Chapter 6
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 24 abr. 1892
Aplaudimos sinceramente a generosa anistia concedida ultimamente pelo governo a alguns criminosos políticos.
À primeira vista parece que o nosso já proverbial sentimentalismo — alcançou mais uma vitória, fazendo recuar esta rígida e austera justiça revolucionária, inacessível às prisões, sobranceira a todas as fraquezas e pairando muito alto, sobre o tumulto da sociedade.
Parece que por mais rigorosa que seja a linha reta ideal, que determina a marcha do governo, ele imprime-lhe essas ligeiras sinuosas, para transigir com o meio.
E os que compreendem que todas as agitações só podem extinguir afogadas na serenidade das leis devem, no primeiro instante, entristecer-se.
A justiça, porém, como tudo, é essencialmente relativa. Rodeiam-na as circunstâncias do momento e é impossível caracterizar-se qualquer de suas manifestações, sem a consideração preliminar das causas que a produziram.
Peada — como tudo — às condições exteriores, é bem de ver-se que esta entidade subjetiva, esta nobilíssima manifestação da consciência, obedece, como aquelas, a uma seleção contínua e constante, em função da sociedade inteira.
As reformas, periódicas quase, de todos os códigos, exprimem bem esta evolução da justiça, seguindo a própria sucessão dos estados sociais.
Ora — uma ligeira observação, feita sobre a nacionalidade brasileira, dos tempos que correm, diz-nos de pronto que a justiça, feita sobre os crimes políticos, não se pode erigir com um rigorismo incoercível e inexorável; isto porque ela não pode satisfazer a indispensável condição de ser plenamente geral, abrangendo a todos os delinq uentes.
O nosso estado atual de coisas constitui uma notável espécie de atenuante — para todos esses crimes.
A indiferença, a grande indiferença que domina parte do país, por tudo que diz respeito aos interesses gerais da pátria, desculpa, talvez, a todos os que, num ambiente moral — rarefeito e inconsistente —, descrêem da ação sempre segura das ideias, apelando para as brutalidades da revolta.
Se os sediciosos representam um mau elemento dispersivo — os indiferentes representam um péssimo elemento absorvente e aniquilador.
Aqueles têm ainda a fraqueza desassombrada de, convulsionando a ordem estabelecida, darem lugar à reação vigorosa das leis, mostram-se, apresentam-se, embora através de todas as cautelas dos que conspiram.
Não são porém os únicos a dificultarem entre nós a realização prática dos princípios republicanos.
Mais perigosos, talvez muito mais perigosos, são todos aqueles para cujos crimes não existe flagrante; delinq uentes impalpáveis, intangíveis e numerosíssimos, cuja função pecaminosa consiste em absorver para extinguir, simultaneamente e indistintamente, as mais fecundas ideias e os mais sólidos princípios, em cujo seio deperecem igualmente todos os assomos das revoltas e todas as energias das leis; legião híbrida e incolor, estéril e indefinida, que ninguém vê e todo o mundo sente, e acobertada por esta triste palavra de — indiferentismo.
A última eleição senatorial e o centenário de um grande homem serviram para patentear mais uma vez a sua existência, pelos resultados que deram.
Na primeira se violou deploravelmente esse direito de voto que nas quadras difíceis é um dever; no segundo se falseou à veneração com que a civilização moderna circunda as memórias dos que dedicaram-lhe todos os esforços.
Nada entretanto justifica esse retraimento de certa parte da opinião, quer para as questões do presente, quer para as grandes tradições do passado.
Consideramos todo esse indiferentismo como um inimigo mais para se temer do que as revoltas que têm aparecido.
Já que o governo, pois, se considera bastante forte para garantir a ordem, aplaudimos sinceramente a anistia — porque ninguém pode afirmar que sejam, os revoltosos reprimidos, mais condenáveis do que tanto, tanta gente por aí, talvez, nem saiba que a pátria — existe. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 27 abr. 1892
O ideal da política moderna — tudo o indica — está numa dependência cada vez mais íntima, do indivíduo para com a sociedade e numa independência, cada vez mais acentuada, de ambos para com o Estado. As próprias imposições sempre crescentes da vida civil imprimem, dia a dia, a todos os espíritos uma disciplina bastante sólida, para dispensar as repressões contínuas dos poderes constituídos ou o seu constante apoio.
O futuro — e é isto uma verdade já velha — pertence ao industrialismo. Ele operará, tonificado vigorosamente pela fórmula soberana da divisão do trabalho, a mais vasta diferenciação e conseq uente aperfeiçoamento da feição mais nobre da atividade humana; crescerá, portanto, paralelamente, com o progresso material o desenvolvimento moral do mundo; a sociedade será uma ampliação da família e restará ao Estado, exclusiva, a garantia da ordem.
Um olhar para o passado nos mostra limpidamente que a luta pela existência, na sociedade, tende sobretudo para este objetivo — a emancipação individual.
Entre as nacionalidades do presente as que se aproximam mais desta fase de ampla independência são, realmente, as que mais nobilitam o nosso século pelas maiores criações do trabalho. À proporção que se fortalecem e crescem dispensam naturalmente a intrusão dos governos, cujo papel restringe-se por fim em unicamente assegurar-lhes o próprio engrandecimento.
Esse grande ideal político será realizado.
Não é uma utopia; garante-o vantajosamente todo o maravilhoso espetáculo da evolução humana.
Compreendemos, porém, toda a distância a que nos achamos dele; e embora com a maior tristeza, confessamos que a sociedade brasileira não pode dispensar, tão cedo, para as questões mais simples do seu desenvolvimento, o prestígio oficial do governo.
Temos como em extremo trabalhosa a missão do Estado, nos tempos de hoje; não lhe basta dedicar-se exclusivamente à garantia da ordem, é-lhe indispensável que, de alguma sorte, exorbite, estabelecendo os primeiros elementos do progresso.
Filhos de uma terra tão vasta e tão rica, pode-se dizer que nunca precisamos viver através de um contínuo apelo a própria atividade; nunca necessitamos travar com o meio cosmológico estas admiráveis lutas, em que se retemperam tão bem a índole de todos os povos; a concorrência vital, graças à extensão do território, aliada a uma população rarefeita, nunca se constituiu como um motivo da seleção do nosso espírito, de acordo com as condições exteriores, de modo a nos dar esse conjunto de tendências e aspirações comuns, que definem qualquer nacionalidade.
É fácil a qualquer dizer, graças à maravilhosa plasticidade do estilo amoldado a todas as causas, que somos já uma nação, com aspirações bem definidas de futuro, em harmonia com uma exata compreensão do passado.
Neste caso, o governo poderia verdadeiramente se restringir à missão, menos trabalhosa, de mero condensador das energias sociais e guarda da estabilidade geral.
A verdade, porém, é que, ante o assalto da crise atual, nos sentimos inermes e fracos, fazendo-se precisa, para os mais simples fatos de economia, a ação do Estado; isto desde as questões rudimentares da alimentação e da higiene às mais sérias.
O que o Estado tem feito até hoje, além da função dificílima de velar pela segurança comum, é, estimular, substituindo-a muitas vezes — essa tão fecunda iniciativa particular que somente agora se esboça entre nós, com probabilidades de desenvolvimento.
A iniciativa oficial tem absorvido mesmo as grandes manifestações do sentimento, fazendo-se indispensável o seu influxo para que não se olvide tudo o que há de verdadeiramente grande na nossa existência histórica.
Precisamos, porém, libertá-lo dessa duríssima tarefa, libertando-nos dessa tutela generosamente concedida.
Por mais necessária que pareça a proteção oficial, ela é efêmera por isto mesmo que toda a força dos governos promana das sociedades.
Faz-se necessário portanto que se iniciem desde já todos os passos para uma maior independência de vida e comecemos afinal a auxiliar o governo ou em vez de, como até hoje, recebermos dele uma proteção constante e incondicional, só assim poderemos seguir com as demais nações para esse ideal que enobrece e dignifica tanto a política moderna. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 1o. de maio de 1892
Extraordinário amanhecer o de hoje nas velhas capitais da Europa…
Como que assaltada por uma síncope, subitamente, se paralisa a complicadíssima vida da mais alta civilização; todo o movimento das grandes sociedades, toda a espantosa atividade de um século e a admirável continuidade dessa existência moderna tão poderosa e tão vasta, se extinguem, aparentemente, esvaindo-se em vinte e quatro horas de inatividade sistemática.
Abandonam os cérebros dos políticos os interesses nacionais mais urgentes; desaparecem por um dia todas as fronteiras; reconciliam-se incorrigíveis ódios seculares de governos — e aqueles exércitos formidáveis, que a todo instante ameaçam abalar a civilização, num espantoso duelo, formam silenciosos, pela primeira vez, sob uma mesma bandeira…
Tudo isto porque o anônimo extraordinário que é o maior colaborador da história, o Povo, que trabalha e que sofre — sempre obscuro —, entende, nessa festiva entrada da primavera, deixar por momentos as ásperas ferramentas e sonhar também como os felizes, pensar, ele que só tem um passado, no futuro.
O escravo antigo, que ia nos circos romanos distrair o humor tigrino dos reis, num pugilato desigual e trágico com as feras; o servo da gleba, o vilão cobarde que atravessou a Idade Média, à sombra dos castelos sob o guante do feudalismo; que tem alimentado com o sangue a alma destruidora das guerras; ele — a matéria-prima de todas as hecatombes, seguindo sempre acurvado a todos os jugos — transfigura-se realmente, alentado por uma aspiração grandiosa e apresenta esta novidade à história — pensa!
Deu todas as energias ao progresso humano, sempre inconsciente da própria força, e quando no fim do século XVIII uma grande aura libertadora perpassou a terra, ele se alevantou, aparentemente apenas — para trazer, às costas, até os nossos dias — a burguesia triunfante.
Cansado de escutar todas as teorias dos filósofos ou os devaneios dos sonhadores, que de há muito intentam-lhe a regeneração — desde os exageros de Proudhon às utopias de Luís Blanc —, ele inicia por si o próprio alevantamento.
E para abalar a terra inteira basta-lhe um ato simplíssimo — cruzar os braços.
E que triste e desoladora perspectiva esta — de vastas oficinas e ruidosas fábricas desertas, sem mais a movimentação fecunda do trabalho — e as profundas minas, abandonadas, abrindo para os céus as gargantas escuras — num tenebroso bocejo…
Se entrarmos na análise dos cambiantes que tem assumido o socialismo, temo-lo como uma idéia vencedora.
O quarto estado adquirirá, por fim, um lugar bem definido na vida universal.
Nem se lhe faz para isto preciso agitar o horror da anarquia ou fazer saltar a burguesia a explosões de dinamite. Fala todas as línguas e é de todas as pátrias.
Toda a sua força está nessa notável arregimentação, que ora desponta à luz de uma aspiração comum; a anarquia é justamente o seu ponto vulnerável — quer se defina por um caso notável de histeria — Luísa Michel, ou por um caso vulgar de estupidez — Revachol.
Não existe, talvez, um só político proeminente hoje, que se não tenha preocupado com esse grave problema — e o mais elevado deles, o menos inglês dos pensadores britânicos, Gladstone, cedendo à causa dos homerulers o espírito robusto — é, verdadeiramente, um socialista de primeira ordem.
Realmente, a vitória do socialismo bem entendido exprime a incorporação à felicidade humana dos que foram sempre dela afastados. Em nossa pátria — moça e rica — chegamos às vezes a não o compreender — transportando-nos porém aos grandes centros populosos, observando todas as dificuldades que assoberbam a vida ali, sentimos quão criminosa tem sido a exploração do trabalho. Ali, aonde o operário mal adquire para a base material da vida, a falsíssima lei de Malthus parece se exemplificar ampla e desoladora. Preso a longas horas de uma agitação automática, além disto cerceado da existência civil, o rude trabalhador é muito menos que um homem e pouco mais que uma máquina…
Os governos da Europa hão de transigir porém; hão de entabular os preliminares da paz, pelas concessões justas e inevitáveis que terão de fazer.
Nós assistimos ao espetáculo maravilhoso da grande regeneração humana.
Pela segunda vez se patenteia, na História, o fato de povos que se fundem num sentimento comum — e não sabemos qual mais grandioso, se o quadro medieval das Cruzadas, ou se esta admirável cruzada para o futuro.
Seja qual for este regímen por vir, traduza-se ele pela proteção constante do indivíduo pela sociedade, como pensa Spencer, ou pelas inúmeras repúblicas, em que se diferenciará o mundo, segundo acredita Aug. Comte — ele será, antes de tudo, perfeitamente civilizador.
Que se passe sem lutas este dia notável. O socialismo, que tem hoje uma tribuna em todos os parlamentos, não precisa de se despenhar nas revoltas desmoralizadas da anarquia.
Que saia às ruas das grandes capitais a legião vencedora e pacífica; e levante altares à esperança, nessa entrada iluminada de primavera, sem que se torne preciso ao glorioso vencido — o Exército — abandonar a penumbra em que lentamente emerge à medida que sobe a consciência humana. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 8 maio 1892
Afinal, nesta constante vibração nervosa, da qual surge a maravilhosa dinâmica das ideias, vão-se-nos os dias, cheios dos deslumbramentos e dissabores da luta…
Os rudes operários que esgotam a musculatura, batalhando a matéria, têm as intermitências do descanso e se refazem amplamente.
Mas nós, que nos havemos uns a outros, tacitamente, estabelecido o dever de seguirmos o deambular incoerente de uma sociedade — a pique ainda dos últimos abalos políticos — e contraímos diariamente as vistas para o apercebimento de fatos, que aparecem as mais das vezes ilógicos, só nos alentamos ou por meio de uma abstrata contemplação do futuro, consoladora e feliz, ou procurando no presente uma zona mais calma, onde por momentos se possa o espírito despear das preocupações habituais.
Felizmente, em falta de assunto urgente, podemo-nos voltar hoje para mais calma ordem de ideias, sugeridas por uma local desta folha, de ontem, onde se anuncia a próxima aparição de dois livros de versos.
São verdadeiramente dignos de aplausos os que colaboram desta sorte no alevantamento comum, sobretudo para os que compreendem que é pela arte, de uma maneira geral, que se pode formar a mais pronta, a mais ampla e a mais segura idéia de superioridade afetiva e mental de um povo.
A ciência, altamente cosmopolita, define na história as épocas sucessivas de elevação humana; o seu caráter de universalidade é tal que é vulgar o fato de notáveis descobertas feitas simultaneamente em pontos diferentes: define de um modo geral o espírito humano — competindo a arte mais especial, definir o espírito das nacionalidades.
É por isto talvez que um grande pensador moderno, através da claríssima argumentação de que usa, demonstra limpidamente que se faz indispensável aos seus cultores a iniciação científica.
Isto porque qualquer produção de um verdadeiro artista, digamo-lo ousadamente, traduz antes a mais alta forma do instinto hereditário da raça que o da própria conservação — pelo encarnar eternamente no mármore ou engastar perenemente no seio fulgurante de um poema, num notável altruísmo, o que lhe existe de verdadeiramente notável em torno, num grande esquecimento de si mesmo.
Preso, vinculado ao meio em que vive, o verdadeiro artista como que tem a passividade de um prisma, através do qual se refrata — com os cambiantes que imprime-lhe o seu temperamento — a grande alma humana, com as suas múltiplas e desencontradas feições.
Para atingir porém a esse ideal, para que os seus quadros, ou os seus versos admiráveis, possam de algum modo traduzir assim o estado psíquico de uma época, avalia-se claramente que se lhe faz prevista essa elevação grandiosa da consciência, baseada na compreensão exata do seu tempo.
As sociedades, em sua marcha eterna, mudando continuamente, assumindo sempre novas feições, deixam sempre após, testemunha-o a arte antiga, representando-lhes a fisionomia anterior, um povo imortal de estátuas falando a majestosa linguagem dos poemas…
É fácil de compreender, portanto, de quanto brilhantismo precisam dispor esses que se destinam à difícil função de retratarem-nas, em todas as suas modalidades.
A poesia, a escultura, a pintura e a música são para Spencer as flores da civilização e o eminente pensador pondera judiciosamente "que se não deve abandonar a planta, a instrução científica, para cuidar antes da flor, que neste caso brotará degenerada."
Tudo quanto se agita e vive e brilha e canta na existência universal obedece a uma vasta legislação, para a qual ascende infatigavelmente o espírito humano, em busca da verdade; tem pois razão o ilustre mestre, impondo ao poeta, além da cômoda feição contemplativa, a subordinação às leis naturais, sem a qual, por um desastroso predomínio de subjetivismo — ele descamba aos partos monstruosos dos temperamentos enfermos.
Evidentemente não quer isto dizer que se vá metrificar os teoremas da Geometria ou os princípios da Física; o que a ciência faz é sobrepor, para iluminá-la ainda mais, a fulguração da consciência à afetividade do artista; estabelece um contato mais íntimo entre ele e a existência geral, de modo que, com maior conhecimento de causa, nos transmita tudo o que nela exista.
Tem ainda a ação altamente moralizadora, de enfraquecer o notável egoísmo dos sonhadores, que passam pela vida absorvidos em si mesmos, numa contemplação singular das próprias emoções…
Parece-nos que já vai longe o tempo em que se pregava a ação esterilizadora do estudo sobre o sentimento.
Goethe pelo fato de ter sido um naturalista tal que, juntamente com Lamarck, entreviu o darwinismo antes de Darwin — é também imortal como poeta.
Que a nossa arte balbuciante se alevante vigorosa, amparada nas grandes leis da existência universal, de que é a nossa pátria um majestoso palco, é o nosso mais ardente desejo, ao saudarmos os sonhadores que surgem. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 11 maio 1892
Embora à saciedade se haja por inteiramente inócua a inumação de cadáveres, nem por isto a cremação deixa de ser uma maneira mais decente e mais feliz — se é possível — para o término da vida.
Não vale a pena o enumerar-se as opiniões que se têm a este respeito degladiado, inúmeras e controvertidas, de proeminentes higienistas; o citarem-se todos os devaneios nebulosos dos filósofos, cujos espíritos se afundaram nas impérvias sombras da morte, adquirindo quase todos, como Lessing, um "tédio doloroso", como único e tristíssimo resultado.
Para nós é perfeitamente indiferente — acerca deste último ponto — que sejam as covas as entradas para o nada ou os escuros penetrais das fulgurantes regiões há tanto prometidas: é tão formosa e tão grande esta existência universal, e tão estreita a vida humana para compreendê-la, que não precisamos, num arranque de subjetivismo, transpor-lhe as barreiras, para esse intangível sobrenatural, aonde a razão se esvai torturada pelas maiores quimeras.
Que a alma vingue sobre os destroços da matéria, como querem os espiritualistas e infinitamente persista, ou, como quer o materialismo, se extingua; em qualquer dos casos sempre é melhor e menos fúnebre a rápida combustão orgânica, sob uma temperatura altíssima de platina, do que essa aterradora e lenta decomposição, operada pelos microorganismos — esses extraordinários analistas da matéria —, que lentamente a diferenciam e preparam para novas funções na vida…
Lemos há pouco tempo, algures, uma curiosa notícia sobre a fauna medonha dos sepulcros e é impossível sofrear-se o espanto e repugnância, que nos assaltam ante os sinistros coleópteros e dípteros, que durante dois ou três anos se repastam de sânie.
A ciência tem dessas páginas que pedem a assinatura de Hoffmann.
O professor Brouardel, que tentou esta horribilíssima empresa, armado de uma grande frieza de verdadeiro sábio, chegou a descortinar tendências e costumes nestes sombrios animais; e fala-nos da preferência de uns como a Phora aterrima pelos corpos magros e da predileção notável dos Risophagos pelos organismos gordos; e, prosseguindo na dolorosa observação, mostra como alguns, atraídos pelas exalações, furam a terra e, penetrando as estreitas frinchas dos esquifes, vão procurar — na sombra, a misérrima iguaria.
Para o mais fervoroso crente, como lhe deve ser profundamente doloroso o saber que enquanto as almas dos seres que lhe aformoseiam a vida sobem para os céus, nas feições queridas, descem ao mais hediondo destino quando se podem extinguir, volatizadas, no seio do que de mais encantador existe na natureza — a luz?
E os pensadores modernos, os que sistematizam essa nobre, essa necessária e essa elevadíssima veneração pelos mortos, qual melhor destino do que este podem para eles desejar, contrastando com o anterior, aonde os seus despojos últimos têm a pisada indiferente do caminhante, e são passíveis da curiosidade intensiva do sábio, medindo-lhe as apófises?…
Decididamente não há vacilar entre um e outro caso; ademais a cremação satisfaz a todas as crenças; os cemitérios mesmos não perderão o doloroso encanto, a tristíssima poesia que os circunda, pelo possuírem, ao revés da terra apodrecida dos túmulos, as urnas funerárias, guardando as cinzas purificadas dos mortos. E.C.
DIA A DIA
"O Estado de S. Paulo", 15 maio 1892
Ainda bem que nos aprestamos para a próxima Exposição de América do Norte.
Ainda bem — porque mais do que a satisfação do nosso orgulho de brasileiros, precisamos satisfazer o nosso imenso orgulho de americanos.
Parece que à proporção que se expande o espírito humano as fronteiras recuam; como que estalam e se abrem não podendo no âmbito estrito abarcar-lhe a crescente magnitude.
É por isto, certamente, que os filhos do novo mundo sentem e compreendem que a América é, na ordem moral, o mesmo que na ordem física — a pátria comum, a maravilhosa síntese de todas as pátrias…
As nacionalidades européias, que surgiram da ruinaria do império do Ocidente, derruído sob o frankisk dos bárbaros, trouxeram, por uma hereditariedade refratária aos mais generosos ideais da civilização, até ao presente, os velhos ódios que tão despiedados cindiram as raças conquistadoras, no início da Idade Média.
Aquelas fronteiras erriçadas de canhões, aquelas sociedades que se isolam, acolhendo-se, cada uma, num círculo rutilante intransponível de espadas — indicam à saciedade, que esta consciência moderna tão elevada e tão nobre, ali está num perene estado de sítio.
Como que no seio da Europa pisa eternamente o cavalo de Átila.
As mais altas criações do espírito humano partiram dela e ela assistiu o esboço e a constituição de todas as ciências — mas o seu seio revolto e pisado pelas marchas dos exércitos é verdadeiramente impotente para criar, completas, as grandes aspirações dos seus grandes pensadores.
A América afigura-se-nos predestinada a realizá-las.
Tomou à velha civilização a vasta base subjetiva das ciências e sobre ela erigiu, majestosa e fecunda, a sua existência industrial.
Daí, talvez, o seu cosmopolitismo; as ideias não têm pátria — e aparecendo, quando elas já eram dominadoras, as sociedades americanas, antes de criarem uma tradição guerreira, receberam em comum o seu influxo admirável e como que se irmanaram.
Decorre, por certo, deste fato este sentimento notável e novo, próprio aos filhos das diversas regiões do Novo Mundo — qual o de generalizar a pátria, medindo-a pelo enorme estalão dos Andes e das Mountains Rock, amplificando-a de um a outro pólo…