Costumes Madrilenos Notas de um Viajante
Chapter 6
--Além d'estas, convivi com Angela Grassi, mulher, talvez não muito formosa mas de muito talento; com D. Antonia de Arciniega e Martinez, que cultivou um genero de poesia quasi pastoril; com D. Josepha Estevez del Canto, admiradora em excesso das fabulas de Lafontaine, com D. Emilia Cale Torres de Quintero, com D. Sofia Tartilau e com muitas outras. Bem vê que seria impossivel recordar-me agora de todas as minhas relações. Unicamente lhe affianço que em Hespanha as mulheres que escrevem, embora não sejam muitas, são todas dotadas de um immenso talento.
--Mas, minha senhora, permitta-me que lhe manifeste os meus mais ardentes desejos de a conhecer...
--Perdão... isso é que não está no contracto. Tenho respondido a todas as suas perguntas e isso me basta... O meu nome, não lh'o posso por ora revelar. É possivel que mais tarde o saiba. Por agora desculpe-me.
--_Escurial! Escurial!..._--gritaram os guardas do caminho de ferro.
A minha companheira apeou-se, e, estendendo-me a mão, nem sequer me deu tempo para me despedir d'ella.
* * * * *
Dois dias depois, o creado do hotel, em Madrid, entregava-me um bilhete concebido nos seguintes dizeres:
_D. Maria del Sarto_ _pede-lhe a fineza da sua companhia para o jantar de hoje, ás 6 horas da tarde, na Calle de Alcalá---8._
--Maria del Sarto! Quem será Maria del Sarto?--exclamei.
E ás 6 horas da tarde, em ponto, dirigi-me para a rua de Alcalá.
Qual foi, porém, o meu espanto, quando, ao entrar na sala dei de rosto com a minha formosa amiga de viagem.
--Sente-se aqui--disse-me ella, apontando para uma cadeira.
E foi nessa occasião, e nesse jantar, que me foi dado formar um juizo seguro ácerca das cousas e dos homens de Hespanha.
Devo-o principalmente áquella affectuosissima senhora, a quem d'aqui envio os meus respeitos e a minha gratidão.
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Uma vez, porém, que fallamos em celebridades, conversemos um pouco sobre ellas.
XVIII
HOMENS ILLUSTRES
Em Hespanha é extraordinario o numero dos homens illustres.
Poucos são os talentos naquelle paiz que não possuam uma feição eminentemente litteraria. Os proprios politicos resentem-se d'este defeito, se defeito se lhe póde chamar.
Do romance são innumeros os cultores. A Hespanha, como paiz de mais aventuras, presta-se a elle. Entre nós são já muito conhecidos os nomes dos srs. Manuel Fernandez y Gonzalez, homonymo do celebre ministro republicano, ultimamente mandado sahir de Lisboa pelo governo portuguez, Henrique Peres Escrich, Ortega y Frias, Tarrago e Mateos, etc.
O sr. Fernandez y Gonzalez é uma especie de Ponson du Terrail hespanhol. É escriptor fecundo e de muita força concepcional.
Peres Escrich é quasi mystico. Os assumptos dos seus romances são quasi sempre religiosos. É um romancista catholico, mas são puras as suas intenções sem as sacrificar á seita.
Ortega y Frias, Tarrago y Mateos, Piedro Antonio Alarcon, Peres Gadosh, Antonio Hurtado, Varella, Vilhoslava, Ricardo Sepulveda são os que mais se aproximam do romance moderno na descripção e no entrecho dos assumptos.
Eusebio Blasco é um humorista de grande merecimento, e José Castro e Serrano é, em nosso juizo, talvez o primeiro novellista hespanhol.
A estes podemos, de certo, juntar D. Manoel Silvella, Asmodeu, pseudonymo, Antonio Trueba, auctor de uns famosos contos, sobejamente conhecidos na litteratura da Europa.
Na poesia avultam Zorrilla, um lyrico surprehendente; Campoamor; Garcia Gutierres, de quem se diz que nasceu com o _Trovador_ e que morreu com D. Urraca; Ventura Ruiz Aguillera, auctor de um famoso livro de satyras; José Martinez Villergas, egualmente satyrico: Roberto Robert, espécie de Voltaire no arrojo da palavra e do conceito; Grillo, Gaspar Nunes de Arse, Espronceda, José Eshegarai, Hartzenbusch, Antonio Arnao, Antonio Hurtado, José Selgas, tambem prosador, Trueba, Carlos Frontaura, Carlos Rubio, Larra e outros.
Passando da poesia para a politica, são tantos os nomes, que difficilmente seria possivel recordal-os a todos.
Quando estive em Hespanha, contava-se uma anecdota curiosa de Emilio Castelar.
Dois estudantes da escola medico-cirurgica de Lisboa tinham ido a Madrid assistir á entrada de D. Affonso XII na cidade, depois de concluida a guerra carlista. Era dia de sessão no congresso. Fallava Castelar. Nas tribunas agglomerava-se o povo. Difficilmente se obtinha um logar.
Um dos estudantes, porém, reflectindo no caso, entrou numa mercearia, e escreveu a Emilio Castelar as seguintes linhas:
«Estão aqui dois portuguezes, seus admiradores, que desejam ouvil-o.»
O merceeiro, que viu que a carta era subscriptada para o insigne orador, não lhes levou nada, nem pelo papel, nem pela tinta.
Castelar leu o bilhete, e immediatamente sahiu do congresso, a fim de introduzir os dois estudantes na tribuna, reservada á diplomacia.
Quando acabou de fallar foi ter de novo com os dois estrangeiros, e offereceu-lhes os seus serviços e a sua pessoa n'aquella cidade.
Este traço revela bem as brilhantes qualidades, que caracterisam Emilio Castelar.
E, uma vez que fallámos em Castelar, não esqueceremos tambem de mencionar um distincto talento, seu amigo intimo, director do jornal, o _Globo_, e auctor de um famoso livro sobre o _movimento operario na Europa no seculo XIX_. Este cavalheiro chama-se D. Joaquim Martin de Olias.
Francisco Pi y Margall é um outro vulto que trouxe na memoria. Estive em sua casa perto de duas horas, e precisamente na mesma sala onde aquelle célebre padre tresloucado tentou assassinal-o. É um caracter magestoso e um talento deslumbrante. Fui encontral-o a brincar com dois filhinhos menores. Que contraste entre aquella scena puramente domestica e a dos seus actos publicos! O homem vigoroso da tribuna e da imprensa é um anjo de paz e de amor no seio dos seus! Foi-me realmente agradavel esta visita.
Salmeron, o erudito publicista, que resignou gloriosamente o poder por não querer assignar a pena de morte para o exercito, vivia exclusivamente do professorado. Regia uma cadeira de ensino livre no Atheneu, retribuida pelos discipulos.
Zorrilla, que atravessou os transes mais dolorosos da vida, e que além de um grande poeta é tambem politico de notavel bom-senso, vê-se hoje expatriado e longe dos seus.
O mesmo succede a talentos notaveis como Fernandez de los Rios, Fernando Garrido, Ramon de Cala, Estevanez, Gonzalez e outros.
José Maria Orense, o decano da democracia hespanhola, está quasi afastado da politica.
Sagasta póde talvez ser classificado entre os radicaes. Passa por excellente caracter e por conservador sympathico.
Canovas del Castillo, embora defensor de uma má causa, é todavia um eminente orador e um notavel poeta.
Que a dizer a verdade, abaixo de Castelar, os dois oradores mais afamados são Figueras e Martos.
O verdadeiro enthusiasmo hespanhol está, porém, no exercito. Entre Olozaga e Martinez Campos, prefere-se este justamente pela espada, que traz á cinta. E a prova é que, terminada a luta com os carlistas, as acclamações da cidade dirigiram-se mais a Martinez Campos do que a D. Affonso XII.
De modo que em Hespanha o militarismo é um vicio galante, de que as mulheres não desdenham e que os politicos temem soberanamente.
Fallando, porém, de homens illustres, não deveremos de modo algum omittir dois nomes, que, por mais do que um lado, nos devem ser sympathicos e affectuosos.
Esses nomes são os dos srs. D. Benigno Joaquim Martinez e Antonio Romero Ortiz, de quem em seguida nos vamos occupar.
XIX
D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ
Só em Madrid o numero de jornalistas sobe talvez a mais de duzentos. Ainda ha pouco, por occasião de se installar o _Casino de la Prensa_ na calle Mayôr, orçaram por 160 as adherencias da parte do jornalismo madrileno.
Entre os mais sympathicos periodicistas hespanhoes podemos citar: Escobar, Perez de Guzman, José Ortega, Ulloa, Sagasta, Garcia Ruiz, Pi y Margall, Figueras, Navarro, Blasco, Molina, L. Rubio, Palacio, Alcalá Galliano, dr. Galdo, Tubino, Diaz Perez, Quintero, Escosura, Soriano Fuestes, Ruti, Rivera, Calvo Ascencio, Leon Serrano, Benigno Martinez, Romero Ortiz e mil outras illustrações que nos seria impossivel enumerar em opusculo de tão limitadas proporções.
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D. Benigno Joaquim Martinez é conhecido pelo doce appellido de _amigo dos portuguezes_. A sua casa e a sua bolsa estão sempre á disposição dos nossos patricios e conterraneos. Nada ha que possa retribuir tamanho affecto e tão devotada abnegação. Dir-se-ia que D. Benigno é, de facto, mais portuguez do que hespanhol.
Martinez foi por muito tempo empregado superior no ministerio da justiça. Até ahi advogara e vivera do jornalismo. As suas convicções radicaes não lhe permittiram, porém, que continuasse a servir um governo que desde muito lhe era antipathico. Então sem mais recursos, deliberou entregar-se exclusivamente á imprensa, tanto nacional como estrangeira. Tem sido correspondente de jornaes inglezes, italianos e francezes. A sua vida mal se descreve. Ha dias em que se senta á meza desde a madrugada até ao jantar e desde o jantar até á madrugada. A honra e a dignidade são a sua divisa. Nunca transigiu. Em Portugal já 11 jornaes lhe confiaram as correspondencias de Madrid, as quaes elle tem cumprido com uma pontualidade rigorosamente britannica. Tambem collaborou no periodico _Italia e Popolo_ de José Mazzini. Redigiu em Madrid seis folhas politicas. Escreveu a biographia de 45 vultos portuguezes, e sempre, desde 1846 até hoje, se tem occupado, com verdadeiro fervor, das cousas, da politica e dos homens do nosso paiz. Por isso tambem quasi todas as sociedades portuguezas o têm distinguido com os seus diplomas e honrarias.
D. Benigno é casado com uma senhora distinctissima, de quem teve tres filhos: uma menina, já casada, e dois rapazes, um dos quaes é Frutos Martinez y Lumbreras, estudante classificado na universidade central e escriptor já conhecido pelas _Bandeiras de Portugal_ e _Hespanha_.
Em casa de Martinez tivemos a honra de travar relações com dois notaveis talentos, de quem não deixaremos de fallar; e são elles D. Manoel Maria José de Galdo e Antonio Hesse.
Do primeiro escreveu um periodico portuguez o seguinte:
«Pela nomeação do sr. Rivero para ministro de _la gobernacion_ em Hespanha ficou vaga a presidencia da municipalidade de Madrid. Neste logar foi provido por eleição o sr. D. Manoel Maria José de Galdo, cavalheiro distincto de cujos precedentes diremos algumas palavras. O sr. Galdo é cathedratico proprietario na universidade de Madrid, e além de regente de 1.ª classe de sciencias, lecciona mineralogia e noções de zoologia e botanica. É licenciado em medicina e cirurgia, doutor na faculdade de philosophia, licenciado em direito civil, administrativo e canonico. É membro honorario de muitas sociedades e institutos scientificos de Hespanha, França e Portugal. É em resumo um cavalheiro muito illustrado, e em extremo laborioso e modesto.»
Em seguida á revolução de setembro foi o dr. Galdo feito 1.º alcaide da capital de Hespanha e commandante geral de 20.000 voluntarios de Madrid. Nestes dois importantes e difficeis cargos mereceu sempre os applausos de toda a imprensa sem distincção de côres politicas. O que prova exuberantemente o espirito de justiça e a alta prudencia que dirigem todos os actos d'aquelle cavalheiro. Ultimamente a sua eleição para presidente da municipalidade de Madrid, em substituição de um homem de tão reconhecido merito como o sr. Rivero, é mais um titulo honroso que vem juntar-se aos muitos, que já recommendavam ao partido radical da Hespanha, e em geral a toda a nação vizinha, um honrado filho da peninsula, que ao seu talento, ao trabalho e ás suas qualidades pessoaes deve a estima de nacionaes e estrangeiros.
Na inauguração do canal Suez coube ao sr. dr. Galdo a honra de representar a Hespanha.
A sua integridade de caracter e a sua modestia, conservaram-no muito tempo afastado das lides politicas, ás quaes voltou cheio, como d'antes, de dedicação e amor aos principios liberaes, apenas a Hespanha sacudiu o jugo que a opprimia. Nos ultimos arrancos da monarchia deposta, mais de uma vez fôra tão illustre e inoffensivo cidadão apontado á vindicta do poder.»
Antonio Hesse é advogado de nome; possue excellentes dotes oratorios e d'elle corre impresso um ajuizado opusculo sobre critica religiosa.
Para rematar, porém, o que dissemos, ácerca de D. Benigno Joaquim Martinez, basta ainda accrescentar que é elle um modelo de amor de familia, um ousadissimo e infatigavel trabalhador, uma consciencia recta e uma intelligencia sã.
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Antonio Romero Ortiz é um outro amigo dos portuguezes. Nascido na Gallisa, onde fundou differentes jornaes liberaes e onde organisou um nobre batalhão de voluntarios, só em 1843 se inscreveu como advogado em _Santiago_, terra da sua naturalidade. Em 1856, quando mais accesa andava a lucta entre miguelistas e liberaes, veiu ao Porto, e ahi foi pronunciado e levado prisioneiro para bordo do _Serra do Pilar_, que o conduziu para Peniche.
Em 1848 Narvaez, um covilheiro infame do absolutismo, descobriu uma conspiração de liberaes, capitaneada por Romero Ortiz. Sem mais averiguações, o carrasco ordenou a prisão do chefe dos revolucionarios, mandando-o para as masmorras de Santo Anton, perto da Corunha. O processo foi instaurado; duas cartas existiam de grave compromisso para o encarcerado. No momento, porém, em que o escrivão estava distrahido Romero Ortiz, pegando nas cartas, arremessou-as pela janella. Este arrojo salvou-o do patibulo.
Em 1849 veiu para Madrid, onde, entre outras obras interessantes, publicou o _Diccionario da politica_, de collaboração com dois amigos.
Chegou o anno de 1854, e desde então para cá, ora na imprensa, ora na tribuna, têm sido assignalados os seus feitos em pro da patria e da liberdade. Foi elle que, sendo ministro da justiça, instituiu o matrimonio civil e aboliu a companhia de Jesus. Por diversas vezes foi nomeado governador civil; e quando em Hespanha se constituiu a _União liberal_, o sr. Rios Rosas dispensou-lhe a maior consideração e os maiores respeitos. Foi deputado pela primeira vez em 1854 pela Corunha. Tomou parte activa na revolução de 1868, e no governo _provisional_ foi elle um dos ministros.
O seu mais notavel discurso, que versava sobre uma concessão de direitos aos portuguezes, foi pronunciado no congresso em 29 de março de 1859; e a sua mais afamada publicação intitula-se: «_La historia de la literatura portuguesa em el siglo XIX._»
É obra que denota boas intenções a nosso respeito. Conhece o periodo contemporaneo, e é seguro o estudo sobre Filinto, dos mais conscienciosos que conhecemos. Mas, no momento actual em que nos considerou, dá mostra de recebimento de más informações. Guinda a certa altura quem não merecia ir tão alto, e esquece nomes, em todas as pretendidas escholas, dos que, á parte rivalidades de que nós nos não fazemos echo, são de primeira plana em todos os campos.
Com o golpe de 3 de janeiro de 1873 foi Romero Ortiz nomeado ministro do ultramar.
Ultimamente vive um pouco doente e retirado das cousas politicas, quasi que exclusivamente entregue ao seu museu, que é curiosissimo, e aos seus estudos.
No seu museu, de que já fallámos mais atraz, encontram-se muitas curiosidades do nosso paiz, e entre ellas uma luvas do marquez de Sá da Bandeira, a caixa de rapé do visconde de Castilho, e uma lembrança de D. Pedro V, e outra do visconde de Paiva Manso, etc.
Tambem alli se póde vêr a camisa de Santa Thereza de Jesus, a casaca de Cabrera, um crucifixo feito pela rainha Isabel II e muitas outras reliquias dignas da maior attenção e de estudo.
XX
EM RETIRADA
Onde não ha fumo ha amor; onde não ha amor ha vinho; onde não ha vinho ha _spleen_.
São estas as palavras de um poeta notavel, que muito de molde nos acudiram ao espirito, em relação ao caso presente.
Quem viaja deve fumar. O fumo não é apenas um bom e doce companheiro para as tristes horas de tédio e de melancolia, mas ainda mais, e quasi sempre, um distinctivo do sabio e um facil auxiliar da nossa digestão intellectual.
O fumo está para o cerebro na mesma proporção em que o café está para o estomago. Ambos se tornam até certo ponto necessarios ao homem; com a simples differença de que o café nos excita, por vezes, demasiadamente os nervos, ao passo que o fumo se limita a produzir em nós um salutar estimulo ás nossas idéas e ao nosso raciocinio.
Mas, se, além do fumo, nos falta ainda o amor e o vinho, então,--ai de nós! que chegaremos ao aborrecimento de nós mesmos, isto é--ao _spleen_.
A viagem sem companhia é a peior de todas as torturas. A expansão é tão necessaria á nossa natureza, como o azul ao firmamento. Que nos importa ver uma formosissima paisagem, se depois não temos a quem communicar as nossas impressões e o nosso juizo de momento?
E notavel contradicção! A companhia é-nos tanto mais necessaria, quanto é certo que, quando estamos no estrangeiro, nos acommette uma singular nostalgia por tudo o que é nosso e nos interessa, emquanto que, quando regressamos á patria, nos assalta uma terrivel hypocondria por tudo o que é estranho e nos assombra.
D'este modo, leitora amiga, se algum dia tiver o capricho de viajar, tenha paciencia, e tome uma aia; ou ainda, se isso lhe aborrece, peça a uma das suas intimas confidentes para a acompanhar.
E verá que a não engano!
* * * * *
Ora a retirada é quasi que uma recapitulação de tudo o que se fez pelas terras onde se esteve.
--Que te pareceu esta gente?--perguntava-me o meu companheiro e velho condiscipulo--amigo José Trigueiros Martel.
--Esta gente!... pois que diabo me havia de parecer, senão unica e originalissima!... retorqui.
E começamos a enumerar os principaes partidos politicos em que se dividia a familia hespanhola, que eram pouco mais ou menos os seguintes:
Absolutistas de qualquer rei.
Carlistas clericaes.
Carlistas militares.
Carlistas constitucionaes.
Cabreiristas.
Neo-dynasticos absolutistas.
Dynasticos tolerantes.
Moderados unitarios.
Moderados conservadores.
Conservadores da conciliação.
Heterogeneos.
Homogeneos canovistas puros.
Santa-crucistas.
Sagastinos.
Neo-constitucionaes democraticos.
Radicaes puros.
Radicaes do X.
Radicaes republicanos.
Democratas monarchicos.
Democratas puros.
Republicanos catholicos.
Confederados.
Separatistas.
Communistas.
E não queria Amadée Achard que a Hespanha fosse alcunhada de bandoleira! Ninguem lhe desconhece os feitos de Numancia, de Sagunto, de Madrid, e de Zaragoza. Certamente que a Hespanha tem na sua historia paginas sagradas, como por exemplo as que resam das santas guerras das _communidades_ de Castilla. Mas a par de tudo isto, ahi estão os factos da Andaluzia a fallar mais alto do que os patriotismos exagerados; e ahi estão tambem os acontecimentos dos ultimos vinte annos a affirmar-nos eloquentemente que esse paiz, embora cheio de vida e dotado de enthusiasmos respeitaveis, ha de ser sempre uma contradicção viva a tudo o que existe e um especialissimo parenthese na vida das nações.
E provirá isto de uma simples questão de raça, de clima, de religião, de lingua, de costumes, de civilisação ou de _meio_?
Que o digam os srs. philosophos historiadores.
Nos costumes reside, principalmente, a expressão de uma nacionalidade.
Porque hoje, francamente, não se póde viajar apenas, como um simples brazileiro endinheirado--_em trem especial de exclamações_.
Não basta só dizer, admiravel! magnifico! explendido! como aliás parece fazer a maioria dos nossos viajantes.
--Então que me diz o amigo de Pariz?
--_Ah!_
--E de Londres?
--_Eh!_
--E da Suissa?
--_Uh!_
E assim ficamos, sem passar das cinco vogaes exclamativas; sem uma unica noção da justiça do povo que visitamos, como ella era administrada e repartida, sem uma unica idéa da sua arte, da sua politica, da sua religião e dos seus progressos.
A isto podia, quando muito chamar-se-lhe uma ostentação, mas nunca uma viagem.
* * * * *
Resumindo:
A Hespanha possue um vicio inicial de que difficilmente se libertará--a religião catholica-apostolica-romana guindada ás alturas de fanatismo.
Na sua politica, como na sua justiça, reflecte-se tristemente a contradicção, junto a um continuo mal estar de quem não tem uma noção clara da evolução que a deveria reger, e das leis que deveriam presidir ao seu desenvolvimento moral e material.
A sua arte afigurou-se-nos estar em perfeita harmonia com as suas mulheres: mais brilhante talvez, na fórma do que na concepção e no sentimento.
Entretanto, forçoso é confessar que poucos paizes ha de tão vastos recursos como a Hespanha, e porventura mesmo poucos existirão com futuro tão promettedor como ella.
Os casos das _Baldomeras_ têem-lhe ultimamente aberto os olhos para as grandes luctas da civilisação moderna, apurando-lhe o raciocinio para os insignes debates do espirito e da critica positiva.
Que tudo isso lhe seja de bom proveito, assim como Sédan o foi para a França.
* * * * *
Mas perdão! 6 horas da madrugada. Devemos estar perto de Lisboa.
--_Lisboa! Lisboa!_ exclama um guarda de fóra.
Assim, pois, leitor amigo, permitta-me que lhe aperte a mão, e que com tristeza me despeça da sua extrema amabilidade.
Um seu creado!
FIM
INDICE
Pag. I--CARACTERES E COMPARAÇÕES 7 II--NÓS E ELLES 15 III--A CIDADE 23 IV--A LENDA DO BANDIDO 33 V--EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS 41 VI--A INSTRUCÇÃO PUBLICA 51 VII--TEMPLOS E RELIGIÃO 59 VIII--A POLITICA 67 IX--MUSEUS 75 X--A MUSICA 83 XI--O CHOCOLATE E O CAFÉ 91 XII--O SALERO 99 XIII--THEATROS 107 XIV--OS PATINADORES 117 XV--TOURADAS 125 XVI--O PRADO E O RETIRO 133 XVII--HISTORIA INEDITA 155 XVIII--HOMENS ILLUSTRES 163 XIX--D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ E ANTONIO ROMERO ORTIZ 171 XX--EM RETIRADA 181
End of Project Gutenberg's Costumes Madrilenos, by Sebastião de Magalhães Lima