Crônicas

Chapter 3

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Atingir a esse tipo ideal, realizá-lo empiricamente, tal é o destino altamente moralizador da civilização, tal é o fim grandioso dessa belíssima utopia da filosofia moderna que aspira, pelo consórcio de todas as tradições e unificação de todas as crenças — transmudar a Terra no extenso lar da família humana.

Para nós porém, assaltados em plena mocidade por um duro ascetismo, esta época ultrapassará a existência biológica da Terra e antes que o homem qual é possa chegar ao homem qual deve ser, é natural que depois das condições essenciais à vida e amparado somente pela lei diretora do equilíbrio dinâmico dos mundos, o nosso planeta, coberto das ossadas de mil gerações extintas, gravite no espaço, vazio, como um túmulo silencioso e vasto…

Estas linhas, apressadamente escritas, têm o único valor de fixarem nos mais [sic] desassombrada e digna, uma posição de combate.

Nada mais perigoso, numa época de agitação, que essa discussão objetiva que se costuma estabelecer em torno de individualidades e nada também mais estéril.

Para nós, os indivíduos terão a estrutura ideal das fórmulas: traduzem manifestações da sociedade e discuti-los, mais do que inquirir se são ou não bons, consiste em ver se patenteiam-se ou não — lógicos.

Por outro lado, como uma atenuante ao cepticismo referido acima, resta o entusiasmo que nos domina sentindo, em torno, na pátria — a parte mais próxima da humanidade — os que ainda crêem, ainda sabem sentir e generalizando a vida têm robustez para alevantar a herança grandiosa do passado e impeli-la engrandecida para o futuro.

Esses, que surgem dentro de nós, elevados e resplandecentes, como pontos determinantes na trajetória ideal da nossa civilização, emprestar-nos-ão alento para que não percamos a postura retilínea dos fortes…

Por mais violento que seja o embate de nossas próprias paixões, amparar-nos-á a crença robusta de que há em suas almas vigorosas um asilo inviolável a este sonho, a esta miragem, a isto que para muita gente não passa de uma palavra — a Pátria…

Não há exagero nessas últimas linhas; não existissem eles e por uma vez devíamos repelir a esperança na regeneração desta velha sociedade colonial — prolongada por um triste fenômeno histórico ao seio do século XIX.

O repto audacioso lançado em pleno parlamento, pelo Primeiro-Ministro do Império, afrontaria impune ao grande ideal da política americana, destinado um dia, talvez próximo, a fazer da América inteira uma só pátria.

Com um amplo e vigoroso gesto, num assomo de demagogia palaciana, S. Exa. traçou ante a representação nacional a linha estratégica de uma árdua campanha. Nesse gesto circular e enorme, que durante um segundo pairou sobre toda a Câmara, inscreveu o trono imperial, e em sua fisionomia vimos transudar a mais soberana alegria, a mais rígida confiança na própria força.

Por entre o enorme sussurro e explosão de aplausos, que saudaram a profissão de fé do padre João Manoel, a sua palavra penetrou alígera e heróica como um dardo, transmitindo à debilidade da instituição monárquica o tônico enérgico de um grande talento. Em suma, da maneira mais franca, foi talvez. S. Exa. o primeiro a dar manifestação empírica a uma luta que de há muito agita o espírito nacional. Compreendemos então que atingiríamos uma fase decisiva na história.

Compreender isto, porém, equivale a robustecer-nos.

Todo aprumo, a gesticulação teatral, a esplêndida hardiesse do Sr. Presidente do Conselho, fazem-nos acreditar que confia muito na tão falada engrenagem política, cujos dentes realizam a odiosa tarefa do esmagamento de caracteres, das salas das secretarias de Estado ao fundo das casernas; ainda mais, certificam-nos de que assiste-lhe amplo, o direito, ante uma questão social extremamente complicada, de dar a palavra ao sinistro legislador — Comblain…

Ao mesmo tempo, porém, anima-os a certeza — de que as condições atuais, o advento de adversários ante os quais S. Exa. aniile-se totalmente, traduz sobretudo um fato naturalíssimo.

Representantes naturais da sociedade trazem no espírito a resultante de todas as energias sociais; são os homens de hoje sínteses das maiores aspirações de uma época. Para que desde já possamos esboçar-lhes os agigantados perfis é suficiente isto: encarar a feição mais elevada dos acontecimentos.

Estabelecido este preâmbulo, consideremos o presente.

II

(Província de S. Paulo, 28 jun. 1889)

O Sr. Cesário de Alvim despediu-se do Oitavo Distrito de Minas; unicamente como eleitor deseja e deve entrar no pleito eleitoral. É isto, em resumo, o que o ilustre democrata acaba de exprimir pela imprensa.

Tratássemos de um velho liberal, cuja energia se extinguisse na deplorável inconsistência de uma política partidária — desiludido e vencido, e acharíamos natural mesmo este rebaixamento de posto que, como o de Epaminondas — eleva.

A desilusão, esta espécie de derrota infligida às ideias e ao sentimento, é, em política, inevitável corolário da estéril agitação dos que, sem altitude para fugirem à dispnéia asfixiante do egoísmo pretendem, no estreito círculo de uma individualidade mal-educada, inscrever os interesses gerais.

Advém-lhes a velhice como os cabelos brancos. Paralisa-lhe a cerebração da mesma forma pela qual a lenta atrofia do organismo dificulta-lhes a circulação do sangue. Divorciados do movimento geral, em toda a sua atividade como que predomina, constante, um esforço material, abdicando das próprias convicções todas as vezes que a musculatura combalida ameaça-lhes a integridade da existência. Dizem-se desiludidos — estão gastos.

Em política não há desilusões por uma razão simplíssima: a política não ilude. Definindo-se sobretudo como — um espírito colocado em função da sociedade, o homem político, pela expansão natural das ideias vincula-se profundamente às forças crescentes que a animam. As diferenciações sucessivas dos fatos, que definem o curso da civilização e são a condição essencial do progresso, reagem continuamente sobre si, alentam-no e revigoram-no. Bate-se por um ideal, convicto muitas vezes de que a sua realização está além da vida objetiva; certo porém de que constituir-lhe-á a existência imortal da história; e velho, muito embora, paira-lhe na fronte encanecida a tranq uila irradiação de suas crenças, como a fulguração das lavas na eminência enregelada de um vulcão andino. Estes não se desiludem.

Em nossa pátria, onde o partidarismo impera, é vulgar a aparição de políticos desiludidos, mumificados em vida, e acurvados ao peso de antigas crenças, derrocadas.

O Senador Francisco Otaviano, uma grande alma de poeta que orientada de outra forma deixaria em nossa história um traço imperecível, define a política como uma "messalina histérica de cujos braços sai-se corrompido, etc."

Os que aplaudem esta frase monstruosa apedrejar-nos-iam se alcunhássemos a química de volúvel cortesã, ou de misteriosa hetaíra a matemática. Entretanto o absurdo é perfeitamente idêntico; a política emana duma ciência tão positiva como qualquer uma destas e como qualquer uma repele objetivações que a desvirtuem.

Em suma, iludir-se em política, é errar.

Para os que chegam à convicção dos próprios erros e numa implícita declaração de incompetência dizem-se desiludidos, abandonar uma posição de comando exprime um ato além de natural, altamente benéfico. Com o eminente representante de Minas isto, porém, não se dá.

Ainda quando a sua mentalidade não se constituísse inteira à luz dos princípios mais sãos, bastava a grande solidariedade que o alia à maioria de sua província, para determinar-lhe a mais perigosa estacada na próxima luta.

Profundamente identificado às elevadas aspirações dessa terra lendária, aonde repousam as mais brilhantes tradições da pátria, cabe-lhe o grande dever de operar no seio da representação nacional a transfusão da esplêndida virilidade que a anima e impulsiona.

Por mais rápida que fosse a sua passagem aos princípios republicanos, foi limpidamente lógica: definiu do modo mais digno a atitude atual da evolução política em Minas.

Perfeitamente coerente, os seus atos de hoje irmanam-se aos de ontem e a sua posição, longe de ser um repúdio ao passado, traduz uma expansão do próprio liberalismo.

Os ronceiros paquidermes políticos, que materializam por aí a coerência na estabilidade das rochas, acham que esta transformação foi muito rápida, extremamente rápida…

Pela nossa parte, achamos naturalíssimo que, tendo entregue todo o seu talento a um partido — como um diamante às mãos do lapidário —, visse-se afinal surgir brilhante e rígido, entre os fulgores da democracia.

Na fase atual das coisas, em que os partidos monárquicos, conflagrando-se, aniilam-se pela dispersão; em que, por uma erradíssima sugestão do ministério, o velho imperador, que traduz ao estado mórbido o próprio estado da instituição monárquica, vai ser arremessado a Minas, como uma sonda — bem é que o Sr. Cesário Alvim, constituindo-se o centro de atração das grandes aspirações de sua província, que são as da pátria, robusteça-as, unificando-as. E acreditamos que não poderá se eximir a isto: opondo-se pela primeira vez a um seu desejo francamente expresso, Minas impor-lhe-á breve o sacrifício de ser grande…

DA PENUMBRA

"O Estado de S. Paulo", 15 mar. 1892

É um título bizarro, convenham, mas precioso.

Por estes tempos maus de agitações infrenes, cômoda é a feição contemplativa dos que se recolhem à meia-luz da obscuridade e vêem de longe o préstito diabólico das paixões.

Os brados das mazorcas, as visagens, truanescas dos conspiradores à la minute, que doidamente se agitará nos liames da própria insânia, tudo o que vibra e urge, aí embaixo, no rez-de-chaussée da política e do bom-senso, chega-lhe aos ouvidos

Como o rumor das asas de um inseto…

segundo o belo endecassílabo de não sei que poeta.

E de fato; como fixar a orientação de um princípio nesse espantoso caos que por aí tumultua assustador, de ideias que não têm vigor e de homens que não têm ideias?

Já fomos oposicionistas; já realizamos diuturnamente a tarefa inglória de Sísifo, tentando sobrepor à imensa mole monárquica o ideal republicano. Nesses bons tempos, porém, era purificadora a incandescência da luta, retemperava-se em seu fervor o aço inquebrável das convicções, e como éramos uma minoria e vivíamos isolados como as águias, criávamos em torno essa maioria subjetiva de ideias, que se deriva das páginas dos livros…

Mas, hoje? Que faz toda essa gente que por aí reage contra não sei o que e perdendo a pouco e pouco a postura magnífica dos valentes, descamba para os lugares-comuns de um gongorismo retumbante ou agita doidamente os guizos da troça, numa alegria incompreensível de bugios satisfeitos?

Li algures, não sei em que escandalosa crônica de Paris, que Luís Veuillot — o formidável ultramontano — quando sentia-se combalir nas violentas discussões que sustentava, ao invés de revigorar-se pela meditação, dirigia-se complacentemente aos mercados da grande cidade.

Aí, sob um pretexto qualquer, levantava uma questão com as pouco parlamentares mercadoras.

A consequência era fatal e assustadora.

Sob a forma a mais pitoresca estrugiam em torno do velho panfletário as mais arrepiadoras injúrias.

Calmo e feliz — Luís Veuillot, então, abria a carteira e a lápis anotava o desenfreado vocabulário das megeras furiosas.

Pobre do adversário que estivesse nessa ocasião a braços com o inexorável obscurantista…

No outro dia — intactas — as mais grotescas hipérboles do rude argot parisiense caíam-lhe, bravias, redondamente, em cima — como argumentos únicos e supremos e esmagadores…

Não sei que singular associação esta que tão inoportunamente projetam no curso das considerações que fazia a desairosa silhouette do grande amigo de Pio IX.

Não pretendo estabelecer um símile tão perigoso e logo no início de uma secção. Há uma grande distância da contemplação concreta de um fato à verdade que dele se deriva pela meditação indutiva e eu sou essencialmente contemplativo… José D'Ávila

"O Estado de S. Paulo", 17 mar. 1892

Sejamos otimistas. É um dever isto para os que envelheceram a mocidade trilhando as ásperas devezas, a abrupta e alcantilada estrada da propaganda democrática. Não vejamos, como os cronistas elegantes da oposição, um fantasma de Napoleão III no Sr. Floriano Peixoto, para fugir ao qual precisamos dum espantoso Sedan de esperanças e antigos ideais…

Quando mesmo, por uma espantosa aberração mental, unicamente admitida numa hipótese ousada, o velho marechal se deslumbrasse a tal ponto pelas magias do poder — nem tudo estaria perdido: restariam inexoráveis e heróicos contra a déspota, os mesmos princípios que o sustentam.

Acostumados a uma espécie singular de revoluções feitas de flores e hinos triunfais, adoráveis revoluções que se desfazem em passeatas e discursos e aonde só há uma coisa assustadora — prurido tribunício dos Desmoulins indígenas — ou os ferventes ditirambos com que se rimam depois os perigos problemáticos da jornada, acostumados a isto, o nosso sentimentalismo doentio e burguês agita-se lamentavelmente ante os atos vigorosos e inexoráveis, que traduzem sempre a marcha desassombrada de uma idéia.

E tudo isto é natural e irremediável.

Supõem por acaso, os nossos intransigentes adversários, que a marcha do sistema social faz-se como a translação dos sistemas invariáveis da mecânica, sob o impulso de leis determinadas e positivas?…

Têm a feliz ingenuidade de acreditar que sejam os artigos da Constituição — leis necessárias e fatais, quando a sociologia, apenas esboçada, não pode realizar a previsão no campo dos fenômenos que estuda?

Não acreditam certamente: antes sabem que a elucidação desse problema vai constituir a mais dura tarefa do futuro.

Demais, a história, a comparação histórica, não nos aponta o fato de um povo que não tenha — em sua organização definitiva — pago um doloroso tributo de sangue e demoradas agitações.

Foram precisos doze anos, doze anos malditos de privações e lutas, aos Estados Unidos para, amparados de um lado pela grande alma de Washington e de outro pelo gênio de Hamilton, formarem a Constituição à qual devem um século de prosperidades.

Ainda assim — à luz de um código fundamental, cujos artigos, lentamente — um a um — foram calcados sobre as necessidades que surgiram — para realizarem mais tarde, através dos horrores da secessão, a reforma abolicionista, foi preciso que ao espírito brilhante de Lincoln se aliasse o brilho da espada de Ulysses Grant.

As sociedades, como os indivíduos da vasta série animal, obedecem a uma grandiosa seleção, para o estudo da qual já se fez preciso que apareça um Darwin ou um Haeckel.

As duas leis fundamentais da adaptação e da hereditariedade atuam sobre elas numa escala maior, mais difícil de perceber-se e o progresso, resultante inevitável das ações simultâneas desses dois fatores, nem sempre, em princípio — se manifesta de modo a satisfazer a mórbida afetividade de quem quer que seja.

Presos, vinculados ainda pela hereditariedade ao passado regímen, toda essa agitação que por aí vai, toda essa luta entre o que éramos ontem e somos hoje — é a luta pela adaptação aos novos princípios, princípios que atingiremos lenta mas fatalmente…

Sejamos otimistas, pois.

Tudo o que por aí tumultua num aparente caos de agitações e revoltas é o reflexo de uma vasta diferenciação, através da qual se opera, majestosa, a seleção do caráter nacional.

A idéia republicana segue sua própria trajetória — fatal e indestrutível como a das estrelas — e bem é que lhe demarque o caminho percorrido a triste ruinaria das coisas e dos homens que não valem nada. Dávila

"O Estado de S. Paulo", 19 mar. 1892

Acabo de ler uma página iluminada de Spencer, em que o eminente evolucionista — como bom filósofo crente na perfectibilidade humana — vaticina uma idade de ouro, durante a qual por um mais dilatado domínio das forças naturais se satisfaçam mais facilmente as necessidades imperiosas da existência e menos assoberbada de trabalhos, tenha afinal a humanidade tempo de aformosear a vida, pela contemplação do belo na natureza e na arte.

O ilustre mestre deixou-se arrebatar demais, pelas tendências profundamente humanas de seu grande espírito.

O stuggle for life, a fórmula majestosa da nossa elevação constante, terá a mesma feição autoritária e fatal, embora atuando entre os deslumbramentos da mais alta civilização.

O grande domínio do homem sobre as forças naturais, a que ele se refere, é ilusório, ante o princípio geral da relatividade.

As forças ou leis descobertas criaram fatalmente a necessidade de outras e a humanidade — se tornando cada vez mais forte, para uma luta cada vez maior — realizará através dos séculos a dolorosa lenda de Ahasverus, subjugada às leis que a impulsionam, com o mesmo fatalismo das que fixam no espaço a órbita dilatada do insignificante planeta que a conduz…

Não descansará. Aproximar-se-á da época sonhada pelos filósofos como as assíntotas do ramo desmesurado das hipérboles — indefinidamente — sem nunca atingi-la.

Decorem-na embora os sábios — os incruentos batalhadores que vão através das inúmeras modalidades da existência geral, em busca da verdade — com a cintilação imperecível das leis descobertas ou com as dádivas preciosas da indústria — cada uma destas conquistas é um estimulante enérgico para outras mais ousadas e difíceis.

O mito de uma época ideal toda de paz e descanso afasta-se à proporção que adquirimos meios de atingi-lo e a moderna civilização européia por exemplo — dista tanto dele quanto a barbaria medieval.

O que se dá — assim de um modo geral, no vasto conjunto humano — evidencia-se ainda mais limpidamente, pela consideração especial de cada sociedade.

Cada uma conquista realizada tem, inevitáveis como corolários, outras, relativamente iguais e realmente mais difíceis.

Pelo que nos diz respeito ascendemos rapidamente, vertiginosamente mesmo, pela reforma social da abolição e pela transformação política da República, a toda a deslumbrante grandeza da civilização atual.

Não é para espantar, pois, a ninguém, que o Governo, por mais sólida que seja a sua vontade e correta a sua postura ante o dever — lute para debelar a crise que nos assaltou e que é no entanto tão natural como fenômeno fisiológico da vertigem, nos que atingem rapidamente as grandes altitudes.

Seria realmente adorável, mas ilógico, que a República feita num quarto de hora de audácia — fizesse de pronto a grande felicidade da pátria e não tivéssemos agora, ameaçadores e constantes partidos da sombra, os brados desses que não foram vistos ontem entre os clarões da batalha.

Todo esse acréscimo de fadigas e trabalhos, que requerem a pertinácia estóica dos crentes e dos fortes, há de entretanto ceder, embora não se extingam com ele os que impõem à República a grandeza dos seus próprios destinos.

Ainda bem que o Governo tem a impassibilidade magnífica de Glauco, ante o referver das ondas estrepitosas de ódios e velhas ambições malogradas, que vão lhe estourar aos pés.

Elas passaram afinal — inofensíveis e estéreis e os tristes cavaleiros andantes da discórdia, que se agitam por aí a braços com os moinhos de vento da tresloucada fantasia, choraram afinal sobre a niilidade dos dias sacrificados a uma agitação infecunda. Dávila

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 29 de março de 1892

A propósito da brutalidade de um iconoclasta qualquer, que num ímpeto de revolta insconsciente quebrou a imagem do Cristo no júri da Capital Federal, alarmou-se certa parte da imprensa e, de um fato relativamente insignificante — e de todo subordinado à polícia. No caso atual porém, desta violação vulgar do bom-senso, retamente a uma doutrina que estabelece o amor como o princípio de todas as ações e define todo o progresso humano — como um vasto desdobramento da ordem.

Não é a primeira vez que se generalizam tão tristemente fatos que à luz do critério mais rudimentar não têm a mínima importância. No caso atual, porém, além desta violação vulgar do bom-senso, há uma afronta à justiça. É quase um atentado atribuir-se ao positivismo tão tristes desmandos. Falamos desapaixonadamente; embora em nosso tirocínio acadêmico nos subordinássemos ao método filosófico do eminente instituidor da Síntese subjetiva, o mais admirável livro do século XIX, e o veneremos como o maior dos mestres; embora reconheçamos na doutrina positiva sólidos elementos para constituir-se a religião do futuro e estejamos certos de que, na grande crise moderna, ela representará papel idêntico ao do Cristianismo na anarquia medieval — não pertencemos à minoria ilustre dos que, com uma abnegação notável, seguem todos os preceitos do novo dogma, através da metafísica dissolvente do nosso meio.

As ligeiras noções, porém, que temos dele, bastam para certificarmo-nos de que a sua ação só pode fazer sentir nas consciências em cuja estrutura entrem como elementos os mais nobres princípios.

Baseada no mais amplo conhecimento do mundo e do homem, consorciando indissoluvelmente a religião e a ciência, nobilitando e amplificando admiravelmente a vida individual pelas generosas expansões do altruísmo, a nova doutrina está talvez destinada, no futuro, após uma maior e mais geral ascensão de todos os espíritos, a simbolizar a maior conquista da consciência humana.

Para atingir, porém, esse desideratum, os seus propagandistas seguem num sentido diametralmente oposto àquele que geralmente se acredita. Não exploram as paixões dos inconscientes, nem assalariam os braços dos sicários, antes, se eximem à luta e quando abandonam os retiros da meditação e do estudo, têm nos atos a serenidade magnífica dos justos e dos crentes.

Anima-os a máxima veneração pela feição nobre do passado humano e utilizando-se do imenso capital de fatos e de ideias lentamente acumuladas, pelo trabalho secular das gerações, se dirigem para o futuro, sem que necessitem, no presente, criar as miragens com que a metafísica deslumbra inutilmente a toda a gente, ou levantar as fogueiras com que inutilmente o Catolicismo escandalizou o mundo.

O separar a Igreja e o Estado, a idéia mais genuinamente democrática da nossa Constituição, o esplêndido golpe vibrado na burguesia clerical, que tentava o monopólio criminoso de todas as crenças, — devia certamente satisfazê-lo, por isto mesmo que extinguiu a escravidão oficial do pensamento, e era o complemento necessário da liberdade política. Isto porque os anima um elevado espírito de tolerância que simultaneamente afasta das consciências o predomínio das seitas e faculta a estas o mais livre funcionamento.

De mais, do ponto de vista verdadeiramente filosófico em que estão não intentam rivalidades, tanto que reconhecem a tarefa civilizadora do Cristianismo, salvando através da imensa noite histórica — a Idade Média — os trabalhos das gerações antigas e vêem na metafísica do século XVIII o mais enérgico estimulante da Revolução Francesa.

Além disto a religião positiva — profundamente humana e justa, impõe a veneração para os partidários de todas as crenças, desde que tenham lutado em prol do destino comum e sob este ponto de vista irmana os mais desencontrados caracteres. A simples leitura do seu calendário, aonde cada homem é a síntese de uma época ou de uma sociedade, indica este fato. Entre muitos antagonismos se vêem ali Maomé, São Paulo, Danton e Condorcet — o fatalismo muçulmano, a predestinação bíblica, o delírio revolucionário e a tranquila irradiação do pensamento.

Ela paira sobre os destinos humanos e muito alto demais para exercer, embora indiretamente, qualquer influência nas regiões da sociedade, aonde se geram e de onde se levantam todas as brutalidades e todas as profanações… E.C.

DIA A DIA

"O Estado de S. Paulo", 31 de março de 1892

Um dia pelos meandros da tortuosa política imperial sentiu-se ressoar — magnífica e augusta — a voz de alguém entoando uma sinistra oração fúnebre "sobre os esquifes que passavam", em direção às trágicas necrópoles da honra e do civismo.