Costumes Madrilenos Notas de um Viajante
Chapter 1
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MAGALHÃES LIMA
COSTUMES MADRILENOS
NOTAS DE UM VIAJANTE
SEGUNDA EDIÇÃO
COIMBRA LIVRARIA CENTRAL DE J. D. PIRES--EDITOR 1877
COSTUMES MADRILENOS
COSTUMES MADRILENOS
NOTAS DE UM VIAJANTE
POR
S. de Magalhães Lima
SOCIO HONORARIO D'EL FOMENTO DE LAS ARTES DE MADRID
2.ª EDIÇÃO
COIMBRA LIVRARIA CENTRAL DE JOSÉ DIOGO PIRES--EDITOR 1877
IMPRENSA ACADEMICA
AO
SENHOR.
D. BENIGNO JOAQUIM MARTINEZ
Off.
O auctor
COSTUMES MADRILENOS
I
CARACTERES E COMPARAÇÕES
Leitor amigo, se queres possuir a chave da vida, se queres ter o segredo da existencia, aprende a viajar.
A viagem tem, como todas as cousas d'este mundo, a sua pequena philosophia e as suas theorias, mais ou menos complicadas, e os seus progressos mais ou menos notaveis.
Viajar não é uma variedade de sensações apenas; mas ainda mais, e principalmente, uma fonte inexgotavel de boa e salutar experiencia, um manancial perenne de vividos enthusiasmos por tudo quanto é bello, novo e original, e uma origem fecunda de analyse, de observação e de critica, que de ordinario raro é de encontrar-se no paiz onde nascemos, ou na cidade onde residimos.
E assim é realmente que, se tu quizeres admirar a seriedade nos costumes, a robustez no corpo, a soberania na guerra, o metaphysico na sciencia, o imperio na familia, a fidelidade nos affectos, e a superstição na religião--tu irás á Allemanha.
Se pelo contrario, tu desejares vêr a frouxidão no corpo, o indifferentismo em politica, a lassidão nos costumes, a perversão nos principios, a fraqueza na sciencia, o theologismo na religião, o lyrismo na vida--tu, sem mais trabalhos nem violencias, ficarás em Portugal.
Mas se tu, embora não te repugne a debilidade physica e a pusillanimidade de espirito, quizeres o ideal da arte e a architectura da sciencia--então procurarás Italia.
Por outro lado ainda, se te impressiona o ruido das palavras, a viveza do olhar, a facilidade dos affectos, a modestia do trajar, a generosidade do coração, o esplendor do _ménage_--parte para a Hespanha.
Com uma mulher hespanhola vive-se bem um mez, num sensualismo delicioso, numa voluptuosidade tepida e numa ardencia de amores que nem sempre é vulgar nas outras mulheres do mundo.
Com uma mulher franceza, porém, o espirito não se cança nunca, nem o coração chega jámais a desesperar--e se um seculo vivessemos, um seculo tambem consagrariamos a essas fadas, mais demonios do que anjos, e quasi sempre mais amantes do que esposas.
No francez dá-se, a par da elevação da idéa, a agilidade elegante do corpo, a simplicidade maravilhosa do trajar, a delicadeza sem igual da cosinha, a intrepidez risonha dos factos e das circumstancias, a attenção magnetica das palavras, a originalidade dos costumes.
Com elles contrastam os inglezes, os quaes, não obstante serem mudaveis em religião, são, todavia, prudentes nos seus negocios, zelosos na sua vida intima, affaveis nas maneiras, orgulhosos no trajo e astuciosos na guerra.
Subordinados ás circumstancias, ao tempo e aos logares--os povos são um resultado do meio em que se acham mergulhados.
O que promoveu a questão do Oriente não foi verdadeiramente a ambição dos monarchas, mas antes o imperio que a civilisação moderna tem direito de exercer sobre tudo e sobre todos.
E por isso a Turquia, como vestigio de barbarismo que ainda é hoje na Europa, foi de ha muito condemnada á morte e ao ostracismo.
O caracter turco era facilmente domavel, mas por natureza fanatico, supersticioso, intolerante--tal qual como as verdades do Alcorão.
Por isso, leitor, embora tu sintas grandes saudades do harem e das houris, resigna-te, e deixa de combater pelos turcos.
Que elles e os seus sultões se dignem subir ao setimo céu de Mafoma, e que nos deixem.
Mas, francamente, se tu queres viver pela natureza, se soffres dos pulmões, se és pantheista, se gostas das borboletas e das flores, se te enthusiasmas com os limpidos horisontes das montanhas e dos rios, se és socegado, melancholico, um tanto nostalgico e triste, escolhe a peninsula, aluga uma casa todos os annos no Bussaco, percorre a Andaluzia na primavera, visita as praias, e deixa-te ficar por cá.
Se, porém, não temes os frios do norte, se és audaz, intrepido, valente, corajoso, se amas a sciencia e a arte, se não te canças em subir a uma montanha e em correr num _trenó_ num dia gelado, e por um rio coberto de neve, se gostas da vida, tal como ella deve ser--valorosa, hygienica, e grande, então vai á Suissa, á Allemanha, á Italia, e até mesmo á Russia, se tanto fôr da tua vontade.
Convém que faças uma viagem todos os annos na primavera. Para isso basta apenas, que no teu viver domestico, no teu gastar quotidiano, tu adquiras uma sciencia tão difficil, como rara de conservar-se--a sciencia da economia.
No fim de oito ou dez annos, tu sentir-te-has forte, cheio de critica, vigoroso na discussão, capaz de entrar em todos os assumptos, que por acaso se ventilarem, e susceptivel de comparar, entre si, não só todos os paizes do mundo, mas ainda os homens e as sociedades.
E assim tu terás o dom do historiador, a evidencia dos factos, a observação da natureza e o estudo das cousas em geral.
Eu não quero que tu te faças misanthropo, doente, regenerador. Não! Porque sou portuguez, e desejo que tu sejas alegre, feliz, espirituoso, bom amigo, excellente marido e cidadão prestante.
E para isso, para afugentar terrores e negrumes, para que tenhas saude, vida e amor--é forçoso que tu viages, que deixes a tua aldeia e as tuas arvores, que arranjes a tua mala, que te despeças dos teus conhecidos e que partas.
Nada de esperas. Quanto mais cedo melhor. O mundo é para quem caminha; e a viagem é como a sciencia, tambem um progresso.
Aqui tens o teu casaco. Cabeça alta e adeus á patria querida.
Cocheiro--açoute nesses cavallos!
Para deante. Para deante é que é o caminho.
II
NÓS E ELLES
Não ha duvida que nós não somos elles, nem elles são nós.
Não obstante, elles querem ser nós, mas nós é que não queremos ser elles.
Coisas d'este mundo!
Nós, não nos fartamos de elogiar Madrid; e elles não se cançam nunca de exaltar Lisboa.
_Mutatis mutandis_, ninguem está bem senão onde não está.
A verdade, porém, é que nem a patria do sr. Fontes é má, nem as terras do sr. Canovas são detestaveis.
Lisboa tem, como Madrid, as suas pequenas corrupções, os seus ministros ociosos, a sua realeza inutil, o seu credito abastardado, a sua administração vacillante, os seus empregados preguiçosos, a sua fama em decadencia e o seu futuro compromettido.
Tudo isto temos nós, e tudo isto têm elles--mercê de Deus.
Por cá, como por lá, multiplicam-se os bailes, rangem as sêdas, reluzem as _toilettes_, scintillam os chrystaes, refervem os vinhos nas suas taças preciosas, adelgaça-se o corpo, polvilham-se os cabellos, tingem-se as faces, alarga-se a consciencia, confundem-se os factos, adora-se a elegancia, e todos--ó céus! sem mesmo o presentirem--caminham para o bom tom, impellidos pela magreza, que os devora, arrastados pela falta de hygiene e seduzidos pela eterna sereia das humanas velleidades.
D'onde se conclue que cá e lá más fadas ha.
Mas Lisboa, com franqueza, não é de todo má: as suas ruas estão povoadas de bellos e formosissimos edificios; os seus jantares, embora sem dinheiro, são abundantes; os seus hospedes vestem-se bem, não obstante faltar-lhes para isso o corpo e o sangue; as suas filhas de aguarella sabem calçar uma bota á _Benoiton_; Aline, a sua modista, tem algum gosto; Stellpflug e Manuel Lourenço, os seus sapateiros predilectos, contentam os seus freguezes; Barral tem bons remedios; o café, em geral, não é mau; os charutos satisfazem; os assassinos não tem sido demais; quem quizer tambem póde deixar de se suicidar; emfim, ella não é despiciente, acreditem:--unicamente o que lhe falta é o espirito, isto é, o _tic_ nervoso, que dá o bom senso; o enthusiasmo, que eleva as gerações; o fanatismo scientifico, que torna os homens celebres e audazes; o que lhe falta verdadeiramente é isso--essa primeira parte da humanidade a que Shakespeare chamaria, talvez, o _to be_ da humana existencia--o caracter.
Emile Péreire, no tempo em que escrevia no _Nacional_, sob as ordens de Armand Carrel, tão pobre era que longe estava de imaginar o futuro de riqueza que o esperava.
Foi, recordando-se d'esse passado de miseria, que elle pronunciou aquella esplendida phrase, de que Charlet fez uma caricatura:
--Aos trinta annos tinha dentes e não tinha pão; aos sessenta tenho pão e não tenho dentes.
Pois assim está a nossa capital--quando tinha caracter e dinheiro faltava-lhe o espirito e o desenvolvimento intellectual; agora que naturalmente está mais desinvolvida e mais apta para as concepções do mundo moderno, escasseia-lhe o caracter e a franqueza.
Façamos como Paulo Vernet, o pintor realista--abramos a janella, e olhemos serenamente o que se passa.
Em Madrid vive-se no café e pelo café. Quando se quer procurar qualquer pessoa importante, não se pergunta nunca pela casa onde reside, mas sim pelo café que costuma frequentar. E ahi está tambem o motivo, porque, na capital da Hespanha, os cafés, que quasi se podem dizer pequenas aldeias pela extensão e pelo comprimento, estão cheios, perfeitamente cheios, durante a noite e durante o dia. É ahi que se faz a politica, e é ahi tambem que se preparam os futuros acontecimentos do paiz.
Dizia madame de Grirardin que um dos primeiros deveres da mulher era ser bonita. Pois o hespanhol tem para si, que um dos primeiros deveres do homem, em geral, é ser fallador, ruidoso, amante das revoltas e sinceramente admirador do extraordinario.
Lembro-me que, numa noite, no theatro da zarzuella, um meu companheiro de viagem havia sido apresentado a uma distincta familia de Madrid, com quem travou estreitas relações de amizade e de quem recebeu os mais inequivocos testemunhos de affecto.
Eram pae, mãe e duas filhas.
No dia immediato ao da apresentação um grande acontecimento echoou na cidade. Dizia-se que uma senhora havia sido ferida na cabeça por um tiro de rewolver, desfechado á queima roupa por seu marido, o qual, julgando-a morta, se suicidára logo em seguida.
Este facto, importante em qualquer outro paiz, ali mal despertou a curiosidade publica. Quasi que passou desapercebido.
Averiguado, porém, o caso, soube-se effectivamente que a heroina era nem mais nem menos do que a tal senhora, que, na vespera, pela sua attenciosa bizarria confundira o meu amigo, com attenções e delicadezas. Ella exigira do esposo dinheiros avultados, que elle asseverava abertamente não ter em casa, naquella occasião. Então a mulher, enfurecida, gritou, fingiu-se morta, até que emfim se atirou ao marido, o qual, não constando que fosse santo, se atirou por seu turno a ella.
E assim, travados de razões, armaram aquella tragedia, digno exemplo de duas filhas menores e edificante monumento da civilisação de um povo.
Madrid tem, sobretudo, um vicio de origem--a falta de agua. O caracter hespanhol, tão contradictorio em si e nas suas manifestações, é todavia secco, aspero ás vezes, e irreflectido quasi sempre.
A escassez de agua, além de escurecer toda a paisagem da Estremadura, faz ainda, porém, com que as flores sejam raras na cidade, e de todo o ponto destituidas de gosto.
Ora todos sabem que a flôr entra hoje na vida do _ménage_ como uma necessidade, insubstituivel. Muitas senhoras têm nella uma companheira e uma amiga. A aridez da vida domestica é muitas vezes compensada pela existencia de um jardim, ao qual a dona da casa consagra todos os seus ocios e em virtude do qual ella cura todos os seus tedios.
A mulher hespanhola, como não tem flores nem jardim, procura naturalmente os cafés e o mundo exterior, de que aliás precisa para conviver e para se entreter; cousa que, em nosso juizo, ninguem, em verdade, lhe poderá levar a mal.
E, no meio de tudo isto, não ha povo que sinceramente comprehenda melhor as leis da hospitalidade e que melhor e mais bizarramente saiba attrahir a si os estrangeiros.
Mas, embora elles queiram ser nós,--nós é que, em boa logica, não podemos ser elles.
Elles, por exemplo, empregam o adjectivo _larga_--_esta calle es muy larga_--para significar o comprimento, ao passo que nós o empregamos para exprimir a largura.
Antithese completa!
Oh! não--decididamente nós não podemos ser elles..
Mas, _se ellas_ quizessem ser nós!...
Se nós fossemos _ellas_!...
III
A CIDADE
No centro de uma extensa planicie, acompanhando a margem esquerda do Manzanares e alteada sobre differentes collinas de arêa de pequena elevação, ergue-se a cidade de Madrid, a formosissima _villa coronada_, prodigiosa de encantos, opulenta de prazeres e esplendida de vida.
Data do reinado de Philippe II, em 1560, a mudança da capital do reino hespanhol de Toledo para Madrid.
Perde-se na bruma dos tempos a origem etymologica d'esta cidade. No entretanto julga um illustrado escriptor que a verdadeira derivação de Madrid é _Magerit_, palavra arabe, que na nossa lingua significa _corrente de agua_.
Muitas foram, e successivas, as invasões por que passou a cidade. Não vem para aqui, por deslocada, uma resenha historica de todos esses tempos de agitação, mais ou menos intimamente ligados com as coisas do nosso Portugal.
Philippe IV foi para a Hespanha o mesmo que Luiz XIV foi para a França. No seu reinado brilharam as artes, as sciencias e a litteratura. Quiz, porém, a fatalidade, como que para realçar o dominio dos contrastes do mundo, que o seu herdeiro Carlos II fosse um rei pusillanime, fraco, fomentador da intriga e iniciador d'uma crise, que cessou com a assolação d'uma tremendissima guerra civil no tempo de Filippe V.
Madrid soffreu immensamente nestas lutas intestinas. Sem embargo, os sacrificios compensaram as perdas. E quando depois Carlos III subio ao throno de Hespanha, a um sorriso do monarcha privilegiado desabroxou a paz, e as reformas brotaram por completo naquelle paiz.
Este estado foi, porém, de curta duração. Napoleão I, senhor da França, põe a Hespanha novamente em tumulto e deixa-a entregue á fome e ao saque das hordas estrangeiras.
Expulsos os francezes de Madrid, começou então a luta entre realistas e liberaes, os quaes depois se subdividiram ainda em progressistas e moderados, dando assim logar a uma infinidade de fracções, que só deviam abortar na mallograda revolução de 1854.
Foi d'aqui que se originaram os partidos unionista, o democrata e mais tarde o neo-catholico; e foi d'aqui tambem que nasceu a Hespanha revolucionaria moderna, de todos conhecida, desde 1868 até nós.
* * * * *
Madrid é, pois, uma cidade pequena, não talvez muito maior que o Porto, com um clima excessivamente regular, comportando na sua área 360:000 habitantes, cuja indole póde naturalmente e com o maximo rigor ser observada á luz do gaz e durante a noite em qualquer dos principaes cafés.
Conta-se que um alcaide hespanhol se compromettera certo dia a fazer tres discursos numa dada povoação.
Chegou o primeiro dia, e perguntou á turba:
--Entenderão o que lhes vou dizer?
Ninguem respondeu.
--Pois se não têm de entender-me é escusado pregar no deserto.
No segundo dia voltou, e repetiu a mesma pergunta.
--Sim! responderam todos, já zangados com a occorrencia do dia anterior e desejosos por saber o que tão illustre orador d'elles queria.
--Nesse caso, se comprehendem, são inuteis as explicações.
Chegou, porém, o dia da terceira e ultima prelecção, e o povo concordou em responder indistinctamente.
--Serão capazes de perceber qual é o fim do meu discurso?
Sim! Não! conclamou a turba em dois córos.
--Então aquelle que percebeu que explique ao que não entendeu.
E assim é, na verdade, o caracter hespanhol. Todos se entendem, e ninguem se entende. De modo que, no seio de tão estranha confusão, a vida domestica de Madrid, toda anarchica, toda exterior, toda ficticia, vai naturalmente reflectir-se nas coisas publicas--no commercio, na industria, na arte, na litteratura, na politica--pondo a cidade em continuo alvoroço, e deixando o viajante profundamente assombrado de tão fortes e repetidas contradicções.
E tudo isto, o que mais é ainda para estranhar, num paiz onde os grupos dissidentes são quasi tantos como os talentos politicos, e onde o caracter de cada individuo varia e se modifica em justa proporção com a sua leviandade de espirito e seguindo naturalmente as differentes oscillações da opinião publica, sempre precipitada e louca.
Obedecendo á influencia do meio que os domina, os estadistas hespanhoes são mais theoricos do que practicos, mais litteratos do que politicos, e, sem duvida alguma, mais poetas do que observadores.
D'aqui a impossibilidade de uma união séria, progressista e trabalhadora. As subdivisões prolongam-se até ao infinito. Antes de 30 de dezembro de 1875, os moderados formavam um unico partido. Agora, porém, avultam os moderados _transigentes_, tendo por orgão o jornal _El Tiempo_: os moderados _intransigentes_ com _La España_ e os moderados de _estola_ com _El Siglo Futuro_.
O mesmo com o partido constitucional, que hoje se acha subdividido em constitucional do sr. Sagasta, representado na imprensa pela _Iberia_; em constitucional dissidente do sr. Santa Cruz, representado pela _Patria_ e em constitucional do sr. Ulloa, representado outr'ora pelo periodico _El Constitucional_, que já não se publica.
As celebridades não escasseiam. Antes, pelo contrario: ao passo que em França quasi todos os homens illustrados são escriptores, em Hespanha quasi todos são oradores.
Abstrahindo mesmo de Emilio Castellar, o luminosissimo vulto do seculo XIX, que só em Gambetta encontraria um rival condigno, e porventura, como politico, mais pratico, mais accentuadamente positivo do que elle; abstrahindo do sympathico materialista Figueras e do advogado Martos, poucos ha, naquella adoravel nacionalidade, que não possuam o fogo sagrado dos sublimes enthusiasmos patrioticos e a brilhantissima scentelha dos grandes espiritos revolucionarios.
Numa palavra, a Hespanha é o paiz solemne das occasiões, o paiz do _à propos_, o paiz do momento.
Os generaes Prim e O'Donnel andam ainda hoje apregoados pela fama publica. Pois bem. Muitos annos não se haviam passado depois do seu regresso da Africa, e concluida a guerra de Marrocos, que Prim, collocado numa das janellas do _Hotel de Paris_, recebera a mais enthusiastica ovação que humanamente era licito dispensar a um idolo. Uma noite regressava o illustre general do congresso, quando, subito, uma detonação acordou a cidade. Correram todos. Duas balas haviam-lhe destruido a emoplata, o ante-braço e a mão direita. Estava morto o heroe de tantas victorias e o deus de tamanhos enthusiasmos. A policia não apparecera. Ainda presentemente nas cadeias de Madrid se conservam presos, por suspeitos, seis homens. O resto, sabem-n'o os seus inimigos, d'elle.
Madrid, a cidade _imperial_ e _coronada_, a _mui nobre, mui leal e mui heroica_ cidade, como em 1814 lhe chamou Fernando VII, tem, porém, ainda uma outra face, que realmente não deve esquecer ao historiador; e essa face, esse lado immensamente grande e extraordinario, que a Cervantes valeu uma reputação e uma immortalidade, é a anecdota, o delirio da bagatella e do ridiculo.
Sim! a Hespanha, como bandoleira que é, tem uma lenda--_a lenda do bandido_.
Estudando essa lenda, melhor e mais facilmente poderemos fazer uma idéa do que é e do que foi a Hespanha nos seus movimentos, nas suas idéas, na sua politica, no seu commercio, na sua industria, no seu progresso e na sua civilisação.
Voltemos, portanto, a pagina.
IV
A LENDA DO BANDIDO
O bandido!... Mas quem o não conhece? Elle, o maganão, o seductor, o adultero, o perverso, elle tem vivido sempre e sempre impune, sempre ironico, sempre chasqueador, sempre rapaz, sempre diabo. Com mil granadas! Que sublime ratão...
Houve quem lhe chamasse _espirito das trevas_; houve tambem quem o appellidasse com o epitheto de carne, de Satan, de magico, de serpente, de lagarto e não sei tambem se de _D. Juan_, se de Mephistopheles, se de Falstaff.
E é que elle realmente tem esse condão.
Todos os dias se renova, renascendo das proprias cinzas, como a phenix mythologica, mudando de pelle como qualquer simples giboia, usando barba postiça, como um grotesco que é, e dando-se os ares frescos e traiçoeiros de velha rapoza, já useira e veseira nos altos assumptos de quem tem o olho em Deus e a unha no proximo.
Não! Elle não é simplesmente o palerma namorador, que, á meia noite, de guitarra em punho, vai desferir uns estupidos landuns, mal tocados, debaixo da janella da sua pallida amante; tambem não é apenas o ebrio impenitente, que, pela madrugada, carregado de vinho e de tosse, corre as ruas num tropego cavallo de aluguer, atropellando quem passa e vomitando injurias _aguardentadas_ sobre a honestidade de quem trabalha. Porque, sendo tudo isto, o nosso typo tem, todavia, uma feição proeminente, feição grave, enormissima, que ninguem jámais lhe poderá disputar. Oh! sim, só elle é o bandido por excellencia, bandido de casaca e luva branca, mas bandido de alma larga e coração esperto, emquanto a mim o peior de todos os bandidos.
Cautella, meu fidalgo, que nós já te conhecemos. Tu, que não duvidaste vestir a farda de imperador; tu, que tens levado as insignias da realeza até á crapula dos bordeis; tu, que enlameaste o teu brazão ao contacto effeminado da fadistagem de navalha e faixa encarnada; tu, meu politico, tu, meu banqueiro, tu, meu villão, é que verdadeiramente és o rei do mundo, porque te falta a vergonha e a decencia.
Eu queria fazer de ti um Sancho Pança, mas Sancho é gordo e póde cair na embuscada; não, não serás Sancho, nem D. Quixote pela razão opposta; mas o que tu podes ser realmente é um Claret--um Claret sem corôa, de olhar mellifluo, doce no dizer, suave na convivencia e insinuante nos modos.
Que o jesuitismo esteja descançado emquanto a nós. Unicamente nós pedimos licença a suas reverendissimas para pegar num dos seus mais respeitaveis membros, para o virar, para o revirar, para lhe dar umas palmadinhas no ventre; e feito isto, para o despedir com um piparote--tal qual, como se faz a um boneco de papel. E nada mais. Depois nem sequer pensaremos em similhante entidade. Tentaremos dormir sobre o caso, fazendo cama--e que boa cama!--de tão beatificas proezas.
Agora o touro que saia: bandarilhas na mão e firmeza no pulso.
Era uma vez um paiz, rico, poderoso, rodeado de magnificas paisagens, realçado pela formosura de mulheres peregrinas, e dominado pela ambição de politicos tresloucados. Um dia, porém, o sol, que era ardente, trouxe á cidade febres incuraveis. Adoeceram, então, os estadistas; e no delirio da doença cousas espantosas e horripilantes se começaram a ouvir de suas bôccas evangelicas. A febre tomou-os dos pés á cabeça; e então--ó céus!--doidos, perdidos, alucinados, elles, os doces, elles, os virtuosos, elles, os santos, que precisavam de saude e de vida, porque estavam mal, inventaram uma cousa muito melhor do que a _agua circassiana_, muito melhor ainda do que a _Revalescière du Barry_... elles deliberaram segurar as vidas em perigo.
E a população mecheu-se activa, energica, em favor de tão alta instituição.
Estava salva a patria.
Contra o abysmo, que a perseguia, contra o diluvio, que a ameaçava, tinha o governo tambem inventado a sua arca santa--as companhias de seguro de vida.
E sem embargo, os typhos, as bexigas, os sarampos, as erysipellas não haviam desapparecido da terra. O paiz continuava a soffrer as suas doenças, a alimentar rivalidades no seu seio e a prestar-se como sempre ás mil intriguinhas da côrte.
Vai então o bandido amigo, irrequieto e nervoso, começa de farejar novas vias de exploração.
--Nada! dizia elle. Segurar a vida é pouco; é preciso tambem segurar o capital. Mãos á obra!
E formaram-se os bancos e as casas bancarias.