Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Part 7

Chapter 74,046 wordsPublic domain

--Tendes levantado este discurso de maneira (disse Solino) e está a materia d'elle tão altiva, que me parece que eu e Pindaro ficamos esta noite camarço, sem nenhum de nós fazer postoleta: ainda este mau jogo me fez o meu moço, que não cuidei que d'elle saltasseis a coisas tão differentes: folgara de saber se haveis de ficar n'esse tom, porque vos deixarei em termo com o dono da casa, e o senhor D. Julio; e irei buscar minha vida.--Ainda não tendes razão de vos queixar (respondeu elle) que antes por me chegar pouco, e pouco aos criados, deixei muito dos embaixadores, após os quaes se seguem logo os agentes, e procuradores, que as cidades, villas, e lugares mandam a cortes, e outras vezes a visitas, e occasiões dos principes, que não menos devem ser escolhidos para estes cargos, buscando n'elles as partes mais necessarias que são discrição, experiencia, e pessoa, quando não possam concorrer todas as mais; porque a cidade, ou villa, que manda ao principe seu procurador, ou agente, n'esse mesmo faz representação de sua sufficiencia.--De um cidadão se conta (disse D. Julio) que, sendo enviado por procurador a cortes, lhe esqueceu no caminho o que a cidade lhe encommendára, e tornou a dormir a casa a perguntar a sua mulher o negocio a que ía: e fôra melhor eleição, se a mandaram a ella, pois lhe não esqueceu.--De outro ouvi eu (respondeu Solino) que jurou por vida da sua a el-rei Filippe I que se havia de cobrir sua magestade para lhe fallar em nome de uma cidade d'este reino: fóra outras impertinencias que na pratica disse, mais dignas de riso, que de credito. E um conheci eu, a que cahiram as luvas, e o chapéo da mão, começando a dar o recado de uma cidade a um principe; e levantando-as, perdeu o que queria dizer, de maneira que nunca atinou palavra.--Estes maus successos (proseguiu o doutor) testemunham o muito cuidado, com que se hão de eleger os homens para taes cargos; o que não importa menos aos titulares e fidalgos, que mandam vizitar a outros em occasiões de pazes, ou parabens, por pessoas, que saibam accommodar-se á tristeza, ou alegria que o caso requer, para credito, e boa opinão de quem os manda.--Certo (accudiu Leonardo) que não julgará bem quanto isso releva, senão o que já se envergonhou de ouvir visitas desencaminhadas, como se fez uma a um fidalgo que eu tratei particularmente, ao qual, estando enojado por morte de um seu filho, visitou da parte de um personagem um capellão bem apessoado, e disse que o senhor N. estimára muito aquella occasião para mandar visitar a sua M. e se offerecer a seu serviço. A este conto fizeram todos muita festa. E Solino, que vio lugar aos seus, accudio logo: "Não sei se virá muito a proposito; porém tambem eu hei de dizer a minha historia, em rasão da advertencia, e cuidado que deve ter quem visita em nome alheio; pois se vê que mais desattentos, que ignorancias, os erros d'estas materias. Uma senhora enojada por a morte de um seu irmão tomava as visitas em uma camilha, como as mais costumam. A esta mandou visitar outra parenta sua por uma pessoa de auctoridade; que entrando na primeira casa achou tão escura que, pegando-se ás paredes, esperou uma dona que lhe servisse de moço de cego; a qual o levou por a mão até uma porta estreita, onde havia um degrau alto; e alli o soltou para passar deante; a qual não alcançou tão bem o degrau, que não désse primeiro com as queixadas na humbreira do portal; e sahido do perigo o tornou a guiar a dona da mesma maneira até junto da camilha, onde o tornou a soltar: esta pessoa, cuidando que tinha alli outra porta, por não errar o degrau por baixo, levantou o pé de maneira, que o poz nos peitos á enojada, que dando um grande grito a fez cahir de focinhos. Muitos, que estavam na casa, e tinham furtada a luz aos que de novo vinham a ella, levantaram tão grande riso, e borburinha, que desauctorisaram de todo o sentimento do nojo, e cahia cada um para sua parte sem se poder valer." Como Solino tinha graça natural no que dizia, deu muita a este conto, que foi celebrado com riso de todos.--Se assim é (disse Solino) que nesses ha tantos desatinos, e inadvertencias, não ha que espantar de criados menores, que uns são por natureza tão rusticos, que em nada acertam; outros por malicia tão depravados, que não querem saber senão o que é em favor de sua maldade.--Uma questão se offerecia agora (acudiu Pindaro) que, ainda que rasteira, é em materia proveitosa. Convem a saber se é melhor servir-se um homem de um moço simples, e nescio; ou de um malicioso ainda que seja esperto.--Eu estou melhor (tornou D. Julio) com o que me engana, que com o que me enfada; porque a confiança, que fizer do meu moço, será segundo a opinião que d'elle tenho para me poder enganar em pouco: e do nescio nem posso confiar em um recado as minhas razões, nem as minhas obras dentro em casa; que o que ignora o que ha de dizer, menos sabe o que lhe convém calar: além de que é grande desgosto andar um homem de continuo ensinando um rustico, sem proveito, que não tomará em sua vida tinta de discrição, por mais que o cozam n'ella.--A mim me parece outra coisa (disse Solino) em razão d'aquelle proverbio: _Antes asno que me leve, que cavallo que me derrube_.--Pelo rifão (respondeu Leonardo) entendo que quereis defender o vosso moço.--Se o não fizer bem, ficarei no seu lugar (replicou elle). Porém o moço nescio não pode desacreditar com sua parvoice o entendimento de seu amo, que não está obrigado ao tirar das escolas de Athenas. E o malicioso, e esperto, nem por o ser deixa de errar peior que os outros; porque não aprende o que convém a seu amo, senão ao intento de sua maldade; e dá ás vezes por recado o que lhe parece, em lugar do que lhe mandam; e quando não, troca as palavras ou o sentido d'ellas; muda o tempo, e a acezão do recado; vai quando quer, e não ao tempo que vos releva; tira-vos o credito nas obras, se o conserva nas palavras, porque dizem que _qual o amo tal o moço_; mais vos desacredita com a murmuração, do que vos acredita com o recado; e quando vos lisonjeia, é quando vos rouba. O simples, se não diz o que lhe dizeis, faz o que quereis, contenta-se com o que d'elle fiais, e não trata de penetrar o que pretendeis; e muitas vezes seus erros cahem em graça como as subtilezas dos outros em damno.--Boas são essas razões (disse Feliciano) porém é dura coisa que pelo moço nescio julguem por tal a seu amo; pois é regra de direito que _faz por si o que manda fazer por outrem_: e se a victoria dos soldados se attribue ao capitão, os ensinos, e palavras dos moços porque se não hão de julgar por de quem os governa, e manda? e menor damno é qualquer dos outros, que o de um homem parecer nescio á conta do seu moço. E sobre tudo não se ha de pintar tão perverso o malicioso, que faça mal, diga mal, e presuma mal, e seja intelligente; que os mais d'elles cantam de quem roubam; que d'esse outro modo não é pintar criado, mas inimigo.--E não sabeis vós (accudiu o doutor) que todos os criados, ou a maior partes d'elles o são de quem os sustenta? e assim diz a sentença de Euripides, que não ha maior, nem peior inimigo que o criado: e Democrito diz que o criado é coisa tão necessaria, como amargosa: Luciano diz que os criados sempre tem malicia, e traições armadas contra seus amos.--A muitos tenho eu por inimigos (disse Feliciano) porém peior o será o nescio, que o que o não for; e não sómente sustentará inimigo em casa, mas senhor, que, como diz S. Jeronymo, não ha maior servidão que mandar a um nescio.--Eu tenho procuração em causa propria (disse Solino) para acudir pelos criados, como testemunha de muitos fieis, e verdadeiros a seus senhores: e Euripides, e os mais devem de entender, o que disseram, dos escravos, que, como lhe temos tomada a coisa mais principal, e mais sua, que é a liberdade, sempre nos tem odio, e nos desejam, e procuram mal; porque a vilesa do seu animo não soffre mostrarem valor na sujeição.--Não me parece a mim essa boa razão (accudiu o doutor) porque por dito de Seneca _nenhum escravo ha mais vil, que o livre, que serve por sua vontade_. (Não entendo n'este conto os nobres, e honrados, que servem aos grandes por respeitos razoaveis). E dos escravos, a que fez taes ou a ventura de guerra, ou outra desgraça, temos os livros cheios de exemplos de valor, e fidelidade, em que deixaram muito atraz os proprios filhos. E se não, vêde se fez algum o que o escravo de Publio Catieno. que, deixando-o o senhor por universal herdeiro de seus bens, pela fidelidade com que o servira; elle, por se mostrar agradecido na morte, se deitou vivo na fogueira em que queimavam o corpo de seu senhor, e morreu com elle, mostrando que estimava mais tal servidão, que a vida, e as riquezas que lhe deixava. Erotes, escravo de Marco Antonio, se matou de pesar de ver a seu senhor vencido de Augusto. Euporo, escravo de Lucio Graco, que se matou sobre o seu corpo. E um escravo de Papinião, que, vendo que os inimigos entravam uma quinta, em que o senhor estava, para o matarem, trocou com elle o vestido, e metteu no dedo um seu annel de preço: e deitando-o fóra por uma porta, sahiu pela outra a receber a morte, que haviam de dar a seu senhor. E Frederico de Eveshim, escravo de Conrado Imperador, que, sabendo que vinham para o matar, o fez sahir do paço, e se deitou na sua cama, onde, cuidando os inimos que era Conrado, o mataram: o outros muitos escravos sem nome, que mereciam que o seu ficasse eterno por memoria de sua fidelidade. Nem se póde esquecer aquelle grande animo de Lazaro Cherdo, escravo, de nação Serviano, que vendo seu senhor cativo de turcos, e depois morto, desejando vingar-lhe a morte por preço de sua vida, fingindo que vinha fugido dos hungaros, entrou no campo Turquesco, e dizendo que queria fallar a Amurates, primeiro imperador d'aquelle imperio, o matou a punhaladas; d'onde não pôde fugir, mas perdeu a vida valorosamente.--D'esses escravos (replicou Solino) não trato eu, que mereciam ser senhores de seus senhores; como tambem houve criados que mereciam ser servidos de a quem serviram: que tambem Diogenes foi escravo; e perguntando-lhe Xeniades, que o comprava, em que sabia servir, respondeu: que _em mandar homens livres_; por o que Xeniades o libertou dizendo: _aqui te entrego meus filhos para que os mandes_. E Epicteto, que se chamava escravo de si mesmo: e a Phedão, escravo de Cebes, ouvi dizer, que Platão dedicara um livro da immortalidade. Porém a nós não nos cahiram em sorte estes escravos, senão a gente mais barbara do mundo como é a de toda a Ethiopia: e alguma escravaria da Asia, que é da gente mais vil das provincias d'ella; que uns, e outros tratam os portuguezes com rigoroso cativeiro n'aquellas partes, vendendo-os para serviço das minas das Indias de Hespanha como condemnados á morte: e assim se podem estes chamar com razão inimigos mortaes de seus senhores.--Tambem (disse o doutor) houve já n'este reino escravos illustres de muito valor, entendimento, e sangue, conhecidos por taes, e tratados como se estiveram em liberdade, que cativaram nas nossas fronteiras de Africa, em cujas historias me eu não quero deter por me não alongar mais do intento do nosso discurso dos recadistas, que uns e outros representam a pessoa de quem os manda, no que toca ao recado que dão: o que a mim me parece que está bem provado com o costume, que os antigos tinham em mandar os seus, que não fallavam por terceira pessoa, como é o nosso uso, que dizemos _diz fuão que vos beija as mãos_; _que vos pede isto_; _vos encommenda este outro_; _vos lembra tal coisa_: antes costumavam: _N. vos diz_, _beijo-vos as mãos_, _rogo-vos isto_, _encommendo-vos este outro_, _lembro-vos tal coisa_, representando nas palavras a mesma pessoa que as mandava dizer; e d'esta maneira ficava arriscado nosso amigo Solino, representando pelo seu moço: pelo que a mim me parece que o melhor do recado é ser tão breve, que o possa dar sem erro quem o leva; e tão claro, que o entenda sem trabalho a quem se manda. E com isto, e com vossa licença me hei por desobrigado do que n'esta materia podia dizer.--Não pela minha parte (disse D. Julio) porque deixais de fóra um officio de mais habilidade que todos os de que falastes, em cuja profissão entra a de embaixador, agente, procurador e recadista; e ainda outros muitos, que é o do terceiro, ou alcoviteiro. A isto deram todos grande risada, e disse Leonardo: O doutor calava esse officio, por ser mais vil, e reprovado, que os de mais, e se empregar em materia tão odiosa á Republica: porém sem entrar no fundo d'elle, nos poderá dizer alguma coisa da superficie.--Bem sei (respondeu o doutor) que para me metter em desconfiança levantais essa lebre; e não vos enganeis, que tanto se deve tratar de officios viciosos para fugirem d'elles, como dos de virtude para os seguirem, e desejarem; e posto que esse é tão vil, já os romanos deram leis á sua profissão, segundo escreve Pedro Crinito; as quaes estavam escriptas no templo de Venus; e Licurgo, aquelle grande legislador dos Lacedemonios, tambem lhes deu regras, e liberdades, posto que lhe está melhor o castigo com que os nossos direitos os agasalham; mas se ha officio de muito cabedal, e pouca honra, é o do alcoviteiro, porque ha alguns que os não vence Tullio no fallar, Catão no dissimular, Sallustio no persuadir, Terencio no representar, Ovidio no fingir, Lucano no encarecer, Diogenes no desprezar, Ulysses no tecer, Momo no desdenhar; e todas as artes, e sciencias do mundo tem e empregam em afeiçoarem com engano vontades innocentes. E para lhe assignarmos as partes necessarias, fôra acertado pintar o avesso do embaixador, com que só convém em ser discreto, e experimentado; porém ha de ser baixo, vil, desprezivel, avarento, chucarreiro, mentiroso, ingrato e soffredor de todos os escarneos e zombarias, porque não só é de sua profissão enganar, mas tambem obedecer a toda a ignominia, e infamia que seu exercicio merece.--Muito cruel estais contra elles (tornou D. Julio) e não tendes razão; quando vitupereis o seu officio, não vos esqueçais da grandeza das partes d'elle, pois o alcoviteiro descreve, enfeita, e encarece melhor que um escriptor: persuade, aconselha, e convence como um rhetorico: finge, disfarça, e representa com figuras, espantos, meneios, e hypocrisias nos gestos, e palavras como um commediante: pinta, veste, touca, accommoda, guarnece, doura, argenteia toucados, e vestidos, e trata os rostos, e feições melhor que um pintor; sabe mais da natureza das pessoas com que trata, que um philosopho; vende o falso por verdadeiro, como logico; conhece as enfermidades, e achaques dos que lisongeia, como medico; obriga, e engana no interesse, como legista; adivinha os tempos, occasiões, e vontades melhor que um astrologo. Não ha finalmente arte liberal, nem mecanica, de que se não valha, e em que não vença a seus professores.--Ainda me parece (disse Solino) que haveis de chegar á Celestina; que posto que o officio é do genero commum de dois, accommoda-se melhor ao feminino. E pois de embaixadores descemos a criados, não é de espantar que tropecemos em tão ruim gente.--Parece-me (disse o doutor) que de aposta quereis profanar a minha auctoridade; não vos quero dar esse gosto á minha custa: e não passemos d'aqui n'esta materia: e tambem porque é mais tarde do que parece, demos lugar a que o senhor Leonardo se recolha.

Com isto se levantaram todos, e se despediram, festejando e agradecendo cada um ao outro o que dissera; que tanto se contenta o discreto da boa razão alheia, como o nescio da sua ignorancia propria.

DIALOGO V

DOS ENCARECIMENTOS

Não perdiam tempo os da conversação em se chegarem aos interesses d'ella: e era em todos tão egual o desejo, que nem a occupação de cada um os desencontrava; porque o gosto, em que se enleva o entendimento, faz menores todos os respeitos ordinarios da fazenda, e familia. Entraram á noite juntos em casa do hospede com grande alvoroço, dando cada um no caminho seu voto sobre a materia, em que se haviam de gastar aquellas horas. Porém assentados, sem o estarem ainda no que seria, disse D. Julio: Por certo, senhores, que estou tão enleado com uma coisa que vos quero dizer, que temo das razões e da edade faltar ao decoro que convém ao sujeito d'ellas; porque nos mancebos as palavras de mero louvor de uma mulher, ainda sendo mui compostas, parecem lascivas; e mais facil é de presumir um engano de affeição nos meus olhos, que de persuadir um espanto a entendimentos tão levantados como os vossos. Porém seja o que fôr, e corra o meu credito o risco que ordenardes; que com todos, os que houver, me aventuro.--Que novidade é esta, senhor D. Julio (disse Solino), que sermão quereis fazer, que tomaes a graça, e nos tendes pendurados a todos no desejo de vos ouvir?--Esta manhã, (proseguiu elle) porque me pareceu de caça, e por gastar n'ella o dia, com menos cuidado do desejo da noite, me fui pôr detraz da nossa serra alongando-me para a parte do mar um grande espaço de caminho; e voltando sobre uma fonte, que nasce ao pé de uma corôa de penedos, coberta da sombra de uns altos hervados, e atoeiras, cheios de verde rama como no melhor tempo da primavera, embaraçados com umas vides silvestres que os atavam, e que ainda de todo não estavam despidas de sua folha, vi junto a ella, e coberto com elles o mais formoso rosto, que eu imagino que pode haver no mundo para satisfação de uns olhos afeiçoados: era de uma mulher em habito de peregrina, que fiada na solidão d'aquelle deserto, e por gosar dos raios do sol, que n'aquelle logar se espalhavam, com os toucados lançados sobre os ramos á vista da fonte concertava os cabellos; e eram elles taes, que não sómente faziam perder ao sol a formosura, mas cobrindo outro mais formoso, que era o seu rosto, contentavam de maneira o desejo, que não fazia muito por passar d'elles adiante. Eu sem atinar no silencio, com que era razão que me escondesse por lhe não ser pesado, fiquei tão esquecido, que, afrouxando as redeas ao cavallo, o deixei tropeçar entre os ramos, e fui sentido da formosa peregrina; que levantando os olhos, a cuja obediencia os cabellos se apartaram, qual sôa ferir o relampago d'entre as nuvens, me saltearam a vista com uma luz estranha, descobrindo juntamente aquelle thesouro de ricas pedras, que o ouro dos cabellos escondia. Os olhos eram duas estrellas de diamantes, em cujo fundo um verde escuro de esmeraldas apparecia, que communicando áquella formosa côr a claridade dos raios, que despediam, roubariam as almas de quem os olhasse; e descendo d'elles abaixo, era tudo tão cheio de perfeições, que o menor logar, em que se empregava a vista, tinha desusados extremos de formosura. A bocca era um laço de todos os pensamentos amorosos; e nunca vi coisa tão pequena, em que coubessem tantas grandezas; pareceu-me um rubi partido pelo meio, que com um perfilo aleonado se dividia, e por detraz luziam como por vidraça as perolas, que até então me não descobrira o pejo, com que ficou de haver visto. A columna, que sustentava este edificio, era um pescoço de crystal jaspeado de umas veias roxas, e azues muito delgadas, que me representaram n'aquella hora a côr do céo sereno, que pela rotura de duas nuvens brancas apparece, a que fazia parecer mais formoso o circulo da sombra, com que se engastava no aspero burel da esclavina que a romeira vestia: apeei-me eu; e n'este mesmo tempo lançou ella o toucado sobre os cabellos, pondo os olhos na fonte como em espelho; mas como as suas madeixas eram mais compridas, que a toalha branca, com que as quiz encobrir, se mexericavam pelos extremos das pontas, que vinham a guarnecer de fino ouro aquelle grosseiro trajo: falei-lhe com a cortezia, a que a modestia, e gravidade do seu rosto me obrigava; e ella sem mostrar outro alvoroço de minha presença mais, que vestir de escarlata a branca neve de que parecia formado, me respondeu, perguntando se estava perto o lugar, e se era aquelle o caminho. Eu, que não perdia com os olhos um só movimento dos que os seus faziam, me pareceu tudo o que tinha visto, sombra da graça e brandura com que falou com uma voz tão fina, que penetrava o interior do coração, e tão suave, que o desfazia, e com uma modestia tão grave, que não dava logar a se pôrem n'ella os olhos direitamente, senão com um respeito armado de receios. Perguntei-lhe d'onde era, para onde ía, encarecendo-lhe o perigo em que punha sua belleza de ser offendida, fiando-a de desvios tão solitarios. Mas ella despresando todos os temores, e fazendo mais difficultosa sua jornada, pelo que d'ella lhe pendia, que pelos trances que á sua conta se me representavam, deu a entender muitas cousas, com que eu perdi o accôrdo, e ousadia de lhe perguntar outras, e lhe offerecer algumas das que costumam haver mistér os que fóra da sua patria vem experimentar os males das alheias. E além de eu estar atalhado com sua vista, o estava ella tanto com minha presença, que perdi o interesse de a vêr, por o respeito de a não molestar: despedi-me magoado: estou arrependido; e cubiçoso de a tornar a vêr, de maneira que não aparto o pensamento do logar onde os meus olhos a deixaram. E porque ainda me parece que deve ser mais estranho o successo, que a traz n'aquelles vestidos, que a novidade de sua gentileza, a que se deve todo o cortezão tributo de vontades bem nascidas; peço ao senhor Leonardo que por a melhor via, que lhe parecer, saiba d'esta estrangeira, que por esta noite deve de estar na aldeia; ouvirá d'ella mesma a sua historia, e eu acreditarei com a vista o que tenho dito de sua formosura.--Bem andastes, senhor D. Julio (disse o doutor) em tomar primeiro carta de seguro para o que havieis de dizer; porque os encarecimentos d'essa peregrina são mais pinturas vossas, que gentilesas suas; porque não ha mulher nas obras da natureza tão perfeita cá na terra como a soube fingir o vosso entendimento, ou affeição: e á conta d'ella me parecia bem que assentassemos o retrato de belleza tão sobrenatural, que em materias de amor tudo o que reluz é ouro, e tudo o que assombra é sol; e só com esta desculpa salvareis louvores tão desacostumados.--A affeição do que vi não posso eu negar (tornou elle) mas á vista da peregrina dizei o que quizerdes contra minhas razões, que nas suas partes hei de achar armas com que defenda o que disse. Leonardo se offereceu então a mandar fazer a diligencia com muito cuidado: e voltando para Solino, que tinha os olhos no chão, lhe disse: Vós, callaes, quereis allegar serviços ao senhor D. Julio, porque a vossa natureza não é deixar passar esta mercadoria sem registo.--Estava agora (respondeu elle) cuidando nos livros de cavallarias, que ha poucas noites que defendi; e desejava dar um cavalleiro andante áquella peregrina; que se uma cousa d'estas apparecêra a meu amigo Pindaro, que encantamentos não rompera, e que poesias, e obras heroicas appareceram de novo no mundo, que alabastros, marfins, marmores, crystaes, topazios, jacintos, esmeraldas rodaram por esses ares! Que posto que o senhor D. Julio sahiu d'este encontro mais elegante do que se esperava; Pindaro, com sua licença, tem n'esta materia mais direito adquirido; e não se houvera de contentar de descer do céo as estrellas, e o sol em similhantes louvores: mas os archanjos, cherubins, dominações e potestades haviam de ter logar n'elles.