Crates Mallotes ou Critica Dialogistica dos Grammaticos Defuntos contra a pedantaria do tempo
Part 3
Nem ter sido Embaixador, replicou Crates, nem ter sido o primeiro Mestre dos antigos Romanos, equivale a ter sido, como tu, o primeiro açoite da pedantaria, e do ranço de todos os Grammaticos do universo. Eu aqui ficarei.
Dizendo isto puxou do escabello, que estava diante da cadeira, e pólo para o lado: e Sanches naõ teve remedio senaõ obedecer, subir, assentar-se: e todos fizeram o mesmo.
Hum pouco esteve Sanches, como quem estava reflectindo, depois do que voltando-se para Crates fez huma profunda venia; mas nem por isso deixou de significar a todos a sua civilidade. Eu tenho grande pena de vos naõ poder pintar ao vivo a delicadeza, graça, e energia da sua pronuncia, por isso só vos escreverei o seu arrazoado, cujo comêço he o seguinte.
Se os pais ás mãos ambas semeam o pedantismo, e os Professores idiotas nas campinas da mocidade saccos cheios vaõ deitando: saõ sem dúvida os máos livros o celleiro infame, aonde taõ pestifera semente está guardada. Os escritos impressos naõ tem numero; elles vaõ durando com as épocas futuras: o bom e o máu nelles vai vivendo. Assim he que as fallas humanas duram, depois do homem naõ viver. E como já naõ he preciso o penoso trabalho de trasladar livros, como antigamente, eilos vulgares: e sendo poucos os que possam ser juizes da bondade, ou ruindade, que nelles houver, entaõ adquirem apaixonados os que naõ saõ bons; e censores, os que o saõ. Por outra via ha homens ou taõ ignorantes, ou taõ fatuos, que julgam verdades eternas tudo o que está escripto em letra redonda. He por estas bem claras razões, que muitos sabios ainda naõ poderam decidir, se a arte Typografica tenha aproveitado mais ás Letras, ou se mais as tenha offendido.
He certo, disse Sciopio, que ella faz conservar escriptos, cuja memoria naõ devia existir: e quando muitos outros saõ funestos, naõ se póde dizer quanto seja huma multidaõ de livros didaticos, os quaes naõ só corrompem o bom gosto, mas enchem os rapazes de mais ranço do que que teria toucinho de cem annos ao fumeiro.
Em a Minerva, continuou Sanches, dei eu bem a conhecer os escriptores pedantes: he este livro bem vulgar; e o Memoravel Rei D. José lhe deu a devida estimaçaõ, mandou por hum Decreto, que nenhum Professor em Portugal deixasse de o ter, e de por elle explicar: porém isso durou pouco. Hoje ha lá muitos, que nem sabem, que ha similhante thesouro no mundo, nem tam pouco tem principios para o entenderem, e para se utilisarem.
Assim he, disse o P. Manoel Alvares, mui poucos fazem caso desse livro: e ainda agora ha quem transcreva as peiores coisas da minha arte reprovada por huma Lei, vendendo por seu o meu trabalho: julgando talvez o pódem fazer a seu salvo, por ninguem já saber o que eu escrevi.
Bem sei, que fallas, proseguio Brocense, em a arte das linguagens, que ha dias acabou de ser impressa: descança, que logo lhe faremos a caridade; porque o seu autor naõ tem mais privilegios que muitos de vós a quem censurei, e nem por isso somos inimigos; antes a nossa amizade será taõ eterna, como nós havemos de ser.
A Critica, disse Jacob Peritonio, tem o caracter de hum juiz inteiro, que sentenciando as obras segundo o seu merecimento, deve sempre deixar illeso o seu autor.
Hoje enfastia muito, disse Antonio Felis, ver resuscitar os destemperos das Grammaticas velhas; se isto se fizesse, quando eu fiz a minha compilaçaõ, e Antonio Pereira as suas artes, seria digno de perdaõ; porque nos expozemos ás maiores calúmnias, como todos sabem, e as quaes muito nos vexariam, a naõ sermos protegidos pelo braço Real; e ainda assim naõ padecemos pouco.
Eu honrei Hespanha com as minhas obras, continuou Brocense, e a paga que recebi dos meus serviços, foi ver a Minerva condemnada ao pó de bem poucas livrarias; a qual se fez taõ rara, que sendo achada por Sciopio, a quiz reimprimir por sua, julgando haver-se inteiramente perdido a sua lembrança; mas ainda houve entaõ quem restituisse ao meu nome a gloria, que se lhe hia a roubar.
Apenas assim fallou, todos olháram para Sciopio como enfadados; elle porém muito senhor de si, se desforrou, dizendo: Isso tudo he verdade; mas depois em todas as minhas obras Grammaticaes, me intitulei teu discipulo, nome que muito bem desempenhei, e ajudei a tua espada a dar os mais profundos golpes no cachaço dos pedantes.
Tivemos pelo meio deste seculo, disse Sanches consternado, homens grandes por amigos, pelos fins delle só conheço hum escriptor, que com as suas, e nossas opiniões honrará as provincias da Grammatica, sempre que por ellas corra, quem ahi naõ seja peregrino. Mas porque fallamos em os ultimos escriptores desta idade; faça-se justiça: vinde cá, Inglez.
Assim que me chamou, fui chegando a cadeira, e como elle fallou em Justiça, fiquei pouco satisfeito, cuidando já se sabe, que se me faria alguma execuçaõ á móda de Inglaterra. Já estes cuidados me ruiam o coraçaõ, quando veio da boca de Sanches hum repellaõ de vento, e me levou a béca de plumas. Entaõ he que pensei, naõ tardaria, que a cabeça me voasse. Mas estes sustos se converteram em galhofa logo que ví a béca de pennas, tambem convertida em folhetos de papel; e a mim em trajes de marujo, como d'antes.
Com esses vestidos, disse-me Crates Mallotes todo risonho, podeste tu vir do mundo; mas com outros has de tornar.
Eu estava com olho de punho para os folhetos, a ver aonde fosse o caso dar comsigo; entaõ chegou hum contino, que bem conheci ser hum Grammatico mui pedante, o qual em Londres ficava, quando de lá sahi. Pegou pois este criado em os cadernos, e pregou-os na parede. Veio outro, e com toda a humildade (do que me admirei por ter sido Francez, e deixar de ser arrogante) e metteu na maõ de Brocense hum ponteiro de barba de balêa; mas o cabo era de oiro massiço, em que estavam esculpidos tres escriptores Portuguezes: os quaes ficaram fechados em a maõ do Hespanhol, cujos nomes naõ tive licença de declarar em esta Historia; mas os escriptos, que saõ do direito publico, naõ tiveram a mesma prohibiçaõ: e confesso-vos, que nesta parte escrevo constrangido, e callo muitas coisas, que reporei, a quem me pedir contas, ajuntando outros appensos, que Crates Mallotes, do outro mundo me promette.
Mas tornando ao proposito, estendeu Sanches o seu ponteiro para a parede, e entaõ ví em correnteza tres artes de Grammatica: Lê esse primeiro titulo, disse; entaõ li alto, e em voz clara _Novo Epitome de Grammatica Latina Moderna, ou Verdadeiro Methodo de ensinar Latim a hum Principiante.... Lisboa.... Anno de 1795_.
Naõ appareceu ainda, continuou, hum livro mais bello para ensino da mocidade, nem que seja mais accommodado para ser explicado conforme as determinações do grande D. José I.
Vê estes Nominativos, estes Generos como estaõ taõ bem ordenados. Estas Linguagens, expostas em taboas synopticas: como debaixo de hum ponto de vista obriga o menino a firmar a sua memoria? Estas _raizes_ de formaçaõ! Estes _preteritos_! Quem até agora fez huma Syntaxe como esta? Quem melhor Prosodia? Como he em tudo coherente! E estas _notas_ naõ fazem por ventura hum systema completo?
Tem boa duvida, disse o Barbadinho, e o que mais admiro além das novidades, que escaparam ao teu engenho, he a brevidade e clareza, com que ensina o que outros naõ poderiam em bem gordos volumes.
Esse moço, disse Antonio Pereira, tem dedo para isso, e ainda o vereis dar á sua patria signaes de bom filho.
Mas ha Professores, replicou Vocio, que dizem ser esse livro muito bom para Mestres; mas que naõ presta para rapazes, pela ordem Filosofica com que foi tecido. E que dizeis a esta? Digo, respondeu Sanches, que he para rapazes, mas para rapazes, que naõ tenham a desfortuna de serem discipulos de similhantes Mestres. Como se Filosofia naõ fosse a recta razaõ, ou se sem ella possa haver bom escriptor, ou bom Mestre?
Eu pasmo, disse o Barbadinho de ver tanto charlataõ; cuidei, com as minhas Cartas, ou com a Introducçaõ Historica, e Critica, tinha curado a loucura dos Pythagoricos: agora vejo, naõ fiz nada. Acaso naõ he para rapazes huma arte, que ensina sem confusaõ a hum principiante, a hum adiantado, a hum Mestre? Huma obra que tem tudo em seu lugar? Em que concorda o principio com o meio, e o meio com o fim?
Esses homens, disse Palemaõ, eram bons para Mestres de papagaios; e fazia huma grande caridade quem os mandasse para o Certaõ, dirigir pretos.
Parece-me, disse Lithocómo, que o autor desta arte errou em lhe chamar Epitome; porque sendo huma obra completa, devia-lhe chamar Flagello do ranço Grammatical do fim do XVIII. seculo: e saõ homens de má cabeça os que desdanham de livro taõ bello.
Acabava Ludolfo Lithocómo taõ douta reflexaõ, quando Joaõ Garcia exclamou: Mil parabens á Naçaõ Hespanhola, que ainda tem filhos, que deram próvas do seu bom gosto na versaõ desta arte, datada em Madrid em 1797.
O discipulo digno de Sanches (continuou elle mesmo) consola a tua paciencia com estes elogios, até que a Ignorancia invejosa naõ morda o teu serviço com seus dentes carunchosos. Quando para aqui vieres serás carregado de louvores; porque a Inveja mordaz em os bons defunctos naõ acha que roer.
Aqui se levantou Joaõ de Barros, exclamando: Quem naõ vê o serviço que eu fiz aos Portuguezes? Eu escrevi os seus illustres feitos, que fizeram pasmar a todos os povos do mundo, e o fructo que em meus dias entrou em meus celeiros, foram taõ descomedidas, como escandalosas censuras; ha muito porém, que depois da minha morte sou chamado o Livio Portuguez, o Mestre do patrio idioma.
A melhor satisfacçaõ, disse o P. Buffier, que o bom escriptor possue em sua vida he a consciencia do louvor, que naõ póde ser affogada nem pelo mais basto oceano de calumnias.
Já tudo estava em o mais profundo silencio, e Sanches medindo com os olhos inquietos todo aquelle livro: mostrando com o continuo movimento da cabeça quanto delle gostava, até que depois de hum largo intervallo, com os beiços alguma coisa sobrepostos, fez-lhe huma profunda inclinaçaõ: e logo com o seu ponteiro, o qual em o tempo da sua revisaõ estivera voltado para o hombro direito, bateu na dita arte, a qual desappareceu.
Mas qual naõ foi a minha admiraçaõ quando me vi convertido em hum guapo passaro, desde a cabeça até o embigo? Naõ ha nem oiro, nem pedras preciosas no mundo, com que possa comparar a formosura das minhas pennas. Entaõ me lembrou que o ponteiro de Sanches era mais milagroso que a vara de Mercurio. Por certo, dizia eu comigo, que os mortos saõ mais habilidosos, que os vivos.
Quando eu corria veloz por estas, e outras muitas cogitações, e me estava namorando, qual outro Narciso, já o amigo Sanches estava a contas com a segunda arte, cujo titulo era _Novo Compendio da Grammatica Latina, &c. Coimbra.... Anno de 1796_. Como insulta, dizia, nesse arrogante Prologo a todos os Grammaticos! Como se vale de Despauterio! Mas quede a sua Grammatica Filosófica, que promette? Aquella Grammatica Filosofica desconhecida até agora?
Ella ahi está em pouco mais de meia folha de papel, respondeu Condillac, vê como desfigurou a minha doutrina! Quantas idéas intermedias naõ ficam ahi cortadas?
Essa Grammatica Filosófica, disse Gaspar Sciopio, he bem similhante ás escadas de hum edificio, apartadas sete braças humas das outras. Donde nem as pernas de hum gigante as pódem alcancar; e muito menos as de hum rapaz, que saõ mui curtas.
Toda a Etymologia Latina, e Prosodia, continuou Sanches, bem vedes, serem quasi formaes de Antonio Fereira, com algumas coisas de outros autores.
Sim, disse o Barbadinho, alguns exemplos tem seus; corta, e accrescenta algumas poucas coisas, e outras as muda: porem de ordinario he infeliz, como se vê no incremento em _A_.
Em a Syntaxe, proseguio Brocense, em que se conhece quanto vale hum escriptor deste genero, nem vejo novidade, nem methodo algum. Ora quem póde soffrer estas incoherencias?
Huma Grammatica em tudo perfeita, disse o Barbadinho, he coisa mais difficultosa de encontrar, do que agulha em palheiro; os sabios ainda hoje suspiram por ella.
Eu concedo, disse o P. Antonio Rodrigues Dantas, que até hoje ninguem tem escripto sem defeito, e que he optimo o livro, que tem mui poucos erros. Mas naõ posso tolerar, o ver gritar com Despauterio contra todas as Grammaticas, e reprehender-se neste ponto naõ só a Portugal, mas tambem a toda a Europa; e dizer-se claramente ser esse o motivo de Sahir ao mundo aquelle grande parto.
Eu gritava, confessou lisamente Despauterio, porque naõ via a trava no meu olho: esse moderno todavia faz bem justas as minhas queixas, com a inutilidade de seus escriptos.
Quem tanto de si presume, disse Sanches agastado, devia satisfazer ás suas promessas, e naõ imitar ao monte, que depois de tantos brados pario o que eu tenho vergonha de dizer.
Hum rato sem pello, disse Palemaõ, foi o grande parto que se esperava, o qual fez arrebentar de riso aos que deraõ attençaõ aos seus gritos, e nelles se fiáraõ.
Ainda fallava este mordaz, senaõ quando Brocense, mostrando em seu semblante huma indisivel desplicencia, bateu naquelles escriptos, que logo fugiram. Entaõ fiquei desde o embigo até ao pé direito carregado de pennas cor de papel pardo. Já pois para ser passaro completo, me naõ faltava mais, que o lado esquerdo desde aquelle ponto, que já disse.
Entre tanto que eu observava a differença das minhas pennas, clamou Sanches enfurecido. He possivel, que no fim do XVIII. seculo apparecesse no mundo huma arte como esta?
Entaõ virei o bico para a parede, e lí o frontispicio da ultima arte, o qual era _Novo Methodo de Grammatica Latina &c... Lisboa... Anno de 1799_. Mas ninguem repare de ver hum passaro a ler; porque eu era passaro feito no outro mundo.
Mal acabei de ler o titulo, e o Hespanhol, trazendo o ponteiro em hum redupio, clamava: Vê, vê as incoherencias dessa Etymologia. Vê aqui como esta _Hic_, _haec_, _hoc_, feito particula, contra o que se diz alli em o número das partes da oraçaõ. Forte miscilania! E que vos parecem essas linguagens eternas? Por ventura poderá hum rapaz decoralas em dez annos?
Na verdade, continuou Sanches, estes Infinitos estam bem fartos de embrulhos. E a pezar de terem o Portuguez do Indicativo, ainda lhes falta o do Conjunctivo; e quem gosta de tanta selada, quanto naõ gostaria de ter noticia de mais estas alfaces?
Assim como, disse o Barbadinho este escriptor saccou com a repetiçaõ sómente de certas letras finaes as Raizes de formaçaõ do Novo Epitome, e desfigurou outras coisas; porque naõ leu aquella interessante Nota de Syntaxe, aonde absolve os rapazes destas sempiternas perlengas?
Tudo he huma palhada, disse Manoel Alvares; se essas linguagens tivessem o _Já entaõ_, o _oxalá_, e o _cum_, nenhuma differença tinham das minhas, senaõ o serem ainda mais extensas.
Essa arte, disse Sciopio, com mais justiça merecia ser queimada, do que foi a tua; porque se foste máu Grammatico, ninguem te póde roubar a gloria de teres sido optimo Latino. Os teus versos naõ invejam aos melhores da idade de Augusto: mas de Grammatica foste hum verdugo, como se próva claramente nas Instrucções de 1759. Tambem o teu Mercurio, disse Alvares, naõ foi quem abrio os olhos aos mortaes.
Isto picou tanto a Sciopio, que entrou com a sua mordacidade a altercar taõ descomedidamente, que já a favor de Manoel Alvares se vinha chegando Prisciano, para rebater aquelles dicterios. Entaõ o sabio Presidente em tom magistral, assim fallou: Nada de calúmnias; Manoel Alvares para o tempo em que viveu merece desculpa, seguio aos que lhe precederam, como as ovelhas ao carneiro do chocalho. Mas no fim do chamado seculo das luzes apparecer huma arte como esta, depois de tantos livros excellentes? porém naõ percamos mais o nosso trabalho.
Logo que assim acabou, sem querer ver mais nada olhou carrancudo para aquelles folhetos, e elles como settas me ficaram cravados pelo lado esquerdo, pennas, já se sabe, cor de mechas.
Assim he que me fui aos poucos convertendo em passaro na ilha dos Mortos. Sanches desceu da Cadeira, praticou com os outros relatores. E todos diziam: Viva Crates Mallotes, viva, que campou na escolha que fez. Porém reparei, que Despauterio naõ gostára da galhófa.
Acabados estes comprimentos sahiram todos, e eu feito passaro entre elles, com o meu rabo de rastros, taõ comprido como as linguagens do Novo Methodo. Porém, como naõ perdi a falla, agradeci muito ao Embaixador do Rei Attalo, o devertimento que me deu. E certamente nunca vi opera taõ gostosa; porque sem duvida deixarei todos os gostos do mundo de boa mente, quando se me offereça similhante fortuna: e ainda espero de lá tornar.
Mas como hia dizendo: já estava desconfiado de tornar a Inglaterra; Crates porém, que era mui esperto, e mui politico, conhecendo a minha desconfiança, disse a Sanches: Mostrai a esse hospede as coisas mais notaveis da nossa ilha, para ir o mais breve para sua casa. E tu, amigo Gúliver, desculpa, naõ te poder acompanhar, bem vês, que hum coixo naõ póde andar depressa; porém o respeitavel Teive iré em meu lugar. Ide; eu naõ tardarei muito em ser comvosco; lá nos veremos no mirante de Carlos Magno.
DIALOGO V.
_Necessidade da obediencia: elogios da naçaõ Portugueza: utilidades da Agricultura: quanto foi apreciada pelos antigos Portuguezes: castigos dos pedantes na ilha dos Mortos: chegada de Crates Mallotes, para me persuadir a ser Grammatico, &c._
Logo que Crates Mallotes mandou os seus subditos, nada se demoráram, e eu naõ pude tambem fazer outra despedida, que voltar o rabo para o ar, e o bico para o chaõ, e fazer-me de volta com taõ respeitaveis companheiros. Accusava-vos todavia de sahirem taõ apressados, que me naõ deixaram fazer os devidos comprimentos, ao menos a todos os que haviam fallado no Congresso, de quem tinha eu recebido taõ altas mercês; porque a toda a multidaõ era impossivel.
Comprimentaste a todos, disse Sanches, sem nicas, nem fingimentos dos Politicos mundanos. A obediencia he o eixo da carroça social, por falta deste dever he que ninguem hoje póde viver no mundo. A nossa sociedade compoem-se de sabios que sabem muito bem a sua obrigaçaõ, sem o conselho dos quaes nenhuma póde ser bem dirigida. O nosso velho mandou, governa, obedecemos.
Os sabios! disse Diogo de Teive com hum grande suspiro: A pedantaria!... Mas foi Deos, Gúliver, o que te fez aqui arribar: para remedio de muitos abusos literarios da minha naçaõ, que a pedantaria das outras naõ me importa. Has de achar ahi, dizia elle, has de achar, quem te ajude em este grande serviço. Já Portugal estava com seu rosto coberto de luzes, quando outros póvos estavam sepultados em as mais escuras trevas da ignorancia. Naõ ha no mundo quem tenha melhor legislaçaõ; os nossos Monarcas saõ Senhores no nome, e na Magestade; pais no procedimento: has de achar hum Principe Religioso, Pio, moderado, amigo de Deos, e dos homens; hum Principe, como Tito, que chora o dia em que naõ póde fazer mercê: que está immovel aos conselhos menos piedosos: e que naõ quer tirar o paõ aos servos do Sanctuario, para sustentar o odio, que a pedantaria do tempo tem aos altares.
Na verdade, disse Sanches, nenhuma naçaõ da Europa tem tido melhores Reis, e por isso nunca outros tiveram iguaes vassallos.
Tem boa dúvida, disse Diogo de Teive, os Portuguezes pódem-se chamar melhor filhos, que vassallos dos seus Soberanos, pela fedilidade, e amor com que todo o povo os serve.
Para que estais com isso? replicou Sanches, toda a naçaõ Portugueza se tem distinguido em tudo das mais. Quem tem tido melhores Reis? quem melhores vassallos? Quem melhores letrados? Quem melhores soldados?
E quem, continuou Teive, hum Joaõ das Regras? hum Camões? hum Barros? hum Heitor Pinto, gloria dos Frades de Belém, honra de Portugal?
Entaõ foi desenvolvendo a Historia de todos os Reis de Portugal, os sabios de todas as épocas: acções que pareciam fabulas: guerreiros: proezas até das proprias mulheres. O que tudo vos deixo de contar naõ tanto por se naõ engrossar o volume, como para economia da bolsa de meus apaixonados. Além de que tudo achareis em as Historias daquella naçaõ, ainda que os mortos sabiam o que ellas vos naõ contam.
Já Teive entrava a elogiar muitos dos vivos, sem todavia proferir os nomes de cada hum, até que todo inflammado disse: Será mais facil acabar toda a geraçaõ Portugueza, do que apossar-se della o inimigo.
O que saõ os Portuguezes, disse Sanches, ainda neste tempo dos chás, e dos caffés, em o Rossilhaõ, e em Napoles muito bem se conheceu.
Em quanto eu hia caminhando entre os dois amigos, ouvindo attentamente os elogios dos Portuguezes, que muito me deleitáram os ouvidos: tambem hia desfructando com os olhos a linda prespectiva naõ só de verdes seáras, mas tambem de vistosas arvores, carregadas de bellas fructas, assim como risonhos prados: muitas vinhas; olivaes &c. ví muitos carreiros, almocreves: muitos homens a assar castanhas, outros a pôr hortalica, outros em fim a semear batatas. Estava na verdade ancioso por saber que gente fosse aquella: e ainda mais fiquei, quando vi outros a esfolar mosquitos: e muitissimos á caça de moscas.
Já com difficuldade me podia ter; porem Teive que previo a minha curiosidade, disse-me: Bem sei que estás admirado do que vês: por isso deves saber, que naõ pódem aqui morar senaõ Grammaticos, e Professores de ler, e á medida do seu pedantismo se lhes dá cá occupaçaõ competente: Lavradores somos nós todos: os charlatães tem differentes ministerios, ou almocreves, ou carreiros, &c. os delicados assam castanhas: os negligentes caçam moscas: os que deixam de exprimir os seus pensamentos, porque naõ acham em Cicero palavras para isso, estaõ se cançando a tirar a pelle aos mosquitos. Mas como naõ gostamos de gente ociosa todos nas occasiões vaõ trabalhar em Agricultura.
Se lá no mundo, disse Sanches, mandassem cultivar a terra a homens inhabeis para as letras (naõ deixando em silencio aquelles infinitos estudantes de Mathematica, que nem sabem ler) nem mortificariam a seus Mestres, nem faltaria paõ.
Assim como em meu tempo, disse Teive, em que a Agricultura era taõ estimada: entaõ naõ era preciso vir trigo de fóra, antes havia muito para vender, e quando era cáro naõ passava o alqueire do preço de trinta réis. Oh! Felizes tempos, em que haviam sabios, haviam soldados, havia de comer!
E naõ haviam, disse Sanches, casquilhos sem religiaõ, a medirem as verdades Positivas a compasso: feitos Juristas, e Theologos abstractos.
Estas, e outras coisas diziam, e tinhamos já bastante caminhado; porém nunca me custou taõ pouco o andar. Eu bem podia voar; todavia por decencia hia a pé. Cada vez mais campinas cultivadas hia descobrindo, até que chegámos a hum oiteiro carregado de tójos, e de cardos, por onde pastava huma grande manada de jumentos, guardados por infinitos homens. Estes saõ os Professores de ler, disse Teive, que no mundo só ensináram os meninos a gaguejar, e que foram a causa de nunca poderem avançar ao estudo das sciencias. Naõ foram como os que viste em o congresso, os quaes aproveitáram mais ás suas respectivas nações, do que muitos Rhétoricos, e Filósofos.
A literatura, disse Sanches, he a base das sciencias, e quem poderá ser sabio, sem que saiba ler?
Resolvi-me pois, a fazer minhas perguntas; mas sempre commedidas para naõ me portar, como tolo. Abrí o bico, dizendo: Aonde estaõ aquelles defunctos, que nem foram Grammaticos, nem Professores de ler?
Além daquelle rio caudaloso (respondeu Sanches, apontando com o dedo) ha muitas ilhas, e cada qual tem a sua jerarquia; porém se algum foi Mestre, ou escriptor de Grammatica, ou Professor de primeiras letras, ainda que tambem fosse Rhétorico, Filósofo, Theólogo, ou General, &c. faz-nos entaõ o favor de vir para aqui.
Em quanto Sanches me satisfazia, puxou Teive de huma luneta, e olhando para além do rio, entrou a rir como hum perdido.
Aqui me obrigou a fazer segunda pergunta; porque em similhantes occasiões tem muita desculpa a curiosidade.
Naõ ha coisa mais galante, respondeu, lá está Pythágoras, com a escudélla de Diógenes entre pernas, comendo favas, como o lobo carne de borrego.