Costumes Madrilenos Notas de um Viajante
Chapter 4
Trata-se, minhas senhoras, trata-se meus senhores, trata-se do grande rei de Hespanha, da grande alma dos cafés, do grande senhor da politica, da grande _dama d'honor_ de todos os paços, do grande, do supremo _Bobeche_ de todos os ministerios, do grande _Pierrot_ de todos os tribunos; trata-se (mas isto em segredo!) trata-se do _salero_.
O _salero!_ _Caramba!_ Sabe a marqueza o que é o _salero_? Nunca na sua vida teve, ao menos, um ataque nervoso; nunca se irritou contra as diabruras do marquez; nunca teve as cócegas, que ordinariamente nos trazem as comidas apimentadas; nunca experimentou _Mabille_; nunca dançou um _can-can_ simples, um d'estes _can-cans_ que mesmo em familia se dançam com os pequenos da casa; nunca namorou, marquesa? e nesse culto virginal, não se mexia, não revirava os olhos, não compunha o laço da gravata, não apanhava a prega do vestido, não se assoava, não mudava um gancho do cabello, não tinha sorrisos frisantes, não fingia, não brincava?
Fazendo tudo isto, sem mesmo o saber, a marqueza tinha _salero_, e era hespanhola.
Mas, perdoe-me a leitora, para se ter _salero_ não basta só conhecer o _Terreiro do Paço_ e o _Rocio_, ir de quando em quando a S. Carlos ouvir mad. Sass, e frequentar aos domingos o _Passeio publico_, como qualquer simples burguez.
Nada d'isto. Se a marqueza realmente quizer ter _salero_ saia de Portugal, despeça-se dos seus amigos, vá a Madrid, tome a sua mantilha de andaluza, frequente todos os dias o _Prado_ e o _Retiro_, entre no café imperial e discuta a politica do sr. Canovas del Castillo--emfim, minha querida senhora, se quizer ter _salero_ seja hespanhola.
Bem vê, marqueza, que isto de ser portuguez é um tanto exquisito, e arrasta-nos a gravissimos inconvenientes; porque, emfim, permitta-me v. ex.ª que espirre um pequeno sarcasmo sobre o paiz do sr. D. Affonso Henriques--nós, os portuguezes, nem temos a _coquetterie_ franceza nem a seriedade britanica; de modo, que, imitando a todos, ficamos sendo cousa nenhuma, o que mathematicamente equivale a zero.
Destruir, porém, o zero, anathematisar o vacuo, preencher essa pequena lacuna deselegante, rotunda e burguesa--tal deve ser a missão da nossa mulher.
Que o zero se retire d'este paiz: que o sr. Serpa não tenha pejo em o pôr fóra da sua secretaria; que os grandes algarismos herculeos nos entrem pela porta dentro, e exclamem soberbamente: «Nós, os finorios da arithmetica, nós é que somos a riqueza, o credito e a virilidade. _Nos quoque gem sumus...._»
E dito isto--que _mylady_, a sr.ª marquesa, se não esqueça de mandar vir uma boa carroagem _Daumont_; que _mylord_, o sr. duque, mande preparar um bom jantar aos seus amigos intimos; e finalmente, que o _demi-monde_ procure Keil, a gloria dos alfaiates lisbonenses, adquirindo assim, em virtude da thesoura, o _chic_ e a pose de quem muito viajou.
Já vêem que o conselho é aliás muito trivial; para o pôr em pratica uma unica condição se requer--pagar aquillo que se deve.
Eu desejava, é verdade, que a leitora tivesse _salero_--que o comprasse nos cafés, nas _calles_, na _Puerta del Sol_, que o adquirisse no _Prado_ e no _Retiro_, onde diariamente apparecem de mil a duas mil carroagens, deslumbrantemente equipadas, mas, emfim, se isto lhe é de todo impossivel, se realmente lhe repugna o caracter hespanhol, tenha paciencia, e mande vir um figurino de Paris. Aprenda a calçar-se bem; arranje 60 libras, e appareça um dia no _Bois de Boulogne_; decore dois ou tres bons ditos: torne-se artificial, ligeira, engraçada, mas com _verve_, _avec de l'esprit_--numa palavra torne-se franceza; ou ainda, se a menina vê difficuldade neste passo e tem aspirações a ser mãe, então tenha a bondade de tomar um bilhete pelo primeiro paquete de Southampton e de visitar a Inglaterra.
E assim é realmente que a mulher hespanhola é mais material do que sentimentalista, mais da sociedade do que da familia, mais do mundo do que do coração.
Por via de regra, a hespanhola é franzina, delicada do corpo, com as faces coloridas pelo uso do chocolate e os olhos scintillantes de vivacidade e de ardor verdadeiramente meridional--alguma cousa do facetado do crystal e da delicadeza da porcellana; nem possue o _coquettismo_ da franceza, porque lhe falta o apuro do espirito, a revelação da ironia, o pungente do sarcasmo, nem a _mènagerie_ da mulher ingleza, porque ella é muito simplesmente a negação d'esse viver intimo e famillar.
Mas, em compensação, ella, a minha formosa andaluza, tem uma cousa que nenhuma mulher d'este mundo é capaz de ter--ella tem o _salero_, isto é, o desprendimento olympico, titanico, por tudo quanto é vida e amor, o doce _laisser-aller_ da arte, que é luz, e magnetismo--luz, que abrasa em sua chamma aquellas candidas borboletas dos cafés, magnetismo, que adormece em seus braços aquellas ternas andorinhas, como as outras aves, suas irmãs, sequiosas de ar, de prazeres mundanos, de folgança, mas folgança, perfeitamente real, selvagem como o matar de um touro, o esfaquear de uma creatura, ou o abrazar de uma consciencia--ella, a hespanhola, ella não é verdadeiramente uma mulher, mas muito mais do que isso:--ella é um rapaz de saias, um pequeno demonio alegre, juvial, attrahente, um doce mysterio de dois sexos, incomprehensivel, que ao mesmo tempo participa de um, pela virilidade, pela audacia, pelo arrojo, e de outro pela meiguice inconsequente, pelo rir suavemente acariciador, e pela ternura extraordinariamente singular que as reveste.
Oh! as hespanholas! as originaes!...
As nossas mulheres, por exemplo, imitam servilmente as francezas; mas ella--por Deus!--ella é o que é--só ella, sem mais ninguem, caprichosa, unica, originalissima.
Aquelle fallar, aquelle rir, aquelle modo de dizer as cousas tão á _propôs_ e tão seu, aquelle _salero_, e, sobre tudo isto, fazem com que a mulher hespanhola tenha dois lados immensamente notaveis e extraordinarios--a energia e o _salero_, isto é, o chocolate na sua consequencia digestiva e physiologica--o movimento e a graça.
Dito isto, minha querida leitora, façamos como ellas--tomemos o chocolate e tenhamos _salero_.
_Caramba! que salero!..._
XIII
THEATROS
A vivacidade do genio hespanhol tem ainda um reflexo do seu bom humor e da sua veia, sempre fina, alegre, e sarcastica a espaços relampagueada por um raio de colera ou por uma faisca de trovoada--é o theatro.
Oh! os theatros em Hespanha! que sumptuosos edificios! que riqueza na _mise-en-scene_ de qualquer peça! que luxo! que prodigalidade...
Ao ouvir as doces _malagueñas_ e as ternas seguidilhas, desferidas por labios de romã, que nem eu sei se são da terra, se são do ceu, quasi chegamos a julgar-nos transportados ao Oriente, com todo o seu cortejo de sensualidades que matam, de _bailadeiras_ que seduzem, e de amores que fervem.
Que deliciosissimas sereias, em pleno seculo XIX! que sublimes actrizes, aquellas, meu Deus! E havia de, ainda assim, ser condemnado um cidadão, se, _à la belle etoile_, e a occultas da parentella, intentasse o rapto d'uma d'aquellas formosas _sabinas_, mais diabos que o proprio Diabo e ganhando em seducção á propria serpente do paraiso terreal?!...
Uma cousa, porém, distingue o theatro hespanhol--é a _zarzuella_, especie de meio termo entre a opera lyrica e a opera buffa; suave umas vezes com as transparencias sentimentaes das paixões humanas, alegre sempre, folgasã quasi sempre, e por toda a parte impregnada d'um estranho frescor de malicia e de surpreza, que chega a prender ainda os menos atreitos aos laços de Satanaz.
Em França, por exemplo, a opera buffa foi uma creação meramente do _demi-monde_; creação necessaria no meio das corrupções do imperio, em que se fazia mister caricaturisar e pôr bem ao vivo todos os podres de uma sociedade effeminada, desde o imperador, que representava o vicio dourado e a lepra engastada em diamantes artificiaes, até á ultima _grisette_, que, por causa de um estudante do bairro latino, tinha empenhado os seus derradeiros ceitis: mas com a _zarzuella_ não succedeu o mesmo, porque ella foi uma creação espontanea da jovialidade de um povo relativamente feliz, e que ha de sobreviver a todos os cataclismos sociaes, como até aqui tem sobrevivido a todos os tempos.
Offenbach tem na sua gamma uma só nota caracteristica--o riso, a ironia, o sarcasmo. Marianno de Larra, auctor de muitas _zarzuellas_ notaveis, possue, além do riso, a lagrima que lhe serve de contraste e que o dulcifica.
A _Grã-Duqueza_ é uma correcção ás momices imbecis de uma diplomacia estonteada, um quadro fiel das _cocottes_, arvoradas em mandadeiras de exercitos, uma photographia de costumes pervertidos pela immoralidade de um governo inepto e pelo capricho de um monarcha infame; o _Jogar com fogo_ é um entre-acto agradavel ás acenas da vida, um delicioso intervallo aos soffrimentos e ás dôres da humanidade.
E é o que tem a _zarzuella_: não cança nunca, porque foi um producto natural e espontaneo dos hespanhoes, tal qual como o chocolate e o _salero_; ha de viver sempre, e atravez de tudo, porque tem em si impresso o cunho da originalidade e da tradição, que não morre, e a elevação do sentimento, que será sempiterno no seio dos homens e das civilisações.
A opera-buffa foi um arranco de homens fortes, em meio da perdição que os ameaçava; nem ha de ter nunca a universalidade da _zarzuella_ nem a elevação da alta-comedia. O seu dominio no theatro ha de ser, portanto, passageiro e ephemero.
Numa palavra, a _zarzuella_ tem as suas raizes nas immutaveis oscillações do coração humano, e que a torna duradoura e imperecivel; a opera-buffa originou-se numa sociedade de transição, e ha de, por isso, como ella, ter um mediano imperio sobre as épocas positivas e scientificamente organisadas.
Em quasi todos os theatros de Madrid se canta a _zarzuella_, e em quasi todos elles tambem com a animação, com o vigor, com a frescura com que só os hespanhoes a sabem cantar.
Quando, pela primeira vez, entrei no _Theatro Real_, situado no largo de Isabel II, com a fachada principal para a praça do Oriente, senti-me sinceramente deslumbrado. É tal o luxo d'aquella casa, tal a ordem, tamanho e socego, que, em boa verdade, mal chega a gente a pensar que esteja na capital da Hespanha, no paiz dos bandoleiros de toda a especie e no centro de um vulcão, sempre em revolta comsigo mesmo.
E depois, que contraste entre uma tourada e uma representação theatral! Que a delicadissima leitora, do meio de um deserto, confuso, anarchico, impetuoso, açoutado pelo _simuon_ e ennegrecido pelas areias, se julgue subitamente transportada a um paraiso, onde adejam os cherubins com as suas azas brancas e onde sorriem os anjos com as faces louras.
Assim me succedeu a mim quando uma tarde, dos suburbios da Porta de Alcalá, onde existe a praça de touros, me lembrei de ir ao theatro, afim de ouvir cantar esse eterno e insubstituivel poema do coração humano, mui modestamente chamado--_Romeu e Julietta_.
Nunca em Hespanha uma pateada interrompeu os espectaculos lyricos. A platêa do _Theatro real_ não é só rica em alcatifas, em estofos, em casacas e gravatas brancas, mas ainda e muito principalmente na seriedade dos seus espectadores e na respeitabilidade mais que urbana e generosa dos seus _habitués_.
Na rua de Jovellanos encontra-ae o theatro da _zarzuella_. De _zarzuella_... dizem elles; nós diriamos quasi um segundo theatro lyrico. Que vozes tão admiravelmente timbradas, e que modulações tão harmonicamente produzidas!
Representava-se então uma velha _zarzuella_, muito velha e muito ouvida, mas sempre fresca no rhythmo e no pensamento, que é nada menos do que a expressão do caracter hespanhol. Queremos fallar de _Pan y toros_.
--_Panem et circenses_, gritavam os romanos; _Pan y toros_, exclamam os hespanhoes, como querendo mostrar a intima affinidade que, de facto, existe entre um e outro paiz. Mas--cousa singular! a França tambem é de origem latina, e no entretanto a França, a generosissima filha da revolução e do pensamento moderno, em vez de pão e touros, do alto das suas muralhas de guerra e do topo das suas fortalezas, soluça altivamente--_ou pão ou chumbo_.
E assim é realmente que ella caminha, não em demanda de espectaculos que embrutecem, mas sim em procura de civilisações, que são como que os marcos milliarios da humanidade trabalhadora.
Muito bem. Imaginemos a côrte no doido phrenesi d'um baile. Subito uma denotação fere os ares. Abre-se uma das janellas do palacio. Cessa a volupia. Um dos convivas descendo a escadaria, reconhece haver-se morto ali um capitão de infanteria, ha poucos instantes. Averiguado o caso nada era.
--«Póde o baile continuar, exclama o mestre. Não é nada, não é nada. Um homem morto. Apenas um homem morto!»
E a orgia proseguiu; porque, a dizer-se a verdade, não vale nunca a pena interromper os prazeres mundanos pela simples bagatella de um assassinato.
Ora nesta _zarzuella_ transparece perfeitamente o caracter hespanhol, irrequieto e indomavel, com todos os seus mil caprichos de momento e as suas labyrinticas phantasias de occasião.
Além, porém, d'estes dois theatros, ainda poderiamos mencionar muitos outros, e entre elles o theatro da _Comedia_, theatro muito moderno, lindissimo na fórma e admiravel pelo seu reportorio; o theatro do _Circo_, na praça del Rey; o theatro de _D. Affonso_, proximo da Porta de Alcalá; o theatro das _Variedades_, o theatro das _Novidades_, etc., etc.
E tudo isto ainda por cima, rodeado de circos, de largos, de exposições, de musicas, de alegrias ferozes e de mulheres encantadoras.
É verdade, e os _patinadores_?
Fallemos dos _patinadores_.
XIV
OS PATINADORES
Princeza, o seu braço! Vossa alteza é morena, viva, alegre; tem uns bellos olhos rasgados, profundos, negros, como os abysmos do inferno. Pois bem: que a sua alma ardente e expansiva, como este bello sol da peninsula, que nos aquece e anima, se digne, por um pouco, acompanhar-me a aspirar o ar bom da natureza.
Quero tel-a ao meu lado, rainha. Bem vê--eu não sou fidalgo, nem conde, nem barão. Á fé que o não sou. Mas emfim, se é verdade que a um democrata nunca ficou mal beijar a mão de uma aristocrata, conceda-me a indiscripção. Os meus labios tocarão delicadamente á superficie d'essa meiga flôr de liz, mais bella e mais transparente do que uma renda de Bruxellas. Depois, e só depois, o paraizo...
Antes de mais, porém, tomemos um fiacre, um commodo fiacre, ligeiro, com duas molas flexiveis, dois nobres cavallos, briosos, e um valoroso cocheiro de mão certa e pulso firme. É verdade que as rainhas hoje nem sempre estão prevenidas. No entretanto, tu, minha velha amiga, tu, que não tens nenhum reino a perder; tu, que nunca passaste do _boulevard_ com todos os seus perigos e attracções; tu, com certeza, tens ainda os cem luizes que hontem á noite te deixou aquelle inglez excentrico de suissa loura e ar grave.
É para elles que eu appello, para esses cem luizes honestos, puros, serenos, capazes de encher a historia do mundo, e incapazes de concitar em redor de si odios republicanos ou raivas demagogicas. Não! os cem luizes são de todos--de todos os tempos e de todos os logares--reinando sempre, e sempre bem: irresponsaveis, sem exercitos, sem côrte, sem apparato, mas valentes, com consciencia de si, e valendo pelo silencio, aquillo que os mais abalisados do mundo não podem conquistar pela palavra.
Que magnificos sujeitos!
E agora reparo que nestas conversas iamos perdendo o tempo. Aqui está a carruagem. Entremos para a carruagem.
Da _Puerta del Sol_ ao _Prado_ são dois passos. Olhe a princeza: vê aquelle cavalheiro de bigode e pera alourados, estatura regular, pallido de rosto e expressivo no olhar?--é o general Pavia, o celebre assassino da republica em Hespanha.
Mais além, repare: aquella morenita, leve como uma penna, e adoravel como uma fada, é Pepa--uma heroina de amores e uma actriz de corações humanos. Mas, que nobre vulto, este agora? É o duque de Abrantes, por sangue descendente de Portugal, antigo possuidor da quinta das _Laranjeiras_, senador e conselheiro de Isabel II. É homem baixo, magro, secco e decidido nos seus gestos, o que indica uma vontade firme e um caracter recto.
Mas chegámos, finalmente. Uma vez que estamos em _Recoletos_, entremos num d'estes circos.
Que magnifico sol e que supremas alegrias! A neve é pouca; e por isso nós, que queremos patinar, recorreremos ao artificio.
A praça está encerada. Muito bem. Patinemos na praça.
O seu pé, minha doce amiga. Não tenha medo. Por Deus, não trema. Não trema, que não morrerá, asseguro-lh'o eu. Nunca leu a admiravel historia dos patinadores descripta por Alexandre Dumas no _Colar da Rainha_?
Olhe, é um encanto! Por exemplo, eu quero patinar, mesmo no circo, colloco debaixo de cada pé um pequeno carrinho, composto de tres rodellas de ferro.
Dê-me o seu pé, e verá.
Agora firme, sem attrictos, serenamente, imperturbavel; deixe-se escorregar, como uma pequena gondola veneziana; unicamente, para não cahir, imprima um leve movimento aos joelhos, alternando-os, por causa da lei do equilibrio.
Depois, oh! depois, o infinito, o ideal, o amor, as azas, mais velozes do que as de uma ave, as pernas mais ligeiras que as de uma corça; uma estranha mão apertando-nos a nossa; é o paraiso a sorrir-nos num beijo que ninguem vê, e a gloria a mirar-nos num céo, que nos allucina, que nos embriaga, que nos absorve.
Correr, voar, amar!--tal é o triplice fim de um patinador.
Mas, antes que se chegue a ser um bom patinador, intrepido e valente--que trabalhos, que luta e que risota! Que risota, sobretudo!
Vai um portuguez a Madrid, e mesmo nisto começa por conhecer a sua inferioridade. Que poltrão! Aluga dois carrinhos, e vem para o circo: olha; vê, sorri-se, anedia as guias do bigode, dá um geito ao cabello, e toma ares de _Bayard_ de papellão; deseja tomar a posição perpendicular, e vacilla. Dou-lhe um, dou-lhe dois, dou-lhe tres; por fim o heroe parte; horror! não parte, porque a inhabilidade o torna pesado, refractario á gymnastica, e ao desenvolvimento de musculos. Risota geral--Ah! Ah! Ah... _Hic jacet infelix patinator..._
A victima levanta-se, desconfia d'aquelles comprimentos improvisados, e conclue por detestar os sabios de qualquer natureza que elles sejam.
Mais uma tentativa. Vejamos. Talvez fosse defeito das rodas, talvez dos pés, talvez da falta de agilidade... Experimentemos. Novo impulso. Ah! Ah! Ah! Nova queda.
E, entretanto, em quanto isto se dá, alguns milhares de cavalheiros vão seguindo o seu rumo, sem interrupção, olhando de soslaio os principiantes, e mostrando naquelle modo de correr que até a andar se póde ter consciencia de si e vaidade dos outros.
Duas senhoras inglezas vi eu, um tanto esquivas ás ironias do amor, que mais pareciam, patinando, sonhos aéreos, visões romanticas do que realidades terrenas.
Nós a tentarmos a approximação, e ellas a fugir, a fugir, como sombras longinquas, que só por escarneo se approximam de nós, para novamente nos escapar, fazendo-nos umas tristes e desoladas figas.
Que horror! E Frutos Martinez, o patinador illustre, avisado naquelles assumptos, collocando, cheio de raiva os seus carrinhos, lá se ia, inconscientemente, atraz d'aquellas borboletas de olhos azues e cabellos louros.
Mas, certamente, meus caros concidadãos--a patinação não e simplesmente um espectaculo agradavel, rodeado de peripecias curiosas e movido por generosos impulsos de espirito. Não! na patinação ha ainda mais o desenvolvimento physico, que muito conviria á nossa mocidade enfesada, e o interesse moral, que, de certo, aproveitaria mais aos nossos rapazes do que uma facada dada no Bairro Alto, em pleno dia.
Em todo o caso, uma vez que assim queremos ser, sejamos assim, sem graça, sem espirito, e sem a elegancia, que naturalmente se exige nas existencias modernas.
_Honra soit qui mal y pense..._
XV
TOURADAS
_A los toros! a los toros!..._
E a populaça, ebria de sangue e sedenta de prazer, empoleirava-se no cimo das carruagens, comprava camarotes pelo dobro do preço, corria pelas ruas como um possesso, gritava, ria-se, atirava ao ar os seus chapeus emplumados, cortejava a realeza que passava, dava vivas á _Marselhesa_, e fugia, fugia nas azas do phrenesi irrequieto, em demanda do mais barbaro de todos os espectaculos do mundo.
Ó Hespanha, minha querida amiga, doce filha dos cafés e da volupia, tu, que possues _museus_ que te são um legitimo patrimonio de orgulho e de riqueza; tu, que amamentaste ao teu seio os maiores oradores da Europa contemporanea; tu, que tiveste artistas como Murillo, Velasques, e Goya; tu, que és o amor, a contradicção, o mysterio; tu, minha perola, tu não devias ser _torera_.
Emfim, eu sei que tu tens defeitos; e o teu primeiro defeito, acredita-me bem, é ser militar. Os teus rapazes, porque são novos, desejam agradar ás mulheres: pegam numa arma com a mesma sem-ceremonia com que nós aqui bebemos um copo de agua. Que valentões! O campo de batalha sorri-lhes, o inimigo revolta-lhes as iras concentradas, e são leões, atiram-se, atiram-se ferozmente sobre a metralha adversa. Nem sua magestade o canhão Krupp os intimida, nem os joelhos lhes tremem á vista do adversario.
Que valentões! que valentões...
Ai! querida minha, que se não fossem as mulheres, tu serias mais feliz e respeitada. Mas, que diabo! para que tens tu filhas tão formosas?--para que? Não te bastava já o chocolate, para, á semelhança de um vulcão, trazeres sempre dentro de ti o fermento da revolta? Ainda, por cima, olhos scintillantes, rostos abrasadores e _salero_ atrevido? Ora pois, nada mais te faltava...
Tem paciencia; mas tu, Hespanha, tu o que tens é excesso de calor, de sensualidade, de veneno, de corrupção. Os estrangeiros acham a tua cosinha demasiadamente apimentada; nós encontramos as tuas mulheres sempre como uma braza--a ferver; nos teus cafés toma-se pouca soda; o proprio sr. Canovas del Castillo, quando falla no congresso, não é muito atreito aos gólos de agua; o teu rio é semsaborão, estreito, pouco abundante e superficial. Ao que parece, um poucochinho de agoa de mais, um poucochinho de lume de menos não deixaria de fazer-te bem. Numa palavra, minha querida amiga, se queres viver independente, feliz, alegre, satisfeita comtigo mesmo--purga-te, manda vir da botica duzentas grammas de bom senso politico, que será a tua magnesia calcinada;--fóra, fóra com essa bilis que te devora o organismo: estomago limpo e menos... chocolate aos srs. politicos.
Mas os touros, os touros! por vida minha, que nunca assisti a espectaculo mais curioso, mais terrivel, mais seductor. Até as proprias mulheres se tornam viris, musculosas, corpulentas--ellas, que uma hora antes tinham acceitado a côrte a um gentil militar imberbe; ellas, que são um puro mysterio, uma alta excentricidade; ellas, emfim, que têm o dom mythologico de nos apparecer sob o duplo aspecto da força e da fraqueza, do repente e do meditado, do meigo e do energico.
Inundára-se de povo a _Calle de Alcalá_. Os _char-á-bancs_ eram sem numero; os guisos telintavam nos classicos muares; por toda a parte a corrida infrene, as subitas allucinações, os risos infernaes; as vertigens, que referviam em desejos ardentes; a loucura, que volitava em nuvens de enthusiasmo; a alegria, que trasbordava em ondas de amor; a vida, a mulher, o fumo, o chocolate, os touros emfim.
Que delirio para aquella gente! que devoção! que irresistencia!
Chega o primeiro touro: os leques agitam-se; no olhar ha mais irradiação; scintillam as moedas de prata; aos pés do bandarilheiro audaz cahem as dezenas de charutos.
--A elle, meu valente, a elle...
E o cavalleiro aponta-lhe a lança ao pescoço, e o animal investe com o cavallo. Com uma das pontas rasga-lhe o ventre; a multidão, embriagada, applaude o sangue; mais uma investida e o _misero cavallo lazarento_ succumbirá; assim; mais uma; até que, emfim, vem a morte dulcificar este pandemonio infernal!