Chapter 7
Realmente, se esta política americana, toda civilização e paz, ideada por Monroe, não é uma utopia irrealizável e se de fato, embora sem a base orgânica de um código fundamental comum, a vasta confederação das repúblicas americanas, graças à uniformidade dos sistemas políticos, é um fato de ordem moral, sobranceiro às fronteiras — podemos compartilhar das glórias que advirão à América pelo condensar na sua metrópole comercial as maiores criações do esforço humano.
Pela nossa parte, é dolorosamente certo que pouco contribuiremos para realçar-lhe o brilho e a notável opulência. Abandonamos ainda ontem o marasmo monárquico e somente agora a nossa atividade é livremente plebiscitada nos comícios da indústria.
Fomos os últimos a incorporarmo-nos à pátria americana.
É isto, porém, um motivo para que sejamos entre os primeiros a compreendê-la e elevá-la.
A Exposição de Chicago pode bem ser a prefiguração do que faremos em breve. E, se assim for, se isto se der, se eficazmente emulados pelos do norte os sul-americanos se alevantarem tanto, deixará talvez de ser um sonhador ousado, alguém que idealize a constituição final da pátria americana.
Realmente o Novo Mundo assume ante o antigo uma feição mui diversa a que antes este teve, do X ao XV século, o civilização do Oriente. Naquela idade, toda a Europa era um perene ansiar pelas maravilhas que a imaginação bizarra dos peregrinos lhe criava, nas paragens pelo Ganges.
As gentes ocidentais, olvidando todos os elementos de riqueza que possuíam, voltavam-se de todo para as terras de onde surgia o sol, como se trouxesse de lá todos os seus deslumbramentos. Daí as penosas deambulações para as ignotas paragens, veladas nos mistérios do bramanismo.
E quando, após o domínio dos mares, se aproximaram os dois mundos e se desvendaram os arcanos da Índia — todas as cobiças se satisfizeram largamente, mas o espírito humano espantou-se ante uma filosofia estranha, costumes desvairados e sanguinárias religiões!
Por uma circunstância notável, porém, um genovês ousado, nessa época, trouxe das suas viagens, ao revés de galeões cheios de ouro — um novo mundo. Como para compensar todos os males que originaria o enlace da anarquia medieval com as riquezas da Ásia — oposta a ela, nas bandas do Ocidente, surgia a pátria universal da indústria e do trabalho.
A Europa volta-se hoje para ela, como no século XIII para o Oriente.
O espetáculo é, porém, muito outro. As novas nacionalidades ensinam às velhas como se vencem as campanhas da paz, e mais que as riquezas da Índia dão-lhes os prodígios da indústria e o exemplo de uma grande solidariedade.
Ainda bem, pois, que pela nossa parte nós aprestamos desde já para colaborarmos num fato, que tão bem traduz o nosso alevantamento. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 18 maio 1892
O pedido de habeas-corpus, formulado agora, às portas do desterro, pelos degredados — degrada-os.
Entristece-nos a detalhada notícia que a este respeito lemos no Jornal do Comércio de 15 do corrente.
O rebelado vencido não pede; subordina-se à fatalidade das circunstâncias, que pelo lhe terem sido criadas por um ato de ousadia, não se podem afastar por um ato de humildade.
O demônio de Milton — é majestoso, é verdadeiramente grande e magnífico, porque ao rolar das alturas iluminadas, numa queda infinita, espalha pelos mundos os haustos febricitantes da revolta e torna para Deus, ao invés de um gesto mendicante, um incendido olhar de cólera indomável.
Embora esse supremo apelo de oprimidos se dirija à majestade da justiça e paire a justiça, soberana, sobre as cisões partidárias, os órgãos que as exercitam são constituídos pelos que compõem a ordem vencedora e está na dignidade do vencido o voltar-lhe obstinadamente o rosto, se não repudia o passado e não confessa que errou.
Ademais diz-nos a História exuberantemente que o degredo, o exílio, tem de algum modo sido um poderoso elemento de propaganda; ao invés do que se dá fisicamente, o afastamento aumenta a estatura do exilado; pelo afastar-se da sociedade como que ele se aproxima do futuro; é uma individualidade posta em evidência de uma maneira notável e por isto mesmo que o sentimentalismo é a base comum da índole de todos os povos, a auréola de mártir que lhe circunda a fronte vale pelos mais poderosos argumentos e lhe é um começo de vitória.
O desterro é de algum modo a exemplificação prática da sua força; quer dizer certamente que a pressão do meio não é bastante rígida para quebrantar-lhe a ação e inúmeros são os exemplos da maneira por que esta se avoluma poderosa e alta, para poder ser percebido pela pátria longínqua…
Além disto o exílio foi sagrado na História — o castigo ilustre por excelência, castigo que é de algum modo um prêmio indireto às grandes energias, que por muito poderosas, desequilibram as sociedades.
Nas épocas mais bárbaras da maior antiguidade, os governos insolavam os cidadãos ilustres, quando podiam extingui-los de vez, como que por uma presciência do futuro, em função dos seus grande ideais, das suas extraordinárias utopias. Ele tem sido o indispensável coroamento das maiores existências; é como que uma larga porta aberta para a História, e, fitando o conjunto humano, vemos transpô-la um admirável grupo de imortais.
Não o entendem assim, os nossos revolucionários. Ao se aproximarem das barreiras do exílio — em vez da serenidade estóica, de levantarem altivíssima a consciência sobre todas as agruras — fazem uma coisa banal, mas para nós inesperada — explicam-se e reclamam… Por maior, por mais necessária que seja a independência dos poderes, eles harmonizam-se nas medidas extremas que tendem à salvação da ordem.
No caso atual, o poder judiciário, pelo absoluto silêncio, sancionou a ação executiva.
Por que lamentável incoerência, pois, se dirigirem os revolucionários, aos que tacitamente se alistaram entre os que os oprimem?
Fez mal entretanto o juiz seccional do Pará, denegando o habeas corpus impetrado; por isso mesmo que o pediram os desterrados mostram que não merecem o desterro; são inofensivos e fracos — afastaram todas as culpas numa longa série de considerandos; e a sua volta teria para nós o valor de salvar toda uma tradição secular de constância inabalável, que caracteriza o revolucionário vencido, no desterro.
Nesse balanceamento da sociedade, em que as posições se mudam numa constante reação de contrastes — é bem possível que sigamos um dia para onde eles hoje não querem seguir — e se assim for, que não tenhamos uma reminiscência, de deplorável fraqueza sequer nos lugares aonde deve imperar a mais alta resignação.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 22 maio 1892
Há seis anos desoladora nova perpassou a terra: — extinguia-se em Paris o poeta extraordinário, que se nacionalizara em todas as pátrias, pelo condensar melhor do que qualquer outro talvez, no amálgama ideal de bronze e ouro de seus versos eternos, essa síntese afetiva continuamente crescente, que se espelha em todas as literaturas, e é o ponto de apoio de todas as nacionalidades e a garantia mais sólida de todas as civilizações.
Realmente, se qualquer literatura define uma nacionalidade, pelo se basear inteira no sentimento hereditário da raça e a subordinação às tradições nacionais, Vitor Hugo, o genial e extraordinário romântico, é mais do que o poeta da França; pertence ao nosso século — porque o que todos nós sentimos, palpitando veemente, fulgurante e sonoroso, através dos seus alexandrinos imortais, não é a alma de uma sociedade, mas sim todo sentimento humano!
O sentimento da pátria, a inexaurível fonte dos maiores lirismos, em torno ao qual têm vivido todas as musas, não lhe bastou à desmedida afetividade e vemo-lo ligando-o ao sentimento maior da solidariedade humana — intentando assim, por uma intuição de vidente, esse consórcio final da Arte com a Filosofia, a que chegaram também os pensadores modernos, porém através de longas, penosas e severas meditações.
É por isto talvez que ele não foi um clássico; o classicismo, que se pode definir como uma veneração exagerada pelo passado, quebrara por largo tempo a continuidade do sentimento humano — restaurada felizmente na Idade Média pela Renascença e no século XVIII pelo Romantismo — e não podia por certo satisfazê-lo.
Nascendo com o seu século, parece ter-se indissoluvelmente ligado à época extraordinária das maiores revoluções da filosofia, da política e da arte e intentado a tarefa de refleti-las todas.
Assim é que através dos seus livros notáveis vemos além do estudo exagerado das paixões, defluindo — ora um vago e indefinível misticismo, uma filosofia singular — a idealização maravilhosa de um deus sem altares, cabendo melhor nos corações do que nas catedrais; ora um formidável e impenitente delírio revolucionário e vingativo, explodindo na orquestração selvagem e maravilhosa dos Castigos…
A revolução ocidental, que é inegavelmente o melhor trabalho dos Enciclopedistas — pusera no seio de todos os povos os gérmens de regeneração política e em todos os cérebros, os primeiros elementos da regeneração filosófica.
Era preciso, porém, alguém que idealizasse essa existência moderna, que dela se derivou, alguém que, exagerando embora as verdades da filosofia e da política, as interpretasse à humanidade, sob a forma atraente de utopias e de ideais deslumbrantes.
Esta função foi admiravelmente exercitada pelo homem extraordinário, de cujo nome nos lembramos hoje.
Não nos damos à tarefa, ademais dispensável, de enumerar-lhe todas as fases, em sua translação pela terra, nem todas as grandezas de seus sonhos, que dimanam, multiformes, das páginas tranq uilas das Contemplações às páginas explosivas do Ano terrível. Temos, além disto, unicamente o objetivo de impedir que passe despercebido, hoje, um nome, sobre o qual parece que se começa a fazer um esquecimento além de injusto — ingrato.
Embora reconheçamos que ele não é o primeiro homem deste século — não nos inibe isto de venerarmos profundamente ao sonhador extraordinário que tão bem idealizou a fraternidade humana — que será amanhã uma conquista de filosofia e tão bem preconizou — a república universal — o que será a maior conquista, amanhã, da política moderna. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 5 jun. 1892
Não há filósofo apedrejado ou político vencido que, após atravessar as asperezas de uma propaganda infecunda, não se volte, no último estádio da vida, para a mocidade, num supremo apelo — tornando-a legatária exclusiva das suas aspirações mal compreendidas ou paralisadas pela inércia inconsciente do meio.
Ela é a representante mais próxima do futuro — e, quase sempre, surge como que predestinada a encarnar todos os ideais dos gênios incompreendidos, Daí o constituir-se a sua derradeira esperança.
Parece, realmente, que à energia moral dos velhos pensadores faz-se indispensável a aliança com o sentimento vigoroso das gerações que surgem, sem o qual ela deperece, estéril e improdutiva.
Esses que passam pela vida, alheios a si mesmos, perdidos numa abstrata contemplação da existência geral, nem sempre como Newton, presenciam a vitória do próprio pensamento; estiolam-se, clamando num deserto singular de multidões indiferentes; nem sempre vão, como o pensador britânico, numa Westminster opulenta, nobilitar as sepulturas dos reis, e, para que todos seus esforços não se extingam, faz-se-lhes preciso prender às suas existências, que acabam enfraquecidas, as existências que começam vigorosas.
Nos tempos maus das crises, em que a dispersão dos sentimentos e das ideias simboliza a própria decomposição social, é ainda a mocidade, por um notável contraste com a sua índole sonhadora e inquieta, a classe conservadora por excelência, guardando, intactos, todos os princípios.
É preciso porém que a mocidade não seja — criança.
A puerícia é mais natural aos velhos do que aos moços. Por isto mesmo que o sentimento predomina nestes, as suas ideias têm um estimulante mais enérgico e devem erigir-se — vigorosas e sérias.
Na fase atual sobretudo faz-se precisa a mocidade brasileira, como que uma grande austeridade de velhos.
Enfrenta, seguindo para o futuro, uma sociedade convulsionada — e já que se lhe faz imperiosíssimo o dever de não isolar às lutas que a cindem, que as iniciem com a palavra alevantada dos fortes e não com os balbucios e devaneios infantis…
Lastimamos não encontrar essa atitude na Mensagem dirigida pelos acadêmicos baianos ao mestre ilustre por ocasião de ser desterrado.
Ninguém certo ousará condenar sentimento que a criou; foi elevadíssimo e generoso, infelizmente porém mui pouco aproveitado.
A mocidade do Norte perdeu uma magnífica ocasião de fixar, perenemente, num documento político, toda a grandeza da sua alma ardente e fulgurante e que é como que modelada pelos firmamentos vastos do equador, puríssimos, cheios de sol, vibrando imensos na gestação prodigiosa da luz…
A ocasião era entretanto propícia para isso; não quis porém e ao revés da palavra severa de pensadores e combatentes ela circundou a desventura do mestre, com o lirismo rudimentar, como mensagem exclusivamente sentimental, cuja essência extratamos:
"Jovens e acadêmicos, longe do torrão natal, soluçando beijos e carinhos maternais, fomos dolorosamente impressionados quando até nós chegou a notícia da dupla ofensa que sofríamos, e protestamos desde logo manifestar-vos a cruciante dor que nos acabrunha.
"Sim, manifestar-vos para que todos saibam que não se maculam impunemente as pétalas queridas do coração da mocidade.
"Manifestar-vos para que não se julgue que desapareceu do seio da juventude a mais linda e delicada virtude, aquele que nasceu de um beijo trocado nos lábios purpurinos de dois serafins: a Gratidão. Sim, se tivéssemos abandonado este honroso posto, amanhã, os pósteros veriam que o defensor impávido e altaneiro da mocidade tinha sido desprezado num momento crítico, quando precisava rever em palavras consoladoras o que tinha dado em sacrifícios.
"Não; os moços não mentirão aos seus princípios nem deixarão que se ponha em dúvida a impolutação de seus caracteres.
"Baianos, seríamos degenerados se, na hora angustiosa da vida de um coestaduano, não corrêssemos a animá-lo já que não podemos mostrar o lugar que o espera no peito da pátria.
"Seríamos indignos da Bahia se não procurássemos acariciar a intemerata cabeça baiana que se sente pequena para conter o peso de tão grandes e soberbas ideias.
"Não, baiano audaz, nós estaremos ao vosso lado, e se cairmos glorificados na luta o paleontólogo encontrará mais tarde muitos esqueletos abraçados a um só, e saberá que foi o mestre baiano que tombou com seus discípulos."
Pusemos aí grifos a esmo, quase.
Seguem-se meia dúzia de linhas, que nada mais adiantam.
Sem fazermos comentários — é preciso entretanto convir que tudo isto está muito longe de definir aquela mocidade brilhantíssima do Norte, aonde o talento é quase tradicional e de onde segundo uma frase que se vai transformando em provérbio parte a luz!
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 12 jun. 1892
Decididamente vai-se tornando indispensável uma locução nascida ontem e já velha pelo uso — esta maneira de designar fin de siècle a todas as extravagâncias mais ou menos espirituosas, mais ou menos elegantes que expluem de todas as sociedades, nesta extrema velhice do século mais fecundo e mais brilhante que tem havido. Por uma circunstância notável, o século XVIII tão ilustre e tão nobilitado, pela Enciclopédia, teve os derradeiros dias, delirantes e tragicamente extravagantes; a metafísica, lentamente acumulada no espírito dos filósofos, expandiu-se amplamente no delírio extraordinário das revoluções políticas, convulsionou todos os costumes e todas as crenças e definiu-se vitoriosa, criando politicamente 1889 e filosoficamente — o culto da Razão.
Ela define afinal toda aquela época agitada; e o historiador de talento tem na filosofia uma base magnífica, para caracterizar o término agitado do século de Voltaire.
Qual, porém, o espírito bastante robusto para fazer a diagnose de um século de trabalho, cheio das maiores conquistas da inteligência, do sentimento e da atividade humana, mas cujos derradeiros dias disparatam de toda a sua imensa história?
Está bem visto que não intentamos fazer a sua crônica gigantesca; sugeriu-nos estas linhas a leitura de uma acabrunhadora notícia, num jornal parisiense, a Petite Presse.
Até pouco tempo éramos nós, filhos da raça latina, que aqui, na França, na Itália ou na Espanha, escandalizávamos a grande era trabalhadora, com os desvarios do nosso temperamento irrequieto e extravagante — como elemento conservador alevantava-se a sólida raça saxônica, fria, operosa e sistemática, seguindo para o futuro com um grande respeito às tradições do passado.
Deplorável nova, porém, diz-nos que a tendência universal, fin de siècle, de indiferentismo doentio, parece ter-lhe assaltado a rígida e austera consciência.
Relata-nos o confrade parisiense o grande embaraço em que se acha uma associação de antigos militares alemães.
Patriótica e guerreira, a marcial associação inaugurou, em Berlim, grandiosa estátua do velho imperador, do homem extraordinário que fez a Alemanha e descobriu Bismarck — Guilherme I.
Este movimento fora objeto de uma subscrição cujos organizadores tal confiança alimentavam de sucesso que fizeram-no a crédito, dando como garantia o espírito patriótico da velha raça guerreira. Infelizmente porém foram diminutos os subscritores.
Debalde apelaram os patriotas para o patriotismo; por mais intensivo que se tenha feito esse apelo, não conseguiu a metade da quantia para pagar os artistas e as demais despesas da empresa. Desta arte apresenta-se um dilema assustador — ou se consegue a quantia necessária, ou o martelo do leiloeiro percutirá escandalosamente a efígie do herói de Sadowa e a sua majestosa figura de bronze, destinada a pertencer a uma nacionalidade, irá pertencer a quem mais der!
E a folha parisiense termina com uma ironia cruciante, com essa ironia dolorosa do francês, que não esquece Sedan: La carte à payer est lá…
Que magnífico exemplo para nós: como nos educam as velhas sociedades cheias de tradições e de glórias — nesta quadra que bracejamos como náufragos, assoberbados pelos maiores problemas políticos, para cuja solução devemos procurar elementos mais do que nas paixões dos partidos, no sentimento nacional!
Não nos espantemos, pois, com o que por aí vai; a dispersão dos sentimentos é plenamente geral; o grande século, após viver como um pensador eminente, acaba como um boêmio desiludido; e, presas pela mesma vertigem, marchando sem norte, sem ideias e sem filosofia as sociedades de hoje parecem dizer como os cavalheiros da corte mais dissoluta da história: — Après moi, le deluge!
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 22 jun. 1892
Infelizmente somos obrigados a confessar que têm motivos de sobra, para os maiores júbilos e alentadora alegria, os que diuturnamente alfineteiam — inofensivos mas perseverantes — a rígida armadura do atual governo.
Por uma casualidade, nimiamente favorável aos minúsculos Bayards da oposição, ele está a estas horas entre dois fogos. Mato Grosso, apesar de vastíssimo, já estava afinal exaurido para a exploração política; a problemática, a quase ideal república transatlântica, volatizava-se, como um sonho, e mal se constituía base a essa retórica estrugidora, através da qual reverbera a paixão oposicionista, que se nos afigurava prestes a desaparecer, esvaída e exangue, à mingua de desastres; as jeremiadas, calculadamente entoadas em torno das agruras e sofrimentos dos desterrados, iam-se também, e a pouco e pouco, deperecendo, extinguindo, ante outras coisas mais urgentes e mais sérias. Ameaçavam-nos já alguns prenúncios de ordem, solidamente estabelecida, em uma certa estabilidade no prestígio admirável das leis.
Há, porém, um deus para eles; deus que não é por certo inofensivo e benfazejo, mas misterioso e assustador, como os que apavoram as gentes indianas; espécie de Shiva impiedoso, que lhes creia infatigavelmente a sombra protetora dos desastres, a aliança perene com todas as calamidades.
Realmente, a estas horas, deve haver um vasto restrugir de cantos festivos e ovações delirantes, nos arraiais dos que soem bater-se unicamente abroquelados pelas ruínas da pátria.
O governo acha-se entre dois fogos; agita-se o Rio Grande, Pernambuco agita-se; a conflagração do Norte responde à conflagração do Sul; os homens de 1817 acordam aos brados dos valentes de 1835; tudo isto pode ter conseq uências gravíssimas. A desordem no seio da pátria é correlativa com a desconfiança do estrangeiro. Em compensação porém o governo pode oscilar, vacilam as posições — e por sobre toda essa ruinaria anelada avulta uma adorável perspectiva de lugares vagos, de posições a ocupar…
Deve haver, pois, a estas horas, no rez-de-chaussée da política nacional, um grande restrugir de contos, festivais e ovações delirantes.
Toda esta alacridade há de passar, porém, rapidíssima, efêmera, como tantas outras. Demais, ela não nos assusta; a energia dos governos faz-se muitas vezes no seio agitado das revoltas; a agitação rio-grandense, porém, inegavelmente a mais perigosa, não se generalizará.
A vitória de Júlio de Castilhos, vitória que com a maior sinceridade aplaudimos, não só está muito longe de traduzir a reação vitoriosa contra o atual estado de coisas, como é uma sólida garantia da paz. É preciso que não se envolva, em paralelos criminosos, o moço ilustre que é a mais alta esperança do Rio Grande, e que é verdadeiramente um forte — na triste série de governantes depostos, frágeis e sem ideais.
Para qualquer, rudimentarmente conhecedor da política do Sul, a sua vitória exprime, sobretudo, a derrota de um partido que, nas condições atuais de nosso país, pode ser considerado o inimigo comum — o gasparismo. Sob este ponto de vista, o advento dos castilhistas é o maior benefício que se poderia fazer às instituições republicanas, levantando-as, vitoriosas, no mesmo lugar em que parece terem-se asilado os últimos restos de esperança na restauração monárquica. Tão compenetrado disto parece estar o governo que, tendo no Rio Grande a metade do Exército, e podendo, sem violar a Constituição, que prevê o caso de agitações nos Estados, intervir — guarda a mais inteira, a mais completa neutralidade, não perturbando pelas armas a marcha triunfal das ideias republicanas naquele Estado.
Iludem-se, pois, mais uma vez, os que batem palmas as agitações que surgem; a do Rio Grande é altamente salutar, a do Norte inteiramente local e insignificante. Não é desta vez ainda que o ideal mazorca irromperá triunfante sobre a ordem desmantelada.
Há por certo, nestes dois acontecimentos, motivos para que se expanda o lirismo oposicionista; de fato, cada um deles pode originar novas e aventurosas explorações; não terão porém outra conseq uência.
Acabávamos de traçar estas linhas, quando um telegrama, acima de toda a suspeição, nos dá a notícia, já esperada, de que o governo de Júlio de Castilhos presta o mais franco apoio à política do governo central.
Decididamente começamos mal e este artigo — felizmente podemos confessar que não têm, absolutamente não têm, motivos para maiores júbilos a alentadora alegria, os que diuturnamente alfineteiam — inofensivos mas perseverantes — a rígida armadura do governo atual.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 29 jun. 1892
É velha entre nós, a campanha contra o positivismo. Se houvéssemos a intenção de enumerar, entre as coisas profundamente tristes destes tempos, tudo o que se tem escrito acerca da nova filosofia, certo esquissaríamos uma Coréia fantástica, feita de toda uma imensa agitação, todo um incoerente tripudiar de filósofos desocupados, de clérigos iracundos e cronistas trocistas.