Curso de Silvicultura

Chapter 1

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CURSO DE SILVICULTURA

POR

ANTONIO XAVIER PEREIRA COUTINHO

Lente do Instituto Geral de Agricultura, socio correspondente da Academia Real das Sciencias, etc.

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TOMO I

BOTANICA FLORESTAL

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Organisação e modo de vida das plantas lenhosas. - Climatologia. - Agrologia. - Essencias florestaes

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LISBOA

POR ORDEM E NA TYPOGRAPHIA DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS

1886

AO LEITOR

A obra, cuja publicação encetamos com este primeiro volume, resulta da coordenação dos apontamentos das nossas lições no Instituto Geral de Agricultura.

A cadeira de silvicultura do Instituto foi por nós inaugurada em 1882; até ahi, as materias que a formam hoje estavam fragmentadas por outras cadeiras, onde tinham pequeno desenvolvimento.

Entrado ainda ha tão pouco tempo n'uma phase mais regular, e mais homogenea, não admira que este curso tenha sido incompleto, mal esboçado e indeciso em muitos pontos. Um curso de applicação como este, que para ser util deve ser pratico, só com o tempo se completa; inicia-se, e transforma-se, e aperfeiçoa-se successivamente, á medida que vão apparecendo novos trabalhos, novos materiaes.

Esta publicação é decerto prematura; se nos abalançamos a encetal-a, desde já, é porque nos convencemos que assim facilitaremos muito o estudo aos nossos alumnos, que não dispõem do tempo necessario para consultar os numerosos livros, onde se encontra dispersa a materia vastissima do programma da cadeira; mas, insistimos em que esta nossa obra é apenas uma primeira tentativa, uma base para trabalhos ulteriores mais completos.

Cingindo-nos ao programma approvado pelo conselho escolar do Instituto, procurámos reunir, dos livros nacionaes e estrangeiros, tudo quanto nos pareceu mais conveniente, juntando-lhe o pouco que temos visto no paiz, e dando ao conjunto a precisa ligação. Para não alongar o texto com citações, repetidas a cada passo, apresentamos, no fim de cada livro, a lista dos auctores a que nos soccorremos, e onde essas materias se podem encontrar, tratadas com maior detalhe e proficiencia.

Lisboa, 26 de março de 1886.

ANTONIO XAVIER PEREIRA COUTINHO.

CURSO DE SILVICULTURA

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INTRODUCÇÃO

A silvicultura tem por objecto a exploração mais util das florestas.

Denominam-se florestas, ou matas, a reunião de vegetaes lenhosos de grande porte, da mesma ou de differentes essencias, e que não estão sujeitos da parte do homem a cuidados individuaes de tratamento.

A palavra essencia, em cultura florestal, é synonima de especie botanica.

A silvicultura distingue-se da arboricultura, que tambem explora os vegetaes lenhosos, principalmente pela intensidade na exploração. Emquanto a primeira, como dissemos, só applica, em regra, o seu tratamento aos grupos de arvores, ao massiço, a ultima emprega, para cada individuo vegetal, cuidados especiaes, como a poda, a limpeza, a enxertia, etc. A esta differença accresce, para o nosso paiz, como para os outros paizes da Europa, a diversidade dos productos, que uma e outra se propõe obter: a silvicultura considera como producto principal os lenhos e as cascas, emquanto a arboricultura explora sobretudo as arvores de fructo e de ornamento, tendo sempre as madeiras e as cascas como productos muito secundarios. Todavia os limites entre as duas explorações nem sempre apparecem tão accentuados, que não se encontrem verdadeiras transições; como tal pode quasi ser considerada a cultura dos montados na região do Alemtejo.

C. S. 1

II

Nos diversos paizes da Europa a silvicultura occupa um logar mais ou menos importante, conforme as condições especiaes de cada um.

O clima quente e secco, pobre em chuvas estivaes, de uma grande parte de Portugal, é mais apropriado á exploração das plantas lenhosas do que das plantas herbaceas. Por outro lado, a posição geographica e o relevo accidentado do nosso territorio exigem grande revestimento florestal, para defender uma linha tão desenvolvida de costa maritima contra a invasão das areias, para impedir o desnudamento dos declives das montanhas, e regularisar os cursos de agua, que d'ahi se despenham.

É certo que o nosso meio economico, sobretudo a fórma por que se constitue e divide hoje a propriedade em Portugal, adapta-se mais ao desenvolvimento da arboricultura do que da silvicultura, e imprime uma feição caracteristica a esta ultima pela fragmentação dos massiços florestaes, com todas as suas consequencias. Mas aos governos incumbe intervir, n'estas circumstancias, como acontece em todos os paizes, onde as florestas teem a satisfazer uma necessidade qualquer, collocadas em pontos prefixos e sujeitas a tratamentos especiaes, desde que a propriedade particular não é compativel com a sua creação ou conservação.

III

O estudo da silvicultura constitue hoje uma sciencia perfeitamente definida, que se acha muito adiantada em alguns paizes da Europa, talvez mesmo mais adiantada, em muitas coisas, do que a agricultura propriamente dita. Este estudo joga com um grande numero de conhecimentos e abrange um campo de applicação muitissimo vasto, apresentando, como o estudo de todas as industrias humanas, duas faces distinctas: uma technica, ou cultural n'este caso, que ensina os processos de tratamento para obter e conservar as florestas, que considera as arvores em si, nas suas relações, vida e necessidades; outra economica, que diz respeito á mais util exploração.

A cadeira de silvicultura do Instituto está collocada no 3.º anno do curso; os alumnos chegam, por isso, já habilitados com os conhecimentos necessarios, em sciencias naturaes, physicas, economicas e mathematicas, para a sua comprehensão. Por este motivo não temos de entrar em generalidades, que vem já sabidas, e apenas, a titulo de recordação, tocamos um ou outro d'esses pontos, quando o julgamos mais conveniente para o melhor entendimento e ligação do que temos a dizer.

Dividimos o nosso curso nas seguintes partes:

1.ª Botanica Florestal - Comprehendendo as applicações da botanica geral á organisação e modo de vida das essencias florestaes; as distincções botanicas entre estas essencias para a sua individualisação; a distribuição das diversas arvores, e as suas relações com o exterior, isto é - a climatologia e a agrologia florestal.

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2.ª Cultura Florestal - Regras geraes para a creação e tratamento das florestas; applicações subsequentes ás nossas principaes essencias.

3.ª Dendrometria - Determinação da massa lenhosa, e das leis do crescimento, n'uma arvore e n'um grupo de arvores.

4.ª Ordenamento - Escolha e regularisação da exploração, por fórma a obter um producto annual tão constante, e tão vantajoso, quanto possivel.

5.ª Artes Florestaes - Estudo dos productos florestaes considerados em si, nas suas propriedades e nas suas transformações, que se executam na floresta, ou annexas á floresta.

6.ª Economia Florestal - Estudo economico da producção florestal, considerada não só em relação aos interesses do proprietario, como do paiz em geral.

PARTE I

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BOTANICA FLORESTAL

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LIVRO I

Organisação e modo de vida das plantas lenhosas

Plantas herbaceas e lenhosas. - Os vegetaes podem dividir-se, quanto á consistencia e duração dos seus caules, em dois agrupamentos - herbaceos e lenhosos.

Vegetaes herbaceos são aquelles cujos caules ficam sempre tenros, succosos, com pequena consistencia, e (considerados no todo, ou pelo menos na parte externa ao terreno) fructificam apenas uma vez: quer n'um unico periodo vegetativo a planta germine, se desenvolva e fructifique, morrendo em seguida (plantas annuaes): quer a raiz persista dois annos, desenvolvendo o caule e fructificando no segundo, á custa dos materiaes em reserva, accumulados pelas folhas durante o primeiro anno (plantas biennaes): quer permaneçam na terra, mais de dois annos, porções d'um mesmo individuo (raizes, rhizomas, tuberculos ou bolbos), emittindo cada anno caules novos fructiferos, que morrem em seguida (plantas vivazes).

Dizem-se lenhosos, em opposição aos d'este grupo, os vegetaes cujos caules se apresentam rigidos, consistentes, por terem fortemente espessas, duras, modificadas de diversas maneiras, as paredes de muitas das cellulas constituitivas. N'estes vegetaes a vida continúa na parte aeria - no caule e suas ramificações - durante um periodo variavel, que pode abranger muitos annos, ou seculos até, e o phenomeno da fructificação repete-se por muitas vezes sobre o mesmo caule.

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Classificação dos vegetaes lenhosos segundo o seu porte. - Os vegetaes lenhosos indigenas pertencem todos, a bem dizer, á classe das Angiospermas-dicotyledoneas ou á classe das Gymnospermas. As Angiospermas-monocotyledoneas expontaneas são plantas herbaceas, exceptuando cinco ou seis especies, de pequenas dimensões e sem nenhuma importancia, nos generos Asparagus, Smilax, Ruscus, e exceptuando a palmeira anã (Chamaerops humilis, L.), peculiar ao littoral algarvio. Por esta razão, no presente livro, apenas estudaremos a organisação e o modo de vida das plantas pertencentes ás duas classes primeiro citadas. Tudo quanto vamos dizer a ellas se refere.

Os vegetaes lenhosos costumam classificar-se praticamente em tres grupos, segundo as dimensões que apresentam, a altura do caule onde teem implantados os primeiros ramos, a fórma dos botões e a época em que elles apparecem - arvores, arbustos e sub-arbustos.

A arvore tem uma altura não inferior a 8m ou 10m, e o tronco de ordinario nu, despido de ramos inferiormente um grande espaço: taes são os carvalhos, o castanheiro, os pinheiros, os choupos, etc. O arbusto apresenta menores dimensões, vae de 1m a 5m, poucas vezes mais alto, e tem habitualmente o eixo principal vestido de ramos até abaixo: como o aderno, os sanguinhos, o alfenheiro, o lentisco, o sabugueiro, etc. O sub-arbusto raras vezes excede a 1m, é ramoso desde o solo, e só na base é lenhoso: taes são o rosmaninho, a alfazema, algumas urzes, etc. Além d'isto as arvores e os arbustos indigenas teem quasi sempre botões escamosos, onde hibernam os esboços dos seus rebentos, emquanto estes botões não existem na maior parte dos sub-arbustos.

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A classificação das plantas relativamente á sua duração, porte, e consistencia dos tecidos, tem uma grande importancia pratica em silvicultura: d'ahi dimana o aproveitamento de certas especies, com exclusão de outras. Todavia é bom não esquecer que uma tal classificação não assenta em base nenhuma scientifica, e apenas é verdadeira em relação a um determinado logar. A mesma especie vegetal, modificada pelos differentes climas, pode ser herbacea ou lenhosa, e apresentar variações enormes no porte; o ricino ou carrapateiro (Ricinus communis, L.) é expontaneo na America, na região quente, mas cultiva-se hoje n'uma grande area, onde, em muitos pontos, se encontra já sub-expontaneo; nos logares mais quentes d'este seu vasto habitat é arborescente ou arbustivo, e nos logares menos aquecidos fica herbaceo, annual ou biennal; na Africa e no sul do nosso paiz tem a primeira d'aquellas estructuras, e adquire a segunda na França, ou entre nós no Alto Traz-os-Montes (Bragança).

Orgãos dos vegetaes lenhosos. - As plantas lenhosas, como sabemos, são constituidas por cellulas que apresentam entre si, quando novas, grandes semelhanças, mas que adquirem fórmas muito diversas no seu desenvolvimento ulterior, segundo o fim a que se adaptam e especialisam.

Seja qual for a sua fórma, estas cellulas podem revestir dois modos de ser muito differentes - podem estar vivas ou mortas: só as primeiras são susceptiveis de crescimento, só ellas formam os principios immediatos necessarios á organisação vegetal, e só ellas podem reproduzir-se, isto é, originar outras cellulas, contribuindo assim para o desenvolvimento do individuo a que pertencem; as segundas, as cellulas mortas, perderam o protoplasma, tornaram-se incapazes de crescimento, não podem reproduzir-se, nem constituir novos principios immediatos. Estas cellulas mortas apresentam geralmente a parede cellulosica primitiva muito modificada, e desempenham então um simples papel mechanico: taes são as cellulas suberificadas, que servem de protecção externa ás cellulas vivas; taes são as fibras do lenho, que dão a rigidez e a flexibilidade aos diversos orgãos, e pelo seu grande poder de imbibição conduzem rapidamente a agua, etc.

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Um conjuncto de cellulas identicas, que obedecem á mesma lei de desenvolvimento, constitue um tecido. As diversas partes da planta, dotadas de fórmas differentes e appropriadas a funcções physiologicas especiaes, denominam-se orgãos. Vamos passar em revista os orgãos dos vegetaes lenhosos, considerando-os sob o ponto de vista que nos diz respeito.

1.º - RAIZ

A raiz é o orgão destinado a immobilisar a planta e a absorver, do meio onde se desenvolve, as substancias ahi existentes, necessarias para a organisação vegetal.

A raiz distingue-se do caule, além de outros caracteres anatomicos, em não ter folhas nunca, e em apresentar o cone de vegetação (ou ponto constituido pelo tecido gerador, por onde se realisa o crescimento terminal) coberto por um involucro protector (pileorhiza) (fig. 1 c, p), emquanto o cone de vegetação do caule é nu. Aquelle involucro, sempre de consistencia mais resistente que os tecidos delicados geradores, livra-os dos choques e attritos, e regenera-se internamente á medida que se gasta e esfolia externamente.

Nas especies lenhosas indigenas a raiz desenvolve-se na terra e, em linguagem vulgar, raiz é toda a parte subterranea dos mesmos vegetaes. A hera (Hedera Helix, L.) ainda está incluida n'esta definição: a sua raiz normal, a raiz por onde se alimenta, implanta-se no solo; as raizes adventicias, que lhe apparecem ao longo do caule sarmentoso, servem para o erguer, porque é muito debil para se levantar sem esse auxilio - embora possam contribuir tambem para a nutrição quando se fixam no solo.

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Fig. 1. Corte longitudinal d'uma radicula do amieiro (Alnus glutinosa Gartn.): c, cone vegetativo: p, pileorhiza: a, a, pellos radicaes (20:1) (segundo Schacht)

Raiz normal e raizes adventicias. - No acto da germinação das sementes a radicula é o primeiro orgão que apparece. Nas nossas plantas lenhosas esta radicula adquire um desenvolvimento ulterior muito diverso, variavel com a especie vegetal e com as qualidades do terreno, e fica sendo o eixo da ramificação subterranea.

Os primeiros indicios externos da ramificação apresentam-se como pequenas protuberancias semi-esphericas na superficie da radicula. Estas protuberancias engrossam pouco a pouco; a casca levantada por ellas cede emfim, no sentido da menor resistencia, e fende-se; os dois labios da pequena ferida afastam-se, e dão passagem a um cylindro esbranquiçado, que se alonga e fórma, com o tempo, uma nova radicula. Este eixo secundario pode ramificar-se por sua vez, e assim seguidamente, como no eixo primario, ou em qualquer outro, podem apparecer novas ramificações, inferiormente ás primeiras. As raizes lateraes são pois, em regra, tanto mais novas quanto mais afastadas do collo.

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Dá-se o nome de collo da raiz ao circulo divisorio que se imagine traçado limitando a raiz e o caule. Este circulo tem limites prefixos, como a anatomia vegetal ensina, mas em linguagem florestal é um pouco indeterminado, e suppõe-se estar ao nivel do solo.

A radicula primordial, desenvolvida e transformada no eixo da ramificação subterranea, chama-se vulgarmente raiz mestra ou gavião. O systema ramificado, que deriva da radicula primitiva, constitue a raiz normal; em opposição a esta denominam-se raizes adventicias as que apparecem n'uma qualquer parte indeterminada da planta.

Adaptação das ramificações da raiz. - Nas raizes das plantas lenhosas, quando já passaram o primeiro periodo do desenvolvimento, ha sempre a notar ramificações grossas, com uma grande parte das cellulas mortas e lenhifeitas (de ordinario tanto mais lenhosas e grossas quanto mais proximas do tronco), e ramificações tenras, succosas, collocadas quasi sempre em maior abundancia nas extremidades. O conjuncto das ramificações lenhosas constitue principalmente o apparelho fixador; o conjuncto das radiculas tenras denomina-se cabellame, e ellas exclusivamente representam o papel de orgãos subterraneos da nutrição.

A raiz como apparelho de nutrição. - Consideremos isoladamente uma d'estas radiculas. A assentada externa da casca, que se differença da epiderme do caule, entre outros caracteres, em não ter estomas, apresenta, a partir do extremo onde existe a pileorhiza, uma superficie perfeitamente unida, depois uma parte cujas cellulas teem, muitas vezes, a membrana prolongada em pellos, quasi sempre simples e unicellulares (fig. 1 a, a), seguindo-se-lhe uma outra região menos liza e de ordinario mais escura.

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A parte intermedia, onde apparecem os pellos radicaes, é que funcciona como orgão de nutrição; atravez as suas cellulas passam, por endosmose, os gazes e a agua do terreno, levando esta dissolvidos os principios mineraes necessarios para a organisação vegetal. Para este fim os pellos radicaes applicam-se estreitamente contra as particulas do solo, moldam-se nos seus intervallos e ganham com ellas tal adherencia que, arrancando com cuidado uma radicula é vulgar encontral-a envolvida por um cylindro de terra.

Este papel dos pellos radicaes dura, as mais das vezes, pouco tempo; atrophiam-se breve e caem, ficando a radicula, na parte onde elles estiveram, com a superficie menos liza e a côr escura, como acima notámos. A radicula tem-se alongado no emtanto, e agora é na zona que estava mais liza, entre o extremo e a antiga assentada dos pellos radicaes, que estes apparecem, ficando assim constantemente á mesma distancia da extremidade.

Os pellos radicaes nem em todas as especies se encontram; quando faltam são as cellulas da zona, em que elles se deviam desenvolver, por onde se dá, pela mesma fórma, a absorpção. A quantidade e o tamanho dos pellos radicaes dependem das condições particulares do meio onde a planta vive, bem como da sua organisação especifica; toda a planta dotada de activa transpiração tem pellos radicaes numerosos; tudo quanto augmentar a transpiração provoca um maior apparecimento d'elles; por isso faltam, ou são pouco desenvolvidos, nas Coniferas (pinheiros, etc.) que relativamente transpiram pouco; por isso augmentam em numero e em dimensões quando as raizes vivem em terrenos seccos e o organismo vegetal, a que pertencem, precisa transpirar mais.

A parte da radicula, onde os pellos radicaes se atrophiaram já e cairam, toma o aspecto rugoso, soffre uma esfoliação á superficie, as cellulas sub-jacentes morrem tambem, e cobre-se afinal de uma camada escura, elastica, tendo a consistencia e as propriedades da cortiça. Mais tarde este involucro fende-se, fica mais rugoso ainda, e serve apenas de protecção aos tecidos inferiores; a absorpção tornou-se impossivel atravez as suas cellulas mortas e suberificadas, e esta parte da raiz passa a ter apenas importancia como fracção do apparelho fixador. É pela extremidade, que se alonga com todos os caracteres primeiro indicados, é pelas ramificações novas, collocadas cada vez mais longe e mais profundas, que a planta vae procurando a sua alimentação da terra, em camadas successivas e ainda por explorar.

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A raiz como apparelho fixador. - Em egualdade de circumstancias, quanto mais desenvolvidas são as ramificações lenhosas subterraneas, tanto mais energica é a resistencia opposta pela arvore a ser derrubada. Á medida que na parte aerea o tronco engrossa, cresce em altura e augmenta em ramos, identicamente o apparelho fixador engrossa, cresce e ramifica-se, e d'este modo a planta encontra sempre appoio mais ou menos proporcional a sua grandeza. Esta harmonia entre o desenvolvimento da parte aeria e subterranea é tão estreita que, quando a copa se apresenta mais ramosa de um lado, corresponde-lhe, de ordinario, uma ramificação maior das raizes no mesmo sentido.

O conjuncto das raizes principaes, tendo adherente a base do tronco denomina-se touça.

A fórma de ramificação das raizes obedece a um plano de symetria, prefixo para cada especie, mas a falta de homogeneidade nas propriedades physicas e chimicas do terreno alteram aquella regularidade a cada passo. Nas camadas do solo mais ferteis e mais humidas a ramificação estimula-se e apparece abundante cabellame, emquanto nas camadas mais estereis a raiz passa quasi sem se dividir. Quando uma raiz encontra quaesquer obstaculos materiaes procura afastal-os, ou contornal-os, mas, se o não consegue, diminue a actividade do seu cone de vegetação, que morre afinal, cessando o alongamento d'este ramo. Quando, por uma circumstancia d'esta ou de diversa natureza, a raiz mestra, ou uma das raizes lateraes, se atrophia, pode o systema continuar a ramificar-se sem esse eixo, ou pode um outro ramo tomar a direcção do que se inutilisou, como na parte aerea um rebento lateral substitue muitas vezes o rebento terminal. A raiz premida entre dois obstaculos, na fenda de uma rocha por exemplo, muda de aspecto e modifica a fórma cylindrica natural, tornando-se mais ou menos achatada; em alguns casos, pelo engrossamento ulterior, consegue, actuando como uma cunha, separar os pedaços da rocha, ou ataca-a, se a constituição chimica d'esta lh'o permitte, chegando mesmo a atravessal-a: mas, todos estes, e muitos outros accidentes destroem cada vez mais a constancia do plano de divisão radicular. Por outro lado a desegualdade da ramificação do tronco, devida a um sem numero de circumstancias, em que toma grande parte a falta de symetria com que é actuado pelos phenomenos meteorologicos, reflecte-se enormemente na ramificação da raiz, sendo mais uma causa, e muito poderosa, de inconstancia.

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Apezar de tudo quanto deixamos dito, a organisação especifica tem quasi sempre em si a energia bastante para vencer tamanhas contrariedades e, dentro de certos limites, cada especie conserva um typo caracteristico de radicação, que deve ser inherente ás necessidades do seu organismo.

Na fórma do systema radicular e no poder do enraizamento tem uma grande importancia o desenvolvimento da raiz mestra; em regra geral as suas maiores dimensões contribuem para a estabilidade da arvore. N'umas especies este eixo central cresce muito pouco, e as raizes lateraes, compridas e delgadas, bracejam ao longe, mais ou menos horisontalmente: tal é o choupo tremedor; n'outras essencias, como no ulmeiro, tambem não se desenvolve muito, mas é substituido por duas ou tres grossas pernadas lateraes, que penetram obliquamente na terra; no carvalho roble e n'outras especies, a raiz mestra alonga-se profundamente, com pequenas ramificações nos primeiros annos. N'este ultimo caso aquelle crescimento afrouxa mais tarde, e as raizes lateraes adquirem então maior impulso, como na parte aerea diminue tambem por fim a relação entre o rebento terminal e os lateraes.

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Praticamente a radicação das diversas essencias florestaes divide-se em dois agrupamentos, sobretudo importantes para nós, caracterisados pela espessura do terreno até onde chega - radicação profunda e superficial. O carvalho, o castanheiro, o pinheiro bravo, etc. são exemplos do primeiro grupo; os salgueiros é alguns choupos representam bem o segundo. Uma consideração pratica egualmente muito importante é o terem, ou não, as raizes a faculdade de formar rebentões, tal como os fórma o ulmeiro, o choupo branco, etc.; muitas vezes estes rebentões desenvolvem-se em raizes horisontaes muito compridas, e vão apparecer a grandes distancias do tronco da arvore-mãe, tornando-se um meio poderosissimo de reproducção.