Costumes Madrilenos Notas de um Viajante
Chapter 2
Mas bandido--manhoso tinha já propensões para abusar. A policia ia-lhe sempre na pista. Todavia, elle, o heroe, elle não descansava nunca.
Ah! bandido! ah! brejeiro!
Ainda era pouco. Claret tinha a ambição louca e avara de um Shylock hespanhol. Queria ser rico, queria jogar, queria amar, queria divertir-se. E para tudo isso era preciso inventar, ser original, ter idéas.
Crearam-se os bancos; o credito, porém ficou o mesmo, isto é, um pouco peior do que estava. O paiz não melhorava a sua riqueza publica. Então o governo pensou comsigo mesmo e disse:--Maldito bandido!--sempre desassocegado e criança: por Deus, cautella! nem mais um passo...
E bandido--esperto abriu o olho e principiou a ver, ao longe uma cousa que lhe fallava em inscripções e em fundos publicos. Olé! Olé! Cá está a incognita! A elles, aos fundos publicos!
Ao que o sr. Salaverria sorriu ironicamente, como querendo dizer:--Espera maroto, que te escacho!
E assim foi.
Bandido foi já derrotado na politica, no commercio, na industria, na economia, nas artes e nas sciencias. Mas apesar de tudo elle não descrê. É forte, tem bom pulso, jámais teve uma dôr de dentes e nunca cortou os callos, porque tambem nunca os teve. Abençoado patife! Creado nas montanhas e industriado nas altas tricas da politica, elle só espera momento opportuno para tornar a apparecer em campo.
E depois hão de vel-o. Pois julgavam que elle era sujeito para se curvar a qualquer Salaverria? Enganaram-se.
Nem a Salaverria, nem á honestidade. Unicamente elle tem em vista--alcançar os seus fins sejam quaes forem os meios.
E assim é a Hespanha na sua evolução social.
_Ah! Machiavel! ah! bandido!_
V
EDIFICIOS PUBLICOS E OUTRAS CURIOSIDADES HISTORICAS
Dizia um celebre escriptor allemão que a vida era uma viagem em caminho de ferro: o casamento um choque de trens; o somno a passagem de um tunel; um negocio a passagem de uma ponte; o destino um machinista que nos leva silencioso ao termo da viagem.
Nestas circumstancias, e a ser verdade o que nos diz tão excentrico pensador, parece, de facto, que ao homem nada mais resta neste mundo do que uma vida de sensações rapidas e imprudentes, sem um unico pensamento, que o preoccupe, sem repouso, sem ligações, sem familia, sem crenças, sem humanidade.
E apesar de tudo, e sem embargo do auctor citado, o universo apresenta-nos um aspecto perfeitamente em contrario do que acima transcrevemos.
Por toda a parte a fixidez se nos antólha como elemento essencialissimo na vida dos povos. Na evolução das sociedades a primeira cousa que o homem teve em vista foi certamente fixar-se, construir a cabana onde tinha de pernoitar e estabelecer definitivamente a séde dos seus trabalhos e operações.
Imagine-se o leitor, em Madrid, no meio de uma praça irregular, que se chama _Puerta del Sol_. É o coração da cidade. Conta-se que em 1520 houvera alli um castello, sobre a porta do qual se encontrava uma pintura representando o sol. Desde então para cá póde dizer-se que é aquelle o logar destinado, aos despreoccupados do mundo, aos _flaneurs_ do bom tom e á fina _èlite_ dos salões madrilenos.
Que contraste! Na propria sociedade hespanhola, que mais pensa na vida externa do que na vida interna, pacifica, de casa, nessa mesma nos foi dado admirar a impretrerivel tendencia da natureza humana para o viver confortavel, commodo, alegre e quasi poderiamos tambem dizer luxuoso.
Poucas familias ha, em Madrid, que não tenham a sua casa, excellentemente mobilada, e que, pelo menos, não possuam o modesto segredo do _savoir-vivre_, isto é, o segredo da conservação e da hygiene individual.
Sem sahir da _Puerta del sol_, o viajante poderá, se quizer, fazer um telegramma aos seus amigos, dirigindo-se áquelle magnifico predio onde actualmente se acha o ministerio da _governação_, e poderá, tambem, se assim lhe aprouver, tomar uma chavena de chocolate no magnifico _café Imperial_ ou subir mesmo ao primeiro andar d'esse mesmo edificio, e ordenar que lhe reservem um quarto no _Hotel de Paris_.
Sahindo da _Puerta del sol_ encontramos duas ruas quasi parallelas--a rua _Alcalá_ e a _Carrera S. Jeronymo_. Na primeira d'estas ruas eleva-se um soberbo arco triumphal, erecto no reinado de Carlos III, a fim de perpetuar a memoria da sua vinda á côrte de Hespanha. Consta de cinco entradas, sendo tres eguaes, no meio, e em fórma de arco, e uma quadrada em cada extremo. A _Puerta de Alcalá_, a primeira de Madrid, conta 70 pés de altura, com a seguinte inscripção:
REGE CAROLO III ANNO MDCCLXXVIII.
Além d'esta ha ainda a _Puerta de Toledo_, situada no fim da rua do mesmo nome, consagrada, no anno de 1827, a Fernando VII, o _desejado_.
E, visto estarmos fallando nas maravilhas da arte hespanhola, bom será que não esqueçamos as duas principaes praças da cidade--_la plaza de Oriente_ e _la plaza Mayor_.
A primeira tem fórma circular, e é circumdada exteriormente por um formosissimo passeio, onde estão collocadas quarenta e quatro magnificas estatuas, destinadas a representar os monarchas hespanhoes.
No centro da praça ergue-se a estatua de Filippe IV, symbolisando o seu disvelo pela arte nacional, e dando-nos em allegoria o solemnissimo momento em que tão generoso monarcha se dignava condecorar o celebre pintor Velasques com a cruz de Sant'Iago.
O theatro _real_ faz tambem com que este logar seja um dos que melhor perspectiva apresentam na cidade.
A segunda--a _plaza Mayor_--foi construida em 1619, sob a direcção do architecto D. Juam Gomes de Mora. É o logar destinado ás festas da côrte hespanhola. Antigamente a fidalguia armada costumava, em actos solemnes, esperar ali a sahida dos touros, que eram picados com a maxima destreza e pericia por parte dos amadores da arte de Pepe-Híllo. Já por duas vezes o incendio tentou destruir tão formoso recinto. No seu centro está collocada a estatua equestre de Philippe III, obra começada pelo architecto Juan Bologna e terminada por Pedro Tacca.
Presentemente a _plaza Mayor_ acha-se reduzida ás condições de um deliciosissimo jardim e pouco mais.
Passemos, porém, ao _Palacio Real_. É uma das obras de arte, que mais particular attenção merece da parte dos entendedores.
Foi construido este palacio em meados do seculo passado. Situado no extremo occidental da povoação, precisamente no logar onde outr'ora se erguia o famoso alcaçar de Madrid, a sua origem remonta, segundo uns, ao reinado de Affonso VI, e segundo outros ao reinado de Pedro I. No cimo da escada, que é de marmore, existe uma estatua de Carlos III, o qual, parece, concorrêra bastante para a melhoria d'aquelle edificio.
Começando pela fachada do Oriente, a pintura, que se vê na primeira sala, representa o Tempo descobrindo a Verdade; na segunda encontra-se Apollo premiando o talento; na terceira a queda dos gigantes, que uma vez tiveram a ousadia de attentar contra os céus; na quinta a apotheose de Hercules; e na sexta, septima, oitava e nona a representação da philosophia, da pintura, da musica e da poesia.
Além do que aqui deixamos mencionado, muito mais, porém, poderiamos accrescentar. O _Palacio real_ é uma das maravilhas da capital de Hespanha, já pela sua riqueza, já pelos seus valiosissimos quadros, já, emfim, pela sua vasta opulencia.
Não pára, comtudo, aqui a nossa admiração. Cumpre egualmente não esquecer outras maravilhas da cidade, taes como o _Palacio do Senado_, onde pela primeira vez se reuniram as côrtes hespanholas em 1820: o _palacio do congresso_, edificio muito moderno, principiado a construir em 1834, os _ministerios publicos_, as _reaes cavallariças_ situadas ao norte do palacio, e ainda como reliquias de architectura dos seculos XVI, XVII e XVIII até nós, os palacios particulares de _Medinacellí_, de _Liria_, do _duque de Abrantes_, do _marquez de Salamanca_, etc.
E ainda, se o leitor fôr poeta e se interessar pelos grandes homens, não deixarei de recommendar-lhe a visita ás casas de Cervantes, de Lope de Vega, de Torrijós, de Cisneros e da beata Maria Anna.
A casa de Cervantes, edificada na rua do mesmo nome, tem, por cima do portal da entrada, em marmore branco, a seguinte inscripção:
_«Aqui vivió y murió Miguel de Cervantes Saavedra; cuyo ingenio admira el mundo. Falleció em MDCXVI»._
Na parte superior está o busto do poeta.
A casa de Lope de Vega foi recentemente restaurada, e a de Torrijós, celebre general, tem tambem um distico, em que se lê pouco mais ou menos o seguinte:
_«Aqui nació el general D. José Maria Torrijós; defendia la independencia e libertad de la patria e murió em 11 de deciembro de 1831, arcabuceado em Malaga por haber intentado restabelecer con las armas la Constituicion»._
* * * * *
Agora, permitta-me o leitor que lhe offereça um charuto. Emquanto se espera entremos aqui neste café, no café de Sevilha. Uma chavena de chocolate não lhe fará de certo mal.
--Rapaz!--Chocolate!...
VI
A INSTRUCÇÃO PUBLICA
«Deixae-me instruir a juventude, e eu reformarei o mundo»--dizia Leibnitz.
E assim é, com effeito.
Reforma que não seja acompanhada de raciocinio, pecca por falta de seriedade scientifica e por ausencia de dados positivos. E por isso é que a Allemanha, pelo espirito de Luthero, e a França, pelo espirito de Fénelon, foram sempre as primeiras a accordar o coração do povo pelo sol da instrucção. Jules Simon, o sympathico auctor da _Politica radical_, tem consagrado quasi todos os annos da sua vida á solução d'este notavel problema; e a verdade é que a França, neste ponto, em nada fica a dever ás nações, que, ainda mesmo como os Estados-Unidos, a Suissa e a Belgica, caminham na vanguarda da civilisação.
É ainda o mesmo Jules Simon que nos diz:
«No dia em que a lei obrigasse toda a gente a saber lêr, toda a gente estaria mais perto da liberdade».
E assim deviam fallar todos os verdadeiros democratas; porque, sem instrucção, é impossivel a educação, do mesmo modo que sem o desenvolvimento intellectual se atrophiaria o desenvolvimento moral.
E o homem não é só intelligencia, mas tambem coração. Desenvolver uma e outra cousa é hoje a missão da escola moderna, sanccionada pela philosophia positiva.
Levasseur, acceitando a obrigação da instrucção, pretende, comtudo, que aos interessados se deixe a livre escolha de escola, confessando ao mesmo tempo, que, onde as escolas escasseiam, ou onde a maioria da população não está no habito de concorrer a ellas, a experiencia prova que a obrigação não passa de uma disposição inutil; asserção que elle confirma pelos exemplos de Portugal, Hespanha e Italia.
Emile de Girardin, o celebre publicista, que em duello matou Armand Carrel, fazendo depois elle proprio a apologia do seu infeliz adversario;--Emile de Girardin, embora não combatesse a instrucção obrigatoria, achava-a comtudo, ephemera e subjeita a erros. Assim como ninguem obriga o seu semelhante a comer um pedaço de pão, assim nós tambem não podemos obrigar ninguem a ser instruido.
_Necessaria_, portanto, é que a instrucção devia ser, isto é, todos deviam saber ler, contar e escrever--o que, _mutatis mutandis_, vinha a dar o mesmo.
Em Portugal já a instrucção obrigatoria havia sido consignada no decreto de 20 de setembro de 1844, onde a penalidade, imposta á negligencia das familias, appareceu pela primeira vez neste paiz.
E, no entretanto, as escolas continuam sem frequencia, os methodos peioram de dia para dia, o professorado anda equiparado aos creados das cavallariças reaes, e nós, os preguiçosos do occidente, navegamos em mar de bonança na quietação mais materialmente feliz d'este mundo sub-lunar.
O sr. Levasseur, membro da _commissão franceza_, na ultima exposição internacional de Vienna d'Austria publicou a estatistica do movimento das escolas primarias nos diversos paizes do mundo, e achou que a frequencia das escolas, no Baixo Canadá, está na relação de 23 alumnos por cada 100 habitantes, na França 13 por 100 e em Portugal 3 por 100.
Este facto, horroroso em si, não nos é, todavia, extremamente desfavoravel.
Em Hespanha, onde a instrucção superior está tão profusamente derramada, a ponto de haver um sem numero de universidades, de escolas, de academias, de archivos, de institutos e de bibliothecas; em Hespanha a instrucção primaria, se não é inferior, corre, pelo menos, parelhas com o nosso paiz.
Quer-nos parecer que sem uma remuneração, concedida pelo estado aos paes de familia, nunca a instrucção _obrigatoria_ será levada por deante, na peninsula. No inverno a grande distancia dos povoados a que ficam as escolas, faz com que ellas sejam menos frequentadas; no verão, as colheitas obrigam os lavradores a não dispensar seus filhos dos trabalhos ruraes. E por isso é, creio, que de facto existe uma desproporção enorme entre os algarismos da população rural e a frequencia numerica das respectivas escolas.
Mas a Hespanha, _litterariamente_, ao menos, tem uma vida propria, sua, original, ao passo que nós tanto na arte, como na politica, estamos fatalmente destinados á morte e ao esquecimento.
Entre nós o ultimo poeta, verdadeiramente, interprete do sentimento nacional foi Garrett. Desde então para cá a influencia da litteratura franceza tem-se feito por tal fórma sentir, que os nossos poetas, embora dotados de muitissimo talento e de vivissima imaginação, mais parecem conhecer a vida de Paris do que a vida de Lisboa; e de tal modo que o nosso povo mal os lê, porque mal os entende tambem. O resultado é que vamos atravessando um periodo de transição e que a historia não poderá nunca registrar esta época, senão como um facto accessorio da vida portugueza.
E, cousa singular! a causa, que tão poderosamente actua nos nossos costumes e na nossa vida nacional, é a mesma que, passando por cima da Hespanha nem sequer vestigios deixa da sua passagem. Victor Hugo, assimilado e imitado pelos portuguezes, emprehendeu na sua infancia uma viagem á Hespanha. «Essa viagem--escreve Castelar--tem analogia com a de madame de Stäel á Allemanha. A eminente escriptora trazia o romantismo idealista do norte, o sublime escriptor o romantismo pratico do Meio-Dia; Stäel inspirava-se nos tristes e profundos sonhos de João Paulo Richter, Victor Hugo nos singelos versos do _Romancero_ e nos conceitos de Calderon, impressos na consciencia, como esses listrões de materia cosmica, a que damos o nome de nebuloses, e dos quaes talvez em cada minuto se desprende como uma gota de luz um novo planeta na vastidão do espaço. Victor Hugo sahiu de Hespanha com o animo disposto a incendiar o templo dos deuses e da velha arte. Reinava desassombradamente a poesia classica, desde a epoca de Luiz XIV. Se o povo de 93 descobrisse esta realeza, tambem a teria derrubado no seu incansavel afan de renovar a vida. Era a Academia, o Versailles, onde aquella corôa estava enthesourada».
Podem os poetas hespanhoes não ser melhores que os nossos, mas a verdade é que são mais originaes, e mais do seu paiz. Foi da Hespanha que partiu o grito destruidor do velho convencionalismo poeta, em redor do qual se haviam agrupado Racine, Voltaire, Corneille o outros. E esse revolucionario audaz e intrepido foi Lope de Vega.
A vida litteraria de Hespanha é tal que só em Madrid se publicam aproximadamente 60 jornaes. Da _Universidade Central_, situada na rua de S. Bernardo, e dividida em 6 faculdades, sahem annualmente para cima de cem bachareis.
Por onde se vê que a instrucção superior em Hespanha tem attingido um enormissimo progresso; progresso, em nosso entender, que lhe ha de assegurar sempre virilidade, independencia e vida propria, o sufficiente para que uma nação, em poucos annos, se eleve e conceitúe no animo dos seus inimigos.
E posto isto, tratemos d'outro assumpto.
VII
TEMPLOS E RELIGIÃO
Desapparece o carnaval, e a mulher hespanhola, de todas as mulheres do mundo a mais alegre, a mais festiva e a mais ruidosa, sacode os seus cabellos, desgrenha a sua fronte, pintada a carmim, rasga a sua ligeira mascara de seda, põe de parte o seu vestuario extravagante, descalça os seus sapatinhos de setim, toma o seu véo de Sevilha, calça a sua luva preta, e penetra soberanamente no templo, onde o Christo a aguarda, para, num sorriso de perdão, a absolver das suas culpas e dos seus peccados.
É que ella, a feiticeira, comprehende o mundo, tal como elle é--de alegrias e de tristezas, de esperanças e de duvidas, de amor e de descrença, de riso e de lucto, de primavera e de outomno, de vida e de morte.
O templo veste-se de negro; o orgão faz resoar os seus canticos plangentes; Jesus, a pallida creança, ostenta uma face macerada, e o padre, oh! o padre, o grande ladrão!--como raposa que espreita o galinheiro innocente, acocora-se no confissionario, á semelhança de gallo, que em materia de instinctos é useiro e vezeiro.
E tu, minha pobre peccadora, ó minha querida--terás de ouvir silenciosamente, concentradamente, todos os lamentos do propheta, todas as dôres da mãe, todas as lagrimas dos pequeninos.
Um dia levantar-te-has mais cedo; com ar triste e melancolico seguirás a via do resgate; ajoelharás timidamente deante do sr. cura da freguezia, que depois te dará a communhão.
Que maldicta manhã não passarás, minha pequena catholica!--lembrando-te das travessuras de que a consciencia te não accusa, e tendo de abrir ao padre, ao negro carcereiro da tua alma, os segredos que te vão no coração atribulado.
Mas tu tens pae, bem o sei; tua avó não te dispensará o sacrificio de todos os annos, e tua propria mamã exigirá de ti nesse dia um beijo e um affecto.
Que louca extravagancia! Confessar-se a gente a um homem desconhecido, que toma rapé e usa lenço encarnado, quando, ao contrario, podia revelar a sua vida ao ente predilecto da sua existencia, áquelle, que, _au clair de la lune_, fuma debaixo das nossas janellas um delicioso _breva_ e nos diz umas doces palavras mysteriosas....
E depois--que horror!--cahir no velho tumulo catholico, quando toda a natureza, como que por contraste, é um encanto e um paraizo?!
_Oh! mon Dieu, que c'est trop fort...._
Mas, emfim, sevilhana amiga, tu que, durante o carnaval, escapaste, de uma bronchite, faze tambem diligencia para, durante a quaresma, te furtares á insolita constipação catholica.
_Á la belle etoile_ cantaremos e libaremos aos nossos amores. Bem vês que o convite attrahe. Tu fallar-me-has no bigode preto do teu amante, nos seus cabellos de azeviche, na sua fronte pallida, nos seus olhos profundos e apaixonados; de tudo me has de fallar, gentilissima menina, que, eu, no entretanto, sem deixar de ouvir-te, irei preparando uma delicadissima ceia, toda ella de boas aves saborosas e de finissimos vinhos francezes.
Acceitas? Por Deus não pretendas imitar o lyrismo de Santa Thereza, aquella boa alma mystica, que «_morria de não morrer_!»--ou antes «_por não morrer_». É verdade que escusas tambem de seguir _madame_ Roland, indo para o cadafalso, vestida de branco e Carlota Corday apunhalando Marat; escusas mesmo de te aproximar de _madame_ de Maintenon, no seu odio contra a religião protestante: e escusas tambem de ser Joanna d'Arc, uma Margarida d'Anjou, uma Joanna de Montfort. Tudo isto seria desnecessario e inutil. Para serdes respeitadas e felizes, bastava apenas, minhas boas andorinhas ideaes, que vós possuisseis o orgulho e a consciencia das vossas acções; porque emfim, se o homem é o orgulho de Deus, a mulher é o orgulho do homem, como mui judiciosamente escreveu um espirito comtemporaneo.
Conta-se que o chefe arabe dissera da actriz Rachel:--«É uma alma de fogo num corpo de gaze», e que a actriz, á hora da morte, exclamára:--«O fogo queimou a gaze!»
Assim, pois, que a minha gentilissima hespanhola não possa tambem nunca dizer, á imitação de Rachel:--_O fogo matou a mulher!_
* * * * *
Em Madrid os templos são de somenos importancia. E, embora a religião catholica-apostolica tenha ali fanaticos e fanaticos decididos, não nos parece que os edificios destinados ao culto sejam dignos de uma menção especial. Ao ouvir fallar nas cathedraes de Cordova e Sevilha, de Toledo e Burgos, de Valladolid e Zaragoza, quasi se nos afigura impossivel, senão mesquinho, que Madrid não possua tambem o seu templo official. A verdade, porém, é que, apesar de todas as tentativas, ainda até hoje não foi possivel levar por deante o velho projecto da edificação de uma cathedral na côrte de Hespanha.
Entretanto, forçoso é confessar, que poucos paizes ha na Europa onde o fanatismo religioso tenha attingido tão elevadas proporções de hypocrisia e de retrocesso. Philippe I assemelha-se a Luiz XI, o qual antes de mandar enforcar qualquer subdito do seu reino, supplicava sempre a Nossa Senhora, cuja imagem trazia no _bonnet_, para que tivesse dó d'elle, e assim tambem a Hespanha deve a Philippe I uma grande parte do seu carlismo e da sua reacção.
Os hospitaes, todavia, as casas de beneficencia, os asylos, e as associações philantropicas são innumeras em Madrid. A alta sociedade exerce mesmo a caridade em larga escala. Unicamente nos parece que a razão publica entra pouco n'estas cousas.
Seja, porém, como fôr, o certo é que um pouco menos de fanatismo e alguma cousa mais de raciocinio, nenhum mal faria a Hespanha.
Porque, de facto, uma nacionalidade que possue criticos tão notaveis como Francisco Maria Tubino, director da excellente revista _La Academia_, e poetas tão distinctos como D. Ventura Ruiz Aguillera, fundador do magnifico _Museu archeologico_, e Zorrilla, o arrojado trovador peninsular, que, por fórma alguma, deve ser confundido com o politico, seu homonymo; uma nacionalidade tão forte e tão vigorosa sempre merece ser mais alguma cousa do que uma simples expressão dos velhos tempos theologicos.
Toda a vida de um paiz se resume numa palavra--bom-senso.
VIII
A POLITICA[1]
(CONTRASTES)
Ainda hontem a vimos expulsa da patria, que ella de creança aprendera a renegar no vilissimo ensinamento de um jesuitismo perverso; ainda hontem, humilhada, mas não contricta, lhe mostravam as bayonetas nacionaes que não podia ser aquelle o coito das suas devassidões infrenes; ainda hontem, offendida no seu amor proprio, e sempre arrogante, ella transpunha os Pyrineus, como as columnas de Hercules, por onde jámais lhe seria dado volver ás terras das suas hybridas façanhas e ao solar das suas sabidissimas intrigas.
E no entretanto esse magnifico sol, que parece ter brilhado para toda a Europa, no explendido fulgôr de uma vivissima luz, apagou-se subito no horisonte, deixando empós de si o triste e doloroso prenuncio de uma tempestade eminente.
E, coisa singular, nada faltou áquelle dia de festa.
Ayalla coloria o seu estylo brilhante; e com as côres douradas da sua divina palheta, quasi se sentira feliz por festejar aquelle sahimento funebre de uma mulher, justamente condemnada pelos fastos da historia e merecidamente repellida pelos progressos da humanidade; o duque da Torre alçava para o céo a sua cabeça de cidadão arrojado, congratulando-se com os seus e com os estranhos pela victoria da justiça do seu paiz: Sagasta tinha a convicção de uma grande causa conquistada, e persuadia-se ter concluido uma obra meritoria; Prim, o esforçado batalhador de Marrocos, ostentava em pleno dia as alegrias que lhe iam na alma, e as esperanças que se lhe occultavam no coração; Castelar, emfim, com todo o arrojo da sua notavel eloquencia, suppozera-se victorioso, e victorioso para sempre.
Mas, coisa ainda mais singular! todas estas acclamações de momento, todas estas palmas improvisadas, todos estes delirios de occasião, todas estas festas, todas estas vertigens, todos estes rumores, cahiram, n'um minuto, inesperadamente, abruptamente, revelando-nos, mau grado nosso, que a politica foi, é, e será sempre a suprema contradicção das cousas humanas e a mais evidente demonstração de quanto a humanidade é inconstante, leviana e traiçoeira.
A entrada de Isabel II em Hespanha é a abjuração cabal da revolução de Cadiz.