Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume II)

Part 3

Chapter 33,775 wordsPublic domain

“Dizem que era um rei: vem este rei casou por amores com a filha de um seu vassallo: era ella tão formosa que podia por sua belleza ser confiada, pois por essa alcançára o ser rainha: mas sem lhe valerem esses privilegios deu em tão ciosa, que bem a mão não dava o marido um passo que ella não acompanhasse com as suspeitas; assim que apertavam estas tanto com ella, que já mais vivia em paz com seu gosto. Vem ella, e por vencer esta desconfiança vai, e manda secretamente chamar uma feiticeira, que n’aquella terra havia de muita fama, em cujo engano achavam os namorados uma botica de remedios para seus males. Assim que dizia: esta feiticeira por lhe vender mais cara sua diligencia, feitas algumas fingidas, metteu em cabeça á boa da rainha que o marido amava com grande extremo a uma criada sua, que ella pintou logo a mais galante, airosa e bem assombrada que havia no paço. Quando ella aquillo ouviu ficou guarde-nos Deus! como uma mulher transportada, e sem sangue; por maneira, que prometteu áquella feiticeira que lhe faria e aconteceria, se desaffeiçoasse ao rei d’aquelles amores, e empregasse n’ella todos os seus: a outra, que não queria mais que aquillo, vede vós como ficaria contente; vem, e promette á rainha que lhe daria tres aguas conficionadas de tal maneira, que uma, tanto que el-rei a provasse, bebesse logo os ventos por ella, e lhe quizesse mais que o lume dos olhos, com que a via; a outra, que, em a rainha a bebendo, parecesse a seu marido o maior extremo de formosura que havia no mundo; a terceira que, tanto que a dama a bebesse, a desfigurasse de maneira, que a todos aborrecesse a sua vista. As palavras não eram ditas, a rainha lhe deu muitos haveres, e fez grandes mercês e promessas; que muito facil é de enganar a que deseja aquillo, com que lhe mentem. Vai a feiticeira d’alli a poucos dias, e traz aquellas aguas conficionadas, encarecendo muito a virtude, e segredo d’ellas: mas ou porque lhes errou a tempera, ou porque todas se resolvem n’estas boas obras, a mudança que ella queria que houvesse na vontade, e nos pareceres, lhe houveram de fazer na vida; que a peçonha, que é sempre material dos seus unguentos, penetrou de maneira que os teve a todos tres em passamento; e a bom livrar ficaram d’ahi a poucos dias sem juizo. Ainda bem a feiticeira não soube o damno que fizera, e que, por não trazer a mão certa n’aquelles adubos, podia vir a estado de a pôrem nas da justiça, desappareceu. Eis senão quando se juntaram todos os medicos eminentes, que havia no Reino; e depois de muitos mezes de cura, (olhai vós quantas se fariam a taes pessoas) foram pouco e pouco cobrando os sentidos e entendimentos; e com a força do mal lhes cahiu a todos o cabello da cabeça sem lhes ficar um só. E não foi tão ruim o partido, como era ter cabeça sem elle quem antes o trazia sem ella. Tornando ao meu proposito, tanto que a rainha se viu tão desfigurada, conhecendo o desatino que fizera, dando todas as culpas a amor, confessou seu erro, a criada sua innocencia, e o rei sua desgraça: d’alli adiante, conformando-se com o exemplo daquelle successo fizeram vida sem ciumes: que d’elles e de casamentos por amores não escapam senão ou com as mãos nos cabellos, ou com elles pellados.”

Festejáram os amigos a historia de Solino, porque se conformava no modo e acção de falar com o que dizia; e como tinha graça, até os erros lhes pareciam bem. E assim lhe disse o doutor:--Tudo vos succede a pedir por boca, porque na vossa até o exemplo do que nos outros enfada tem graça para dar contentamento; e posto que as duas historias passadas foram tão primas, não desdizem d’ellas os vossos bordões.--Se eu não tivera o de vossa auctoridade para me sustentar (respondeu elle) manquejára em tudo.--Em nada (proseguiu elle) haveis de mister favor alheio, e menos n’este particular, em que entrais com todo o cabedal que requer uma historia, que é _boa linguagem, discrição natural, relação ordenada, praticas com piedade, successos com brevidade, sentenças com que se auctorise, e graça com que se conte_. Porém são horas de deixarmos esta, e darmos as suas ao repouso da noite.

Com isto se levantaram continuando com a mesma pratica até á escada; que das coisas, que dão satisfação á vontade, não se sabem despedir as razões.

DIALOGO XI

DOS CONTOS, E DITOS GRACIOSOS E AGUDOS NA CONVERSAÇÃO

No dia seguinte, antes das horas em que os amigos se haviam de ajuntar para a conversação, Leonardo e os mais tiveram recados de D. Julio, em que lhes fazia a saber que chegara doente, e que tinha por hospede ao prior com outro irmão seu: que receberia de todos grande mercê em quererem juntar-se aquella noite em sua casa, porque só com este remedio daria allivio ao mal que trouxera da cidade. Elles, que (além de a petição ser justa) eram interessados em sua saúde, amigos e obrigados a o visitarem, ouviram que lhe deviam obedecer. Solino acompanhou a Leonardo: e não faltaram no caminho murmurações discretas, nem em o doutor, e os estudantes juizos temerarios. Acharam a D. Julio na cama, o prior junto a ella, e o irmão, que era homem mancebo, bem afigurado, e que no trajo vestia mais ao soldado, que ao cortezão. Sentados todos depois de lhe fazerem cortezia, e comprimentos devidos, disse Leonardo:--Bem me parece, senhor D. Julio, que estaes já tão aldeão com a nossa companhia, que vos apalpam os ares da cidade; e que os regalos d’ella fizeram que o senhor prior se esquecesse d’aquella sua estalagem tão cheia de vontade para o servir.--Onde vós estaes (respondeu D. Julio) é a côrte; e a falta d’esta me podia fazer aldeão. Do senhor prior fazer a troca por esta noite, tive eu a culpa; porque com esta condição acceitei em terra alheia a sua pousada nas casas do sr. Alberto seu irmão, a quem tambem obriguei a que me fizesse esta mercê.--Não me desculpo (accudiu o prior) porque tudo o sr. D. Julio tomou á sua conta: porém em occasião estaes de haver muitas, em que mudeis o queixume, fazendo-o antes de minha importunação sobeja, que d’essa falta: porque vem apostado meu irmão, pelo que lhe contei, a perder poucas noites d’esta aldeia, em quanto as tiverdes tão boas como duas que me aconteceram.--Assim (disse o doutor) serão ellas melhores, porque com vossa presença, autoridade e discrição, e com favores seus, ficarão melhor assombradas; terá saúde este fidalgo, e então vos convidaremos para a primeira; que ainda não sabemos de que vem maltratado.--Do meu achaque (disse elle) tive eu a culpa, que me entreguei hontem mais, do que era razão, na ceia; porque foi de pescado e marisco, e doces; e como cresceu com a novidade o appetite, quiz-se forrar á custa do estomago de quantas vezes nos faltam semelhantes regalos n’este logar; e certo que tive um accidente muito rijo, e não podia com o cansaço, que me deixou sem vossa vista, e d’estes senhores; e por isso me vali do atrevimento do recado.--O allivio (disse o doutor) é tanto em favor nosso, que, a ser menor o mal, consentiramos n’elle.--Maiormente (accudiu Solino) se é o que eu cuido, que como experimentado de ordinario, julgo mais a enfermidade pelo pulso, que pela informação.--Não parece que vol-o deve offerecer quem a tem tão boa de vossa malicia, (tornou o fidalgo).--Antes estou tão emendado em alguma, que vol-o pareceu (replicou Solino) que já não suspeito senão o que é.--Tarde vos mettestes n’essa recoleta (disse o doutor) e os que em velhos começam a ser bons, pouco tempo lhes fica para usarem da virtude.--Não sei logo (lhe respondeu elle) como, sabendo isso, vos descuidastes tanto, que nunca para uma murmuração vos achei descalço.--Parece-me (disse D. Julio) que será bom que o mais fraco aparte esta briga com pedir que me façaes mercê de me dizer em que se passou hontem entre vós a noite.--Parte (disse Solino) em cuidar em como passarieis o dia, e na grande falta que nos fizestes; a outra em dizer como se haviam de contar as historias na conversação; e n’aquella se disseram duas para negaças, e uma para espantalho; ficou para continuar a materia de contos graciosos, ditos agudos e galantes: tereis vós saude logo, e nós com ella gosto para proseguir, e ouvirão estes senhores o que não cuidaram.--Não me ponhaes vós isso em dilação (disse o fidalgo) que antes em quanto mal disposto quero, como dizem, accrescentar esta noite á vida; e se m’a desejaes como amigo, sabei que n’isto a tenho.--Se como a doente (respondeu Solino) vos houverem de fazer a vontade, não sei se fôra esta. Com tudo, ao menos para divertir, comece o doutor; que eu aqui trago as armas, com que costumo accudir a esta guerra; e cada um diga o seu conto, e conte o seu dito, encommendando a todos que riam do que eu disser, porque é vicio, dos que cuidam que tem graça, a desconfiança.--Tambem essa me parece, (accudiu o doutor) e dando-vos a obediencia por servir ao senhor D. Julio: A noite, em que nos faltou sua presença, se tocou n’esta conversação o modo que havia de ter o discreto em contar uma historia; fugindo muitos vicios, e bordões que os nescios tem n’ellas introduzidos; e como em dependencia d’esta materia se falou nos contos galantes, que tem d’ellas muito grande differença; pois elles não consistem em mais, que em dizer com breves e boas palavras uma cousa succedida graciosamente. São estes contos de tres maneiras: uns fundados em descuidos, e desattentos: outros em mera ignorancia: outros em engano e subtileza. Os primeiros e segundos tem mais graça, e provocam mais a riso, e constam de menos razões, porque sómente se conta o caso, dizendo o cortezão com graça propria os erros alheios. Os terceiros soffrem mais palavras, porque deve o que conta referir como se houve o discreto com o outro que o era menos, ou que na occasião ficou mais enganado. E porque n’isto declaram menos as regras, que os exemplos, diga cada um o seu; que eu, por desimpedir o caminho, quero que passe por conto o que me aconteceu ha poucos dias:

“Fui a casa de um letrado meu amigo, a quem achei mui colerico, tirando pelas orelhas ao seu moço, que se desculpava, chorando, que não sabia de uns oculos, por que perguntava: olhei, e vi que tinha uns no nariz presos; perguntei-lhe se eram aquelles: o letrado ficou corrido, porque, tendo-os nos olhos, os não via; e o moço queixoso, porque as suas orelhas pagavam a pena que as do letrado mereciam.”

--Esse desattento (disse Leonardo) é muito ordinario nos escrivães que buscarão duas horas na mesa, e nos papeis a penna que trazem na orelha. Mas para desattento, e descuido: o que n’este logar aconteceu ha muitos annos a um cortezão que aqui vivia, que tendo uns amores humildes, que tratava com muito segredo, tinha um relogio de peito que trazia tão esperto, e bem temperado, que fazia horas quasi a todos os moradores d’este logar. Desattentou, e estando com elle ao pescoço uma noite em casa da delinquente, deu o relogio meia noite: e ás escuras manifestou a toda a visinhança a verdade, que até então escondera dos olhos, e suspeitas de todos.--Ainda (disse o prior) me parece peor o successo de um meu conhecido, que em um bairro de pouca visinhança tinha em Lisboa amores com uma moça que lhe estava já affeiçoada; falava-lhe de noite de uma janella, e ambos se temiam de outra, d’onde um visinho de parede em meio os espreitava: por se livrar d’este inconveniente, deu-lhe a moça ponto para uma noite lhe falar de mais perto, entrando pela janella, fazendo primeiro certo signal, com que ella havia de accudir. Buscou elle para isto uma noite chuvosa, e escura, poz sua escada, subiu; e errando a barreira, foi bater e fazer o signal na janella de que se vigiavam. Accudiu o visinho, e abrindo-a, viu o namorado seu erro á candeia; e com o sobresalto d’esta desgraça, cahiu com a escada e com o segredo na lama.

Festejáram todos o conto com muito riso. E disse Solino:--N’este mesmo logar conheci um galante, que falava muitas noites de pé da janella a uma dama, com quem tinha amores; e assim em vendo visinhança recolhida, e logar quieto, disfarçando-se com os moveis, que para aquelle mister tinha apparelhados, vigiando todos os portos por onde podiam contraminar a cautella do seu segredo, se vinha ao posto. Uma noite, que lhe não coube vez senão perto da madrugada, falando a moça com elle, sentiu dentro reboliço; e por não ser sentida, pediu-lhe que se encobrisse com a sombra, e que ella tornaria a lhe fazer signal, como tudo se aquietasse. Sentou-se elle em uma pedra; e a moça vendo o negocio mal parado, por desmentir algumas suspeitas se foi lançar na cama: o galante, que como estava trasnoitado achou branda a em que se recolhera, adormeceu com tão boa vontade, que já alto dia foi achado como Leandro na praia de Césto, dormindo com o trajo de outras horas, espada núa, e rodela mal vestida, sem dar acordo; até que, depois de estar á vergonha, um amigo o recolheu a casa, e a dama padeceu a esta conta muitas, que costumam a ser o ganho d’estes empregos.

Com egual alegria foi recebido este conto, que o do prior: e disse Leonardo a Feliciano, e a Pindaro, que pois elles tinham dado exemplo dos contos de descuido, e desattento, a elles ambos tocavam os da ignorancia.--Não nos guardastes para bom logar (tornou Pindaro) porque mais convinha aos mancebos contarem descuidos e desattentos dos velhos, que ignorancias suas: mas para que saibaes que não faltam umas e outras culpas n’essa edade, me não escuso.

Um homem de melhor parecer e estatura, que entendimento, se apartou a viver alguns annos longe da cidade em um monte, onde além de tratar pouco do culto de sua pessoa, com o ar dos matos, o discurso da edade, e algumas enfermidades que tivera, estava do rosto e das feições mui dissimilhado; vindo depois com nova occasião a viver á terra, d’onde sahira, querendo-se vestir, e concertar ao galante, mandou que lhe comprassem um espelho: fez o creado dilligencia, e não achou nenhum de que se satisfizesse o amo, tendo provado muitos, ou quasi todos os que havia: e perguntando-lhe porque os engeitava, respondeu: “Porque fazem tão mau rosto, e tão avelhantado, que se não pode um homem de bem vêr a elles; e ha poucos annos que os havia n’esta terra tão excellentes, que me faziam o rosto como de um anjo.” Riu-se o moço dizendo entre si: “Mais se desconhece meu amo por ignorante, que por mal visto; pois ao espelho põe a culpa que tiveram montes, e a edade.”

--Outro (disse Feliciano) tão fraco de animo como de entendimento, passando em sua casa de uma para outra, com uma porcelana de sangue que levava para certo effeito, acertou de tropeçar na porta por onde entrava, e entornou-se-lhe o sangue pelas mãos: e accudindo logo com ellas ao chapéo, que lhe cahia, encheu a testa de sangue que lhe corria em gôttas sobre o rosto: um filho, que olhando para elle o viu ensanguentado, começou com grandes gritos e choros a chamar sua mãe; a qual, tanto que achou o marido d’aquella maneira, com as mãos nos cabellos pranteava sua desaventura: elle ouvindo os gritos de todos, sem saber o que era, cahiu esmorecido na casa, onde podera morrer de nescio, como outros morrem de mal feridos.

Pareceu muito galante, e provocou a todos riso o conto de Feliciano; e proseguiu o doutor dizendo:--Os contos da ignorancia tem mais graça, que os da malicia; e assim dizia um discreto que só a parvoice com auctoridade era sem sabor; que não pode ser maior galanteria, que um engeitar ao sirgueiro o chapéo porque não tinha a rosa para deante, podendo-a elle voltar para onde quizesse: o outro espantar-se muito de lhe não tingirem umas meias negras de verde, sendo assim que havia pouco tempo que umas verdes lhe tingiram de negro: e o outro, que para não perder a chave do cadeado, a metteu dentro na canastra encourada antes de o fechar; e depois lhe foi necessario quebrar a elle, ou romper a ella para tirar a chave: e muitas semelhantes, que contar agora seria infinito.--Ainda (accudiu D. Julio) haveis de dar licença ao conto de um meu conhecido, que ouvindo falar que havia antipodas, e que andavam com os pés para os nossos, o não pude persuadir de que modo podia estar esta gente, sem cahir de cabeça abaixo, andando ás avessas.--Todos esses (disse Leonardo) são extremados; porém os de engano, se tem menos occasião de provocar a riso, tem a graça mais viva na subtileza e malicia; e quando a materia é graciosa, levam a todos os outros muita vantagem. “Um amigo meu era mui regalado de doces; e no tempo das flôres e das fructas mandava fazer em sua casa muita variedade d’elles: uma das creadas, com que se servia, era tão gulosa, que, em vendo boccados a enxugar, não se aquietava até tomar a sua ração, que era cercealos a todos como a reales. Desejando o senhor de saber qual dos seus moços, ou creadas, lhe fazia aquella travessura, mandou fazer certos boccados com azebre, cobertos de assucar; e, postos ao sol, deu mais logar á moça, que accudindo ao reclamo, fez seu lanço; e como logo se quiz aproveitar do ponto, foi tão grande o amargor na bôcca, que o não poude encobrir: fazendo muitas diligencias, começou a dar signaes, e a agastar-se: o amo fingindo suspeitas de peçonha, metteu toda a casa em revolta, e a moça em desconfiança, fazendo-a beber azeite, e tomar outros defensivos: porém como elle não podia encobrir o riso de a tomar na empreza com aquelle engano, entendeu ella o que seria; e por remediar sua falta, fingindo estar atribulada, disse que lhe declarassem se morria, porque havia de deixar culpado quem a convidara com aquelle doce, por ella não descobrir os que lhe vira muitas vezes furtar dos taboleiros: e d’este modo remedeou seu erro, deixando ao amo na mesma duvida que tinha d’antes.”--Um estudante (disse Feliciano) que entre outros era hospede em casa de um amigo, jazendo todos na cama, por ser o tempo de verão, elle que era menos corrido, que engraçado, lhes disse: Não se riam vossas mercês tanto do meu pé, que apostarei que ha na companhia outro peior: cada um fiado nos seus, zombava, e sahia á aposta, de maneira que a fizeram que, se elle o mostrasse, ganharia certo preço, ou perderia outra egual valia: feita a aposta, tirou elle o pé esquerdo, que tinha escondido, que por calçar mais dois pontos, que o outro, tinha os dedos em arcos, tão tortos, e cheios de cravos, e o pé de joanetes, que não parecia natural: e assim ganhou, com muito riso de todos, o que tinha apostado.“--Outro estudante do meu tempo (proseguiu Pindaro) passando parte de uma noite de inverno em casa de um amigo, que morava perto do rio, choveu tanta agua, e cresceu com tanta furia o Mondego, que lançou por fóra, e fez ilha das casas do estudante: o hospede esperava que o convidasse a ficar; e o amigo não tinha essa vontade, porque temia a roupa de alguns males contagiosos, que d’elle suspeitava: estiveram assim grande espaço da noite, sem cessar a chuva, até que o senhor da casa começou a bocejar, e o hospede a se despir: e perguntando-lhe o amigo para que se despia? respondeu: Que ou para nadar, ou para se lançar na cama. Vendo-se elle apertado, respondeu: Pois assim é; alli tendes uma taboa, ou vos salvae nella, ou fazei d’ella cama em que vos lanceis.”--Esse conto (accudiu Solino) tem o pé em duas raias, ou parte com dois termos, que consta de dito, e de feito; mas passe sem sello, por ser vosso.--Signal é (respondeu elle) que vos não deve direitos. Então gabaram todos os contos, e disse o doutor:--Além d’estas tres ordens de contos, de que tenho falado, ha outros muito graciosos, e galantes, que, por serem de descuidos de pessoas, em que havia em todas as cousas de haver maior cuidado, nem são dignos de entrar em regra, nem de serem trazidos por exemplo: a geral é que o desattento, ou a ignorancia d’onde menos se espera, tem maior graça. Atraz dos contos graciosos se seguem outros de subtileza, como são furtos, enganos de guerra, outros de medos, phantasmas, esforço, liberdade, desprezo, largueza, e outros semelhantes, que obrigam mais a espanto, que a alegria; e posto que se devem todos contar com o mesmo termo, e linguagem, se devem n’elles usar palavras mais graves que risonhas.--Não era essa materia (disse D. Julio) para se passar por ella tão apressadamente; porém já que no fim da noite, em que me eu apartei, se tratava do sal; parece que sinto menos a falta da que perdi, com vos achar ainda agora n’esta graça, como dependencia do que então se falou; que não a pode haver melhor acceita que a dos ditos agudos e galantes: assim que não havemos de consentir que o doutor se divirta para outra cousa.--Eu não posso (disse elle) sahir de vosso gosto; porém a materia não era para tão de repente, nem para tão breve tempo como se requere que seja o da visita. Porque primeiramente, _dito_, na significação portugueza tomamos por cousa bem dita, ou seja grave, como o são as sentenças; ou aguda, e maliciosa, como o são as de que agora tratamos: e chama-se _dito_, porque dizem uma só palavra, ou muito poucas muito de entendimento, de graça, ou de malicia. E deixando a sentença, que terá em outro dia o seu logar, os ditos agudos consistem em mudar o sentido a uma palavra para dizer outra cousa, ou em mudar alguma lettra, ou accento á palavra para lhe dar outro sentido; ou em um som e graça, com que nas mesmas cousas muda a tenção do que as diz: e de uns e outros os mais engraçados, e excellentes são os de respostas; porque além de estas serem mais apressadas, e tão de repente, que tomam entre portas o entendimento; tem materia sem suspeita nas perguntas.