Chapter 8
Renunciamos à empresa: fugimos ao espetáculo espantoso, dessa espécie de psicólogo sabbat de ideias arrevesadas, teorias desvairadas e utopias delirantes, com o mesmo espanto e terror que possuíam as crédulas almas das gentes medievais, ante os bailados demoníacos, que a imaginação lhes criava — na encosta solitária das montanhas ou à sombra silenciosa das catedrais…
Ultimamente erigiram Huxley contra-regra formidando e monótono e incorreto melodrama de maldições — e o eminente fisiologista, cujo espírito, aliado ao de Haeckel, teve lucidez para através dos mais íntimos recessos da matéria descortinar a feição primordial da vida, dando a base física do plasma à complicadíssima e admirável arquitetura da existência universal — Huxley, talvez nem saiba, em seu retiro, na sua grande abstração de sábio, que tem entre nós tão inesperada missão. Imagina-se Turenne, correto, brilhante e cavalheiro — a comandar um esquadrão de tártaros…
Está bem visto que não nos propomos, por demasiado frágeis, à empresa de terçar armas pela religião, positiva, à qual não pertencemos, porque, neste iniciar da vida, um ideal filosófico nos é ainda uma aspiração, destinada a realizar-se mais tarde e definindo a altitude máxima da consciência, surgindo de um amplo conhecimento do mundo.
Por ora seguimos sem Deus, sem chefes; não corremos riscos de revogarmos amanhã o que pensamos hoje.
Nada mais deplorável do que esse viver automático dos que se agitam de pronto, a mercê das teorias filosóficas; preferimos seguir lentamente, na formação desse mundo interior, indefinido e vasto, e que constitui afinal o único prêmio, real e inalienável, de todos os esforços de nossa inteligência e de nossa afetividade.
Temos entretanto pelo genial instituidor da Filosofia Positiva, à luz da qual estudamos, admiração bastante para que nos seja difícil sofrear o espanto ante a maneira por que o impugnam, maneira que não se traduz por um combate, franco e desassombrado, mas que é como um apedrejamento.
É doloroso o quadro dessa campanha intransigente e cega, movida sobretudo pelos que parecem possuir elevação bastante, para compreenderem toda a grandeza do pensador, que foi como o herdeiro feliz de todas as criações da elaboração mental do século XVIII e que, sem exagero o dizemos, traduziu Descartes para o século XIX e instituiu a síntese subjetiva.
É realmente inexplicável tamanho combate contra o filósofo eminente cujo maior crime parece estar no aniquilamento da metafísica; cuja maior falta consiste em ter nobilitado a concepção social do conjunto humano — substituindo aos intermediários subjetivos, imaginosos e intangíveis, que aquela estabelecia entre o mundo e o homem, a noção altamente filosófica da Humanidade.
Por uma circunstância notável, a serenidade imperturbável e até certo ponto altiva, do pequeno grupo de positivistas, contrasta visivelmente com todo o açodamento impugnador. Não vão à imprensa, não vão às tribunas; trabalham, lutam e pensam — alheios a todo o esgotamento inútil e à ação dispersiva das polêmicas estéreis.
Daí a simpatia de que são credores — mesmo daqueles que como nós se acham muito afastados das crenças que os impulsionam.
A biografia de Benjamin Constant, por Teixeira Mendes, livro em que se reflete admiravelmente a alma diamantina do fundador da República, exemplifica o que dissemos.
Enquanto acirradamente o imprecavam, através das doutrinas que adota, esse moço ilustre, perfeitamente incompreendido pela massa geral dos seus contemporâneos e que guarda um grande e obstinado silêncio ante todos os ataques — reconstruía, lenta e conscienciosamente, em toda a sua grandeza, a individualidade talvez a mais pura da nossa História.
Será, por acaso, tão perniciosa e condenável a filosofia que intenta e realiza tais empresas?
Pela nossa parte, respeitamos profundamente os que consideram a veneração pelos grandes homens como o "problema capital dos nossos tempos", já que verdadeiramente as grandes individualidades do passado são as que velam melhor sobre o destino dos que seguem, demandando o futuro…
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 3 jul. 1892
Acabamos de ler o discurso do Sr. Epitácio Pessoa. Oração enérgica, brilhante e imaginosa ela define admiravelmente o nosso sentimentalismo agudo e mostra até que ponto a dor augusta dos infelizes é comovedora, refrangendo através de um coração altamente lírico e moço — que posto como um prisma entre nós e os desterrados políticos, empresta a toda amargura que os punge todos os cambiantes, multicores e exagerados, da palavra e da retórica parlamentar.
Afinado pelo diapasão da sentimentalidade rudimentar que nos caracteriza, é bem de ver que as vibrações da sua palavra incendiada, irrompendo do estreitíssimo âmbito do Parlamento, acharam fora um vasto campo para o máximo elastério, dilatando-se por todo o país e imprimindo em todos os peitos o ritmo agitado das grandes emoções.
Nós mesmos que, para garantia do próprio espírito, invertemos em tudo o que se refere aos acontecimentos atuais, a velha fórmula que regula a aquisição das ideias — isto é, nós que, calculadamente, nos habituamos a pensar antes de sentir, embora assim abroquelados, não sofreamos o ímpeto da primeira onda; comovemo-nos e idealizamos uma tela de Rembrandt — erma de luzes, pavorosa e constritora, aonde em meio da desolação dos descampados um grupo de mártires, sob os olhos silentes das estrelas, pairava, tendo sobre as frontes, latente, uma grande noite, a saudade da pátria…
Não há, de fato, tese de mais fácil e ampla explanação do que esta. Orador, ao galgar a tribuna, começa por ter, naturalmente, todo o auditório a seu lado; vai fazer vibrar a nota sempre altíssona do velho sentimento humano: não precisa dominar, prendendo-as aos liames fulgurantes da dialética, as inteligências — dirige-se aos corações; não precisa elevar o assunto — o próprio assunto eleva-se e eleva-o; não necessita quase defender-se — ninguém o ataca; todos afinal o aplaudem, porque iluminada por tal oratória a tribuna não é uma posição de combate, é sagrada — é um púlpito!
Toda essa eloquência porém não resiste a uma reflexão medianamente lúcida: fora desta corrente hipnótica, que circula as tribunas, a consciência reassume o seu império inviolável e reage sobre a ebriez das emoções: o tribuno enérgico, vigoroso e brilhante, comove-nos pintando tetricamenteo destino dos homens, tudo isto porém esvai-se ante a lucidez do espírito bastante que nos mostra o destino da pátria.
É forçoso convir; nós não estamos numa quadra tão fácil e feliz que faculte esse desperdício inútil de emoções a esse constante expluir, gongórico e extravagante, de fraudulento lirismo, que invade os jornais e as tribunas; deixemos de uma vez a exploração pecaminosa de todas as dores e de todas as calamidades; batamo-nos à luz dos nossos princípios, adversos embora, sem o acompanhamento obrigado dessas eternas loas de infortúnio; desse constante salmodiar de agruras…
Mais lógicos, por certo, eram aqueles bardos hebreus da antiguidade bíblica, que iam, nos dias da escravidão e desgraças nacionais, dependurar as harpas nos ramos dos salgueiros, nas ribas agitadas dos mares e quedavam-se após, silenciosas, deixando que os hautos das procelas vibrassem-nas, me longas notas discordantes e doloridas…
Realmente, não há a mínima vantagem nesse constante retaliar de questões quase que meramente sentimentais, numa época em que se faz preciso atender de pronto às necessidades reais e urgentes do país. Se os desterrados políticos, por frágeis e inofensivos, não merecem o exílio, que se lhes dê a anistia salvadora. Para que, porém, tentar ir avante, quebrar lanças por uma absolvição que seria rídícula ante a evidência do crime?
Todos nós compreendemos o infortúnio dos compatriotas desterrados, mas certos de que erraram, temos como um erro maior — um longo tempo perdido com o intuito de negar a falta.
Temos um notável exemplo no Chile. Segundo lemos há pouco, a terra varonil que, simultaneamente com a nossa, atravessou a crise revolucionária, restaura-se, alevanta-se revivescente, quando a ruinaria foi por certo muito maior por lá, visto como a energia poderosa de Balmaceda só se pôde extinguir no centro das batalhas. Entretanto cindem ainda a sua política todas as dissensões partidárias antigas; congressistas e balmacedistas investem-se ainda, em prol de antigas ideias.
A verdade, porém, é que o Chile se levanta do aniquilamento anterior, e isto, em grande parte, porque os chilenos não perdem, como nós perdemos, numa luta de represálias, um tempo utilíssimo em liquidar longamente as questões do passado, antes as imposições do presente.
Nós fazemos o contrário: logo ao assumir o poder o governo foi distraído pelos atos dos que conspiravam; reúne-se o Congresso e distrai-se com os atos do governo. E entibia-se a ação deste último e acirram-se todas as paixões, todos os ódios partidários e aumenta-se ainda mais essa prejudicialíssima desconfiança do estrangeiro, que nos deprime o crédito e reage da pior maneira sobre toda a nossa vida econômica.
Longos discursos sentimentais e vagos, visando as mais das vezes o renome pessoal e uma espécie de imortalidade à la minute, através do aplauso das galerias, eis toda a gestação da minoria.
Os que assim procedem terão ao menos a fortaleza e abnegação bastante para ao nosso lado, amanhã, lutarem para debelar todos os males que por acaso produzam?
Que nos responda o futuro.
"O Estado de S. Paulo", 6 jul. 1892
Veio e passou, célebre como um sonho, a agitação de domingo, deixando o rastro obrigado de cabeças e vidraças desmanteladas. Não temos porém por tal forma insignificante, em si, a mazorca malograda que não a consideremos assunto para os comentários da crônica.
Naturalmente os que, de longe, dela tiveram notícia, através do laconismo comprometedor do telégrafo, divisaram idealmente toda esta cidade vibrando, convulsionada, tendo no seio a febre devastadora da revolta, o tumultuar ruidoso de massas populares enraivecidas e a ação repressora do governo, defluindo das cargas de cavalaria, enérgicas e prontas.
O quadro não foi entretanto tão dramático e sério, sejamos francos; a exígua fração irridenta e desocupada, da colônia italiana, não teve, para a realização dos planejados desmandos, o apoio dos próprios compatriotas e dissolveu-se ante um simulacro de reação, com imenso desapontamento por parte dos que tão desastradamente a exploraram.
O próprio fato do despedaçamento covarde da nossa bandeira indica eloq uentemente o valor moral da manifestação e dos manifestantes: não foi por certo a colônia italiana que o praticou; os que tal realizaram não têm pátria — pertencem a essa feição amorfa, repugnante e indefinida que constitui a vasa de todas as nacionalidades de tal sorte que quem até ela desce não reconhece o francês ou o alemão, ou o brasileiro ou outro qualquer povo — vê unicamente a escória comum e tristíssima de todas as raças porque só infamam a bandeira de um povo os que não têm pátria!
Não fosse esse fato, fonte da mais justa e ríspida represália, e o meeting de domingo resumir-se-ia nas passeatas inofensivas de alguns turbulentos agitando-se inconscientemente, como marionettes tristemente explorados em sua rude ingenuidade, pelos que calculadamente se abroquelam na sombra.
Nós fazemos justiça, a mais ampla e segura justiça aos compatriotas de um dos soldados mais francos e varonis deste século — Garibaldi; o italiano, herdeiro mais próximo desse espírito cavalheiresco, bravo e brilhantíssimo que tão de pronto caracteriza a nossa raça, certo não se presta à função inglória do arruaceiro vulgar, não sai, anárquica e turbulentamente, às ruas, para tomar mais tarde a fuga banal dos garotos. Estamos seguros, a menos que não admitamos totalmente degenerado o espírito de um povo, que a colônia italiana, a sua maioria honesta e digna, dissolveria a agremiação desordenada, se a não precedesse o governo.
O estrangeiro inteligente e diligente, e de tal nota temos muitos, compreende que não é, entre nós, um hóspede; vem para o seio de uma nacionalidade nova, que se refunde à luz de um ideal político — que se agita numa convulsão fecundíssima, porque traduz a entrada triunfal de novos princípios, tonificadores e enérgicos na alma de um povo; sabe, pois, que entre nós, melhor do que em qualquer outra sociedade, definida e estável, ele pode mais prontamente se adaptar e se nacionalizar, constituindo-se até poderoso elemento étnico para a feição por vir e próxima que assumiremos.
Neste início de vida republicana não são únicas a se transformarem as instituições políticas — senão que é visível a transmudação dos nossos costumes. Todas as lutas políticas e todas as dificuldades do presente têm o valor de reagirem sobre o caráter nacional, que inegavelmente envolve, tendendo a elevar-se ainda mais — e, nessa movimentação maravilhosa, a imigração européia, que desejamos e pedimos, é como uma experimentada e segura mão que nos estende a velha civilização, guiando-nos para o futuro.
Foi por isto que a feição honesta e digna do jornalismo explicou limpidamente o lamentável caso de Santos. Infelizmente sem resultado.
Agora, ante os últimos acontecimentos, pode a maioria digna e consciente da colônia italiana, assumir as responsabilidades que lhe sejam corolários?
Acreditamos que não. Parece-nos que ela, de há muito fraternizada à sociedade brasileira, pelo trabalho e cooperação comum para o nosso progresso, não deve, não deseja e não pode sancionar a insânia dos que criminosamente, transformando em sediciosa a bandeira de uma nação amiga — e irmã nossa pelas mais íntimas afinidades de raça, passearam-na pelas ruas, num alarido deprimente, rompendo à sua sombra a solidariedade com um povo, que os acolhe, obrigando-o à mais desassombrada represália.
Muito menos alimenta-nos qualquer temor de futuras complicações internacionais; fora descrer da atitude da política moderna e sobrepor arruaças sem valor à grande amizade das nações, ou admitir a aparição de notas diplomáticas num caso que modestamente faz jus às notas policiais.
A NOSSA VENDÉIA
("O Estado de S. Paulo", 14 mar. 1897)
1
O relatório apresentado em 1888 pelo sr. José C. de Carvalho sobre o transporte do meteorito de Bendegó, os trabalhos do ilustre professor Caminhoá e algumas observações de Martius e Saint-Hilaire fazem com que não seja de todo desconhecida a região do extremo norte da Bahia determinada pelo vale do Irapiranga ou Vaza-Barris, rio em cuja margem se alevanta a povoação que os últimos acontecimentos tornaram histórica — Canudos.
Pertencente ao sistema huroniano ou antes erigindo-se como um terreno primordial indefinido entre aquele sistema e o laurenciano, pela ocorrência simultânea de quartzitos e gnaisses graníticos característicos, o solo daquelas paragens, arenoso e estéril, revestido, sobretudo nas épocas de seca, de vegetação escassa e deprimida, é, talvez mais do que a horda dos fanatizados sequazes de Antônio Conselheiro, o mais sério inimigo das forças republicanas.
Embora com a regularidade que lhes é inerente passem sobre ele impregnados de umidade adquirida em longa travessia do Atlântico, na direção de noroeste, os ventos alísios — a ação benéfica destes é em grande parte destruída, simultaneamente, pela disposição topográfica e pela estrutura geognóstica da região.
Assim é que falta a esta, talvez, correndo em direção paralela à costa, uma alta cadeia de montanhas — destinadas na física do globo a individualizar os climas, segundo a expressão sempre elegante de Humboldt — na qual refletindo ascendam aquelas correntes às altas regiões aonde um brusco abaixamento de temperatura, determinado pela dilatação num meio rarefeito, origine a condensação dos vapores e a chuva.
A observação do relevo da nossa costa justifica em grande parte esta hipótese despretensiosamente formulada. De fato, terminada a majestosa escarpa oriental do planalto central do Brasil, a serra do Mar, que desaparece na Bahia, diferenciada em serras secundárias, acentua-se de modo notável para o norte a depressão geral do solo de ondulações suaves, patenteando num ou noutro ponto apenas, sem continuidade, as massas elevadas do interior.
Por outro lado, a estrutura geognóstica daquela região, composta em grande parte de rochas dotadas de alto poder absorvente para o calor, determina naturalmente a ascensão quase persistente de grandes colunas de ar, ardentíssimas, que dissipam os vapores ou afastam as nuvens que encontram.
Da concorrência de tais fatos, acreditamo-lo, resulta provavelmente a causa predominante das secas que periodicamente assolam aquelas paragens, estendendo-se com maior intensidade aos estados limítrofes do interior.
Daí a aridez característica, em certos meses, dos sertões do Norte.
Nessas quadras a relva requeimada, através da qual, como única vegetação resistente, coleiam cactos flageliformes reptantes e ásperos, dá aos campos, revestidos de uma cor parda intensa, a nota lúgubre da máxima desolação; o solo fende-se profundamente, como se suportasse a vibração interior de um terremoto; as árvores desnudam-se, despidas das folhagens, com exceção do juazeiro de folhas elípticas e coriáceas, — e os galhos que morreram ficam por tal modo secos que, em algumas espécies, basta o atrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incêndio subseq uente de grandes áreas.
E sobre as chapadas desertas e desoladas alevantam-se quase que exclusivamente os mandacarus (cereus) silentes e majestosos; árvores providenciais em cujos galhos e raízes armazenam-se os últimos recursos para a satisfação da sede e da fome ao viajante retardatário — cactáceas gigantes que, revestidas de grandes frutos de um vermelho rutilante e subdividindo-se com admirável simetria em galhos ascendentes, igualmente afastados, patenteiam a conformação títpica e bizarra de grandes candelabros firmados sobre o solo… "Então", diz Saint-Hilaire, "um calor irritante acabrunha o viajante, uma poeira incômoda alevanta-se sob seus passos e algumas vezes mesmo não se encontra água para mitigar a sede. Há toda a tristeza de nossos invernos com um céu brilhante e os calores do verão."
Sem transição apreciável, entretanto, a estas secas intensas e nefastas, sucedem, bruscamente às vezes, as quadras chuvosas e benéficas: impetuosas correntes rolam sobre o leito de rios que dias antes ainda completamente secos davam idéia de largas estradas tortuosas, lastradas de quartzito fragmentado e grés duríssimo, conduzindo a lugares remotos do sertão.
E sobre os campos, em cujo solo depauperado vingavam apenas bromélias resistentes e cactos esguios e desnudos, florescem o umbuzeiro (Spondias tuberosa) de saboroso fruto e folhas dispostas em palmas; a jurema (acacia) predileta dos caboclos e os mulungus interessantíssimos em cujos ramos tostados e sem folhas desdobram-se como flâmulas festivas de grandes flores de um escarlate vivíssimo e deslumbrante.
"O ar que então se respira", diz o ilustre professor Caminhoá, "tem um aroma dos mais agradáveis e esquisitos. Uma temperatura de 16° a 18° à noite e pela manhã obriga a procurar agasalho aos que poucos dias antes dormiam ao relento e com calor. As aves que tinham emigrado para as margens e lugares próximos dos rios e mananciais voltam a suas habitações. Foi ali que compreendemos quanto é bem dado aos papagaios o nome específico de festivus. Com efeito, quando chegam os bandos destas aves a gritarem alegremente, acompanhadas de um sem-número de outras, começam logo a se animar aquelas paragens e como que a natureza desperta.
"Então, o sertanejo é feliz e não inveja nem mesmo os reis da Terra!"
Como se vê naquela região, intermitentemente, a natureza parece oscilar entre os dois extremos — da maravilhosa exuberância à completa esterilidade. Este último aspecto, porém, infelizmente, parece predominar.
A este inconveniente alia-se um outro, derivado da disposição geral do terreno. Assim é que de todo contraposta à topografia habitual dos nossos campos do Sul — ligeiramente ondulados e descambando em suaves declives para os inúmeros vales que os rendilham, caracterizam-se aqueles pelas linhas duras e incisivas das fundas depressões, terminando os tabuleiros bruscamente em escarpas abruptas, separando-se os cerros por desfiladeiros estreitos, flanqueados de grotas cavadas a pique…
Com muito maior intensidade que no Sul observa-se ali a ação modificadora dos elementos sobre a terra.
Nos lugares em que a ação mecânica das águas determinando uma erosão mais enérgica faz despontar a rocha granítica subjacente, observa-se quase sempre um fenômeno interessante. Esta última apruma-se, largamente fendida em direções quase perpendiculares dando a ilusão de lanços colossais e semiderruídos de ciclópica muralha, nos quais as lajes enormes dispõem-se às vezes umas sobre outras, com admirável regularidade. Este fato, largamente observado por Livingstone nas baixas latitudes africanas, traduz a inclemência do meio.
Patenteia a alternativa persistente do calor dos dias ardentíssimos e o frio da irradiação noturna de onde resulta a disjunção da rocha em virtude deste jogo perene de dilatações e contrações.
Estes rudes monumentos, aos quais não se equiparam talvez os dolmens da Bretanha, quebram em grande parte a monotonia da paisagem avultando, solenes, sobre o plano das chapadas…
É sobre estes tabuleiros, recortados por inúmeros vales de erosão, que se agitam nos tempos de paz e durante as estações das águas, na azáfama ruidosa e álacre das vaquejadas os rudes sertanejos completamente vestidos de couro curtido — das amplas perneiras ao chapéu de abas largas — tendo a tiracolo o laço ligeiro a que não escapa o garrote mais arisco ou rês alevantada, e pendente, à cinta, a comprida faca de arrasto, com que investe e rompe intrincados cipoais.
Identificados à própria aspereza do solo em que nasceram, educados numa rude escola de dificuldades e perigos, esses nossos patrícios do sertão, de tipo etnologicamente indefinido ainda, refletem naturalmente toda a inconstância e toda a rudeza do meio em que se agitam.
O homem e o solo justificam assim de algum modo, sob um ponto de vista geral, a aproximação histórica expressa no título deste artigo. Como na Vendéia o fanatismo religioso que domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império.
A mesma coragem bárbara e singular e o mesmo terreno impraticável aliam-se, completam-se. O chouan ferovorosamente crente ou o tabaréu fanático, precipitando-se impávido à boca dos canhões que tomam a pulso, patenteiam o mesmo heroísmo mórbido difundido numa agitação desordenada e impulsiva de hipnotizados.
A justeza do paralelo estende-se aos próprios reveses sofridos. A Revolução Francesa que se aparelhava para lutar com a Europa, quase sentiu-se impotente para combater os adversários impalpáveis da Vendéia — heróis intangíveis que se escoando céleres através das charnecas prendiam as forças republicanas em inextricável rede de ciladas…
Entre nós o terreno, como vimos, sob um outro aspecto embora, presta-se aos mesmos fins.
Este paralelo será, porém, levado às últimas consequências. A República sairá triunfante desta última prova. Euclides da Cunha
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(Publicado em "O Estado de S. Paulo", 17 jul. 1897)
Sob este título, há tempos, ao chegar a notícia de lamentável desastre, descrevemos pallidamente a região onde nesta hora, com extraordinário devotamento, batem-se as forças republicanas.
Adotemo-lo de novo.
Infelizmente prevíamos os perigos futuros e aquela aproximação histórica, então apenas esboçada, acentua-se definitivamente.
A situação não pode, entretanto, surpreender a ninguém.
Os tropeços que se antolham às forças da República, a morosidade das operações de guerra e os combates mortíferos realizados, surgem naturalmente das próprias condições da luta, como um corolário inevitável.