Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Part 9

Chapter 94,090 wordsPublic domain

Na ilha de Irlanda, e na cidade de Dublin principal de seus estados, no maior enleio, e dissensão dos principes d'ella, que com a differença, e variedade das erradas seitas de Inglaterra, a cujo rei obedecem, vinham em total ruina, e destruição d'aquella provincia, nasci de generosos paes, tão mimosa dos afagos, e enganos da fortuna em meu principio, quanto depois a senti esquiva, e deshumana em minhas desgraças. Não tiveram meus progenitores outro fructo, em que empregassem o amor paternal, (que faziam notavel excesso á qualidade de seu sangue) mais que a mim, que com esta boa sorte era invejada de todas as de minha edade, e pertendida dos mais illustres mancebos de toda Irlanda. No melhor de meus tenros annos, que a estes costuma morder sempre por varios modos a inveja venenosa da dura parca, de uma arrebatada enfermidade perdeu minha mãe a vida; e eu como ainda na minha não provara outros males, senti este primeiro com grande pena: mas como a sorte m'o ordenara para ensaio de novas desgraças, depois de me ter encetado o soffrimento; em poucos mezes depois perdi meu pae, e senhor, a quem muito amava, e fiquei mettida entre parentes cubiçosos de minha herança, e amantes fingidos, que obrigados das riquezas d'ella me procuravam por esposa. Tinha eu a todos, os que me offereciam, pouca vontade; e grande obrigação de tomar estado conveniente aos respeitos de minha nobreza. E como os favores, em que me creei, me ensinaram a ser altiva (que este é um dos grandes damnos que faz a prosperidade) puz o pensamento em quem com despreso, e ingratidão castigou minha arrogancia: havia n'aquella mesma cidade um principe, mui chegado por descendencia ao sangue real de Bretanha, cheio de muitas graças da natureza; que, ainda que me era muito desegual por nascimento, tinha tão poucos bens da fortuna, que fazia eu no meu dote confiança para o pretender. Alcançou elle d'isto alguns signaes, que teve em pouco; não advertindo que a vontade de uma dama sempre põe em divida a um espirito generoso, que conhece o preço d'ellas. Succedeu pois que, tendo eu já de minha pretenção poucas esperanças, o elegeram os da ilha de Lister, Ragrim, e das mais da parte oriental de Irlanda, por capitão de uma armada de corsarios, afim de fazerem uma preza muito importante no mar Oceano: e como ás vezes o castigo dos maus intentos é a mesma fortuna, (posto que outras como cega os favorece) se perdeu esta armada com uma tormenta, na qual a maior parte da gente pereceu; e a que ficou do miseravel naufragio se salvou em uma enseada, onde foi captiva de um turco corsario, que a levou a Argel, e alli por o pouco segredo dos seus ficou o seu general conhecido por quem era; e como o sangue, d'onde descendia, junto ao cargo que levava, o faziam de mór preço para os que o captivaram, ficou impossibilitado o seu resgate, e elle sem remedio n'aquella prisão alguns annos: até que a necessidade, e apêrto d'ella me aconselharam que de novo emprehendesse o de que com seus despresos desconfiara, mandando-lhe offerecer liberalmente meu dote para resgate de sua liberdade. E elle com o desejo d'ella, e obrigado d'esta lembrança, tendo por menores grilhões os que de novo lhe punha, que os que elle trazia, aceitou a offerta, e me mandou em satisfação um escripto, em que me jurava por sua esposa. Puz eu, sem mais cautella, em execução o meu intento, perdendo a affeição ás muitas riquezas, que tinha, pela honra e contentamento, que d'aquelles desposorios esperava. Tornou livre á sua patria, e mudou de improviso a tenção que fingira para alcançar o remedio á custa do meu engano. Estranhou-lhe o mundo esta crueldade: e os meus vendo-me sem dote, e sem marido, e, o que o havia de ser, tão ingrato, e na opinião de todos tão culpado, me levaram a o demandar por justiça nos tribunaes supremos, onde, depois de convencido, me foi julgado por devedor, e por esposo. Mas como a minha vontade não era que elle o fôsse contra a sua, esperei o tempo mais conveniente para a declarar. Obrigado emfim da justiça, e, depois d'ella, rendido aos conselhos dos principaes parentes que o tratavam; o dia, em que se havia de desposar comigo, cumprindo por sentença a palavra que me tinha dado, antes de lhe dar a mão, metti na sua um papel em logar da minha, que era quitação plenaria de tudo o que por elle déra, e juntamente do que elle com tanta ingratidão recusara, escolhendo para castigo de minha altiveza a humildade da religião mais apertada. Fez isto em toda a ilha grande espanto; e eu com o resto, que do meu dote ficára, aborrecendo a patria como a madrasta, determinei logo buscar em reino alheio segura morada. E porque a fama da religião portugueza, e da famosa cidade de Lisboa, onde muitas religiosas do illustre sangue de Bretanha vivem santamente em clausura, me trazia mais affeiçoado o desejo; mandei por alguns mercadores de confiança o maior cabedal do que possuia a quem até á minha chegada o detivesse; e eu como tive a certeza de este dote mais necessario estar seguro, fugindo ás affrontas, e odio de meus naturaes, me embarquei com o mais que me ficava; e com prospero vento tomei porto em Galiza, e visitei a casa, e sepultura do glorioso apostolo Santiago; d'onde caminhando por terra, livre já dos enredos de minha ventura, não pude escapar á cobiça dos criados que me acompanhavam; que esquecidos da fé que me deviam, e pouco affeiçoados da catholica que professava á sua vista com tanta firmeza, me roubaram as joias, o dinheiro que trazia, deixando-me n'estes desvios desamparada. Senti mais esta derradeira desgraça, por ser a que me tomou com a paciencia quasi rendida aos trabalhos da viagem, que venceram o descostume e fraqueza femenina; e tambem por me achar tão só na confusão d'estes caminhos: porém se pelos que parecem tão errados me quer Deus guiar ao mais seguro, eu ponho em suas mãos o soffrimento: e por elle, senhor, vos peço como a ministro seu que em tudo pareceis, que, ainda que vos dê cuidado, me mandeis d'aqui em companhia de confiança, até onde d'aquellas bemaventuradas religiosas seja conhecida; que á sua vista poderei logo satisfazer a diligencia: a vós pagará o céo este trabalho, e a estas senhoras o amor com que favorecem o meu desamparo; que a maior consolação, que devem ter os perseguidos da sorte, é saber que a todo o tempo, que se acolherem a Deus, acham n'elle brandura; e que tem á sua conta pagar largamente as boas obras, que no decurso de seus trabalhos receberam.

Esta historia contou a peregrina com os olhos cheios de agua, com que orvalhava de quando em quando as rosas do seu rosto; e a nenhum dos que alli estavam faltaram lagrimas. Eu lhe disse: Senhora, se o estado que buscaes com tanto desejo, não fôra melhor que o que vos roubou a ventura, muito era para sentir a que vos offende. Porém como o caminho dos que Deus escolhe é tão differente do que seguem aquelles que lhe vão fugindo; não podeis n'este ter maior seguro, que saber que vos acompanha nos trabalhos presentes, e vos ha de dar o galardão e premio de todos: e para que eu tenha n'elles alguma parte de merecimento, me offereço ao remedio dos que ficam até tomardes logar n'essa clausura. Lisboa é terra grande; e a muita confusão da gente e trafego d'ella a faz embaraçada; e vós é razão que com a decencia e commodidade, que vossa pessoa e qualidade requer, vos deis a conhecer. Pelo que, se quizerdes descançar com estas minhas parentas, e ja criadas vossas n'esta aldeia, eu irei á cidade, e procurarei servir-vos com todo o cuidado. Isto me agradeceu a estrangeira com muito boas palavras, mostrando tambem nas côres do rosto signaes de obrigação. E hoje, antes da minha partida, me fez uma lembrança do que por sua parte havia de perguntar. No caminho me atalhou a jornada uma occasião forçosa, que me fez passar a noite tão perto de casa como vêdes, mas com o maior interesse que podia esperar: pois, além das mercês do senhor Leonardo, goso a conversação de tantos amigos e senhores, que é fim, a que se podiam dirigir outras jornadas maiores.--Já agora (disse D. Julio) não serão tão culpados meus extremos; pois nos que disse o senhor prior da peregrina ficam acreditados; e passam as suas obras tanto adiante das minhas palavras, que deixa a sua egreja e familia para por a servir no que eu nem ainda me soube offerecer: e contou ao prior o como encontrara, andando á caça, a mesma estrangeira, e o que n'aquella conversação tinha passado sobre os louvores, com que elle quizera pintar sua formosura.--Nenhuns lhe podieis dar (proseguiu elle) que não ficassem os maiores encarecimentos devendo muito á verdade: e o maior espanto, que eu achei nos de sua gentileza, foi que, sendo ella tal, houvesse um homem bem nascido, que sobre obrigações tão forçosas a despresasse.--Isso (tornou D. Julio) não tenho eu por espanto; que d'esse modo se costuma vingar a sorte da naturesa, quando na perfeição de suas obras a não pode egualar: mais se me representa a mim que seria o homem nobre, e sem entendimento, como ha muitos, pois fugiu de tantos e tão poderosos attributos, como eram formosura, riqueza, magnificencia, cortezia, e humanidade, todos empregados em seu favor.--E a mim (acodiu Solino) me pareceu ingrato, mas discreto, fugindo o jugo de uma mulher que lhe ficava sendo duas vezes senhora, uma pelos poderes naturaes de sua belleza, e outra por a divida, e preço de seu resgate.--O meu voto é (disse Pindaro) mui differente; antes julgo que o que o homem aceitou por necessitado, veiu a enjeitar por cubiçoso, vendo que se dispendera com sua liberdade o dote que dourava as perfeições de sua esposa; que nunca deixara de o ser, se fôra tão rica como no principio, em que o libertou; porque a cobiça e o amor são grandes competidores.--Não me descontentam as opiniões (disse Leonardo) mas já que vos entalastes entre esses dois inimigos do socego humano, seja a questão e a materia da conversação da noite á conta d'elles. E perguntou ao doutor, qual dos dois é mais poderoso, e obriga os homens a maiores extremos?

--Se houvessemos de dar credito (respondeu o doutor) á experiencia, e tomar os successos do mundo por argumento, com poucas porfias se manifestará a verdade da vossa pergunta: mas tratando primeiro das razões, vejamos em que se parecem, e os poderes em que os antigos igualaram o amor, e a cubiça; que de ambos deixaram jeroglificos, e figuras. Pintaram pois ao amor menino, formoso, com os olhos tapados, despido, com azas nos hombros, e armado de arco e settas: menino, por facil e fagueiro; formoso, porque a belleza é o objecto dos amantes; despido, porque se não póde encobrir; cego, porque não vê, nem conhece a razão; com azas nos hombros, por ligeiro, e mudavel; armado, por forte, poderoso e cruel. A cubiça pintaram-a mulher, despida, com os olhos tapados, e azas nos hombros. Despida, pela facilidade com que por seus effeitos se descobre; cega, porque não vê nenhum respeito humano em rasão do que deseja: com azas pela velocidade com que segue aquelle objecto, que debaixo da especie de proveito se lhe representa. Assim que só nas armas, e no sexo feminino achamos na pintura differença: porém se considerarmos os effeitos da cubiça, ou foi que na pintura de mulher as quizeram cifrar todas, ou que lhes faltou lugar para tantas armas; porque se amor é forte e poderoso, e vence a tudo, como disse o poeta; o mesmo confessa que a todos os extremos fórça, e obriga a sede do ouro aos humanos; se a amor como a poderoso o fingiram Deus cruel, como diz o poeta Seneca; não só a cubiça é Deus do avarento e cubiçoso, mas o mesmo ouro que deseja, como d'elles disse um doutor santo; se lhe chamam cruel pelos damnos que no mundo fizeram seus poderes, mais reinos assolados, cidades destruidas, e damnos immortaes se fizeram no mundo por cubiça, que por amor: e antes de chegar aos exemplos, com que se póde provar esta verdade, vejamos em seu nascimento que coisa seja amor humano; e o que é cubiça. A elle chamaram muitos auctores furor; e este definio maravilhosamente um doutor grego, que disse que amor era um desejo irracional, que facilmente se emprega, e com grande difficuldade se perde. E da cubiça escreve outro mais moderno, que é um appetite fóra da medida certa, que ensina a razão; que não tem modo, nem fim. É certo que cada um d'elles podia trocar com o outro esta definição, sem ficar enganado; porque o mesmo é excesso de um desejo irracional, que appetite fóra dos limites da rasão: e o mesmo ser leve em se empregar, e deixar-se com difficuldade, que não ter modo, nem fim. Mas posto que na pintura, e nascimento os podiamos igualar, os effeitos da cubiça são com mais força, e vehemencia, que os do amor; porque, se faz cego o amante para perder o lume da razão, todavia não o faz vil, antes o engrandece: e o cubiçoso é cego para não vêr razão, nem honra, e para se abaixar a todas as infamias, a que se sujeita o interesse: se o pintam despido para se não poder encobrir, com mais vergonhosas mostras se pinta a cubiça: o que na mesma pintura de mulher está declarado. Se é ligeiro o amor para se empregar, com tudo busca sempre a formosura como objecto seu, e obra a que honrou a mesma natureza: e a cubiça se emprega nas mais humildes e indignas coisas da terra, como d'ellas possa tirar fructo o cubiçoso: que a Tito cheirava bem o dinheiro que cobrava das immundicias de Roma; e no que são atrevimentos e ousadias, muito atraz ficaram os amantes dos cubiçosos. Romper as entranhas da terra, e chegar á vista do inferno por tirar ouro: descer ao fundo do mar por buscar perolas, descobrir novas regiões, soffrer climas estranhos, e barbaras gentes para adquirir commercios, obras foram de cubiça, e não de amor, como tambem o foi a navegação, que na empreza do Velocinio d'ouro começou: e se amor é cruel, muito menos o parece nas obras que a cubiça, pois elle ao amante offende com suavidade amorosa, e aos estranhos com animo compassivo tanto mais nobre, quanto elle o é mais, que a cubiça, que mata no mundo mais homens em um só dia, que o amor em muitos annos. Assim que a meu ver em competencia, ella tem mais poderes, e na semelhança se parece tanto com o amor, que é elle mesmo; mas com tal differença, que elle ama a formosura humana, e a cubiça a riqueza.

--Não consinto (disse o prior) que o vosso entendimento faça tão grande aggravo ao amor, como é igualar com elle a cubiça: porque quando em poderes tenham grande semelhança, na nobresa e nascimento tem muito maior desegualdade; que posto que o amor considerado como appetite carnal seja excesso de um desejo fóra da razão; significado como affeição humana, é uma força que ajunta, ou deseja unir duas vidas em uma, a do amante e da coisa amada, e é este amor tão natural a todos, que é defeito e torpeza não saber amar, como diz S. Chrysostomo. E pelo contrario Aristoteles chamou a cubiça desejo fóra da natureza. O amor nasce tão nobremente, que tem por objecto a belleza humana, e os dotes naturaes mais excellentes como são graça, juizo, parecer, e perfeição: e assim diz S. Agostinho, que amamos coisas boas, porém com amor mal intencionado. E a cubiça como é vicio do entendimento, e appetite preternatural, sempre é mal nascida, e inclinada a coisas baixas. Assim que sejam os poderes, e as pinturas quão parecidas quizerdes; são as naturezas de ambos mui differentes.--Parece-me, senhor doutor (disse Feliciano) que aquella razão ha de achar muitos votos contra o vosso, porém eu por me pegar ao melhor parado, nem quero ir contra elle, nem hei de encontrar o do senhor prior, antes ajudado da doutrina de ambos accrescentarei o meu pouco, mettendo-me entre tão boas partes pela de amor; e digo que posto que elle e a cubiça sejam semelhantes no poder, no que é amar são em tudo deseguaes, porque não se ama a coisa que pelo que é, e por amor de si propria se não ama; e menos se póde amar a que se não conhece: e assim seria erro chamar amor ao do cubiçoso, que se emprega em coisas que por si não merecem amor, e em outras, de que não tem nenhum conhecimento: amar a uma pessoa, que obriga e sujeita a nossa vontade; é ter-lhe amor por qual ella é, e por essa a desejamos unir comnosco, por natural appetite: mas empregar a affeição no dinheiro, e no ouro, que não amamos pelo que é, senão pelo que com elle se alcança, não póde ser amor. E menos o será amar o que ainda não conhecemos, como faz o cubiçoso a muitas coisas, que não vio, pelo interesse que d'ellas espera. E não tratando ainda de que o amor não se considera só no que ama, senão tambem na coisa amada; e que falta correspondencia, sendo essa insensivel: o amor todo se emprega no interesse dos sentidos; e este falta em todos elles ao cubiçoso: porque, se a sua temerosa côr o cativara, nem d'essa o deixa usar o seu cativeiro. D'onde veio dizer o poeta Horacio que o ouro para os avaros não tinha côr, porque o enterram segunda vez, pois por essa e por seu nascimento lhe podem chamar desenterrado: nem com a voz deleita os ouvidos, nem com a suavidade do cheiro recrea, nem com o tacto agrada, nem com o gosto satisfaz. Diga-o Midas, que o pediu aos Deozes por dom: e como lhe ficou por mantimento, perecia na abundancia do que tanto desejara. Diga-o Pithio, o qual deu a el-rei Dario o platano e videira de ouro: o gosto, que achou na ceia que sua mulher lhe ordenára: o qual com sua demasiada cubiça não dava lugar aos seus cidadãos de se empregarem em outro trabalho mais, que em beneficiar as minas do ouro, em cuja ruina muitos d'elles miseravelmente pereciam: pelo que, vendo as matronas da cidade tanto damno, foram juntas pedir á mulher de Pithio que, compadecendo-se de tão grande mal, rogasse por ellas a seu marido, pedindo-lhe que désse aos seus melhor tratamento: e ella, a quem não faltava entendimento, nem piedade, conhecendo que era vão vencer com rogos a sua cobiça, ordenou a Pithio uma ceia esplendida em um dia de festa; na qual todas as eguarias, que lhe deu, eram formadas de ouro. Alegrou-se muito com ellas na primeira vista, e com a magnificencia do apparato, com que lhas apresentavam: porém quando pelo discurso do banquete não viu nenhuma de que podesse comer, perguntou pelas eguarias verdadeiras, confessando d'aquellas que eram fingidas. Como (respondeu então a sabia matrona) queres que te apresente outra comida, se só no cuidado da que tens deante occupas a todos teus vassallos, pois se não lavram os campos, nem se cultivam as arvores, nem se pescam os rios, nem se caçam as aves, nem se criam os animaes, pelo exercicio continuo de tirar ouro? Contenta-te tambem com o fruto d'elle por mantimento. E com este ardil emendou em alguma parte sua demasia.

Bem parece que entendia esta verdade Halaono imperador da Tartaria, que vencendo, em Baldaco, o Califa mestre da seita Mahometica, que era o mais poderoso rico, que então havia no mundo, vendo que, por se não ajudar de suas riquezas, e as não despender em soldo, não tivera resistencia contra o exercito dos Tartaros; depois de captivo o mandou metter em uma camara entre o ouro e joias preciosas, que antes tinha, sem lhe mandar dar outro mantimento, dizendo que d'aquelle comesse á sua vontade: e assim entre a grande abundancia de suas riquezas o miseravel Califa morreu de fome.

Pois se o ouro por si não póde satisfazer ao gosto, nem deleitar sentido senão com o engano do que com elle alcança, como póde ser capaz de amor?

--Vós (disse Pindaro) temestes ao doutor; porém não o seguistes: e eu ajudado do vosso receio, e da sua auctoridade, me hei de valer da primeira opinião que propoz, e é que o amante e o cubiçoso não differem mais no amor, que no emprego d'elle; e para isto me fundo em uma opinião moderna, que tem por si muitas auctoridades antigas; e é que nenhuma pessoa ama mais a outra, que a si mesma, nem póde ter amor a outro, se primeiro se não amar a si; e do amor que se tem, nasce o desejar e amar as coisas a que se affeiçoa, e inclina mais a sua natureza: amo isto, porque me parece bem, e o quero unir a mim, pelo que me quero, e desejo tudo o que me agrada e satisfaz por meu respeito; e por isso chamaram ao amigo uma alma em dois corpos, e, como diz o proverbio, _o amigo é outro eu_; quero-lhe tudo o que para mim quero, e amo-o como a minha alma unida com a sua. E Aristoteles diz que o amigo se hade egualar no amor com o que cada um tem a si: logo tanto quer e deseja o amante o objecto da belleza, em que se emprega, como o cubiçoso o ouro, que quer para si. E quanto á objecção de que o ouro senão ama pelo que é, senão pelo que vale, e por o que com elle se compra e alcança, os vossos mesmos exemplos dirão por mim o contrario; que o cubiçoso, e avaro antes perderá a vida, que resgatal-a com o ouro, a que quer mais que a ella; e antes perece á fome, que satisfazel-a com dispender o que tem em mais estima que a fartura; que para elle é mór damno gastar, que todos os outros; como Lucilo conta de um avarento chamado Hermones, que, sonhando uma noite que gastara certa quantidade de dinheiro, foi tanta a sua paixão e dôr, que, cuidando que era verdade, se afogou. E assim diz S. Jeronymo que tanta necessidade tem o cubiçoso do que possue, como do que lhe falta, pois lhe falta animo para usar d'elle: e diz n'outro lugar que só a avareza e cubiça fez no mundo pobres, porque assás o é mais, que todos, o que tudo deseja; e possuindo mendiga, e padece como se lhe faltára. Logo certo é que o ouro ama o cubiçoso, e não já o que com elle se compra; pois o não quer para comprar, senão para o possuir. E respondendo á deleitação dos sentidos, que o amor humano offerece, e na cubiça falta, ousarei a dizer que o ouro, ainda enterrado, parece melhor ao cubiçoso, que ao amante a formusura que appetece; e que é mais suave a seus ouvidos o rumor, e tinido do dinheiro, que a brandura de todos os requebros, e galanterias namoradas; e que nenhum gosto para elle é egual com o que tem de tocar, tratar, e revolver-se entre o mesmo dinheiro: o que se póde ver com grande admiração n'aquelle afamado cubiçoso o Imperador Caligula, que, depois que a muitos obrigou que o instituissem por herdeiro, aos quaes, depois de testarem, fez matar com peçonha (rindo-se de haver homem que quizesse viver mais depois de haver testado) atraz de em sua casa instituir publica mancebia de todos os vicios, de que tirava um copioso tributo, se lançava despido entre o dinheiro, que d'estas infames obras procedia; e, dando sobre elle mil voltas, tinha em menos conta todas as outras delicias, que os homens a preço do dinheiro procuravam. Certo é logo que o ouro ama, e a elle quer, e com elle se deleita o avaro e cubiçoso; que, se o desejára para o empregar em o que com elle se alcança, perdera o primeiro nome, e podera merecer o de rico, prudente, e liberal: porque o ouro, e as riquezas, como diz S. Leão Papa, não são boas de si, nem más; mas o bom ou mau uso d'ellas engrandece, ou desacredita a quem as possue: e assim não é rico o que muito tem, senão o que com o que tem se contenta: e não ha maior pobreza, que, por empregar o desejo em um baixo metal, que sem bom uso não presta, deixarem os homens o muito que com sua valia poderam adquirir.