alpinas das montanhas do globo, embora apresentem bastantes differenças climatologicas com a zona polar, teem com ella muitas semelhanças e por isso floras muito analogas: egualmente caracterisadas pela pobreza especifica, pela falta de arvores, pela presença de pequenos arbustos e de plantas herbaceas vivazes com o systema subterraneo muito desenvolvido em relação ao systema aereo, pela diminuição das plantas annuaes, e pelo augmento numerico das especies de lichens e musgos.

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A solidão polar septentrional está envolvida por uma larga cintura de florestas, n'um e n'outro continente. Este revestimento florestal, na Europa, abrangeu a parte mais consideravel da sua superficie, em épocas anteriores á nossa. Segundo Julio Cesar e outros historiadores romanos a Allemanha era coberta de immensos bosques, como o eram as Gallias, a Grecia no dizer de Heredoto e Thucydides, a Italia, as Hespanhas, etc. Strabão affirma que no tempo de Carthago e de Roma a peninsula hispanica tinha grandes matas, e Diodoro conta d'um grande incendio que lhe devastou arvoredos n'uma extensão enorme. As florestas europeas d'essa época deviam offerecer aos soldados romanos o mesmo aspecto grandioso e primitivo, que hoje os arvoredos da Siberia, e da parte septentrional da America do Norte, onde se conserva ainda intacta a espontaneidade da vegetação, apresentam aos caçadores que as percorrem em procura das pelles valiosas dos animaes bravios.

Foi a necessidade de alargar a cultura, que destruio uma grande parte d'estas florestas, associada esta necessidade infelizmente, ás vezes, ao desejo immoderado, e impensado, de realisar os valores accumulados por tantos annos, e que derrubando as arvores, em pontos nem sempre apropriados á agricultura, veiu provocar modifiçações no clima e sobretudo no relevo do terreno e no regimen das aguas, bastante prejudiciaes em algumas localidades.

Na Europa o revestimento florestal espontaneo apresenta duas zonas bem distinctas: uma septentrional, com dimensões muito maiores, outra mais reduzida, meridional, collocada nas proximidades do Mediterraneo.

A primeira essencia folhosa, que apparece no extremo norte, é o vidoeiro (Betula), associada ao depois com as resinosas dos generos Abies, Larix e Pinus. N'uma faxa inferior encontram-se, simultaneamente com estas especies, a faya (Fagus silvatica, L.) e o roble (Quercus pedunculata, Ehrh.). Ás vezes estas especies reunem-se no mesmo massiço, mas muitas outras vezes cada essencia fórma grupos exclusivos consideraveis, como varios arbustos (nos generos Calluna, Erica, etc.) se apresentam egualmente sociaveis cobrindo sosinhos grandes extensões.

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Todas as essencias florestaes predominantes n'esta zona são de typo floral incompleto: achlamydeas ou monochlamydeas, e uni-sexuaes; todas teem as flores pequenas, agglomeradas, e todas florescem na primavera. As Angiospermas são todas de folhas caducas; as especies sempre-verdes são Gymnospermas cujas folhas pouco aquosas, rigidas, com pequenas superficies, teem organisação apropriada a resistir aos grandes frios.

As differenças de temperatura e humidade do periodo activo da vegetação ao periodo do repouso exercem uma acção destructiva sobre os tecidos vegetaes, tanto mais consideravel quanto maiores aquellas differenças; alteram-se as condições de tensão, de turgidez cellular, e actuam por isso forças que provocam a desorganisação do conjuncto. N'esta zona septentrional, onde as differenças das estações, como dissemos, são tão accentuadas, as Gymnospermas resistem pela sua organisação particular, e as Angiospermas, de folhas brandas e mais aquosas, no inverno despem-se todas, conservando apenas na parte aerea os troncos e os botões; a lenhificação preserva os primeiros; os involucros escamosos, e as secreções gommosas e resinosas, salvam os segundos.

A zona mediterranea, no sul da Europa, é caracterisada pela maior elevação de temperatura e pela falta de chuvas estivaes. A sua vegetação predominante é constituida por arbustos e arvores sempre-verdes: taes os carvalhos de folhas perennes - o sobreiro, a azinheira e o carrasqueiro; taes a oliveira, a murta, o aderno (Phillyrea), a aroeira, o trovisco, a cassia branca (Osyris), etc. O pinheiro manso dá um aspecto particular ás suas paizagens, bem como um grande numero de plantas exoticas, perfeitamente naturalisadas, e algumas sub-espontaneas mesmo - a alfarrobeira, a figueira da India (Opuntia), a piteira (Agave), a laranjeira, o limoeiro, etc. A familia tropical destaca já n'esta zona mediterranea um dos seus representantes, uma palmeira, embora de modestas proporções: a palmeira anã ou das vassouras (Chamaerops humilis, L.), da mesma fórma que na região polar apparecem os arbustos além do limite norte das arvores.

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Não é ao frio, mas sim á evaporação forte estival, que teem de resistir as arvores e arbustos n'esta zona. As folhas persistentes das especies indigenas predominantes são perfeitamente adequadas a esse fim; teem, é certo, maior superficie do que as folhas das resinosas, mas os seus tecidos são pouco aquosos, teem grande cohesão, apresentam as paredes das cellulas constituintes reforçadas com substancias incrustantes, o que as torna seccas e flexiveis como coiro n'umas especies, ou rigidas e quebradiças como pergaminho, n'outras. Todas estas especies teem menor transpiração do que as de folhas caducas.

Quando uma planta emitte maior quantidade d'agua, por transpiração foliacea, do que recebe pelas radiculas, as cellulas das folhas perdem a turgidez e, quando os tecidos são tenros, delicados, aquosos, dão-se pregas e rupturas, que lhes vem apressar a morte. A arvore, cujas raizes descem mais fundo, resiste mais á secca do que o arbusto, e este mais do que a planta herbacea; porém de um certo termo por diante, quando se realisem aquellas condições de organisação, a morte é fatal e independente do porte do individuo. Mas, se as folhas, em vez de serem tenras, aquosas, são coriaceas, seccas, e as paredes cellulares dos seus tecidos são incrustadas como dissemos acima, o vegetal poderá resistir: as cellulas, que delimitam os estomas, perdendo a turgidez, quando a transpiração augmenta, cerram mais a abertura estomatica; as cellulas internas, de paredes espessas, resistem bem ao desequilibrio de tensão que soffreram; atravez a epiderme tão reforçada os liquidos interiores não podem evaporar-se; a arvore ou o arbusto cae n'um periodo de repouso vegetativo motivado pela falta de agua: tem as suas funcções nutritivas paralysadas, mas nem as folhas morrem, nem o individuo a que pertencem. Se a este excesso de seccura estival succeder um outono humido e com a temperatura ainda relativamente elevada, o que é vulgar n'esta zona, a vegetação desperta de novo, e a arvore ou o arbusto reviça uma segunda vez no anno.

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Se as Angiospermas de folhas perennes teem uma organisação tão apropriada a resistirem aos periodos de maior secca, em contraposição resentem-se bastante com os frios. É certo que os rhododendrons e outras Ericaceas sempre verdes se encontram nas montanhas a grandes altitudes; mas, ahi, se conseguem vencer os invernos é pelo abrigo que lhes traz o manto de neve, onde ficam sepultadas, e pelas secreções resinosas proprias a esses arbustos.

Na zona septentrional o periodo de maior actividade da vegetação coincide com o maximo calor, com o estio, por isso que as chuvas se dividem por todas as estações; já não acontece o mesmo na zona sul do Mediterraneo: aqui a primavera é de ordinario a época de maior trabalho vegetativo, porque no estio a falta de humidade o restringe, ou mesmo o suspende, como dissemos, revivendo de novo no outono.

A falta das chuvas, verdadeiramente só abundantes no inverno, e o calor temperado, com as médias hibernaes pouco baixas, dão o cunho climaterico d'esta zona meridional da Europa, como o excesso dos frios do inverno e a abundancia das chuvas em todas as estações caracterisam a outra zona do norte. D'aqui o motivo porque os hydrometeoros teem tamanha importancia para a agricultura da região mediterranea; d'aqui o motivo porque a Europa central e boreal explora em tamanha escala as plantas herbaceas, as pastagens e os cereaes praganosos, emquanto, junto ao Mediterraneo, tomam a primazia as culturas arbustivas e arboreas - a vinha, a oliveira e o sobreiro.

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A distribuição das especies florestaes espontaneas apresenta, muitas vezes, na região mediterranea, a fórma sociavel que já notámos nos arvoredos da região septentrional, e o mesmo acontece a algumas das especies arbustivas e sub-arbustivas, que povoam as charnecas e o solo das matas. As urzes cobrem tambem vastos tractos de terreno, quasi com exclusão de outra qualquer especie, mas os matos d'esta zona meridional apresentam muitos arbustos que lhes são proprios: a par do medronheiro, do trovisco, das Papilionaceas da tribu das Genisteas, das Labiadas aromaticas, predominam muitas Cistineas, algumas de porte elevado, notaveis pela grandeza das flores, e pela abundancia das secreções ladaniferas.

Quasi todas as Angiospermas sempre-verdes mediterraneas teem a folhagem de côr viva e lustrosa, o que indica um grande numero de granulos de chlorophylla, e a possibilidade de crearem principios immediatos em abundancia. A laranjeira, por exemplo, hoje perfeitamente naturalisada n'esta zona, produziria sem interrupção flores e fructos, se encontrasse todo o anno a humidade necessaria para isso.

Tanto a zona septentrional como a zona mediterranea teem essencias folhosas e resinosas: n'uma e outra a distribuição dos arvoredos de cada um dos dois grupos prende-se tanto, ou mais, com a composição do solo, do que com as variações dos phenomenos meteorologicos; onde a terra vegetal é pouco profunda, ou muito solta e arenosa, desenvolvem-se as Coniferas, emquanto as folhosas só apparecem constituindo massiço apertado e vigoroso sobre os solos mais fundos e tornados mais plasticos pela argilla.

No angulo extremo sudeste da Europa começa uma outra região, que se estende pela Asia n'uma grande superficie, despida de arvoredos, e conhecida com o nome de zona dos steppes. Esta zona é notavel pela temperatura elevada dos seus estios sem chuvas, e pelos frios rigorosos dos invernos: o seu clima é o mesmo da zona mediterranea, mas tornado continental, sem ter a proximidade do mar a suavisar-lhe as temperaturas extremas. A falta de humidade n'uma parte consideravel do anno restringe-lhe o periodo vegetativo apenas a tres mezes, o maximo, duração esta muito curta para a vida das arvores, como dissemos.

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A vegetação, adaptada ás condições d'este novo meio, é constituida por moitas arbustivas de pequeno porte; por muitas plantas annuaes, que aproveitam apenas a época favoravel em temperatura e humidade; e por innumeras plantas bolbosas, cujas folhas procuram fabricar e armazenar rapidamente, durante a estação propicia, os principios immediatos, nos seus espessos tecidos de reserva subterraneos.

As especies arbustivas, ou são plantas gordas, que resistem á fortissima evaporação estival, já pelo excesso de saes de sodio que os seus liquidos contéem, já pela organisação particular da sua epiderme; ou apresentam-se protegidas por efflorescencias que as revestem exteriormente, ou por pequenas escamas coriaceas, ou por numerosos pellos erriçados. N'estas moitas arbustivas encontram-se muitas fórmas espinhosas, o que corresponde a uma diminuição nos orgãos foliaceos, e portanto no consumo de agua. Algumas especies são ricas em oleos essenciaes, que se evaporam com maior facilidade do que a agua, e produzem um resfriamento na atmosphera, em volta da planta, pela sua passagem do estado liquido ao de vapor, mitigando assim a temperatura e a transpiração. No interior do steppe existe uma unica essencia arborescente e essa mesma é quasi aphylla.

Á medida que, a partir da região polar, a temperatura augmenta, o numero das especies vegetaes tambem augmenta; o Spitzberg tem uma flora constituida apenas por 107 phanerogamicas, emquanto a Siberia, n'uma extensão quasi egual, possue 1:288; a Scandinavia e a Dinamarca reunidas teem 1:677, e a Allemanha 3:368; em Napoles encontram-se 3:130 phanerogamicas, e na Zelandia, em extensão quasi identica, só 400; a França e a Corsega teem 3:600 especies n'uma superficie proxima á da Suecia, onde apenas se encontram 1:160 ¹.

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As fórmas lenhosas tambem augmentam numericamente do polo para o equador. Na Laponia o numero das especies acotyledoneas entra por mais de metade na flora local e o numero das especies arboreas é apenas 1/100; este numero já sobe na França, proximamente, a 1/80 e na Guyanna a 1/50. Muitos generos que são herbaceos no norte apresentam especies lenhosas no sul, e ás vezes a mesma especie, lenhosa no sul, adquire menor porte e torna-se herbacea n'uma latitude mais alta, como dissemos a proposito do ricino.

É assim que a região tropical é notavel pela grande riqueza e vigor da sua vegetação. Ahi as arvores sempre-verdes formam massiço apertado, cuja folhagem espessa não consente a passagem directa dos raios solares; mas este massiço é constituido sempre por especies differentes, não tem a uniformidade com que, muitas vezes, se apresenta no norte. Grandes trepadeiras lenhosas abraçam as arvores e as ligam entre si; as acotyledoneas cellulares escasseiam e as acotyledoneas vasculares tomam portes arbustivos; os troncos derrubados e as rochas cobrem-se, não de lichens e musgos como na floresta septentrional, mas de Fetos trepadores, de Aroideas, Bromeliaceas, Orchideas e outras monocotyledoneas epiphytas. As monocotyledoneas de grandes dimensões, tão sensiveis ao frio por isso que a perda do rebento terminal lhes traz a perda do tronco não ramificado, encontram ahi todas as condições necessarias á sua vida.

¹ Todos estes numeros são simples aproximações, mas que mostram com bastante evidencia a lei enunciada; são extrahidos do livro do sr. J. G. Baker, adiante citado.

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Na carta seguinte vêem-se traçadas as zonas de vegetação européas, que descrevemos. Esta carta é extrahida da carta geral das zonas de vegetação do globo, segundo A. Grisebach, a cujo notabilissimo trabalho nos soccorremos, principalmente, n'esta parte.

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2.º - CLIMAS FLORESTAES DE PORTUGAL

Portugal está situado entre o parallelo 37° e 42° de latitude norte. Na classificação de Haberlandt, que apresentámos, fica portanto comprehendido na zona temperada mais quente, caracterisada pelas arvores de folha perenne, pela cultura da oliveira, da vinha e do milho. Na carta de Grisebach, Portugal está incluido na zona de vegetação mediterranea, a qual em toda a peninsula apenas não abrange uma estreita faxa septentrional.

Um estudo mais detalhado do nosso paiz mostra, com evidencia, que n'elle existem bem accentuadas duas regiões climatericas principaes: uma ao sul, onde o terreno apresenta poucos accidentes, onde a atmosphera é quente e secca, onde no estio as chuvas são minimas e a evaporação é maxima, onde o clima é genuinamente mediterraneo; dois carvalhos de folhas perennes e coriaceas - o sobreiro e a azinheira - dominantes no revestimento florestal espontaneo d'esta região, podem servir bem para a caracterisar. Ao norte do paiz o terreno, muito montanhoso, eleva-se a grandes altitudes; os pontos culminantes chegam a 1:000, 1:500 e quasi 2:000 metros sobre o mar (o terço, ou os dois terços do limite das neves perpetuas na peninsula), e os pontos mais baixos, a não ser no littoral, cotam alturas superiores todas a 200 metros. Ahi a acção combinada da latitude e da altitude torna o clima menos quente, e as montanhas, verdadeiros condensadores da agua atmospherica, dão-lhe humidade e chuvas mais abundantes ¹; ahi o clima já não é tão rigorosamente mediterraneo, quasi deve ser antes considerado como transição da zona mediterranea para a zona florestal do norte; já são os carvalhos de folha caduca e membranosa - o roble, o carvalho negral e o carvalho portuguez - que principalmente o caracterisam.

¹ Como sabemos, esta acção condensadora explica-se da seguinte fórma: o ar resfria-se quando sobe ao longo da montanha por duas causas - porque se rarefaz com a diminuição da pressão e porque, na ascensão vertical, é compellido contra as vertentes e ao chegar ao cume distende-se de repente, dando-se uma producção de trabalho e uma absorpção equivalente de calor roubado ao meio em volta; é este duplo resfriamento que condensa uma parte do vapor aquoso na fórma de nuvens ou de chuva. Chegada a corrente aerea ao cume da montanha passam-se phenomenos oppostos na descida: a chuva diminue então e a evaporação augmenta. É por este motivo que os nossos terrenos cismontanos são tão ricos de chuvas e humidade relativamente aos terrenos transmontanos visinhos.

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Segundo os interessantissimos estudos climaterico-florestaes do sr. Bernardino Barros Gomes, que em toda esta parte não faremos senão resumir, a linha divisoria d'aquelles dois climas principaes não se afasta muito da linha do curso do Tejo portuguez; a região do norte comprehende 5.200:000 hectares e a do sul 3.760:000. Sob a acção de um clima mais propicio a agricultura e a população desenvolvem-se muito na região do norte, comparativamente á do sul: emquanto a primeira possue 3.300:000 habitantes, a segunda apenas contém 650:000.

Como vimos, os carvalhos (genero Quercus) representam um papel tão preponderante na arborisação do paiz que foram tomados como caracteristicos das duas zonas climaterico-florestaes. Para tornar bem evidente esta sua preponderancia, o sr. Barros Gomes lembra a extensão que elles ainda hoje occupam, a sua tendencia, em muitos pontos, a dominarem e invadirem os terrenos circumvisinhos, a sua força de reproducção espontanea, e o facto de existirem no territorio portuguez mais de 500 localidades, que derivam os seus nomes das especies de carvalhos indigenas.

Região norte, ou dos carvalhos de folha caduca. - O relevo orographico d'esta região desde já deve indicar a variedade grande dos seus climas locaes, pela variedade das suas altitudes e exposições; deve indicar temperaturas tanto mais irregulares nas maximas e nas minimas quanto mais afastadas do mar, chuvas mais intensas nas exposições cismontanas das proximidades do oceano, e menores nas regiões transmontanas mais internadas.

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É assim que esta região do norte pode soffrer uma primeira sub-divisão, comprehendendo-se a um lado a zona do littoral e a outro lado a zona do interior. O norte littoral apresenta as médias de chuva mais abundantes do paiz, sendo as médias das chuvas de estio ainda bastante elevadas relativamente ás outras zonas; a proximidade do mar torna-lhe a temperatura mais constante do que na zona interna. A chuva decresce, n'esta zona norte littoral, á medida que caminhamos do seu extremo norte ao extremo sul, e a temperatura, pelo inverso, augmenta. O sr. Barros Gomes sub-divide-a da seguinte fórma:

1.ª - Sub-região de Alemdouro littoral: comprehendendo proximamente a provincia do Minho: o terreno de Alemdouro desde o mar até ao Gerez e Marão. - É o ponto mais chuvoso do paiz; as suas médias de chuva annual excedem muito as de todos os outros paizes da Europa; tem chuvas de primavera tambem superiores ás dos outros paizes europeus, e as chuvas estivaes são ainda relativamente abundantes, apezar de se resentirem já da escassez caracteristica, que teem na zona mediterranea. A esta abundancia de chuvas corresponde o maior desenvolvimento agricola da provincia; nos climas quentes e seccos, como é o nosso em geral, a distribuição dos hydro-meteoros, conforme muito bem diz o sr. Barros Gomes, merece a primeira importancia na classificação climaterica.

N'esta sub-região as médias mensaes de humidade relativa são de 70 a 100%; a média annual da chuva é de 1:200 a 2:000 millimetros, e a média das chuvas de verão é de 80 a 200 millimetros. As temperaturas médias são de 12°, 14°, 15° centigrados, segundo a altitude.

C. S. 14

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