Crônicas

Chapter 5

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Ainda há pouco acirrou-se escandalosamente o sentimentalismo do povo acerca de um fato insignificantíssimo; foi mesmo tentada uma questão religiosa e não se assustaram eles ante a eventualidade do grave aparecimento do clericalismo — o constante pesadelo de Gambetta quando restaurava a França.

E assim seguidamente, aliados de todos os males que surgem, o mínimo incidente que aparece é como seteira, de onde nos espingardeiam.

A República vencê-los-á, afinal, como a grande revolução à Vendéia, com uma diferença fundamental porém — a glória do republicano francês foi verdadeiramente brilhante, graças à própria grandeza dos vencidos…

Quando porém, entre nós, no último barranco esboroado, rolar o último adversário, nós que não temos dedicações pessoais no governo, como se insinua deslealmente, que vemos nos homens do poder símbolos abstratos da realidade, dos princípios que adotamos, nós não teremos o triunfo, mas uma triste lição acerca de todos os perigos, capaz de produzir a indisciplina dos sentimentos e das ideias.

Que nos sirva de consolo este ensinamento por vir — já que no presente invade-nos a máxima tristeza, vendo transportado para as lutas ideais do pensamento a tática extravagante de substituir a batalha — por um vasto, um indefinido, um profundamente doloroso deserto tristíssimo de ideias… E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 7 abr. 1892

Seguimos com a pátria para a eminência fulgurante do ideal republicano, como quem vigia a abrupta e aspérrima encosta de um vulcão andino…

À medida que sobe, atravessando sucessivamente todos os climas da terra, distraído pela rápida mutação dos grandes panoramas, desde a flora exuberante do equador à vegetação rudimentar dos pólos, o naturalista adquire um novo encanto em troca de um maior perigo.

E quando bem alto, envolto na reflexão maravilhosa das geleiras, o assalta todo o deslumbramento das grandes alturas iluminadas e um desmesurado horizonte incita-lhe os mais ousados sonhos à fantasia, é-lhe preciso calar o brado entusiástico que lhe irrompe do peito, para que se não despertem as avalanchas impetuosas, adormidas em torno, uma passividade traidora.

Nós vamos assim.

Arrebatados, como todos, na impetuosa corrente dos ideais modernos que se aprestam, nesta agitada véspera do século XX, a todas as conquistas da atividade humana, inscrevemo-los contudo no círculo inextensível de uma política conservadora e altamente cautelosa, única capaz de evitar a perda, a dispersão dos princípios e ideias já adquiridas.

Da mesma sorte que a mais ligeira oscilação atmosférica transmuda a silenciosa calma das grandes altitudes numa tempestade violenta — compreendemos todos os perigos que existem, de uma maneira implícita, nos incidentes os mais insignificantes.

Subordinamo-nos pois — com uma constância inquebrável — a esta orientação, a única apta para conduzir-nos, sem maior perigo, ao futuro.

Não se pensa porém assim unanimemente. Há uma nota tristemente discordante, destoando nesta harmonia de sentimentos e ideias e capaz — talvez — de produzir os mais lamentáveis desastres.

Antagônicos aos que, cientes de toda a delicadeza do atual período — envidam o máximo esforço para que se realize afinal o indispensável equilíbrio das ideias, dos interesses e uma aspiração política comum — levantam-se a todo o instante, açulando a discórdia, os que têm todo o interesse na perturbação geral.

Segundo notícias ontem recebidas, alguns generais — intimaram o Vice-Presidente da República, para realizar quanto antes a eleição presidencial.

É um fato contristador, este.

É realmente lamentável que a agitação que até há pouco tempo se desmoralizava, pelos próprios agitadores, tenha agora o apoio de nomes conhecidos de homens, que já tiveram prestígio.

Não acreditamos, entretanto, que se levantem as avalanchas que tememos — na altura em que nos achamos.

É preciso porém que o governo, fortalecido pelo prestígio inegável da lei, seja inexorável cumprindo-a.

Na fase atual qualquer vacilação na repreensão dos crimes políticos é pior por sua vez um crime maior.

Seguiram já para as amarguras de um prestígio os rudes e inconscientes revoltados, de cuja boa-fé se ludibriou tristemente para uma revolta abortada.

Sofremos conseq uências de um ataque criminoso às leis e à ordem; tivemos entretanto a atenuante da própria rudeza.

No caso presente o atentado contra a ordem é maior, graças ao prestígio mesmo dos que o fazem.

É preciso que se faça sentir quanto antes por parte do governo a repreensão mais enérgica para que não continuemos por mais tempo à mercê de todos os desmandos, de toda a insânia e toda a desorientação dos que não temem a enorme queda — nossa e da pátria. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 8 abr. 1892

O manifesto dos generais, com tanto açodamento aceito pela oposição, é de uma incoerência pasmosa.

Não resiste à mais vulgar análise. É um erro, e, o que é mais sério — um crime.

Começam pedindo ao governo o termo de intervenção militar, e não se lembram de que o fato mesmo desse pedido, revestido do valor de uma alta hierarquia de classe, constitui, por si mesmo, uma intervenção bastante séria na ação governamental; é, pois, uma incoerência.

Recordam o estado anárquico dos Estados e o critério que devem possuir de homens experimentados, numa longa vida sulcada de lutas, o próprio critério que têm deve convencê-los de que puseram, por esta maneira, ao lado da anarquia — sempre pronta a explorar tudo —, implicitamente, um prestígio que fora melhor se aplicasse a intenções mais aproveitáveis; é, portanto, um erro.

Terminam pedindo a eleição presidencial; não discutimos esta questão agora — a verdade, porém, é que um tal pedido, feito ostensivamente, embora sob uma forma respeitosa, é um atentado à ordem, é mais um balanço em toda a agitação que por aí vai; é, nas quadras normais, uma falta disciplinar, no período gravíssimo, porém, por que passamos — é um crime.

Suponhamos que o governo cede a esta imposição disfarçada; procuremos por uma demonstração ad absurdum a evidenciação do próprio absurdo que pretendem.

Ante esta subordinação à força, desmoralizar-se-ia, abdicaria, abandonaria forçosamente o poder. A legalidade, a extralegalidade, restaurar-se-ia, mais uma vez, graças — não esqueçamos isto — à intervenção militar. Como conseq uência inevitável — nova anarquia nos Estados, novas reações, novas lutas ainda intensas, até que se fizesse precisa uma hiperlegalidade, oriunda da mesma fonte, em substituição da extralegalidade combatida…

E neste deplorável círculo vicioso, voltando sempre, para corrigirmos um erro, ao começo do mesmo erro — teríamos uma tristíssima acumulação de desastres, quando o que precisamos e o que queremos é a larga estrada ascensional, e retilínea, que nos afaste de tudo isto.

O governo não cederá, porém; cerca-o impenetrável e magnífica uma barreira ideal — o fulgor das espadas e dos espíritos mais heróicos e desassombrados da pátria.

Abandonar, em meio, à missão reconstrutora, equivale a romper, ilogicamente, a solidariedade que mantém com a feição nobre da nossa nacionalidade.

Subordinar-se a imposições de quem quer que seja, por mais encobertas que sejam, equivale a decretar, tacitamente, a própria fraqueza.

Permitir o impune campear dos que, por quaisquer meios, imprimem estimulantes à anarquia dispersiva — que é o inimigo comum —, equivale a faltar à sua missão principal, é, moralmente — extinguir-se.

O governo não cederá e prestigiará a lei.

Um número fatídico de generais não profanará a data, por vir, do próximo dia da nossa inteira regeneração política e social.

Volvam em torno o olhar todos os demolidores, os que por uma cisão estabelecida com as aspirações comuns realizam o fato estranho de se expatriarem sem o abandono do país — e verão que os dedicados à atual ordem de coisas têm a predisposição heróica dos predestinados — e são, em meio das lutas do presente, como a síntese, a miniatura da grande nacionalidade brasileira do futuro.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 10 abr. 1892

Mocidade caturra, a nossa…

Somos, no banquete espiritual, uma espécie de importunos convivas, corretamente vestidos de preto, em que a fronte moça se perde nas rugas de uma velhice precoce e o gesto comedido e austero é quase um escândalo, ante o despreocupado donaire, o desempeno feliz, toda a inquieta elegância dos voltairianos fin de siècle, dedicados heroicamente à oposição sistemática.

Arredados por outras preocupações — tudo o que vibra e vive em torno, chega até nós como um eco, um eco longínquo, incapaz de imprimir-nos à inervação a prodigiosa dinâmica dos sentimentos, através da qual simultaneamente esvai-se e se regenera-se a vida.

Tumultua a sociedade; e enquanto eles — os fortes, os felizes, os moços — os analistas incansáveis do nosso meio — aproveitam afanosamente tudo o que ascende da vasa, graças à fermentação geral — nós, os velhos de cabelos pretos, seguimos a parábola ousada de uma utopia, indiferentes ou irônicos.

Mocidade caturra e ingrata.

Há poucos dias se expandiu lírica e dolorosamente a sentimentalidade geral; não criminosa e bárbara se erguera crispada sobre a fronte silente do Cristo; o telégrafo, vibrando eletricamente a comoção geral, transmitira aos mínimos recantos do mundo o espantoso crime; agitou-se no túmulo a carcaça desguarnecida de Torquemada; os réus confessos de ateísmo fizeram-se Madalenas soluçantes e trocaram, por momentos, os altos coturnos pretensiosos pelas sandálias humílimas dos penitentes; fez-se precisa a reparação, e a reparação se fez — amplamente — com as tochas, convictamente vibradas, nas costas de meia dúzia de infiéis rebeldes; e no meio de tudo isto, nós, ou tivemos uma ironia esfaceladora, farpeando, despiedada, aos crentes de última hora, capazes de pintar bigodes no rosto imaculado de Maria, ou a razão frigidíssima, condenando o fato em si e os seus inquietos exploradores.

Ontem novo gérmen de comoção geral. Entrada triunfante de uma falange regeneradora, envolta numa grande onda de luz, destilada de velhas espadas, brunidas no revérbero quente e fulgurante das batalhas. Expluíram ditirambos apaixonados. Vasto renascimento de esperanças estoladas. Uma magnífica aura guerreira — feita de vibrações heróicas de clarins, rutilações de metralha e resfolegar ruidoso de heróis — iniciou-se majestosa. O Grande Velho desceu de Petrópolis e o câmbio, o cobarde e incorruptível fiscal da confiança estrangeira, apresentou-se, aterrado, para um salto descensional e grave.

E enquanto tudo isto se dava, quando por uma espécie notável de endosmose uma grande febre de lutas penetrava as veias dos mais indiferentes — nós não tínhamos a postura, a linha admiravelmente romântica deles, dos valentes, a nossa vida não oscilou, combalida, num grande desequilíbrio do sistema nervoso — antes, num impulso perfeitamente burguês e prosaico, voltamo-nos para esta velharia — a lei.

Dois fatos capitais, de transcendente importância — inteiramente perdidos.

Decididamente somos ingratos, caturras e despiedados. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 13 abr. 1892

A situação é esta: de um lado, um grupo de indivíduos que intenta a subversão da ordem, e, de outro, um governo que se faz respeitar.

Estão definidas as posições. Não, porém, à luz de uma idéia ou de um princípio político.

Muito recente, a política republicana não teve ainda tempo de diferenciar-se em partidos.

Há uma causa mais geral e profunda, justificando o aparecimento constante dos que, tão lamentavelmente, rotulam todos os nossos defeitos, os mais condenáveis.

As sociedades, como as espécies, evoluem através de um perene conflito entre o adaptar-se a novas condições de vida e hereditariedade conservadora, que as contrabate e repele. Ora, a adaptação do regímen democrático é uma coisa difícil; torna-se portanto mais cômodo, aos que se forram ao império de uma orientação segura, o entrarem para as agitações políticas com todas as qualidades adquiridas.

A sociedade monárquica não nos legou, certamente, esse respeito ao prestígio da autoridade, mais necessário ainda às repúblicas do que ao cesarismo.

Ela não nos ensinou a vermos, numa admirável harmonia com as leis, a única força dos que governam. Daí, esta tendência para assaltá-las, esta nevrose de desmoralizá-las hoje — no seio da República —, onde são inexoráveis e soberanas.

Daí, toda esta intermitência de crise e o aparecimento dessa espécie de criminosos — vítimas dos que atiram contra a estabilidade do meio atual, inconscientemente quase, impulsionados pelo meio anterior.

E uma coisa que se dá, no início de todas as reformas e a anistia, que nestas ocasiões quase sempre ampara os agitadores vencidos, é, verdadeiramente — uma absolvição dos erros do passado, que eles representam.

Felizmente, estes vícios hereditários, breves, se extinguem — por isto que, mesmo pelo muito depauperarem os que herdam, facultam-lhes as maiores derrotas.

Evidenciou-se isto agora.

Toda uma conspiração — incubada há meses, que aliciara adeptos em todas as classes, que se construíra recrutando todos os ódios e todos os despeitos e tivera afinal artes de se decorar, no último momento, com a auréola de um herói — explodiu — com o resultado negativo de entregar à justiça que a realizaram.

É uma coisa nova; parece que estamos destinados atualmente a fornecer casos originais à história. Esta aponta-nos inúmeros fatos de revoltas esmagadas, sob cargas impetuosas de regimentos e explosões de metralha; é novo porém o fato de uma conspiração que sai à rua e se dissolve a pranchadas, como uma arruaça qualquer de irresponsáveis.

Seria, entretanto, uma inverdade dizer que falta a muitos dos atuais perturbadores altivez ou coragem individual; a verdade, a tristíssima verdade, exuberantemente comprovada, é que nada existe capaz de debilitar mais os fortes, do que o agremiarem-se sem a fortaleza moral de uma idéia.

A união, nestes casos, faz a fraqueza; aumenta a intensidade do atentado, na razão inversa das probabilidades de vencer.

A vitória do governo não desperta hinos triunfais — foi a correção de um erro e realizou-se felizmente, com extrema facilidade.

Que o afastamento temporário dos agitadores facultem [sic] a consolidação da ordem e o alevantamento desta pátria digna de melhores dias. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 17 abr. 1892

Há cinco meses festejava-se o segundo aniversário da República.

Desperta pelos hinos marciais a população da capital se alevantara festiva, estacionando desde mui cedo no local destinado à grande festa.

Ali, refletindo todo o brilho de um sol, ardente de estio, nas límpidas baionetas perfiladas dos batalhões em linha, havia como que uma explosão silenciosa das flamas ofuscantes.

Parecia deslembrado um grande crime.

Apenas uma ou outra fisionomia torturada, de rebelde impenitente, destoava da alacridade comum. Nas janelas do Quartel-General, aonde dois anos antes se aprumavam as estaturas dos rebelados vitoriosos, ostentavam-se, ridentes, grupos formosíssimos de moças curiosas. E o povo, aquele feliz e despreocupado povo fluminense, tumultuava na vasta praça — à espera da diversão prometida.

Admirável dia aquele — ardentíssimo e claro —, defluindo, caindo, iluminado como uma auréola, de um firmamento sem nuvens.

Era impossível haver mais resplandecente gambiarra, para a sombria farsa que se ia desdobrar — a comemoração da vitória democrática, em pleno domínio da ditadura…

Esta consideração, porém, não ensombrava o espírito da maioria, não entibiava a alegria fácil da grande massa de indiferentes; o que a preocupava, esporeando-lhe rispidamente a paciência, era o desejo, um grande desejo desenfreado, de contemplar o velho marechal, que, num ímpeto de energia, vencendo a dispnéia estranguladora, ali apareceria em breve.

Quando, porém, a nota estrídula dos clarins o anunciou, e a artilharia alçou a voz atroadora e através de um vasto perfilar de espadas — ele apareceu —, houve um contraste extraordinário entre o que se esperava e o que se viu…

Não era mais a admirável figura de herói, dominadora e ousada, feita para modelar todo o espírito cavalheiresco e heróico de um povo.

Pálido e alquebrado — no meio de um estado-maior deslumbrante —, o olhar velado de tristeza, era a sombra, nada mais que a sombra do Marechal Deodoro — que dois anos antes, naquele mesmo lugar, vencera o seu mais glorioso combate e se transfigurara imortal — no meio de ovações delirantes.

Sugerem-nos esta vaga reminiscência, as notícias contristadoras, que chegam da Capital Federal. Sem o querermos, vemo-lo através do seu último triunfo, tristíssimo triunfo antagônico a toda a passada grandeza de herói — porque a morte que o assalta agora é como que o seu complemento indispensável.

Por maior que seja a nossa emoção, não a sobrepomos à verdade. Embora nos custe, calamos este sentimentalismo extraordinário que nos caracteriza e que é como uma perene emboscada ao juízo austero da consciência.

Naquele dia o ilustre soldado se incompatibilizara, irremediavelmente, com a existência da pátria, que lhe deve, no entretanto, muito. E ele tinha talvez consciência disto; os que o sacrificaram despiedadamente prepararam-lhe um triunfo inglório e, no meio de tudo aquilo, ele passou — com a tristeza profundamente dolorosa de um vencido.

Hoje está entregue à justiça da História. Do inquérito feito sobre a sua existência notável ressaltam — a épica grandeza dos combates, as expansões magníficas do brio, a aurora fulgurante da República — e um erro!

Este, porém, por mais condenável que seja, não pode refluir sobre um passado ilustre. Não se pode constituir como o coeficiente de redução de uma existência. A responsabilidade do crime de 3 de novembro além disto cai com mais vigor sobre as cabeças de cúmplices que não terão, infelizmente, de prestar contas à posteridade — visto não passarem do aniquilamento da vida objetiva, que tanto deslustraram. Demais, ele que era bravo e poderoso, fez, para atenuá-lo, no fim da sua longa vida de guerreiro, o que não fizera nunca ante o horror das batalhas: — recuou.

Recuou, quando poderia ter lutado e talvez vencido.

A sociedade convulsionada do presente não pode definir-lhe a gloriosa existência.

O que se pode, porém, afirmar, desde já, antecipando o juízo do futuro, é que a sua entrada em nossa história, engrandece-a. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 20 abr. 1892

Este início de agitações religiosas que se esboça por aí, entre as próprias seitas teológicas, sugere-nos, a nós que não nos subordinamos a dogma algum, mas que não nos negamos a religião, algumas observações oportunas.

Aproveitamos o momento para, embora a traços largos, definirmo-nos bem com esta honestidade incorruptível de consciência, própria aos que amparam a vida na solidez dos princípios, e sem a qual se instabilizam todas as virtudes.

Reconhecemos, como toda a gente, que a religião encarada de um modo geral, sobranceiro a suas formas aparentes, é uma função espiritual evolvendo com o espírito humano e sendo afinal a suprema diretriz da vida.

Iludem-se deploravelmente os que nos vendo emancipados das imposições de todos os dogmas e presos no círculo, racionalmente intransponível, dos fatos naturais, acreditam que pensemos orientar o próprio destino, eliminando da consciência o sentimento religioso. Segundo a escola a que nos filiamos isto equivaleria à mutilação do espírito e destruiria,em grande parte, o valor da concepção dinâmica que reduz a um princípio único toda a vasta metamorfose da existência universal.

Felizmente para nós, pertencemos ao número dos que acreditam que todo o conflito secular entre a religião e a ciência nada mais é do que a tendência para uma harmonia futura, entre o incognoscível indefinido e inconcebível — e o cognoscível — perfeitamente concebível, em cujo seio pode de uma maneira completa definir-se o pensamento.

Decorre daí que não compreendemos tão radicalmente insanável a reconciliação entre uma — cujo objeto é a existência definida, única de onde podem surgir as nossas concepções — e a outra cujo objetivo é perpetuar na espécie o sentimento adquirido de toda a existência indefinida, perenemente insondável.

Segundo pondera judiciosamente Spencer, a paz se estabelecerá entre ambas, quando se subordinarem aos fins respectivos; quando a ciência se restringir às suas explicações próximas e relativas, e a religião se convencer de que o mistério que ela contempla — é absoluto.

A mesma razão que impede a ciência de legislar sobre o mistério, inibe a religião de aproximá-lo das leis científicas.

Todo o passado humano nos fala eloq uentemente da imensa luta, travada em virtude da falsa compreensão destes diferentes destinos; luta maravilhosa, cujo objetivo não é a conquista de uma pela outra, mas — a paz; admirável campanha em que a ciência, sempre vencedora — era a única a fornecer as vítimas; singularíssima batalha em que uma vencia, enquanto os seus melhores filhos passavam por todas as torturas, desde a humilhação de Galileu à agonia de Giordano Bruno.

A crítica científica porém cuja mais elevada missão tem sido, ninguém impugnará isto, a de fixar a religião no seu verdadeiro papel — rebatendo-a vitoriosamente todas as vezes que ela, abdicando da própria grandeza, desce à relatividade e intenta, com a autoridade de fórmulas absolutas, leis e preceitos; esta onipotente crítica científica, ante a qual têm ruído todas as formas dadas ao incognoscível e todos os códigos, tendentes a regulamentarem as nossas relações com ele — vai, felizmente, perdendo, a pouco e pouco, a feição destruidora, à proporção que o espírito moderno se robustece pela aquisição de ideias positivas, dimanadas da observação e da experiência.

Enquanto isto se dá, e cada ciência, agindo isoladamente segundo um ponto de vista especial, alevanta as verdades inerentes aos diversos modos de ser da realidade concebível — a filosofia harmonizando admiravelmente todas as verdades particulares assim estabelecidas, sob um ponto de vista geral, dá-nos o sentimento desta realidade que é o objeto da religião, quaisquer que sejam as formas que assuma. Vemos por aí que o sentimento religioso tem, no seu aparente inimigo, a ciência, um grande auxiliar.

É graças a ele que as crenças religiosas, das brutalidades do paganismo a todo o brilho da moral cristã, foram-se aperfeiçoando sempre, a proporção que mais abstratas se tornaram as representações do incognoscível.

Persistindo a evolução humana na sua marcha sempre ascensional, é lógico esperar que se extinguam afinal quaisquer representações de realidade inconcebível — pairando, por fim, sobre o conhecimento da existência definida, o sentimento, nada mais que o sentimento, dessa existência indefinida, dessa realidade intangível — que sentimos além de tudo o que podemos sentir…

Este sentimento é a base comum de todas as crenças, cujas variações estão unicamente na maneira pela qual o compreendem, os diferentes estados de consciência.

Evolui, guiado pelo espírito humano, crescendo e notabilizando-se com ele, seguindo, uma continuidade admirável, do mais bárbaro fetichismo aos deslumbramentos do Cristianismo…

É preciso, porém, que um indispensável equilíbrio se estabeleça entre ele e a consciência; se o seu deperecimento gera o objetivismo grosseiro dos povos sem crenças — o seu predomínio exagerado é talvez pior, é esse excesso de subjetividade — o fanatismo, que enlutou tanto a história.

Não acreditamos que ele surja entre nós, principalmente agora em que a lei ampara igualmente todas as crenças.

As pequenas agitações, a que nos referimos, acima, não podem alcançar e perverter mais, na elevada posição a que a levou o espírito humano — a este sentimento religioso, que partilhamos também, como os mais fervorosos crentes — mas ao qual não tentamos definir, ao qual não podemos representar…

Estas observações — vagas e talvez obscuras por um defeito de síntese — têm o único valor de mostrarem até que ponto somos neutros, nas atuais cisões religiosas. E.C.