Crônicas

Chapter 4

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E nessa sociedade, dizem-me os homens desse tempo, que vivia sob o fatalismo bíblico da divina providência; aonde esta mística abstração dos crentes adquirira uma realidade quase objetiva, guardando a tranq uilidade do colosso americano, cuja imensa paz era uma imensa anquilose; na velha sociedade monárquica, que tivera até então, pela própria inconsistência, a propriedade fatal de esterilizar todos os esforços, todos os impulsos dos heróis em prol dos grandes princípios que fazem a honra das nações — começou-se afinal a compreender toda a dolorosa tristeza dessas derrotas morais, em que tudo é perdido, ficando unicamente como um irrisão ou um castigo — a vida.

E fora a palavra vitoriosa de um crente, de um batedor de novos ideais, que, galvanizando-a, lhe estimulara a curiosidade ao menos de presenciar a queda dos homens que eram os mais altos fatores da sua prosperidade.

Recordando o fato, longe está de nós a intenção ou a tarefa de apontarmos idênticos esquifes em demanda das mesmas necrópoles.

Por uma fatalidade, que é a da lei desconhecida e cruel que impõe, no desdobramento da existência social, a véspera tristíssima das crises aos dias de civilização e de glórias — hoje, eles passam por aí em maior número talvez, mais lamentáveis.

Dantes ainda havia uma certa solenidade nesses grandes desastres, e tivemos políticos que se fizeram memoráveis a partir do dia em que rolaram das eminências do poder. Essas grandes quedas abriram largos parêntesis na existência geral e eram largamente comentadas.

Hoje, são uma coisa comum em que ninguém repara. Habituamo-nos a esta singular desdita e não se procura sequer saber qual a sinistra morgue, de onde partem tantos féretros anônimos.

Após o contragolpe de 23 de novembro, a reação triunfante da honra nacional, iniciou-se a trágica degringolade dos que pela traição à fé republicana tiveram logicamente sobre as cabeças o gume da justiça revolucionária.

De um mesmo embate a reação atirara por terra os criminosos e os cúmplices do crime. Alguns dias tentaram a majestade da queda; a maioria porém esvaiu-se silenciosamente na multidão, abroquelada na própria niilidade.

Esses, porém, não entristecem tanto; vitimou-os o próprio erro, a falsa compreensão das ideias que supunham possuir, e resta-lhes ainda a absolvição dos que definem o homem, como um enigma, um conjunto de qualidades disparatadas que vão da suprema fraqueza ao heroísmo romântico.

Às vezes as sociedades, como os planetas, têm os seus pólos antagônicos, e para que um se inunde de luz faz-se indispensável ao outro a imersão na sombra: os homens de 3 de novembro subordinaram-se à fatalidade da própria posição, antagônica à dos que, num esforço épico e formidável, almejavam todo o brilho do ideal republicano.

O que porém entristece e bate e assombra e aniquila a toda a genteé esta coisa incompreensível, a queda dos que nunca subiram, dos que por uma lamentável depressão mental — numa espécie de suicídio psicológico — matam as próprias ideias e nessa perigosa posição de oposicionista — que pode ser brilhante e digna e altamente simpática — se esterilizam inutilmente.

No entanto, era necessário até que do lado oposto ao governo partisse, alevantada e fulgurante, a voz de alguém que soubesse pensar.

Os próprios diretores da política atual têm bastante espírito para não acreditarem que estejamos no melhor dos mundos: — a história das sociedades está cheia dos erros inerentes ao próprio desenvolvimento que surgem ao impulso do próprio engrandecimento, como no fenômeno das interferências luminosas, as raias escuras, do conflito das luzes.

Animada de um poderoso espírito de crítica e de análise, uma oposição robusta pode atingir a perfeição de governar indireta mas eficazmente.

Infelizmente, isto não se dá. Chamam oposição à aglomeração fortuita de alguns indivíduos animados de despeitos comuns.

Não existe uma arregimentação estabelecida à luz de um princípio — tendendo a um objetivo determinado, porém a ação dispersiva de um bárbaro egoísmo a satisfazer.

E nessa luta, em que não existe o apelo constante às consciências, mas a constante exploração da própria vaidade, esgotam-se por aí alguns homens, inutilmente, inconscientes de que a oposição é uma grande escola para o talento e para o caráter.

Não se fixam por uma expansão do pensamento ao meio em que atuam, não o observam, não o estudam; todo o esforço mental que descolam não vai além da observação concreta do que aparece, e enquanto a sociedade se agita por um maior acréscimo de vida, por um acúmulo de novas e indestrutíveis forças, condensada na solidez dos princípios, e através do vasto renascimento da vida nacional, surgem, irradiando para os mais altos destinos, todas as atividades; enquanto tudo isto se dá cada qual compreende que a vida atual, adaptação ao meio republicano, impõe a tarefa duríssima e nobre da elevação constante da existência pessoal; enquanto se opera assim o fato de uma imensa regeneração — eles se extinguem.

É doloroso. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 1o. de abril de 1892

Ainda bem.

Perdem-se distantes, muito ao longe, com o acompanhamento obrigado de uma surdina lacrimalmente hilariante, de ópera cômica, os últimos passos de conspiradores.

Não houve desastre algum a lamentar.

Os bravos revolucionários obedeceram mais uma vez às tradições singulares da nossa demagogia incruenta.

Mais uma vez se patenteou uma notável abnegação, um raríssimo empenho pela integridade da vida.

A inócua burguesia, sentindo exsolvida a sombra do terror, rejubila-se feliz, pelo comentário alegre da jornada.

Engrenam-se outra vez os dentes; ligeiramente deslocados, da máquina social, que segue, inalterável, a indefinida marcha, através da queda e levantamento simultâneo dos homens e das ideias.

Ainda bem, para nós.

Nada pior para o revolucionário do que isto — desmoralizar a revolta.

Ele pode enfrentar a bala; por mais violenta que esta seja, não penetra o aço maravilhoso de um caráter e não se fuzilam as armas; ele pode afogar dentro da cintilação de uma idéia os brilhos das baionetas e até na queda, como Baudin, rolando, do alto da barricada desmantelada, morto — no seio da multidão, e redivivo — na história, na própria queda ele é uma força capaz de ao mesmo tempo se fazer temer e admirar, enquanto puder se eximir à única potência que extingue, inexoravelmente, como o raio, numa fração de segundo — o ridículo.

Nós temos, por índole, uma grande simpatia pelos heróicos rebelados, que vivem dentro de uma vertigem e procuram pela movimentação vigorosa do meio imprimir-lhe a febre da revolta.

Chegamos à República pelas asperezas da propaganda revolucionária. E nestes bons tempos, embora repelíssemos o espetáculo das reações ensang uentadas e compreendêssemos, fitando a grande revolução, como o representante de seus mais nobres destinos o espírito generoso e altíssimo de Vergniaud, preferíamos a trágica hediondez de Marat à feição desfrutável de Anarchasis Clootz; o que fazia chorar, ao que fazia rir a toda gente…

De fato, para os que intentam a conquista da opinião geral, tarefa dificílima e ousada, deve existir a cavaleiro de todas as outras uma preocupação — serem tomados a sério.

Os que assim procedem são precipitados sempre, embora exagerem a ação destruidora — e numa grande perversão do sentimento e do espírito, como os desvairados do Terror, realizem a síntese estranha de formarem com as palavras liberdade; igualdade e fraternidade, os lados do inumano triângulo das guilhotinas…

Tristes, porém, dos revolucionários cujas ações, metrificadas, se subordinem à ligeira toada das partituras alegres.

No entanto o nosso meio atual favorece-os extraordinariamente.

Dantes ainda havia, reagindo pela própria passividade aos que assim lutavam, a pesada sociedade monárquica, sem vida e inerte, crescendo por superposições de camadas, como as pedras. Hoje, iniciamos o apelo à próxima vitalidade e tornamo-nos mais acessíveis e impressionáveis às ideias.

A instabilidade natural em tudo, por uma mudança radical que nos cumulou de maiores direitos e como causa imediata — maiores deveres — é, já, por si mesma, um poderoso auxiliar dos que intentam a tarefa inglória de prolongá-la.

Vemos agora evidenciar-se isto pelo volume exagerado que soem assumir as coisas mais insignificantes. Está na ordem do dia o sacrilégio cometido na Capital Federal — atentado ridículo e repugnante, que em qualquer outra sociedade não sairia da sombra aonde se gerou e que entre nós é filiado ao positivismo e assim lamentavelmente atirado, como um respingo de lama, aos que marcham, muito distantes, na vanguarda do espírito moderno.

Pois que aproveitem e aumentem esta instabilidade; explorem as questões religiosas — delicadíssimas e eivadas de perigos; sacrifiquem às próprias paixões os mais altos interesses; que perturbem e tentem a destruição de tudo o que está feito — e espantem a todo o mundo…

Mas não façam rir ninguém. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 2 abr. 1892

Tentando a reabilitação de Maquiavel, Macaulay, seguindo uma direção oposta à de Bacon, não o apresenta como um espírito singular de democrata, golfando no seio do despotismo daqueles tempos a mais dolorosa e a mais delicada ironia. O crítico inglês admite que cada sociedade tem os seus vícios característicos e que a posteridade, o supremo júri das gentes, procede em seu julgamento de uma maneira sumária.

Achando muito numerosos os delinq uentes, escolhe alguns deles, ao acaso, e sobre o pobre testa-de-ferro dos desmandos alheios aplica o veridictum fulminante.

Maquiavel foi escolhido entre os culpados da sociedade de Lourenço de Médicis.

Precisamos, porém, protestar também contra a introdução deste princípio na filosofia da história.

Não tanto pelo muito que entristece e assombra toda gente, o eterno espantalho desses longos martírios, dessas tristíssimas memórias dilaceradas pela pena de todos os críticos, mas porque nos assustamos de antemão, procurando introduzir da observação do nosso meio, o representante infeliz de todos os seus defeitos.

Não pelo que diz respeito a nós, maioria hoje e minoria ontem, que nos batemos pelo Governo com altivez adquirida numa oposição vitoriosamente sustentada, que somos uma uma amplificação do que éramos ontem; e, como os guerreiros antigos, fomos buscar as esporas de cavaleiros nos centros agitados da luta. Nós, dizemo-lo ingenuamente, não podemos, pela reunião ou síntese dos nossos defeitos, fornecer um monstro à História. Seguimos retilineamente até aqui, sem apelo às sinuosas dos desorientados; de um golpe de vista revemos todo o passado e fazemos dele toda a garantia do futuro.

Preocupa-nos, porém, o mártir que enviaram à história pátria, os representantes da feição má da nossa nacionalidade e que no subsolo da República vivem a vida hibernante dos que não têm no cérebro a irradiação fecunda de um ideal.

As repúblicas italianas tiveram a decrepitude precoce dos boêmios que morrem cedo, estiolados nas labaredas das próprias paixões e rimando a própria desgraça. Representa-as ante a posteridade um ente assustador é certo, mas genial e capaz de deslumbrar pelas magias de um grande talento defluindo da suprema maldade. Elas estão todas sintetizadas naquele homem singular e, através do Maquiavel-poeta e do Maquiavel-político, vimo-las desmoronando e grandiosas ainda no próprio aniquilamento.

Qual será porém o trágico bonzo, misto de supremo ridículo e de suprema insânia, capaz de condensar na fisionomia informe o lado condenado da sociedade brasileira deste final de século, destinado ao golpe despiedado da justiça histórica?

A diminuta, a diminutíssima, a exígua minoria dos leais, que acompanharam a dor do Imperador deposto, pode enriquecer as tradições do nosso brio, com a postura heróica do Barão de Ladário.

Os republicanos históricos têm já, na vida inextinguível da história, a alma olímpica de Benjamin Constant ou a memória augusta e puríssima de Silva Jardim.

Os que dirigem hoje a República podem-se definir pela serenidade vingadora do Marechal Floriano Peixoto.

Qual, porém, será o sinistro bufão, alguma coisa que reúna, num consórcio extravagante, a máxima tristeza ao máximo ridículo, a ferocidade e a fraqueza, e insciência e a audácia — qual o representante infeliz que pagará amanhã pelas culpas desses, que intentam, da sombra, o apedrejamento, dos que marcham em plena luz?

Confrange-se o espírito prevendo o espantoso martírio; perturbamo-nos de antemão ante a apresentação dessa fisionomia singular às gerações do futuro.

A nossa época é a nossa pátria no tempo; anima-nos, por ela, um grande amor, desses que escurecem todos os defeitos e todas as maldades; queremo-la o mais possível gloriosa e imaculada, emergindo do batismo de luz da democracia.

É preciso pois — a prevalecer o princípio do pensador inglês —, é preciso que, desde já intentemos a tarefa de obstar que entre na história e escandalize esse amálgama esquisitíssimo de La Palisse Quasímodo.

Que se derrame sobre tudo isto — o silêncio esmagador das ruínas… E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 3 abr. 1892

Transcrevemos do Livro do exilado, de Edgar Quinet, esta admirável fantasia:

"Escutai:

Disse uma fada um dia a um cavaleiro: eu vou fazer-te presentes magníficos. Far-te-ei, primeiro, o que entre nós chamamos um mar de angústias e tu procurarás atravessá-lo, a nado; é provável que te afogues. Suponhamos porém que o atravesses a salvo; eu te farei, ao saíres, um lago de amargores, cem vezes mais perigoso que o primeiro; tu aí te extinguirás infalivelmente. Se, porém, realizando o impossível, tu o atravessares ainda, terás à saída uma legião de gigantes, amigos meus, prestes todos a te abaterem, sob os pesados montantes de ferro. Admitamos ainda que consigas escapar. Neste caso encontrarás um castelo magnífico, uma princesa deslumbrante — a Liberdade.

"— Ah! — bradou o cavaleiro — por que não começas por aí, já que podes tudo?

"És muito indiscreto — responde a deusa. — Se dás mais uma palavra, transmudo-te em réptil…"

A moralidade da fábula existe por aí, limpidamente, desvendando-se à observação mais simples.

A liberdade, a verdadeira liberdade, não é uma coisa que se decrete, que possa sair do espírito dos legisladores, como Minerva, armada e pronta à realização da sua ingente tarefa.

É como direito, um produto cultural das sociedades, e como tal evolve, seguindo a direção de um desenvolvimento superior da inteligência e dos sentimentos.

A filosofia moderna, fazendo-se abdicar das alturas fantásticas em que a colocora a metafísica — como uma coisa inata e absoluta, sobranceira às agitações da vida —, nobilitou-a ainda mais, podo-a em função das lutas brilhantíssimas inerentes à condição humana.

Não é uma dádiva, que se recebe — é uma conquista, muitas vezes trabalhosa, que se realiza.

Vinculada profundamente à existência humana, cuja maior perfeição está no justo equilíbrio dinâmico, entre a sociedade e o indivíduo, ela é o mais vigoroso elemento para a chegada a este objetivo.

A filosofia antiga trouxe-as das miragens encantadoras, onde sonhava, deu-lhe origem divina e entregou-a à humanidade, como quem entrega uma lâmpada brilhantíssima a um cego. Os pensadores de hoje elevam-na mais, dão-lhe uma origem humana; fazem-na a colaboração, o resultado dos esforços combinados de todos os que sentem e pensam, e estudam a sua evolução maravilhosa, na própria evolução das sociedades.

E é por isto que a estremecemos, como um dos melhores legados dos esforços das velhas gerações, em prol do qual nos dispomos a dispender todas as energias do nosso cérebro e da nossa afetividade, para que não se quebre a continuidade dessa nobilíssima solidariedade, que prende, através dos séculos, o presente ao passado.

Fazemos, porém, da ascensão contínua e constante da vida, através de todas as angústias e todas as vitórias, a única maneira de alcançá-la.

Não a desejamos fácil, como o cavaleiro da fábula…

Repelimos, mesmo, esta espécie singular de liberdade que faculta a um sujeito qualquer, o trazer aos enxurros da maior protervia, os homens e as ideias, da mesma sorte que pode dar a outro o direito de dizer que o Sol não é o centro do sistema planetário.

Não é livre quem o quer ser somente; a vontade nada mais é do que o estimulante para esse ideal, que só pode ser realizado pela inteligência — por isso que, em síntese, a liberdade consiste em saber subordinar-se às leis.

Desiludam-se, pois, os que por aí, nos seios de umas frases de reputação duvidosa, espartilhadas numa adjetivação retumbante, estabelecem a máxima licença de palavras e a constante profanação do bom-senso.

Usem e abusem dessa espécie de liberdade, que é a mesma de toda a animalidade inferior; mas quando a ação governamental for coagida, em prol do bem geral, a refrear ou cercear-lhes a ação não gritem que é a liberdade da pátria que se sacrifica.

Esta não é facilmente violada; é inviolável mesmo: guarda a consciência nacional — amparada nos princípios da democracia; cresce e se avoluma na razão direta da nossa própria elevação e para torná-la cada vez maior achamos naturais todos os esforços, e lançamo-nos, sem pavor, ao mar de angústias da lenda de Edgar Quinet. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 5 abr. 1892

Por mais incruenta que tenha sido, a nossa transformação política foi radical e seus efeitos se evidenciam a cada passo.

Basta considerar-se a distância entre a política marasmática do Império e os princípios atuais.

Não passamos de uma maneira contínua da antiga Constituição para a de hoje. Separam-nas, a grandeza de conquistas realizadas por outras sociedades, através de lutas, em que não tomamos parte.

Enquanto as nacionalidades do ocidente da Europa e na América — os Estados Unidos — sob o domínio, muitas vezes, das maiores crises, levantaram os princípios que nos decoram hoje — prolongávamos dolorosamente ao último quartel do século XIX, a inatividade colonial.

Erguemo-nos afinal, sem termos combatido, para partilharmos da vitória.

Tudo que temos hoje é uma dádiva generosíssima do nosso século.

Sejamos sinceros.

A nossa história patenteia o tristíssimo fato de uma sociedade esmagando, pela própria passividade, aos seus melhores filhos.

Da Inconfidência à Confederação do Equador, o historiador não sabe o que admirar mais, se o aparecimento de tão grandes heróis em tal sociedade, ou se a indiferença de tal sociedade ante homens tão ilustres.

Nunca tivemos essa indispensável continuidade de ideias e atos, que salva, através dos séculos e das crises, todos os esforços dos que lutam.

Extinguiam-se nos patíbulos, juntamente com a vida, os altos pensamentos dos mártires da nossa história.

De sorte que a evolução democrática, que se poderia ter iniciado com os revolucionários do século passado, é uma coisa recente; vem de 1870, com a brilhante e ousada minoria que nunca mais a abandonou.

E o advento da República exprime afinal a conquista realizada por essa minoria brilhantíssima sobre uma maioria indiferente.

Por mais incruenta, pois, que tenha sido essa transformação política, ela conduziu-nos a uma fase delicadíssima de adaptação às instituições republicanas.

Atravessamos, inegavelmente, um período de transição inevitável.

Faz-se preciso, por conseq uência, sobre todo este estado de coisas, o influxo vigoroso de uma política exclusiva e eminentemente conservadora, que ampare, nessa brusca ascensão para uma existência maior e melhor, uma nacionalidade que lutou muito pouco para atingi-la.

O objetivo fundamental dessa política dever ser, a todo o transe, o estabelecimento da ordem e sabe-se quanto é difícil semelhante tarefa, nessas quadras perigosas, em que o próprio balanceamento dos espíritos favorece as piores causas e a gestação de todas as explorações.

O lema da nossa bandeira é uma síntese admirável do que há de mais elevado em política.

Precisamos porém não invertê-lo, o que seria um desastre; quanto antes, pois, é necessário que todo o progresso, que relativamente já temos, se assente sobre a base indestrutível da consolidação da República.

Não temos, felizmente, divergências religiosas ou políticas tão profundas que dificultem muito o estabelecimento da ordem material. Traçadas limpidamente as órbitas de todas as atividades, basta que sobre elas paire a vigilância severa das leis.

É o que se tem feito felizmente.

Digam o que disserem, o governo enveredou com brilhantismo pela única política, capaz no momento atual de estabelecer as garantias da paz e acompanhamo-lo desassombradamente, nós, que no fato de uma ampla adaptação ao sistema democrático vemos mais do que uma conquista política — a grande regeneração de uma sociedade.

Seguiremos para o século futuro, robustos e grandes; neste século, cuja deslumbrante grandeza escapa às mais ousadas deduções da sociologia, através das vitórias da ciência e da indústria, a pátria brasileira redimir-se-á; e obedecendo à grandeza do próprio destino assumirá, enfim, a hegemonia das nações latinas…

Todo um século de inatividade terá compensado em alguns anos de lutas civilizadoras — e um grande futuro será afinal a absolvição para um passado estéril. E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 6 abr. 1892

É fácil esta luta de guerrilheiros, com o aproveitamento de todas as encostas, de todos os barrancos ocasionalmente oferecidos e oferecendo continuidade ao inimigo, como suprema tática — o deserto.

É o extremo recurso dos fracos que procuram a vitória — um vasto fracionamento do combate.

Para isto todas as armas são úteis e todos os companheiros bons.

Esta luta singular em que se vence afinal ao vencedor, pela niilidade das próprias vitórias, tem na história as mais disparatadas feições.

Romanesca e gloriosa, salvando a Espanha — aonde a legenda napoleônica iniciou a sua página dolorosa —, ela é selvagem e condenável na Vendéia, transformada inteira numa emboscada — ante os homens de 1889.

A Vendéia preocupava mais aos grandes revolucionários, do que a Europa inteira apresentando-se a despenhar-se sobre a República, numa avalanche de lutas formidáveis.

Enviaram, para abatê-la, o seu melhor general, Hoche; e o grande exército, que mais tarde passearia triunfalmente pela Europa, recebeu a sua mais larga cicatriz, daqueles adversários impalpáveis, que punham-lhe em frente uma única trincheira — a sombra misteriosa das suas florestas.

A República brasileira tem também a sua Vendéia perigosa.

Não fazemos, nesta aproximação histórica, a injustiça de compararmos em tudo, aos perturbadores de hoje os rudes bretões, que se fizeram os últimos cavalheiros da velha monarquia derruída, enquanto abrigava-se no estrangeiro, acobardada, a aristocracia francesa.

Rebelados e ousados, extinguindo, numa desordem maravilhosa, a admirável simetria dos batalhões republicanos, procurando a vitória através dos incêndios e das ciladas — ligava-lhes entretanto os corações o liame indestrutível de um sentimento comum.

Não encontramos isto nos que, unicamente pela maneira por que perturbam o começo da República, se equiparam aos heróicos vendeianos.

Falamos da maneira a mais geral.

Se houvesse uma idéia, um princípio, um objetivo qualquer, o mais insignificante, do lado dos que — de norte a sul do país — parece terem tomado a deliberação infeliz de sistematizar a anarquia — à luz dessa idéia ou desse princípio, por mínimo que fossem — já se teria travado a discussão mais franca.

Nada disto, porém.

Existe apenas a determinação de atirar por terra tudo o que está feito; o desalojar as posições, para realizarem um único ideal — ocupá-las.

E o propósito disto, diuturnamente, os despiedados prelos realizam o esmagamento do bom-senso ou remoem uma estafada retórica revolucionária, expluindo de umas velhas frases sonoras e vazias.

Estabelece-se, francos, a exploração e o aproveitamento dos menores acidentes, muitos dos quais naturalíssimos, nessa grandiosa translação de toda uma sociedade para um regímen melhor.