Chapter 2
Podemos, pois, agir desassombradamente — sem temer que se anteponham à fortaleza de nossas ideias os ferros dos janízaros.
O adversário mais interessado em nossa derrota conhece a fragilidade, a nulidade desses meios e, além de espírito, tem coração bastante, para impedir que, por meio deles, se dilacere inutilmente o grande seio da pátria.
Baseando-nos, pois, na hipótese de ser o senhor D. Pedro um grande espírito e um grande coração, concluímos logicamente que ser hoje revolucionário — é ser oportunista! Esta posição não exprime somente a coerência necessária entre os nossos atos e nossas ideias — patenteia também de nossa parte um grande interesse pela ordem posterior da sociedade.
Porque sabemos que a República se fará hoje ou amanhã, fatalmente como um corolário de nosso desenvolvimento; hoje, calma, científica, pela lógica, pela convicção: amanhã…
…Amanhã será preciso quebrar a espada do senhor Conde d'Eu.
V
(Província de S. Paulo, 16 jan. 1889)
Referindo-se ultimamente a certos preceitos de higiene moral, nos quais baseava as suas convicções, um democrata ilustre estabeleceu o diagnóstico de uma moléstia assustadora, misteriosa, horrível e de há muito localizada profundamente no organismo da pátria.
A sua denominação não é nova; há 300 anos, Descartes, a fim de definir claramente uma separação desnecessária entre a atividade e a atividade propriamente animal — sobre ela apresentou uma teoria paradoxal — que não conseguiu se avolumar, destruída por Flourens e Montaigne.
Não pretendemos regenerá-la, damos-lhe uma orientação; o que Descartes enunciava como coexistente com a essência íntima das coisas — apresentamos como uma coisa anormal; o que ele aplicava aos animais, aplicamos ao homem; ele fez daquilo um fato positivo e natural — nós temo-lo como uma moléstia — um deplorável estado patológico.
Ante ela toda a ação da terapêutica se nulifica, os melhores experimentadores recuam impotentes; no entanto, faz mais vítimas que o cólera e atrofia mais do que a sífilis.
Transmitindo-se pelo contato, assume o caráter generalizado de uma epidemia medonha; por uma espécie assustadora de endosmose infiltra-se, não em nosso organismo, em nossa alma — à proporção que ela esvazia-se de todos os princípios elevados e fortificantes da virtude, com a qual se incompatibiliza.
Aniquila a um tempo o cérebro e o coração.
Para alimentá-la, voraz e inexorável — faz-se necessário o sacrifício espantoso das ideias, das mais sagradas ilusões, dos sonhos os mais brilhantes e elevados, violam-se os preceitos austeros da virtude e afogam-se as expansões indomáveis do brio; quando, afinal, nada disto mais existe, ela completa o seu curso sinistro, o indivíduo fica materialmente completo — a vida, porém, traduz-se apenas na vibração mecânica dos nervos e resta uma coisa mais triste e mais dolorosa que a decomposição do organismo, a decomposição do caráter!
Atingido por ela, tendo-a, sinistra, localizada na alma, o paciente, em geral, manifesta-se feliz; tem a cômoda despreocupação dos que não podem pensar, dos que não sabem sentir; adquire ante as reações constantes e contínuas da vida, a impassibilidade feliz dos eunucos; enfrenta imperturbável o perigo de todas as posições; na tribuna — assume a postura teatral de Mirabeau, ruge como Danton, finge pensar como Condorcet e imita a tranq uilidade soberana e nobre de Vergniaud; na imprensa, reveste-se à vontade das lantejoulas do estilo, dá aos períodos as ondulações caprichosas e suaves das serpentes, caracteriza-se de Rochefort e exprime-se violentamente, sabe ser irônico como Alphonse Karr e procura tranq uilamente imitar o brilhantismo de Girardin; em todos os ramos da atividade aparece revestido de um vigor aparente, feliz, brilhante, ruidoso…
No entanto, está morto.
Toda a sua ação, reflexa — é inconsciente; a sua voz, existe na existência de outras vozes — é um eco; os seus atos, longe de exprimirem uma função de sua vontade, indicam a existência de outros atos; não raciocina, não fala, recita; não vive — move-se, agita-se fervorosamente, enquanto as células cerebrais conservam-se friamente imóveis e o coração oscila-lhe no peito, mecanicamente, com a insensibilidade material de um pêndulo. Esta epidemia existe, está entre nós — vimo-la ontem, ostensivamente, ao entrarmos na sala das sessões da Assembléia Provincial. Sentimos os seus germes destruidores no ambiente onde pairava, grandiosa e violenta, a vibração da palavra brilhante do Dr. Campos Sales. Vimos, claramente, agitarem-se em frente às suas vítimas, revestidos dos movimentos bruscos e inconscientes dos cadáveres impulsionados pela galvanoplástica.
Pairava-lhes em torno, a expansão invencível e brilhante das ideias mais generosas de nosso tempo e enquanto os corações revelavam-se comovidos, apaixonada e altiva a lógica do Dr. Prudente de Morais — rígida e inteiriça como o seu caráter — levava de vencida os velhos expedientes que tantas vezes antolham-se às discussões sérias; toda aquela gente obedecia a um mecanismo oculto — impassível, aniquilada — morta.
Esta sombria moléstia tem um nome — automatismo.
VI
(Província de S. Paulo, 18 jan. 1889)
A anarquia…
Arrebatados na corrente prodigiosa das novas ideias, e dos novos ideais, na vertigem de uma queda iminente, os advogados da grande causa perdida que se nos antepõem apegam-se a esta palavra com uma sofreguidão de náufragos; ela constitui a posição de equilíbrio dos movimentos desordenados das suas ideias, e quando — na imprensa ou na tribuna — a inteligência extingue-se-lhes afogada no próprio vazio dos períodos, numa tristíssima pobreza de argumentos sérios — é ela que consegue levantá-los ao nível da discussão.
Diante das ideias que tonificam vigorosamente o organismo da pátria, e que se traduzem no movimento ascensional, deslocam-na assustadora e imensa, provocando a discórdia no seio das instituições, opondo tropeços à administração do governo, estabelecendo o antagonismo dos interesses, destruindo o crédito, exaurindo as fontes de trabalho, obscurecendo as noções elevadas da justiça e perturbando lamentavelmente a serenidade da consciência pública. Em falta de inteligência, expandem amplamente a imaginação — pintam-na inteiramente estendida por toda a vastidão do país, destruindo a coesão que deve presidir os esforços das classes laboriosas, empanando o brilho imaculado das leis, ameaçando o presente pela dispersão violenta de todos os elementos de ordem; levando ainda além a sua missão maldita; insinuando-se no seio das academias — ameaçando o futuro…
E atribuem-na aos republicanos.
Quanta injustiça, porém, em tudo isto. Nós podíamos perfeitamente levantar esta palavra que se nos atira como um argumento inquebrável; podíamos revestir-nos do título de anarquistas, como revestimo-nos altivamente do qualificativo nobilíssimo de revolucionários — bastava-nos para isto um apelo à lógica invencível do pensador mais original do nosso século — Proudhon — e, embora paradoxal a teoria que ele sustenta, abroquelados nela, seríamos invencíveis ante a força liliputiana dos que nos atacam.
Não o queremos, porém — reconhecemos também que a anarquia, justamente pelo fato de se aproximar da liberdade absoluta — não pode existir porque não deve existir; a própria orientação filosófica que possuímos impõe-nos a todo instante a subordinação racional às leis; ante o estado atual da civilização, reconhecemos que o mais livre não é o mais assomado e sim o mais inteligente; a consciência do homem moderno forma-se pela subordinação constante de sua inteligência às leis positivas da ciência e atualmente revolta-se contra o que está racionalmente estabelecido; indica, antes de tudo — ignorância.
Na posição em que nos achamos nivelados, pela altitude de nossas ideias, à civilização do nosso tempo, inteiramente subordinado às leis que regulam o desenvolvimento natural da sociedade, somos por certo revolucionários, porque a força que transmitimos ao sistema social, em conflito com a sua deplorável fraqueza — produz naturalmente a perturbação, o desequilíbrio.
Isto, porém, justamente porque exprime uma revolta contra o estado atual das coisas, patenteia uma elevada e digna subordinação aos princípios que racionalmente regulam a organização e desenvolvimento de nossa pátria.
A anarquia não parte de nosso lado; deriva-se da nossa ação, é certo — mas justamente por isso, como reação, nos é oposta; ela é que nos ataca — nas ruas, no parlamento e na imprensa — com a brutalidade dos capangas, como as injúrias inconscientes dos pseudo-representantes da pátria e com a descortesia escandalosa dos jornalistas sem critério.
A anarquia não penetrou nas academias, insinuando-se no ânimo da mocidade; desde a matemática à sociologia, toda a ciência opõe-se-lhe vitoriosamente, cada página dos livros é-lhe uma barreira insuperável, podem nelas existir talvez revolucionários, altivos e audazes, temperamentos que se expandem violentamente, altivamente e dignamente, e falamos por experiência própria — mas quando isto se dá, quando se manifesta esse desequilíbrio lamentável entre as paixões e as ideias, por sobre o delírio espantoso de nossa alma, se alevantam serenos e imaculados os grandes ideais que a iluminam, como se alevantam tranq uilos e grandes os brilhos das constelações sobre o delírio pavoroso das tempestades…
VII
(Província de S. Paulo, 23 jan. 1889)
Sem cedermos de nossas convicções, antes subordinados a elas, inteiramente, afirmamos, com os nossos adversários, que o partido republicano não existe. De fato, não restringimos as nossas ideias a um tão estreito círculo de ação; entre as forças que nos alentam — por escusado temos demonstrar — que não entram as que efêmeras e frágeis se adaptam, contudo, melhor à existência de uma parcialidade política.
A nossa evolução mental precedeu necessariamente a um elevadíssimo desenvolvimento emocional e por isso as nossas próprias paixões têm um caráter mais geral e mais nobre.
Não constituímos uma agremiação de indivíduos, que impele violentamente uma opinião para esmagar um trono — afastamo-nos deste pelo impulso de uma idéia. Certos, profundamente convictos, de que o regímen atual é em sua essência estacionário, para destruí-lo, para livrarmo-nos dele, basta-nos uma coisa simplíssima — fazer caminhar a pátria!…
Somos alguma coisa mais que um partido, embora relativamente pouco numerosos, aumentados pela extensão dos princípios e pela sua generalidade, podemos afirmar — sem que se veja nisso um exagero de frase — que constituímos a molécula integrante de uma nova sociedade…
A propaganda republicana teoricamente tem, antes de tudo, o caráter doutrinário de um apostolado; cingida do sistema geral de seus princípios, tem para impeli-la a força que se deriva da inteira adaptação destes às necessidades atuais; empiricamente, longe de exprimir a atividade de uma facção partidária, é o reflexo, no mundo político, de um movimento social ou, antes, de uma transformação; como tudo na natureza, as nacionalidades se transformam e ela representa o estado intermediário, de transição — entre uma decomposição e uma recomposição.
De fato, obedecendo à própria lei da concorrência vital, que preside ao desenvolvimento universal da vida, há, sob os brilhos da constelação do Cruzeiro — uma sociedade que se decompõe, à proporção que em seu próprio seio, mais robusta e maior, uma outra se desenvolve.
Como os indivíduos e numa escala maior — as nacionalidades obedecem fatalmente às exigências sempre crescentes da vida, e, nesse combate eterno e prodigioso, em que têm de apelar para todos os ramos da atividade, concorrendo violentamente com os que, por demasiado fracos, se inabilitam à realização de seus elevados destinos, abdicam forçosamente da própria existência.
À nossa nacionalidade — confessamos pesarosamente — nunca foi necessário o apelo à própria energia para viver, enquanto ao resto das nações, o futuro constituía um problema imenso, ante o qual tornava-se-lhes indispensável, constantemente, enrijar a própria organização, na rudeza disciplinadora dos trabalhos industriais, a que precedem forçosamente os esforços da inteligência; protegida pela natureza, bastava-lhe — para viver — adotar a forma primitiva da atividade humana. Além disto, barbarizada e egoísta, assumiu ante o movimento geral da civilização uma posição singular, divorciando-se da humanidade por meio de um escândalo — a escravidão; perdendo assim o movimento progressista do conjunto, desprotegida ante o maquiavelismo de uma velha política, automatizada, sem energia própria, movendo-se sem progredir, circularmente, ao impulso das tradições — em torno de uma dinastia — pela própria natureza desse movimento, adquiriu como única força a repulsão aos elevados princípios que tendiam a impulsioná-lo retilineamente para o futuro. Durante todo este século cresceu, não pelo íntimo desenvolvimento de sua organização — mas por superposição de camadas, como os corpos inorgânicos, sem que atestasse nisso um acréscimo de vida — e hoje, assoberbada pela própria grandeza de um destino que não pôde realizar, terá de refundir-se à luz vivificante dos novos ideais e reviver unicamente no que tiver de bom em uma outra mais robusta e digna.
A sua sorte acha-se de todo aliada à da monarquia e quando, amanhã, partido o último dente da medonha engrenagem política, que há tempo tempo realiza a inglória tarefa do esmagamento completo das grandes ideias — aquela cair — o advento da República não indicará a vitória de um partido — exprimirá o renascimento de uma sociedade.
VIII
(Província de S. Paulo, 24 jan. 1889)
Decididamente, fazemos mal em levar a sério a reação contra os acontecimentos atuais.
Nessa jornada ideal para o futuro — cadenciada ao ritmo febril de nossos corações — chegamos a crer que não fica bem — a nós, moços — esse tom dogmático e austero, ante a hilariante degringolade do velho regímen.
Por que razão, ante os velhos La Palisse dessa nossa política, homens que na proximidade do túmulo tão bem sabem rir e desfrutar a vida — havemos de enterrar nas rugas prematuras da fronte as encantadoras fantasias da mocidade?
Não, decididamente não nos serve a compostura rígida e impenetrável; a frase meditada e severa; a sinceridade na emissão grandiosa das ideias e a espontânea e desassombrada franqueza — para combater essa gente.
Ante ela, não vale realmente a pena a gravidade sistemática que adotamos e que envelhece a nossa mocidade. É preciso que a compartilhemos também um pouco da salutar alacridade que anima; que demos ao estilo a flexibilidade interessante dos acrobatas e dos cortesãos; que façamos espírito sobre as ruínas da pátria; que estabeleçamos larga importação de calembourgs, dentro dos romances franceses e lancemos também ao trapézio ideal da fantasia, como um clown destemido, o pensamento tão precocemente levado aos retiros tristonhos da meditação…
Ante o estado atual das coisas, para que ridicularizarmos as próprias paixões; para que criarmos impiedosamente o descrédito das próprias mágoas?…
Ainda há pouco, ao sabermos do malogro da conferência que pretendia realizar um médico ilustre — o qual tem a imensa infelicidade de ser republicano — , sentimo-nos assoberbados pela violência da maior indignação e expandimo-la amplamente sobre muitas folhas de papel, através das mais severas considerações e do contínuo estrepitar de uns adjetivos virulentos, fulminantes. Foi um trabalho perdido. Raciocinando com mais espírito, vimos nesse acontecimento um fato naturalíssimo.
É exato que a nossa Constituição estabelece plena liberdade de pensamento, mas ela, que nos foi imposta pela insignificante espada de um pequeno Bonaparte, bem pode ser violada pelo cacete, talvez mais forte, de qualquer capanga. Longe vai o tempo em que — aterrorizados pelas visagens truanescas dos corifeus governamentais, pensávamos na expansão violentíssima das grandes almas revolucionárias e heróicas. Chegamos a sentir necessidade de um Danton — tempestuoso e nobre — capaz de transmitir ao povo, através da fortaleza de sua palavra, todo o vigor de seu temperamento: evocamos mentalmente os vultos lendários quase das grandes revoluções; mas hoje, melhor orientados, temo-los por desnecessários.
A velha sociedade extingue-se naturalmente, comicamente até, e se há alguém cuja presença devesse se achar em meio dos acontecimentos atuais, esse é o grande gênio da alta comédia — Molière…
Assim, pois, sintamo-nos felizes com toda gente.
Afirmam, por aí, que somos poucos, que nos achamos sós; ainda bem, alentados pela serenidade imperturbável e boa dos fortes, assistamos ao interessante espetáculo do nosso mundo político, sós e bem altos — da eminência fulgurante do ideal… Proudhon
DA CORTE
(Província de S. Paulo, 17 maio 1889)
Longe de seguir o velho precendente dos cronistas neófitos, em contínua luta com a escassez de assuntos, tolhe-me a pena a acumulação destes. Por um fenômeno idêntico ao da treva, produzida na interferência das luzes —, os acontecimentos e os sentimentos que originam, múltiplos, antagônicos, dispersos, chocam-se, contrabatem-se, reagem, interferem, destroem-se pelo equilíbrio e eu fico sem assunto e insensível.
Neste momento — o mais grave talvez de uma profunda transformação, faz-se preciso para esquiçar a feição da nossa nacionalidade alguém de um temperamento monstruoso, através do qual irmanem-se as mais opostas manifestações da afetividade e que sendo a um tempo Juvenal e Dante, possa ter no estilo a expressão dúbia e medonha do choro hilariante, da risada dolorosa de Grinplain!…
De fato — admitindo que os cérebros dos pensadores tenham na reflexão maravilhosa dos acontecimentos a pureza imaculada dos cristais e que assim as ideias sejam as imagens virtuais dos fatos, é bem de ver que tudo o que se passa em torno de nós deve refletir-lhes na alma um misto incompreensível e estranho de alegrias, tristezas e dolorosa ironia.
Colocado no seio da sociedade atual — à mercê das forças que a agitam, expansões egoísticas de milhares de interesses irradiando a todas as direções — o nosso espírito — não poderá fixar uma direção retilínea e agitando-se, morrendo-se, oscilará indeterminadamente, indeciso, da esperança à desilusão — a todo o instante feliz, triste a todo o instante.
Unicamente uma disciplina mental esmagadora, inexorável — tal que pelo aniquilamento inteiro das paixões, nos facultasse a abdicação da própria individualidade, poderia dar à nossa pátria um Guizot que relacionasse os fatos e um Plutarco que definisse os homens… Quanto a nós — apaixonados —, inermes ante o assalto das emoções, em comunicação direta com a perturbação geral, harmonizados à desarmonia, batidos pela inconstância dos homens e dos fatos — meditaremos através de uma vertigem — e o mesmo fluxo de sangue, irrompendo-se do coração, nos levará ao cérebro, a um tempo, a mais consoladora esperança e o mais sombrio desalento…
Para os que sabem que em nossa terra não há política, mas sim um partidarismo infrene — pois que aquela é a aplicação de conhecimentos que os nossos pseudopolíticos não têm, nem podem ter, e este redunda afinal, numa tristíssima conspiração contra os caracteres — as linhas que deixamos escritas não exprimirão um pessimismo doentio, estimulado pela preocupação de fazer estilo.
Quanto aos que, dotados de uma feliz ingenuidade — supõe-nos orientados por poderosas compleições intelectuais, sadias, robustas, revigoradas na atmosfera luminosa dos livros — esses — cuja miopia extrema confunde o Sr. João Alfredo e Gladstone, justificar-nos-ão em face dos últimos acontecimentos.
Os últimos acontecimentos… eu poderia perfeitamente, encarando a sua feição boa e honesta, iluminar a minha frase com um reflexo inda que enfraquecido da grande e brilhantíssima expansão de generosidade da alma nobilíssima do povo ante os martírios de Campinas… Volto-me, porém, à sua feição triste e má; imponho-me à pena de procurá-la nas estreitezas do nosso mundo político, pequeno demais para as paixões que contém e que, violentas, insensatas, refluindo numa concentração contínua de forças — umas sobre as outras —, aquecidas pelo egoísmo de todos, produzem a decomposição do caráter, como o acúmulo de temperaturas a dissociação do diamante. Pois bem, é ante o espetáculo da nossa política que me assaltam as mais opostas emoções.
Expulso do Senado, impossibilitado de entrar na Câmara — fechada por um capricho da oposição —, este pequeno grupo de indivíduos, inconscientes da própria posição, agarrados às pastas como avaros às bolsas e sobre cada um dos quais, solene e inflexível pesa a condenação das consciências honestas — patenteia-nos um quadro indefinível, incute-nos um sentimento incompreensível, idêntico ao que nos assoberba ao vermos, envolta na cintilação dos versos de Milton — uma agonia de demônios!…
Realmente o que presenciamos nada mais é que uma tristíssima agonia de alguns homens que, sem espírito e estudo bastante para engrandecerem a vida, harmonizando-a à grandiosa existência da pátria, extinguem-se, lentamente, pela asfixia da própria alma dentro do próprio egoísmo…
Desaparecendo amanhã do curso da existência nacional — essa gente não cairá, dissolver-se-á, a queda supõe anteriormente uma posição elevada: — caindo, no parlamento inglês, do alto de um grande ideal, Gladstone, lembra-nos no mundo moral a queda resplandecente de uma estrela.
Quase sempre — cair não é descer.
Essa gente não cairá.
À última hora um espírito eminente — denunciou à pátria os horrores de uma conspiração.
Parecia que o aniversário da ação mais elevada e humana de nosso povo — a exemplo das solenidades antigas — sagrar-se-ia no sangue de milhares de vítimas. A coisa, ao que parece, far-se-ia com todos os atrativos de um verdadeiro festival; citavam-se já, à luz meridiana, os nomes dos felizes destinados às aras do sacrifício; havia um programa preestabelecido com todos os elementos de um drama de sensação; as reclames irradiavam a toda parte, levados por entidades patibulares, eminentemente próprias a fazer-nos desmaiar de pavor; segundo corre — a exemplo dos ensang uentados dramalhões de D'Ennery devia ser o elemento principal das situações proféticas — o punhal!
Apontavam-se mesmo, na Rua do Ouvidor, os corifeus da nova Saint-Barthélémy — prestes a estender a sua sombra sob o nosso sol americano — talvez por um capricho de neto de Carlos IX…
Como a lei natural do atavismo se exemplifica da história?!…
O que ia se dar se um recrudescimento de covardia não paralisasse à última hora o braço dos covardes — seria como uma invasão de bárbaros no século XIX.
Assim — iam esfacelar a pátria, matar, exterminar, romper-nos o peito a facadas, envergonhar a humanidade e escandalizar o nosso século: serena e inviolável, ideal que constitui a essência mais do que da alma brasileira — da alma americana — a Democracia havia de pairar sobre os destroços — como um Íris feito pela refração maravilhosa dos brilhos de nossas crenças, através do nosso sangue…
Felizmente, porém, lembraram-se os Átilas e Gensericos dessa onda de alucinados — que os seus sócios da Média Idade — viris, indômitos, inexoráveis — após ruírem o maior império do mundo — e colocarem sobre o seio de Roma a rija ferradura dos seus cavalos — estacaram combalidos e respeitosos ante a velha Catedral — guardada pela força sobre-humana do ideal.
HOMENS DE HOJE
I
(Província de S. Paulo, 22 jun. 1889)
Como o átomo na química ou o infinitamente pequeno na matemática, o homem, em sociologia, tem a existência subjetiva de um tipo abstrato.
Unicamente considerando-o assim, desta forma, diríamos metafísica, se não fosse esta a palavra mais condenada hoje, tornou-se possível o estabelecimento da ciência social. Aí, como o dx de Leibnitz, ele exprime uma abstração imensa; é uma construção lógica e as suas propriedades características não são as que hoje tem, mas as que terá após um aperfeiçoamento excessivamente remoto.