Costumes Madrilenos Notas de um Viajante
Chapter 5
Agora _Lagartijo_ que se approxime; elle traz uma pequena espada na mão direita; para elle está reservada a mais garbosa _moña_, que nunca mão de mulher se lembrou de fazer. Deante do touro o heroe não trepida; lá estão ambos que parecem dois tigres: alfim o animal cança: _Lagartijo_ investe; mais uma volta, e o touro cahirá.
As bandas marciaes rompem em hymnos estridentes; a populaça agita os lenços de côr; em todos os olhos se lê o phrenesi irrequieto, nervoso, indomavel: _Lagartijo_ venceu, _Lagartijo_ é o heroe da festa; triumpho a _Lagartijo_...
_Otro toro! otro toro!..._
Quasi que nem chega a haver tempo para arrastar para fóra da praça os derradeiros restos d'aquella barbara batalha, tão audazmente pelejada entre um homem e um animal, que, em vez de joguete de circo, muito bem podia ser a felicidade da agricultura e o alimento da miseria.
Touro, cavallo, farpas, lanças,--tudo á uma é arrastado em padiolas para fóra do amphitheatro.
Depois, esperando, faz-se sempre votos para que o outro touro seja melhor do que o seu antecessor; como se para saciar a avidez dos espectadores fosse pouco todo o sangue derramado.
É que a Hespanha é realmente assim, em meio da sua vida tumultuosa e larga. Pouco lhe importa a morte de dez, vinte, trinta homens; a questão é que o enthusiasmo não decresça nunca, e que a vida não deixe jámais de ser uma terna e doce folgança, onde os risos e as lagrimas, as alegrias e as tristezas crescem e augmentam, temperados na mesma proporção.
E, no entanto, nenhum paiz existe de mais vastos recursos do que a Hespanha, onde as minas de cobre, de ouro, de prata são quasi tantas como as suas provincias e os seus concelhos.
Nas suas planicies, por igual risonhas e productivas, medra e desenvolve-se toda a especie de productos agricolas; as suas paizagens, se bem que aridas na Extremadura, pela escacez de agoa, tomam todavia um aspecto deliciosissimo na Andaluzia, onde as mulheres e os horisontes se disputam a palma e o amor.
Abençoado paiz! Nem as guerras, nem as dissidencias civis, nem as revoltas populares poderam ainda prostral-o.
Uma nação que tão sinceramente ama as touradas, não poderá nunca deixar de ser guerreira e sanguinosa.
Ai de nós, no momento em que a Hespanha deixasse de ser o que é--lutadora, _torera_ e ruidosa.
_A los toros! a los toros!_
XVI
O PRADO E O RETIRO
Dizem os physiologistas que o calor é a vida; e por isso é, creio, que os cafés, assim como as _soirées_, assim como os _clubs_, assim como os _boulevards_ se tornam hoje uma verdadeira e insubstituivel necessidade social.
Que o homem nasceu para a sociedade--escrevem-o philosophos abalisados e tem-o repetido ha um seculo, e ininterruptamente, o corpo cathedratico da nossa universidade.
Esta verdade passou, porém, da metaphysica á pratica; e assim é que, ao contrario de Rousseau--que na natureza fundava todo o pacto entre os homens--se elevaram, como por encanto, o _Bois de Boulogne_, em Paris, o _Hyde Park_, em Londres, e o _Central Park_, em New-York.
A não ser Lisboa, a velha fanatica do passeio publico, poucas cidades ha agora na Europa, que não tenham o seu pequeno _boulevard_, especie de _rendez-vous_ do mundo elegante e da fina sociedade do bom tom.
E necessario é que isto assim seja. O _boulevard_ não é simplesmente uma ostentação de capital, mas ainda mais uma parte indispensavel á educação de um povo, que não é só intellectual e moral, senão tambem physica e social.
Em Paris qualquer creança aprende mais pelos olhos e pelo ouvido do que nós nas nossas escolas. E o motivo é facil. Habituados desde a infancia a frequentar os differentes jardins--botanico, zoologico, etc.--quando chegam a uma edade razoavel, quasi se póde dizer que são dotadas de uma vasta e profunda educação.
Praticamente aprendem os nomes aos animaes; ouvem-lhes a historia; assistem-lhes ao desenvolvimento e acompanham-lhes os movimentos e os instinctos. E tudo isto, porque desde pequenos frequentam os _boulevards_, onde brincam e onde muitas vezes arranjam os meios de ganhar a vida no futuro.
Mas o _boulevard_ tambem é hygiene, pelo bom ar que lá se respira, pelos exercicios a que convida, e pela facilidade com que se passeia. Depois nem só isto. Ha ali campo para largas observações e assumpto para profundos estudos. Muitos romances conheço eu que tiveram lá a sua origem, além de muitas mulheres que lá foram procurar a sua felicidade e a sua riqueza.
O _Prado_ é um dos mais celebres e um dos mais concorridos passeios da sociedade elegante de Madrid. Diz-se que a sua origem, tal qual se acha presentemente, data do reinado de Carlos III. Rodeado de fontes, de lagos, de arvores, de estatuas, de _restaurantes_, de praças, o seu espaço é enorme, extendendo-se da fonte de Cybele quasi em linha recta até encontrar o passeio de Atocha, formado pela prolongação da rua do mesmo nome.
É raro o dia em que ali não passeiam de quinhentas a mil carruagens, vendo-se frequentemente dentro d'ellas rostos formosissimos, adornados de bellos olhos, profundos e escuros, como só os sabem ser os olhos hespanhoes.
Com dois ou tres passeios ao _Prado_ quasi se fica conhecendo toda a sociedade madrilena, nas suas distincções e nos seus vicios, nas suas virtudes e nos seus erros.
E depois--que mulheres!
A uma historieta assisti eu, divertidissima por signal e extremamente curiosa.
Um amigo meu, amoroso e simples, encontrou-se um dia profundamente apaixonado por uma gentilissima menina, que todas as tardes ali costumava expôr-se á admiração geral dos passeiantes e dos leões da moda.
Até aqui, já se vê, nada de extraordinario.
O ingenuo rapaz, porém, não se podendo mais conter, entrou-se tristemente na desgraçada usança portugueza, e abeirando-se da mulher, fez-lhe a seguinte declaração:
--Deponho aos seus pés, minha senhora, a mais pura e sincera homenagem dos meus respeitos e do meu amor...
Ao que a deusa respondeu:
--Ai! que graça!... Se o cavalheiro soubesse em que eu agora estava a pensar?!...
O galã aproximando-se mais:
--Em que estava a pensar?!...
--Sim, pois não adivinha? aflautou a ingenua.
--Certamente que não.
--Pois olhe estava a pensar num bonito vestido de riscas...
Ó illusões! ó facadas!
No dia immediato o apaixonado moço pegou num lapis, e escreveu á pressa num bilhete de visita as seguintes e doces palavras:
«Pepa (era o nome da heroina)--«Pepa--aborreço-me, e adoro-te».
A resposta, porém, não veio. Pegou noutro bilhete, e tornou a escrever:
«Quem a adora, onde a poderá encontrar?»
Então o coração de Pepa pulsou violentamente dando de si uma tremenda explosão que em seguida passamos a transcrever fielmente.
«Cavalheiro--Recebi o seu primeiro e o seu segundo bilhete. Não respondi ao primeiro, porque não quiz, e ao segundo apenas tenho a dizer que o acho de um arrojo extraordinario e nunca visto».
Assignado por um nome supposto que não era o de Pepa.
Assim continuaram as cousas. Os episodios succederam-se uns após outros. Numa noite, comtudo, ás tristezas do costume seguiram-se no meu amigo umas alegrias estranhas. Interroguei-me a mim e interroguei-o a elle. Reparei-lhe nos olhos, e reconheci-os mortiços; olhei-lhe as narinas, e vi-lh'as extraordinariamente dilatadas. Então a minha consciencia deixou o estado de duvida em que se achava, e entrou serenamente na estrada da certeza. A conquista havia-se effectivamente realisado. Pepa, a sublime actriz, depois de varias piruetas, de varios zig-zagues, de varias fórmulas, concluira emfim por se render. Não era praça inexpugnavel. Presentiu metralha, e caiu. Cumpriu religiosamente o dever que a sua condição lhe impunha.
E nada mais. O meu patricio, o indigena, sahia todos os dias de casa, alegre e bem disposto, e entrava altas horas da noite com algumas libras de menos na algibeira e com algumas desillusões a mais no espirito, até que por fim se saciou.
Ao deixar Madrid, elle vinha menos ingenuo e mais pratico. Lições do _boulevard_!
Na hora da partida escreveu á sua amada uma carta frisante, que bem nos póde revelar a transformação que no seu caracter se operára ultimamente.
«Minha menina--Um negocio urgente me chama a Lisboa. Digo-lhe adeus. A menina é formosa, elegante e distincta. Com duas ou tres horas de janella por dia, estou convencido, encontrará um digno substituto á minha pessoa. Sem mais. O seu...»
E assim é, de facto, o _boulevard_:--a vida, o amor, a formosura--e tambem a lição aos ingenuos e a practica aos inexperientes.
* * * * *
Agora, marqueza, tenha paciencia, caminhemos para o _Retiro_.
Dizem que o sol é o pae da vida--approveitemos o sol. _Bras-dessus_, _bras-dessous_, conversemos. Que lindo tempo! É verdade!--sabe a marqueza de um facto que hontem se deu na cidade? Não sabe? Pois eu lhe conto. Conhecia a Dolores, a formosissima _cocotte_ da _rua de Alcalá_? Que elegante mulher! Tinha uns cabellos louros, que pareciam estrellas do céo. Os amantes, que eram aos centos, querendo comparar a côr do seu cabello com a côr do ouro, por mais de uma vez tinham ficado sem o dinheiro, e, o que é peior ainda, privados tambem do proprio cabello de tão gentil _señorita_. Que ferro, minha amiga, que ferro!
Ha de haver seis mezes, Dolores appareceu, como de costume, no _Prado_. Seriam quatro horas, quando eu a vi chegar. Trajava um elegante vestido de seda escarlate, cuja fimbria recebia quotidianamente os beijos dos amantes e os suspiros do solo, que muito ao de leve pisava e quasi sem mesmo se aperceber. Porque Dolores, a vaidosita, não era mulher que por ahi se gastasse em qualquer passeio solitario. Ella tinha a sua carruagem--uma bonita carruagem moderna e commoda--e tinha tambem, além de muitos escravos, de que o seu coração por vezes escarnecia, os seus creados e as suas governantas.
Dolores era, no fim de contas, como todas as mulheres do _boulevard_, um espirito risonho, attrahente, leviano,--nem Rigolboche, nem Magdalena. Ella alimentava em seu seio o sublime sentimento da familia, educára suas irmãs; e conduzia seu pae--um triste cego!--pelo braço. Não amava porque não queria; tambem não odeiava; mas, se fugia do amor era simplesmente porque lhe reconhecia os perigos. Afóra isto, como se encontrou só e desamparada no mundo, destituida de prendas e de educação, fez vida pela sua formosura, e caminhou rectamente, serenamente, desassombradamente, sem attrictos, sem desvios, sem atalhos pela estrada dos assalariados da terra.
No subir para este calvario, ella, que não queria passar por santa, sentiu que a cruz lhe era demasiadamente pesada e quiz descarregar-se d'ella. Mas ao olhar para traz viu que a sua familia--uma pobrissima e desgraçada familia--carecia, para não morrer de fome, de comer e de se alimentar.
Então chorou. Pobre Dolores! Quantas mulheres como tu não terão passado pelo mesmo desespero e pela mesma agonia!...
Um raio de esperança, porém, penetrou-lhe no coração. A passo lento approximou-se do espelho. O espelho reflectiu-lhe a gentileza sem par. Que alegria, meu Deus!--exclamava ella. Finalmente... finalmente...
E foi-se para a rua nuns impetos estranhos, nervosos, incomprehensiveis...
D'ahi a um mez, Dolores, trajando sedas e veludos, era uma das mil e perigosissimas rainhas do _Prado_.
Mas vamos ao escandalo. Havia um mez seguramente que em redor d'ella como que tentava esvoaçar um ingenuo da provincia--bom rapaz, é verdade, mas algum tanto lorpa. Dolores não gostava d'elle. Mas, emfim, ou por dó ou por capricho permittiu-lhe um dia a approximação. Effectuou-se o _rendez-vous_, que durou meia hora. Ella fallou sempre; elle, porém,--ó pudor!--apenas a comprimentou á entrada e á saída.
Muito bem.
No dia immediato, ao de semilhante encontro, recebia Dolores a seguinte carta:
«_Minha senhora_,
«Pretendo ardentemente o seu coração. Amo como nunca amei. Exijo que me attenda. No caso contrario, suicidar-me-hei.»
--Curioso, curioso!--exclamava ella, rindo e correndo pela sala.
--Original, original!... Tinha graça... ficar sem o meu _chacho_... elle que me póde render ainda tão boas, tão santas libras... Oh! pois não... attendel-o-hei... Cahirei aos pés d'elle, que não falla... aos pés d'elle... não, não te suicidarás, formoso!....
E, e sem mais, Dolores tomou a penna e escreveu laconicamente:
CONTA CORRENTE
«_Deve o sr. F. por meia hora de conversação commigo, no dia 1.º do corrente, a simples quantia de 1:000$000 réis, que pagará em oiro ou prata, dentro de vinte e quatro horas a contar de hoje das 11 da manhã._
_Assignada_--DOLORES.»
E assim foi. O rapaz, ao receber o bilhete, sentiu-se quasi allucinado. Depois, porém, recobrou animo e serenidade. Pensando que seria aquelle o unico meio de a conquistar, volvidas duas horas, após a recepção da carta, respondeu com a mesma singeleza:
«_Minha senhora_,
«Por si darei tudo, a minha vida e o meu futuro. Póde, quando quizer, mandar receber o dinheiro que pede no banqueiro C., rua de ***, n.º....»
Dolores passou, então, pela primeira impressão forte na sua vida. Esta resposta laconica e expressiva, como era, agitou-lhe violentamente as fibras da sua alma, d'ella. Reflectindo bem no caso e na dedicação, com que fôra brindada, ella a orphã, ella, a _desdichada_, ella, a meiga, ella--a preciosissima joia, engastada numa sociedade de meras apparencias e de meras formalidades, ella, a Dolores, ella chorou sinceramente.
--Não!--dizia ella--Eu não receberei este dinheiro. Nunca! Mas em vez do seu dinheiro--oh, sim!--eu receberei o seu amor, que deve ser sublime com a sua generosidade; o seu amor, a pura expressão de um coração honesto e simples.
E escrevendo, ella disse-lhe a chorar:
Meu amigo,
«Renuncio ao seu desinteresse. Sinto que o amo doidamente. Desejo vel-o. Venha quando quizer.
«_Dolores._»
Assim se encadearam os acontecimentos. Dolores, sem ser Margarida arrependida, tornou-se, todavia, mulher séria e grave. O nosso provinciano, sem ser Armando, adquiriu pelo amor de Dolores a consciencia de si e a elevação da sua dignidade abatida.
Mas, quando menos a gente as espera, é quando o diabo as arma.
Dizem-me que hontem, tanto Dolores como o seu amante, foram encontrados mortos, na propria casa em que desde muito habitavam.
Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza...
Mas, por Deus, entremos no _Retiro_.
O seu braço, minha amiga, o seu braço!...
* * * * *
O passeio do _Retiro_, um dos mais afamados da Europa, foi fundado no reinado de Filippe IV, sob a inspiração do conde duque de Olivares, especie de marquez de Pombal na Hespanha.
Quasi todos os despotas gostam de deixar assignalada a sua passagem na terra com monumentos immorredouros, por via de regra attestados de inepcia, de orgulho e de mau gosto.
Foi assim que, entre nós, no tempo de D. João V se originou o celebre convento de Mafra. E foi assim que nasceu o _Escurial_, embora de melhor gosto e de mais elevação artistica.
Durante o reinado do seu fundador, o _Buen-Retiro_, pelos seus passeios, pela sua magnificencia, pelos seus jardins, pelos seus palacios, pelos seus theatros, quasi se podia dizer um Eden, entreaberto aos sorrisos das morenas feiticeiras e um paraiso entresonhado pelos cavalleiros desde aquelles periodos aventurosos.
Tudo, porém, neste mundo tem a sua decadencia. Filippe V, querendo guindar-se á altura do monarcha francez, virou-se para os jardins de Aranjuez, onde lhe pareceu divisar competencias, embora longinquas, com Versailles, de todos os passeios actuaes da Europa o mais célebre e o mais sumptuoso, ainda quando mais não fosse senão pelo jogo das aguas, as quaes, na sua ascensão phantastica e miraculosa, se alteiam muitas vezes, numa extensão de cincoenta metros acima do nivel do lago.
Assim foi decaindo tão rara maravilha. Fernando VII tentou restituil-a á vida. E o facto é que o _Retiro_, mercê das grandes e enormissimas quantias nelle sepultadas, atravessou incolume até nós, a salvo das revoluções e em plenos sorrisos de felicidade.
Leitora amiga--se realmente ama o passeio, percorra a _Carreira de S. Jeronymo_ e entre no _Retiro_. Levante-se cedo, tome o seu chaile, calce as suas luvas, e prepare-se afoitamente para banhar-se numa boa atmosphera, salutar e agradavel. Esta pequena digressão ha de fazer-lhe bem, porque é hygienica e variada. Em casa póde dispensar o seu chocolate; ha de saboreal-o lá, depois de ter passeado, depois de ter ido ao lago, depois de ter visto as feras, emfim, depois de estar cançada. E verá que a não engano. Lá encontrará um bom _restaurant_ aceiadissimo e commodo. Á cautella, porque o almoço é tarde, sempre lhe aconselho que mande vir duas ou tres bolachas.
Como queira. Perto de nós temos a _montanha artificial_ e o _salão oriental_. Já lá foi? Que soberbo panorama! D'ali, d'aquella eminencia, apparece-nos Madrid, em toda a sua vida e em toda a florescencia. Que magnifica cidade, e sobretudo, que cidade tão moderna!
É verdade--e o _jardim botanico_? É logo no passeio do _Prado_. Dizem que só está aberto desde 30 de maio até 30 de setembro. Mas é um famoso recinto, bem cultivado, com excellentes plantas e situado num magnifico local. Possue, além disso, este jardim uma notavel variedade de plantas e uma curiosissima secção _zoologica_, cujo objecto é alimentar e propagar, na Hespanha, toda a especie de animaes.
E a _Recoletos_--já foi a leitora?--E á _fuente Castellana_?
O primeiro tem, como o _Prado_, oito lindissimas fontes, todas ellas no meio de praças, de arvores, e de mil outros attractivos, que dão ao nacional o supremo consolo de poder passar bem duas ou tres horas por dia.
Porque estes passeios não servem apenas de meras distracções. Outros são os seus fins e outras são tambem as suas vantagens.
Os _boulevards_, em geral, além de possuirem no seu seio mil cousas dignas de um estudo especial, são por outro lado um espectaculo que as municipalidades offerecem á pobreza, tão curiosa como digna de divertir-se.
No nosso paiz os operarios não encontram um espectaculo gratuito. Por isso, á falta de entretenimentos, entram nas tabernas, e embriagam-se. Tivessem elles uma boa musica, um bom passeio, um exercicio attrahente e o amor do vinho desapparecera. Tivessem elles, sobretudo, municipalidades desinteressadas e independentes, e as suas doenças, assim como o seu mal estar não teriam mais razão alguma de ser.
O artista tem no _boulevard_, uma formosa galeria, especialmente merecedora de analyse e de critica. Nos museus encontram-se os quadros pintados. Pois o _boulevard_ é um museu--ao vivo, já se entende.
Dizia Richelieu que costumava esmagar o amor debaixo do tacão da sua bota. D'onde se vê que nem o illustre cardeal se pôde eximir ás influencias do mundo exterior e dos _boulevardiers_.
O _boulevard_ é ainda mais o figurino, a moda, o _chic_. Quem fôr á _fuente castellana_, que começa na casa da moeda e termina na fonte do mesmo nome, encontra ali o mais selecto da sociedade madrilena--_toilletes_ finissimas, aristocracia elegante e burguezia desempenada.
Foi na _fuente castellana_ que se originou uma elegantissima paixão ainda hoje inedita nos annaes da historia hespanhola.
Conta-se que um notavel tribuno, escriptor e poeta, andando um dia a recrear-se neste passeio, fôra apanhado de surpreza pelos olhos abrasadores de uma sevilhana gentil; e por tal fórma se deu este facto que elle, hoje politico illustre no seu paiz, nunca mais pôde subtrahir-se ás influencias d'aquelle dominio.
A menina foi, passado um mez, pedida á familia em casamento. Ella acceitou, e o matrimonio ficou assim solemnemente tratado.
Demorou-se, porém o negocio. A noiva pretextava desculpas, que ninguem sabia a que attribuir. Em casa, além da familia, só entrava um padre. O noivo, furioso, tratou de indagar. Sabendo finalmente, que fôra o padre o motor de similhante desordem, elle, com a maxima serenidade, procurou-o em casa, e disse-lhe expressivamente:
--Entre o insulto e o assassinio prefiro o segundo. Queira fazer o acto de contricção.
O padre ajoelhou.
--Agora levante-se, e peça perdão a Deus.
E zás, sem mais tir-te nem guar-te, ouviu-se a detonação de um tiro. Uma bala havia atravessado o peito do hypocrita.
--Finalmente--exclamou o tribuno.--Para os frades bacamarte, para a batina clavina.
E fugiu.
Volvidos annos, este mesmo cavalheiro voltava á patria, casava com a mesma menina que em tempos namorára, e preparava-se para ser ministro, o que já foi ha muitos annos.
Oh! os _boulevards_, minha querida marqueza, os _boulevards_...
Mas, a proposito, quer a marqueza jantar commigo?
XVII
HISTORIA INEDITA
Ha de haver nove mezes que isto succedeu. Ia eu de Madrid para o Escurial. O unico companheiro de viagem que a fortuna me concedeu, durante o trajecto que vae da cidade do sr. D. Affonso XII ao Versailles hespanhol, era uma senhora alta, de cabello louro, de olhos azues e de uma distincção profundamente aristocratica.
Mudos, por muito tempo, foi ella, afinal, quem rompeu o silencio.
--_Es usted español?_--perguntou-me a minha amavel companheira.
--Não, minha senhora, sou portuguez--respondi.
--Ah! portuguez.... conheço perfeitamente Lisboa; já lá estive tres mezes. É uma cidade bonita, mas muito monotona. A natureza é admiravel, mas a sociedade é demasiadamente ficticia. Não tem uma vida propria, e vive do que os outros lhe querem dar...
--E posso eu ter a honra de saber a quem me dirijo?
--Ora! por Deus! sou muito modesta para que deseje saber quem sou. Nasci na America, em Nova-York. Depois meus paes mandaram-me para Paris, onde fui educada. De Paris passei á Suissa, onde residi alguns annos, e da Suissa vim para Madrid, onde vivo ha dez annos com meu marido e um unico filho que tenho.
--E a opinião de v. ex.ª ácerca de Madrid?
--Um magnifico centro com muita vida propria e alguma corrupção. Detesto muito a politica hespanhola, e amo do coração a sua litteratura. Gosto muito dos seus poetas e dos seus litteratos. São enthusiastas ardentes e mais que tudo fanaticos _à outrance_.
--E a respeito das litteratas hespanholas, que me diz v. ex.ª?
--Uns verdadeiros talentos. Conheci de perto D. Carolina Coronado. Tem uma historia engraçada. Um dia ella, a caprichosa, que tanto e tão a peito defendia a emancipação da mulher, arrojou para longe de si o trajo feminino, e fez-se rapaz. Engraçadissima! Entrou na universidade ao mesmo tempo que seu marido, formou-se em direito, e já escreveu sobre direito penal. Hoje é uma distinctissima poetisa, e ainda uma deslumbrante mulher.
--Admiravel!
--Tambem tive relações intimas com a melhor novellista hespanhola, que usava do pseudonymo Fernand Caballero. Havia sido perceptora dos filhos do duque de Montpensier, e presentemente pouco escreve, creio eu.
--E a baroneza de Wilson, conheceu?
--Perfeitamente. D'essa senhora conta-se tambem uma anecdota curiosa. Diz-se que Zorrilla estivera doente, e que, na sua enfermidade, fôra tratado desveladamente por uma senhora, sua vizinha. Ao cabo da doença, elle, querendo ser grato, esposou a sua enfermeira, a qual, então, vivia com uma sobrinha, mulher de um grande talento, que mais tarde casou com um inglez e que por isso se chamou baroneza de Wilson. E tambem vivi muito de perto com D. Maria Pilar Sinués de Marco. É romancista afamada. Vem-lhe de seu marido o nome de Marco, e por isso os hespanhoes dizem d'elle--_se le conoce porque és marido de la Sinués_, (similhança de _Cabeza e Calabazas_).
--Nunca fallou em Lisboa com uma distinctissima senhora, que usa do pseudonymo Leon de la Vega?
--Pois não! Sei que é esposa de um engraçado escriptor chamado D. Thomaz de Mello.
--Exactamente.