Crates Mallotes ou Critica Dialogistica dos Grammaticos Defuntos contra a pedantaria do tempo
Part 2
Mas ainda dado, replicou Barnabé de Busto, que entre os antigos, apparecesse alguma vez o luxo, esse lobo faminto, que devora a honra, a virtude, e o dinheiro, vio-se em alguma época taõ enfeitado de redicularias como hoje? Os çapatos de espeto, naõ mostram quanto he romba a cabeça de quem os traz? Os calções de talas fariam menos deshonestos os antigos Faunos, quando dançavam nús em os theatros? Os...
Basta, disse Manoel Alvares, o peor he o custo do feitio, e da peça, que dura tanto, como aquelle animalinho, que nasce pela manhã, e morre á noite. Eis-ahi a causa, diz Taberio, de huma enxurrada de caloteiros, e de meritrizes, que tudo varrem.
Naõ houve seculo, continuou Manoel Alvares, nem mais farto de viveres, nem mais abundante de gente honrada que o meu; ensinei no pateo de Santo Antaõ, e nesse tempo o ornato dos estudantes naõ passava de huma sotaina, e capa de baeta, assim como todo o luxo dos Cidadaõs consistia em huma casaca de saragoça de abas entrouxadas, e canhões de barbas até aos joelhos.
Mas essas casacas, disse Quintiliano, nunca eu approvaria pelo muito panno, que consumiam. Naõ tendes razaõ, tornou o velho Portuguez, essas casacas ficavam dos avós aos netos, e vinham a ser hum respeitavel morgado das familias: eram as melhores insignias de hum homem honrado; nem havia precisaõ de outro distinctivo: hoje porém naõ sabereis differençar nem hum ridiculo, nem hum homem de bem, senaõ com muito trabalho.
Dizeis bem, disse Caspar Sciopio, os homens honrados algum dia naõ andavam com penicos na cabeça, nem com brincos nas orelhas, salvo, se por desgraça se faziam escravos da Rainha da Lidia; porque entaõ naõ só seriaõ capazes de fiar na roca, mas tambem de levarem huma albarda ás costas com muito gosto.
He certo, proseguio Quintiliano, que os pais erram muito em consentir similhantes loucuras aos filhos, e ainda mais em praticalas; porque estes erros abrem a porta a infinitos males, os quaes perturbam a sociedade. Mas os procedimentos a respeito do espirito tem consequencias tanto mais funestas, quanto he mais attendivel a parte do homem, a qual só o póde fazer feliz, ou desgraçado.
Isso he, disse Curcio Nicia, ao que menos se attende: entrega-se o menino commummente a huma mulher para o ensinar a ler, ou vai a escóla, ou vem Mestre a casa. Porém como o ensinar a ler, sendo coisa bem trivial, naõ he todavia para ignorantes, ahi se vai condemnar o innocente ao trabalho inutil de seis, sete, e mais annos, e por fim he tal a sua leitura, que faz vomitar a quem ouve. Perdido este tempo, assim como havia de ser o resto da vida se em taes lições fosse gasto, vem entaõ Mestre Francez, já o moço sabe fazer seus comprimentos naquelle idioma, o pai, e a mãi se estaõ babando a ouvir o seu novo Monsieur. Entaõ julgam terem em casa hum sabio da Grecia; mas naõ sabe o _Padre nosso_!
Isso, disse Sciopio, he só para aquelles, cujos pais tem boas mezadas, que dem aos emigrados, que se naõ contentam com bagatellas: que os outros quasi todos vaõ para o Collegio aprender Mathematica sem fumos de literatura.
Naõ fallemos nisso, proseguio Quintiliano, quando o Lente os manda á pedra, entaõ conhece, que nem sabem fallar. Mas a pezar de tudo, disse Sciopio, saõ os chefes dos estadistas da moda: elles pelas assembleas, e pelos botiquins, de tudo fallam, de tudo decidem, para tudo tem bellos planos; e com o seu luzidio compasso tudo sabem medir. Porém estes, e muitos outros falladores similhantes, de que por desgraça abunda toda a Europa, saõ huns fracos, e a deshonra dos racionaes, assim como o jumento he a dos brutos.
O pai, disse Antonio Pereira, que manda seus filhos a essas sciencias, sem bons principios de literatura, he similhante ao que obriga o Architecto a fazer huma alta torre sem nenhum alicerce, a qual mais hoje, mais amanhã ha de cahir. Ora vede quaes seraõ as consequencias da sua quéda!
Esse era o justo motivo, disse Antonio Feliz Mendes, de tu fazeres alardo das tuas artes de Grammatica Latina, quando nenhum fazias das outras infinitas obras, de que tambem foste autor.
Era essa, continuou Fabio, huma vaidade digna do sabio Pereira, e teria feito a Portugal hum eterno serviço, se em vez do trabalho de algumas das suas obras, que o naõ honram, aperfeiçoasse o seu Novo Methodo, e o seu Compendio, para o que tinha forças de sobejo. E certo, o homem que, naõ sabe Grammatica, sejam quaes forem os seus estudos, nenhumas Bullas o pódem dispensar de ser pedante. Como poderá perceber os lugares da Historia, como entenderá os authores, quem ignora a sciencia das palavras? Como dará o juiz a sua sentença? Como fará o Theologo as suas analyses.
Mas as aulas publicas de Latim, diz mui agastado o respeitavel Pereira, estaõ quasi vasias de estudantes, que dizeis? Digo, proseguio o Romano, que toda a culpa he dos pais; e por isso vereis cada vez mais idiotas, mais ociosos, mais presumidos, mais gárrulos.
He huma piedade, disse Antonio Félis, ouvir a muitos pais as causas futeis de naõ mandarem os filhos ao Latim. Naõ pertendemos, dizem elles, que sejam nem Frades, nem Clerigos: nem taõ pouco se necessita de Latim para ser bom Cidadaõ.
Naõ se necessita de Latim, disse o grande Diogo de Teive todo fóra do seu sério, naõ se necessita de Latim para qualquer ser bom homem, mas necessita-se delle para naõ ser asno. Ainda que a lingua Latina naõ fosse a lingua dos sabios, bastava para ser estimada o ter muitas filhas na Europa, que herdaram muito cabedal da sua mãi, do qual nunca já mais saberá dar conta quem ignorar as riquezas della. Assim he que estaõ infinitos sujeitos em empregos publicos, ganhando salarios enormes, os quaes nem escrevem coisa direita, nem sabem atar duas palavras juntas, e o mais por modestia fique no silencio.
Tudo isso, disse Joaõ de Barros, he fructa deste tempo tenebroso. O mundo em suas mudanças tambem vai variando os seus registos, e por força alguma vez sahiraõ os desaffinados. Até agora tendes bem mostrado as doenças literarias; naõ he porém da nossa caridade deixalas sem algum remedio. Julgo pois, que se deve entregar o menino a hum Mestre erudito, para o ensinar bem a ler, e a amar a sua Religiaõ, e os seus deveres: depois disto deve aprender a Grammatica da sua, lingua materna; porque, naõ embargante, que em a Latina se acham os principios geraes de todos os idiomas, naõ devem todavia ignorar-se os particulares daquelle que mais que nenhum ha de servir aos interesses, e ás utilidades da vida. Entaõ vá aprender Latim, e por fim Filosofia Racional. E sem estes subsidios escuza de avançar a outras sciencias; porque he melhor naõ saber, que saber mal as coisas.
O conhecimento da Grammatica da lingua materna, continuou Fabio, tem sido recommendado pelos sabios de todos os tempos: nós a ensinavamos em Roma juntamente com a Grega, e veio assim a fazer-se a nossa linguagem taõ bella, e taõ universal pelo mundo, que só entre póvos selvagens, se acharia, e com muita dificuldade, quem naõ entendesse alguma coisa do idioma Latino. O Imperador Carlos Magno julgou naõ ter ainda alcançado a immortal gloria com a multidaõ dos seus triunfos; por isso em a sua velhice compoz para as suas gentes huma Grammatica Tudesca.
Por mais que clamei, disse Barros, já em o feliz Reinado de D. Joaõ III. por introduzir nas escolas a Grammatica Portugueza, nunca o pude conseguir; nem depois sobre isto foram observados os Decretos do sempre Augusto D. José I.
Amigos, proseguio Quintiliano, isso pertence aos Professores, e se os pais nisto tem alguma culpa, he só em entregarem seus filhos a Mestres pedantes. Elles os procurariam bons, se hoje houvesse a lei que desobrigava os filhos de soccorrer aos pais, que tendo posses, naõ os mandavam instruir nas letras. Em quanto esta lei durou foi a Grecia em tudo respeitavel, e se ainda agora revivesse em os póvos civilisados, naõ seria a substancia publica devorada por infinitos glutões, que tudo engolem, e que de ordinario saõ os menos fiéis á sua patria.
Hum homem erudito, e Christaõ, disse Duarte Nunes, vendo o ignorante, e inhabil a cevar a gula com o comer ao seu merecimento devido, póde sim por alguns momentos queixar-se; he com tudo impossivel moral esquecer-se da gratidaõ dos beneficios; mas o idiota presumido cuida, que mais se lhe deve, e ingrato desdenha de quem o farta.
Tudo isso he verdade, disse Joaõ Rivio; mas reparei, que Barros naõ fallou em aprender Francez, quando alguns autores mandam que o seu estudo seja antes do Latim. Esse Portuguez, continuou Fabio, he mui douto, e naõ devia favorecer a pedantaria: quer justamente que logo que se saiba ler, se aprenda a Grammatica da lingua materna, e depois a Latina, por ser mãi da Franceza, da Portugueza, da Italiana, da Hespanhola, e de outras, que facilmente aprenderá quem souber a lingua dos sabios. E digo-vos que o Francez tem estragado bellissimos idiomas.
No tempo em que ensinei letras humanas em a Universidade de Coimbra, disse o honrado Teive, poucos, ou ninguem estudava Francez. Porém he certo, que nunca Portugal teve nem mais sabios, nem melhor gente. Naõ possuia entaõ a nossa lingua nem outra formosura, nem outras riquezas, que as herdadas da sua respeitavel mãi: e hoje apparece de quando em quando com a sua capa de remendos, mais ou menos despresivel, segundo os retalhos, e os pontos do alfaiate, que a cozeu.
Mas tendo os Franceses, disse Mariángelo, vertido as obras dos outros, como fica notado, naõ será inutil saber esta lingua. Sempre saõ versões, respondeo Julio Cesar Escaligero, melhor he ler os originaes. Naõ sou contra este idioma; confesso que nelle estaõ escriptos bons, e máos livros. Com tudo estou pelo sentimento commum dos sabios, que o seu estudo naõ deve ser o primeiro; e até julgo naõ ser presentemente grande perda ignoralo, em quanto que naõ chegam das duas Anticeras navios, e mais navios carregados de helleboro para curar a funesta loucura, que se apoderou das cabeças daquelle povo infeliz.
Pais de familia; pais de familia exclamou Fabio, vós sois a primeira causa da pedantaria geral, e oxalá o naõ fosseis tambem dos horrores deste seculo de lagrimas.
Assim acabou Quintiliano, deixando ver em seu triste semblante a magoa de seu peito.
DIALOGO III.
_Expõe Antonio Nebrixa a segunda causa da pedantaria: motivos de haverem tantos Professores inhabeis: entre os de ler saõ raros os bons: como se póde isto remediar: os de Latim ainda saõ bastantes: muitos particulares enganam os pais de familia: os rapazes devem frequentar as aulas públicas, &c._
Sahindo Marco Fabio todo consternado daquelle assento para o seu primeiro, logo para alli se foi chegando Antonio Nebrixa: estava elle embrulhado em hum pellote cor de fogo de feitio mui exotico, com hum gorro pardo na cabeça, que lhe chegava ao meio das costas: e apenas se assentou deixou cahir hum sobreolho taõ feio, que parecia huma carranca de navio. Mas cuidando eu que elle ficaria eternamente severo, naõ foi assim: por quanto, feitas as suas continencias, soltou taes gargalhadas de riso, que Crates Mallotes lhe disse com muita brandura: Eu vos escolhi para que ajudeis a fazer a caridade aos Professores pedantes e isto he o ponto do maior melindre, e da mais alta importancia: dizei a verdade, e deixai as risotas para occasiaõ competente.
Ainda bem naõ tinha o velho Mallotes concluído taõ judiciosa admoestaçaõ, quando Nebrixa, compondo o seu comprido barrete assim começou: Se os pais de familia saõ mui culpados na pedantaria dos fins deste seculo, os mestres lhes ficam a perder de vista. De toda a Europa vos referiria exemplos, se a minha commissaõ naõ fora muito mais estreita. Naõ penseis todavia, que hum homem como eu, depois de deixar sepultados os enganos, e as mentiras com os despojos da humanidade, que a terra engolio, se atreva a satyrisar muitos Professores Portuguezes, os quaes com as suas obras, e com as suas lições, que os eruditos bem conhecem, ainda hoje servem de honra, e de lustre áquella naçaõ; a qual desde o Reinado do grande D. Diniz, dignissimo neto do nosso D. Affonso Sabio, até ao presente tanto da escola de Minerva, como da escola de Marte, tem offerecido ao mundo heróes taõ prodigiosos, que a fama, tendo cem bocas, apenas os póde contar. Dirige-se pois a justiça de minhas queixas, contra milhares de Professores ignorantes; e desejára fazelos conhecer, para que naõ deshonrem os benemeritos, sendo confundidos com elles.
He justo, disse Filippe Melanchton, que sejam conhecidos os zangãos pelos effeitos, e que se restitua o mel ás sabias abelhas.
Saõ mui verdadeiras as vossas expressões, disse Antonio Pereira: já antes da minha passagem para a vossa companhia observei muitos presumidos a enganarem os pais de família, com ditos apanhados aos sabios, feitos Catões pelas assembléas, e pelos botiquins, a fim de ajuntarem hum bom rebanho de rapazes, os quaes com prejuízo da bolsa paternal vem a ser os semeadores da charlatanaria, e ignorancia de seus Mestres.
Sim, disse Nebrixa, semelhantes Professores saõ primos co-irmaõs do çapateiro, que naõ tendo geito para fazer çapatos vendia saccos de antidoto, mas antídoto no nome; porque lhe custava menos a ser Medico dos simplices, do que a fazer calçado a casquilhos, e a peraltas.
O Augustissimo Rei D. José, continuou Pereira, Nome, que proferido fará vir aos labios de Portugal saudosas, e ternas lagrimas, sempre que se lembrarem do que lhe devem, escolheu para educaçaõ da mocidade os homens mais benemeritos, e naõ sei como tem graçado tanto o pedantismo.
Ninguem melhor que tu o sabe, respondeu Nebrixa; porque foste hum respeitavel membro da Meza Censoria; por isso bem conheces a causa de tantos Professores ignorantes: fugiram acaso do mundo as _Instrucções_ appensas justissimo _Alvará_ de 1759? E naõ determina elle que senaõ ensine nem publica, nem particularmente sem rigoroso exame? Naõ dá bem a entender quaes devam ser os conhecimentos dos Professores? O Augustissimo D. José para os animar naõ os incorporou em Direito Commum, fazendo-os Nobres? Naõ vês estudantes de Latim, para que eu naõ falle em os de outras faculdades, feitos Mestres sem outros principios mais que os do teu Compendio, ou da Arte de Felis Mendes, e, se muito, do teu Novo Methodo? Podem por ventura similhantes Mestres desempenhar as suas obrigações?
Sempre clamei, disse o sabio Portuguez, em o Tribunal contra esta tolerancia de Professores inhabeis, sendo aliás excluidos muitos sujeitos de merecimento; porém a culpa....
Bem sabemos (disse Crates Mallotes, apressado para cortar o fio) bem sabemos aonde se dirigem as tuas queixas: nós naõ queremos, que nenhum vivo diga, que os mortos tiveram a deshumanidade de lhe pôr a par de seu nome os seus defeitos. Os nossos discursos saõ sagrados tanto, como os dos Prégadores; por isso devem só ser dirigidos contra o erro em geral. Em todos os estados do mundo ha bom, e máu, e só algum idiota quando nos vir fallar contra o máu, he que poderá cuidar, que nós fallamos contra o bom. Pelo que, meu Nebrixa, ide discorrendo em primeiro lugar sobre os Professores de ler: que he negocio de grande ponderaçaõ.
Nebrixa, que estivera applicando o ouvido a taõ justas expressões, continuou dizendo, de cem Professores de ler, se achardes hum capaz tendes feito huma descuberta, digna de avultadas alviçaras. Ide pelas escólas, e ouvireis desconcertados berros de rapazes: que naõ só vos faraõ chagas nas orelhas, mas até vos encheraõ da mais profunda melancolia.
Todos esses incómmodos, disse o Barbadinho, se poderiam bem soffrer, se os moços dahi naõ sahissem gagos toda a vida. Porque por certo quando estaõ a ler, nada differem de quem nasceu com a lingua travada: só alguma palavra deshonesta he que pronunciam expeditamente. He taõ raro como mosca branca o que ensina os meninos a destinguir bem as syllabas, a pronunciar naturalmente as palavras, a respeitar pontos, e virgulas.
Se similhantes homens naõ sabem que coisa seja nem syllaba, disse todo agastado Marciano Capella, nem que coisa seja fallar, nem para que sirva a pontoaçaõ, como haõ de ensinar o que ignoram?
Pode acontecer, respondeu Lancelot, que qualquer saiba para si, e naõ para ensinar; porque saõ coisas bem differentes: e que acontecerá a quem ensina, sem saber nem o que, nem o como deve ensinar? Que acontecerá? respondeu Sciopio, encher o Publico de babosos, e pedantes; porque os erros da escóla quasi sempre saõ incuraveis; e os melhores Professores de Latim, pondo todas as suas forças para os remediar, raras vezes o conseguem.
He huma dor de coraçaõ, proseguio Nebrixa, ver engenhos taõ raros, que continuamente se vaõ perdendo por culpa de Professores de ler.
Ainda Antonio Nebrixa mal havia acabado a sua queixa, quando Remmio Palemaõ se levantou com toda a arrogancia, e disse: Porque naõ mandam similhantes homens guardar pórcos?
Ouvindo isto Terencio Varro, o qual havia sido insultado em Roma por aquelle mordaz, assim lhe respondeu: Fazes mais favor a esses homens, do que em outro tempo me fizeste, quando por toda a parte me andavas chamando o Porco das Letras, e queres que similhantes pedantes sejam porqueiros, em vez de os mandares comer farellos?
Todos gostaram muito daquella singeleza Romana, mas Antonio Nebrixa, que foi hum Hespanhol honrado, disse com toda a inteireza: Ainda naõ he taõ mau, que haja quem ensine a ler; e aquelle que sabe, e executa a sua obrigaçaõ faz mais serviço ao Publico do que se pensa lá no mundo: e bem vedes quanto estimamos estes poucos de quem nos prezamos muito de serem nossos companheiros, e a pena he virem para cá taõ poucos deste calibre!
Entaõ abaixaram a cabeça os Professores elogiados, e Crates Mallotes louvou muito o relator, que assim proseguio: Os Professores Regios de ler apenas tem salarios para o aluguel de casas; e por isso ou haõ de ser homens incapazes, ou haõ de procurar o sustento por outra via. Se se dessem os mesmos ordenados, e as mesmas honras aos Professores de ler, que se daõ aos de Rhetorica, haveriam muitos eruditos que servissem ao Estado de boa mente, neste ramo: entaõ se ensinaria a Grammatica da Lingua materna na escola, aprender-se-hia qualquer lingua com muita facilidade, e naõ morreriam de trabalho os Professores de Latim em o ensino de gente bruta.
Tivessem elles dinheiro, disse Dionisio de Syragoça, que honra lhes dei eu, porque naõ me desprezei de ensinar meninos, depois de ter sido o que sabeis. Mas já que tendes fallado tanto na pedantaria dos Professores de ler de quem fui collega, dizei tambem alguma coisa dos de Latim para consolaçaõ da minha tristeza.
Tem havido optimos Professores de Latim, continuou Nebrixa, e ainda hoje os ha; porém para fallar com a sinceridade de defuncto, naõ me posso dispensar de dizer, que saõ muitos mais os idiotas. Depois que se deram Provisões de favor, isto he, sem se fazer rigoroso exame, ou depois que muitos entraram a ensinar sem faculdade alguma do Estado, entaõ tambem começáram apparecer nuvens de falladores, que sendo huns Professores diminutivos, sem a mais leve tinctura nem de Logica, nem de Critica, andam feitos censores dos melhores livros, por onde podiam aprender (a terem os conhecimentos que a lei delles requer) e vaõ surrando o entendimento da mocidade com os cartapacios defumados, que sem offensa de seus autores, deviam ser condemnados a embrulhar adubos.
He forte cegueira, disse Gaspar Sciopio, ver ainda hoje homens mais afferrados á opiniaõ dos livros por onde aprenderam, do que os Pythagoricos a de seu Mestre!
Mas esses pedantes, disse o Barbadinho, neste tempo escuro, em que mui poucos aprendem Latim, he que trazem mais algum estudante.
Esses Mestres, continuou Nebrixa, pela maior parte saõ particulares (reparai, Guliver, que naõ digo, _Todos_) e como o estudante traz a mezada em o fim do mez, he preciso fazer a boca doce aos pais; murmurar dos estudos Regios, e persuadir-lhes ser coisa menos decente mandar os filhos ás aulas dos pobres.
Pobres de juizo, disse Antonio Pereira todo agastado, pobres de juizo saõ os que accreditam similhantes novelleiros. Como se os estudos do Rei naõ fossem a honra de todos os vassallos? Ou como se fosse desprezo acompanhar com seus irmãos aquelle que tendo melhor fortuna, naõ tem outra natureza?
Ainda se servem, proseguio Nebrixa, de outro estratagema mais sagaz, que he apregoarem, ou por si, ou por seus devotos, que as aulas Regias andam cheias de moços mal procedidos.
Este seculo, disse o Barbadinho, está cheio de corrupçaõ, e como as aulas particulares, trazem alguns estudantes mais que as outras, tambem vos podeis persuadir, que trazem muito peior gente.
De casa, disse Quintiliano, já os moços trazem os máos costumes, nem he preciso que os venham buscar ás aulas.
Mas ainda dado, e naõ concedido, proseguio Nebrixa, que de casa venham innocentes; nem por isso he justo que a mocidade deixe de frequentar as aulas Publicas. Os pais devem vigiar sobre a conducta, e companhias de seus filhos; mas tambem devem fazer a vista grossa a certas coisas, que naõ offendendo a virtude, he necessario que os rapazes em quanto saõ rapazes as pratiquem: aliás em idade incompetente seraõ os peiores homens, segundo a triste experiencia o tem mostrado.
Parece seria melhor, disse o Conde de Castel-Branco, ensinar em casa aos meninos os Estudos menores, para lhes evitar os laços, que a seus tenros annos o mundo costuma armar.
Nada, nada, respondeu Antonio Pereira, porque em idade maior he que se conhece o erro; por isso que ficam estupidos: engolem todas as petas, naõ prestam para a sociedade: a sua brutalidade os conduz para os vicios mais grosseiros; e ficam em tudo huns perfeitos Sardanapálos.
Bem: concluio Nebrixa, hum tal encerramento, he mui bom para mulheres, para homens naõ tem geito. Pouco vale clausurar os rapazes para evitar más companhias, em casa mesmo acharaõ quem os estrague: e oxalá fossem mentirolas estas nossas expressões! E deixai murmurar os pedantes, esses que ensinam a conhecer as sylabas pelos fôlegos; e que toda a sua sciencia consiste em affeiar, e corromper o verbo _arcabuzear_.
Acabando o Hespanhol de dizer isto, e entrando por algum tempo a engolir em secco, exclamou: Professores pedantes, Professores idiotas, tratai de outro officio; naõ augmenteis o charlatanismo com os desconcertos da vossa ignorancia. E tu ó mortal (virou-se para mim) muito bem tens ouvido os justos louvores, que aos benemeritos havemos dado.
Entaõ todos lhe abaixaram profundamente a cabeça em signal de parabens; e elle se levantou, sahindo com a mesma cara com que principiára a sua commissaõ.
DIALOGO IV.
_He tratado Sanches por Crates com toda a distinçaõ: expõem elle a terceira causa da pedantaria: fica a beca de Guliver convertida em tres artes de Grammatica Latina: faz-se grande estimaçaõ da primeira: criticam-se as outras: vai-se Guliver successivamente convertendo em passaro: manda Crates Mallotes mostrar-lhe a ilha, &c._
Ja Elio Antonio Nebrixa estava em o seu assento colhendo os bem merecidos applausos dos que estavam junto delle, quando Francisco Sanches Brocense hia com o seu passo grave, e magestoso, procurar o banco; mas Crates Mallotes, logo se levantou, cujo exemplo seguio toda aquella multidaõ dos illustres defunctos: e assim erguido, clamou: Nada, nada: hoje has de ensinar de cadeira: nem he justo, que o Principe dos Grammaticos deixe de ter a maior distinçaõ em a terra da verdade. Logo que elle isto disse, sahio coxiando para fóra, e rindo dizia: A Grammatica, que em Roma ensinei, era taõ coixa, como eu. Mas todavia se os Romanos de mim naõ houvessem recebido o exemplo, tambem naõ opporiam á Grecia tantos sabios.
Porém Sanches modesto recusava taõ distincta mercê, allegando para isso, que naõ só por haver sido o respeitavel velho Embaixador do Rei Attalo, que fartou Roma de pergaminho; mas tambem por ter alcançado a honra, e a gloria de primeiro Mestre do povo senhor do mundo, por nenhum titulo devia ser dispensado de sahir de seu devido aposento.