Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 8
--Não será fora de proposito (disse o doutor) divertirmo-nos agora com esta materia em desconto, e recompensa das passadas; e gastar esta noite em saber a causa, e o estilo dos encarecimentos namorados, que é pensamento que já me desvelou em outra edade.--Obrigo-me eu (disse Leonardo) que a nenhum dos presentes descontente a vossa escolha; e eu particularmente estimarei seguil-a, tomando o primeiro voto do Licenciado, que por hospede, estudioso e cortezão se lhe deve o logar.--O meu voto (tornou Feliciano) é de pouca importancia, e o logar devido a outrem; mas com toda a humildade acceitarei o que me derem: e se com a minha razão ficar corrido, barato é o saber que se compra com primeiro errar: e assim digo que os encarecimentos nascidos de amor não devem parecer estranhos (por deseguaes que sejam) a nenhum juizo affeiçoado; porque o amante para pintar a formosura de uma dama, que satisfaz a seus olhos e pensamentos, difficultosamente achará nas cousas creadas a que a compare, que lhe fique parecendo que a encarece; porque, ainda que sejam formosas as estrellas, lhe não agradam tanto como os seus olhos; e sendo o Sol tão bello, se alegra menos com a claridade de sua luz, que com vêr o rosto de quem ama; e são de menos valia para seu gosto e desejo o ouro, as perolas, rubins, esmeraldas, e saphiras, que o riso da sua bôcca e a graça da sua vista; e de não imaginar na terra um amante cousa que se eguale ao objecto da sua affeição, dá em o desvario de a comparar aos espiritos que não alcança com o entendimento, subindo com elle pelas gerarchias mais levantadas: a causa é, porque o amor faz as cousas tão formosas a seus olhos, que leva muita vantagem á natureza que creou umas, e outras; e a cubiça e opinião, que engrandeceu a muitas d'ellas: que até do gosto, como diz Plauto, nem o que tem sabor sem amor é saboroso; nem ha fel tão amargoso, que com elle não pareça suave: que não sómente com seus poderes dá perfeição ás cousas, mas tambem as converte em outra substancia.--Não estou contra a vossa razão (acudiu Leonardo) mas parecem-me de forma os encarecimentos de que falaes, que todos, pouco mais ou menos, não sahem de certos limites; porque, em descendo da pedraria, os que são menos lapidarios empeçam em coral, marfim, porfido, alabastro, rosas, neve, ouro: e, quanto por meu voto, a paixão de amor não havia de guardar regra certa nas palavras, e louvores, antes encarecer sua dama com as cousas que a seu gosto e opinião sejam mais formosas; e como as affeições são tão differentes, assim o seriam os gabos, e encarecimentos.--Para louvar (replicou Feliciano) não ha tantos caminhos como para ter affeição; porque logo daes com uma estrada Coimbrã, que é _tão bella como o Sol_, _tão clara como a Lua_, _tão alva como a neve_, _tão loura como o ouro_; e d'aqui adeante.--A mim me parece bem (disse Solmo) a razão do Licenciado, que o doutor tinha geito de metter os louvores de uma dama em exemplos caseiros, chamando-lhe fresca como o seu pomar, linda como o seu jardim, clara como a sua fonte, e alta como as suas faias: e como os amantes para encarecer se não contentam com pouco, todos chegam ao que pode ser: todo o branco é crystal e diamantes; o corado rosas e rubins; o verde esmeraldas; o azul saphiras; e o amarello ouro e jacintos; e até as mães dos meninos, a que naturalmente tem excessivo amor, não lhes sabem chamar pouco: quando os tomam nos braços, logo os intitulam de _meu duque_, _meu marquez_, _meu conde_; nas pedras _meu diamante_, e nas flôres _meu cravo_, e _minha rosa_: quanto mais louvando mulheres, a quem todo o encarecimento fica curto, e envergonhado pela fôrça, com que tem captivos os sentidos, e as potencias dos que hão de falar n'ellas. E para conclusão de tudo, diga Pindaro o que sente n'este particular.--Os encarecimentos, de que usam os amantes (disse Pindaro) menos são seus, que adquiridos dos famosos poetas, que lh'os ensinaram deixando-os escriptos em suas obras: porque, como retratadores das obras excellentes da natureza, buscaram tão altivos materiaes para darem vivas côres á formosura. E não é muito que, pintando um rosto formoso da terra, lhe accommodassem côres, e attributos celestes, quando para pintarem cousas do mesmo céo usam tantas vezes de semelhanças, e encarecimentos da riqueza da terra, como o fez Ovidio na casa de Febo, com tectos de lavrado marfim, e ladrilhos de ouro, com paredes de topazios, jacintos, e esmeraldas; e o mesmo fez pintando os pavões, que no céo levavam o carro da Deusa Juno, que depois accrescentou em obra e feitio Martiano Capella. E como a phrase poetica é a mais excellente, e levantada, e por tal escolhida das Sibyllas, e Oraculos para usarem d'ella, tambem fizeram os amantes a mesma eleição; entre os quaes qualquer miuda consideração de um voltar de olhos é arco, aljava, e settas de Cupido, com todas as mais allegorias, e transformações que os poetas usaram.--A verdade é (disse o doutor) que a perfeição da formosura animada se não pode devidamente encarecer com alguma semelhança, que o não seja, porque todas lhe ficam muito inferiores: o que declarou bem uma dama Florentina, que perguntando-se-lhe o que lhe parecia de uma figura de mulher de alabastro, feita por um famoso esculptor d'aquelle tempo; ella, sem responder com palavras, fez que uma creada sua formosa e bem proporcionada, despisse em si as partes, que a figura mostrava núas; e logo á vista da natural belleza perdeu a pintura, a fama, e valor que d'antes tinha. E eu vi tambem um jeroglifico da formosura, que declara engenhosamente este pensamento: a figura do qual era uma mulher com a cabeça mettida entre as nuvens, o corpo despido, mas rodeado de um resplendor, que o não deixava vêr distinctamente; na mão direita um lirio, e na outra um compasso; significando com a cabeça mettida no céo, e no resplendor, que só com as cousas d'elle se podia encarecer, fazendo impedimento á vista humana como raios derivados da belleza Divina; o lirio denotando a graça das partes naturaes, porque em côr, e pureza foi sempre symbolo da formosura; o compasso a medida, proporção, e correspondencia dos membros, em que consiste toda a perfeição d'ella. Mas Pindaro tudo quer attribuir á sua profissão: e n'esta parte não tem pouca justiça: porque sómente na licença poetica podem entrar os desvarios dos namorados, por serem muito eguaes o furor poetico, e o amoroso. Porém, já que os encarecimentos estão approvados com tão boas razões, estimara eu ouvir alguma em desculpa dos que vivem, morrem, e ressuscitam a cada passo, e que andam sem almas como cantaros, e sem coração como furões, que, a meu vêr, é gente que por privilegio de amor vive exceptuada das leis da natureza.--A razão (respondeu Feliciano) é a mesma; porque quem encarece a causa egualmente exagera os effeitos: a pena de um desfavor, o termo de uma crueldade, ou esquivança é o maior tormento da morte ao que ama; e um favor e brandura, que recebe em sua affeição, é na sua estima o maior bem da vida; e quanto ao estilo de viver sem alma, e sem coração, o declarou maravilhosamente um poeta moderno, dizendo em um soneto á sua dama, da qual estava ausente, que uma parte da alma, com que vivia, lhe ficara; mas a com que imaginava, entendia, e amava, tinha sempre com ella. Nem é outra cousa os desvarios, e desattentos dos que amam, senão viver em certo modo fora de si, como pareceu a Propercio, dizendo que o que se entrega ao amor perde o juizo; e o que eu vejo que poucos em presença da cousa amada ficam com elle.--Tambem S. Jeronymo (accrescentou o doutor) escreve que o amor da formosura é um esquecimento da razão; e assim chamam os poetas ao amor, inimigo d'ella. E que maior exemplo se pode imaginar d'esta verdade e mudança dos que amam, que o de Hercules, a quem os embaixadores de Lidia acharam lançado no regaço de sua amada, mudando-lhe os anneis dos dedos, ella com a corôa real na cabeça, e o famoso Thebano com um sapato seu d'ella em logar de corôa? que menos esperado que o de Dionisio Syracuzano, que por mão, e parecer de Mirta sua amiga despachava os negocios importantes do seu reino? que mais extranho, que o de Themistocles Atheniense, famoso capitão de Grecia, que namorado de uma dama, que captivou na guerra de Epyro, usava em uma doença, que sua amada teve, dos mesmos remedios que lhe a ella faziam, tomando as purgas, e sangrias como a mesma dama, e lavando o rosto por regalo, e gentileza com o seu sangue d'ella? que menos crivel, que o de Lucio Vitelio Imperador, que namorado de uma filha de um escravo seu, a quem libertara, de tal maneira perdia o juizo, que, tendo uma esquinencia, não usava outro remedio mais que um unguento que fazia de mel com o cuspo de sua dama, imaginando que a virtude do ser seu lhe podia dar saúde untando com elle a garganta?--De maneira (disse Leonardo) que amor tira os sentidos, e o juizo a quem se emprega todo em seus cuidados: e eu tinha para mim, e ouvi sempre dizer que não podia o nescio ser bom namorado; o que agora vejo que contradiz a vossa opinião, pois os que amam não tem entendimento.--Só o discreto (respondeu Feliciano) sabe ser amante, e por isso perde o juizo nas mãos de amor; que o nescio mal poderá perder n'ellas o que não tem. E falando mais ao ponto da vossa duvida, o amante pelo ser não fica nescio, mas parece-o em muitas acções dos sentidos, e entendimento; porque, transportado na imaginação do que ama, se descuida de tudo o que não é sua paixão.--Extranhamente (accudiu Solino) me contenta ouvir esta razão para desculpar commigo os maus successos de namorados, a que não sabia tão boa desculpa; que assás grande é para esquecer cousas menores quem está fora de si: porque, deixados esses exemplos de amantes, cuja grandeza de estado faz maior, e mais notavel o desatino, com que nas mãos do amor renunciaram o entendimento; de outros de menos estofa, e mais modernos sei eu descuidos, que podiam entrar em historia n'esta occasião, e por me aproveitar d'ella: Eu conheci um cortezão mui empenhado em finezas de amor, que passeava em um terreiro, onde tinha a dama em um quartão, que já aturava aquelle fadario todos os dias como em atafona; acertou n'aquelle a ser mais favorecido da senhora, que de quando em quando lhe apparecia, cevando com sua vista os desejos do namorado mancebo, que por seguir a caça se esqueceu do tempo, e das horas de comer, mettendo-se pelo certão da calma que n'aquelle tempo fazia; o cavallo, que não devia de estar tão affeiçoado a aquella estancia como á sua costumada, estancava muitas vezes do passeio, sem haver accordo nem espora que o despertasse; até que uma vez, estando o amante parado com o ponto no alvo da janella, acertou a passar um macho que levava uma rede de palha, a que o rocim se arremessou com tanta furia, que, prendendo os copos da brida nos laços da rede, se embaraçou de maneira, que levou ao quartão enamorado por todo o terreiro, onde se resentio do rapto, sem se poder valer contra os couces do macho, e risada dos rapazes. Mas não é muito padecer d'elles afrontas quem do um tão mal acostumado fia sua liberdade. Outro, que ainda nas guerras de amor não era armado cavalleiro, passeava a pé á vista de seu cuidado, ora com os olhos na janella, ora com o tento na postura, e galanteria de seu bom trajo: a dama, que não trazia ainda aquella affeição em abertas, e publicadas, porque não notassem os que passavam os meneios, e esgares que o mancebo fazia, acenando-lhe se tirou do posto passando-se a uma janella mais pequena que cahia sobre uma esquina das mesmas casas: o galante mais com o tento na mudança, que no caminho, com os olhos no alto, deu com a testa um grande encontro na esquina, de que se esmechou, e atolou em um monte de cal amassada de fresco, que estava arrimado á parede, ficando até os sendaes mais caiado, que cantareira d'Alfama.--A todos pareceram os contos de Solino cheios de graça; e (disse Leonardo) sempre sahe o amor culpado n'estes ferimentos; e não tenho por grande desar todo o que succede á sua conta, que por isso o pintam cego, e são conhecidos por taes os que o servem: porém a mim me parecia que quando o amante perde o tento, e o sentido de tudo o mais, devia ficar só discreto, e avisado para sua dama, que é o objecto em que todo se emprega; que para lhe falar lhe sobejariam razões galantes, respostas obrigadas, termos de subtileza, e galanteria: e eu pela experiencia acho o contrario, que dos noivos, e dos amantes se contam as primeiras parvoices.--Não sei (disse Solino) se dirá agora Pindaro que tomaram isso os namorados dos poetas, como os encarecimentos.--Os poetas (respondeu elle) não são havidos por parvos; e quem lhes quiz fazer todo o mal lhes chamou doidos: o que poderia ser; que o arrebatarem-se, e alhearem-se de si os amantes com affeição, como os poetas com o furor divino que os excita, aprenderiam d'elles. Pelo que o vosso remoque não deu boa chaça: mórmente que esses primeiros erros são de outra geração; e nenhum parentesco tem com a parvoice. Antes é um modo de se atalhar, e suspender um homem o seu entendimento com muita razão; porque não pode dizer cousa, que pareça bem aos outros a primeira vez que fala com aquella a quem ama; que é passo, onde os mais discretos o perdem.--Parece-me que está no certo meu companheiro (disse Feliciano) que eu sei de homens, que entre os outros podiam falar sem medo, terem-no muito grande a estes primeiros encontros; que certo me parece mais respeito que se deve á formosura, que falta que se possa dar em culpa ao entendimento: pois o verdadeiro é que amor o apura, e engrandece; e por este respeito os Athenienses lhe levantaram uma estatua na Academia de Palas como a sabio, e lhe dedicaram uma escola os Samios, significando que só na de amor se alcança com perfeição tudo, o que pelas do mundo variamente se aprende, e com muito discurso de annos se alcança: o aviso no falar, a discrição no escrever, a brandura no conversar, a policia no vestir, a graça no parecer, a cortezania no tratar, a liberalidade no dispender, o esforço no pelejar, a largueza no jogar, a humildade no servir, e a pontualidade no merecer. Do pensamento, e juizo dos amantes sahiram ao mundo as emprezas discretas; as chimeras escuras, as idéas levantadas, os motes avizados, os versos excellentes, os enredos subtis, as cartas galantes, as fabulas bem fingidas, os primores, os extremos, e as finezas tudo é doutrina tirada das escolas de amor. E pois n'ellas se alcança tudo, não é muito que se ache tambem um termo de falar encarecido, e levantado sobre todas as cousas vulgares que tratamos, posto que o juizo d'este acerto se não deve fazer por homens livres d'esta paixão amorosa, se pode haver algum, a quem não coubesse em sorte padecel-a: e bastava sem outros exemplos, fazer a eleição d'ella o sr. Julio, que em todas as partes de côrte e gentileza pode servir de espelho aos mais apurados.--Vós me obrigaes por tantas vias (respondeu o fidalgo) que fico desconfiado de poder pagar nem com encarecimento do que mereceis, nem com a restituição dos louvores injustos que me daes, que só são devidos ao vosso entendimento. E pois a victoria d'esta batalha ficou por elle em meu favor, quero-me aproveitar d'ella, e do cuidado que me deu o dia com me recolher a casa, e fazer mais comprido o repouso da noite.--Essa resolução (disse Leonardo) é em damno de todos: e muito mais de sentir, porque á força nos obrigaes a que consintamos n'elle: mas como em logar de preza trouxestes da caça empreza tão difficultosa, poupaes horas para cuidar n'ella á nossa custa.--Antes (respondeu elle) para reformar no somno as que me desvelei na madrugada.
A isto se levantou; e os mais dando boas noites o iam seguindo, e disse para todos Solino: O senhor D. Julio vae a sonhar com aquelle thesouro encantado que lhe appareceu na fonte; e para este cuidado não quer companhia; que se a communicação dos bens de amor faz muito maior a gloria d'elles nos contentes; aos que só o estão de seu pensamento nenhuma cousa é mais agradavel, que saudosa lembrança.
DIALOGO VI
DA DIFFERENÇA DO AMOR, E DA COBIÇA
Cada um dos amigos ao outro dia fez curiosa diligencia por saber algumas novas da peregrina, que D. Julio tanto encarecera a noite passada; e não achando d'ella nenhuma noticia, tiveram a historia por fingimento. Juntaram-se ás horas acostumadas á porta de Leonardo, a tempo que tambem o fidalgo apparecia, e que o velho os vinha a esperar ao peitoril da escada com um hospede que lhe viera, que era um clerigo de edade, pessoa, e trajo auctorisado; que dos mais foi logo conhecido por ser prior de uma egreja que perto d'alli ficava: sentaram-se agasalhando-o entre si com a devida urbanidade; e depois de lhe perguntarem de sua saude; como estavam com o desejo de tirarem a terreiro a D. Julio, fizeram signal a Solino que começasse; porém Leonardo não deu logar á boa vontade que elle tinha, e se lhe adiantou na pergunta.--Bem cuidava eu, senhor D. Julio, (disse elle) que aquella formosa peregrina era encantada, e que foi traça do vosso entendimento fazer a todos cavalleiros d'essa aventura; porém a mim só a encommendastes; que pela edade pudéra já estar aposentado para tal empreza; eu a tomei por vos obedecer, e andei bem cuidadoso no seguimento d'ella, sem até agora atinar no caminho, em que vos perdestes.--Minha foi só a desgraça (respondeu elle) pois perdi comvosco, e com os mais o credito do que disse, e para meu desejo a gloria do que pudéra tornar a vêr em sua formosura.--Essa levantastes vós tanto sobre as estrellas (disse Solino) que se devia de agasalhar com ellas no céo, e enjeitar a pouzada d'esta aldeia.--Parece-me (accudiu o prior) segundo o que vos ouço, que nós podiamos mostrar o jogo; porque a occasião, que me trouxe a este logar, e leva a Lisboa, é uma estranha peregrina que hontem appareceu na nossa aldeia, de cujos successos, e formosura se podiam contar grandes extremos; que já pode ser que seja a de que falaes.
Com esta nova se mostraram os amigos mui alvoroçados, e D. Julio contente; e Leonardo respondeu ao prior:--Não imaginei que tinha tanto bem junto com o de vos ter n'esta casa; affirmo-vos que, se ella não fôra vossa, não poderieis pagar melhor a pouzada, que com tão boas novas: pelo que vos peço que as não dilateis, contando-nos mui particularmente d'essa peregrina, que tem tão obrigados os desejos dos que aqui estamos, como agora pendurados os olhos, e ouvidos do que nos haveis de dizer.--Hontem á tarde (proseguiu o prior) a tempo que já o sol se ía encobrindo com as azas da noite, andava eu continuando com a obrigação da reza à vista da egreja; veiu fazer oração á porta d'ella, e d'alli ter commigo uma mulher em habito de romeira; que se a minha vida merecera a Deus que mandasse a algum anjo falar comigo, podera imaginar que ella o seria; porque a sua belleza passava os limites do encarecimento humano, e com uma voz, que respondia bem á honestidade do seu rosto, e á humildade do seu trajo, me falou (posto que em lingua estrangeira) de modo que se deixava entender mui sem trabalho: perguntou-me se acharia gasalhado em algum hospital, ou casa de caridade d'aquella terra, em que passasse a noite, e pela manhã guia de confiança para ir ter á cidade, offerecendo que n'ella pagaria bem a quem a encaminhasse. Eu, que no merecimento de sua vista achei que era pouco tudo o que lhe podia offerecer, fiquei enleado; porém lhe disse: Senhora, esta terra é muito pequena; e para o que vós representaes, outra maior me parecera limitada. Eu, posto que sacerdote, e d'esta edade, tenho em minha casa uma irmã viuva, e sobrinhas, que vos saberão servir melhor que as naturaes da aldeia; fazei-me mercê de aceitardes a pousada, qual ella é, e, á conta do que faltar ao que vós mereceis, supprirá a vontade que é muito grande. Ella me deu as graças do offerecimento com poucas palavras, mostrando que o acceitava: vim com ella a minha casa, onde foi agasalhada, e servida com grande gosto, pelo que as moças tinham de se estarem revendo nas graças da sua belleza. Depois da cêa, em que a peregrina fez pouco damno, lhe pedimos nos contasse a causa de sua peregrinação, e como sem companhia viera ter ao nosso logar: e ella mudando a côr em um suspiro, entre algumas lagrimas, e com tão discretas razões, que as não saberei eu agora referir com a perfeição propria (posto que algumas palavras eram de linguagem alheia) contou o seguinte: