Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Part 6

Chapter 62,694 wordsPublic domain

A todos os mais pareceu que seria acertado tratarem a materia de mais longe; e pediram ao doutor que, tomando-a á sua conta começasse.--Bem pudera usar (disse elle) do privilegio do sr. Leonardo, e de outros para minha escusa; porém ainda que os tinha, e qualquer dos presentes mais sufficiencia para este encargo por lhe não pôr a elles ruim fôro, me dou por obrigado. Digo que _recado_ é nome que entre nós tem a etymologia. A significação é muito duvidosa, pelo modo em que usamos d'elle: porque, se houveramos de derivar este nome do verbo italiano _recare_, que é _trazer_; ou do verbo _recapacitare_ que é _recapacitar_ (d'onde elles chamam _recapacitar_ ao _recado_) nunca disseramos d'elle tanto, como na nossa lingua portugueza significamos; mas se lhe buscarmos a origem do latim, virá mais ao nosso modo pela differença do messageiro ao que leva recado: que o primeiro _missa gerit_, faz as cousas que lhe mandam; e o segundo _recautus_, este é homem acautelado, que sabe o que ha de fazer no que está á sua conta; que assim convém mais com o nosso modo de falar, quando dizemos _homem de recado_, que quer dizer _de importancia, posto a bom recado, que é seguro_, e _com cautella: tardar e arrecadar_, que é levar ao fim o que começou: porém seja uma cousa ou outra, ou ambas, o principal recado de todos é o do embaixador; e estes são de duas maneiras, ou o que o principe manda a outro por occasião successiva; ou o que de ordinario assiste em sua côrte, para conservação da benevolencia e amisade que entre elles ha: estes segundos tinham os romanos nas provincias junto á pessoa do consul, que as governava com titulo de legados, e com elles despachava os negocios de importancia. Mas aos primeiros chamavam elles oradores, por serem mui semelhantes no officio de persuadir, mover e obrigar; e ainda em nossos tempos se aproveitaram muitos d'essa arte, sendo escolhidos para o cargo de embaixadores.--Eu (disse Leonardo) tenho um cartapacio não pequeno de falas e orações de embaixadores portuguezes feitas a grandes principes, e não pouco doutas e elegantes, como foi uma que fez o bispo D. Garcia do Menezes ao papa Xisto, indo por embaixador por mandado de el-rei D. Affonso V, e por capitão de uma armada que elle mandava contra os turcos em favor da egreja no anno de mil e quatrocentos e oitenta e um: e outra, que fez o doutor Diogo Pacheco ao papa Julio, indo com o arcebispo de Braga por embaixador a lhe dar obediencia por el-rei D. Manuel no anno de mil e quinhentos e cinco: e outra, que fez o mesmo doutor ao papa Leão, indo com Tristão da Cunha embaixador a lhe dar obediencia com aquelle famoso ornamento, que ainda agora é dignamente celebrado na egreja romana assim pela grande devoção d'aquelle pio e catholico rei, no anno de mil e quinhentos e quatorze, á qual o papa respondeu em publico com uma doutissima oração de louvores do mesmo rei. E não é este costume só dos nossos embaixadores, mas de todos os extrangeiros, assim quando eram enviados a este reino, como a outros. Vindo a este por embaixador de el-rei Francisco de França a el rei D. Manuel, que estava em Almeirim, no anno de mil e quinhentos e seis, Monsieur de Lanjaca, governador de Avinhão, lhe fez uma douta oração em sua chegada: fóra outras muitas com que pudera allegar.--D'esses exemplos ha muitos (disse o doutor), e continuando com o que convém mais ao fim do nosso intento, devem ser escolhidos para este cargo de embaixador os homens das familias mais illustres do reino, dos illustres os mais discretos e cortezãos, d'estes os mais animosos e liberaes, dos animosos os mais apessoados, e de todos os mais bem acostumados; e são todas estas partes tão necessarias ao embaixador, que com a falta de qualquer d'ellas ou arriscará o credito do principe, que o manda, ou o negocio de que vae a tratar por sua parte. Primeiramente ha de ser illustre por auctoridade de seu rei e de seu reino, e dos illustres d'elle, e por honra tambem do principe a que é mandado, pois ha de fazer as partes de um, e assistir á ilharga do outro. E assim n'este reino, e nos vizinhos a elle vimos cada dia entrarem embaixadores muito chegados em sangue ás casas dos reis que os enviaram, e sahirem outros da mesma qualidade; o que não só tem exemplo dos reis da Europa, mas da Persia, Japão e outras remotas partes do oriente. Depois de illustre ha de ser discreto e cortezão, porque parece que mais que todas as outras partes, lhe está requerendo o mesmo cargo aviso, entendimento, discrição e cortezia para tratar as cousas convenientes á sua embaixada, encobrindo, desculpando e persuadindo o que a seu rei convém; que esta é a differença do recadista ao embaixador: que o primeiro relata o que lhe mandam que diga: o outro dispõe, ordena e conclue o que lhe encommendam que faça: um leva o recado na lingua, outro no peito, como disse um embaixador dos romanos aos carthaginezes na guerra de Sagunto, que levava a paz, e a guerra dentro no peito; e assim não vindo elles no que os romanos pediam, declarou a guerra. Além d'isto como o embaixador é um terceiro, e conciliador da amizade de dois principes, nenhuma cousa lhe é mais importante, que o entendimento, e tambem o ser cortezão lhe importa muito, pois a sua principal assistencia é no paço, e junto á pessoa do principe, com communicação dos principaes senhores do reino; e ás vezes por esta parte sendo engraçado, e acceito áquelle a quem é mandado, acaba mais facilmente os negocios e pretenções de quem o manda. Ha de ser animoso e liberal; o primeiro, porque nas materias que tocarem á guerra, tregua e liga, ou confederação com seu principe, se não mostre por sua parte acanhado, timido nem pusillanime: antes obrigue com seu exemplo a que o respeitem e temam; e tambem porque na occasião em que se offerecer ao senhor a quem assiste, acredite com o conselho e com as obras as armas de seus ascendentes e naturaes. E o segundo, porque com a magnificencia se conquistam mais vontades e animos extrangeiros, que com qualquer outra valia, por grande que seja; e posto que esta parte a todas as pessoas illustres é necessaria, e em todos os cargos de guerra e officios da paz é tão estimada, no de embaixador é muito mais proveitosa para saber o aviso, o secreto, o intento e a cautella que convém ao de sua embaixada, e para mover os ministros e validos, em cuja mão ou conselho está seu negocio. Convém além d'isto que seja o embaixador homem apessoado, que pela vista obrigue a respeito e veneração; que em outro modo o corpo pequeno em pessoas de grande logar lhes tira muita parte do que se lhes deve. E um doutor nosso de muito grande nome, e pequena estatura, mandou pôr ao pé de um retrato seu uma lettra que dizia: _A presença diminue a fama_.

E outro do mesmo grau, e não de maior corpo, indo d'este reino com uma embaixada a um rei assás poderoso, vendo-o elle tão pequeno, lhe perguntou motejando d'elle: "Se el-rei seu irmão tinha em seu reino outros homens mais apessoados que enviasse com semelhante cargo?" Ao que elle respondeu valendo-se do entendimento, e animo que tinha: "Que na corte d'el-rei seu senhor havia muitos homens do grande pessoa, e partes, a que encommendar aquelle cargo; mas que para sua magestade lhe pareceu que elle bastava, e por isso o mandára." Finalmente é de muita importancia ser bem acostumado, para com sua temperança, continencia, e bom termo conservar, e acreditar o bom nome, e fama de seu rei, a honra de sua patria, e da propria pessoa. E porque com alguma demazia de seus costumes não faça com que se diminua, e perca o respeito, liberdades, e exempções que tem os embaixadores, como aconteceu aos da Persia, que vieram a el-rei Amyntas de Macedonia, que foram mortos por traça de Alexandre, filho do mesmo rei, o qual, não podendo soffrer sua estranha dissolução, mandou alguns moços de bellissima figura, que em habito de damas os servissem á meza, levando escondidos punhaes com que se vingassem de qualquer deshonesto acometimento dos embaixadores; que usando de sua demasiada luxuria foram mortos a punhaladas. O rei da Persia offendido de se não guardarem com os seus as leis dos embaixadores, mandou um poderoso exercito contra el-rei Amyntas; porém o general d'elle sabendo como o caso passára, se retirou sem querer dar batalha aos Macedonios. Tambem importa muito que os embaixadores sejam escolhidos de sujeito acommodado aos negocios, de que hão de tratar; que tal occasião se offerece, em que convém serem humildes; e outra, em que é melhor mostrarem-se arrogantes; tal, em que hajam de ser animosos, e arriscados; e outras brandos, e dissimulados. Francisco Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Clemente V para levantar o interdicto ao Senado, contra quem estava iroso por razão das coisas de Ferrara, esteve lançado de bruços grande espaço á meza do Summo Pontifice, com uma cadeia de ferro ao pescoço; e com tantas lagrimas, e palavras o obrigou, que alcançou d'elle o que pedia. Este por sua grande humildade foi chamado _cão_, e por seu valor succedeu no Ducado de Veneza. Pelo contrario Orfato Justiniano, homem de letras, e animo generoso, embaixador do mesmo Senado a el-rei Fernando de Napoles, que pelo mau animo, que contra os Venezianos tinha, não fazia d'elle a conta, e estima que seu valor merecia. Orfato lhe mostrava tão pouca inclinação, e humildade, que o rei indignado mandou fazer tão baixa a porta, por onde entrava a lhe falar, que á força lhe fizesse dobrar o pescoço: porém elle entendendo a tenção de Fernando, entrou com as costas para diante, e voltando-se direito na casa fez a mesma cortezia, que costumava. Outro dia achando-se em um banquete, que o rei mandou fazer, dando-lhe de proposito os convidados tão estreito lugar que achava sua auctoridade, deixando o que tinha se sentou sobre uma rica toga, que trazia vestida; e acabado o banquete, a deixou ficar como os outros assentos.--A mim me parece (disse Leonardo) que os attributos mais importantes ao embaixador, e que sempre n'elle devem andar annexos, são esforço, e entendimento, que são como dois eixos, em que se revolve o maior peso, e substancia, das coisas do Estado; o que se colhe dos exemplos que dissestes, e de outros muitos; porque o esforçado e entendido em nada falece, nem áquillo a que seu rei o manda, nem ao que a si mesmo deve, nem á occasião de que se póde aproveitar, como aconteceu a Pompilio, embaixador a el-rei Seleuco, sobre conservar amisade com os Romanos, ou romper com elles guerra: que respondendo o Rei que se aconselharia devagar no que lhe estava melhor; e entendendo o Romano que aquella dilação se fundava em fraqueza, e cautela, com o bordão que trazia fez um circulo na terra, em que Seleuco ficou mettido, dizendo-lhe que antes que d'elle sahisse se havia de determinar na resposta de sua embaixada; e com isto obrigou ao rei a acceitar a paz que lhe requeria. E em caso differente Lucio Posthumio, embaixador aos Tarentinos, lançando-lhe por desprezo sobre as roupas muitas immundicias com grande rizada, e escarneo, o Romano lhe respondeu animosamente: Vingai-vos agora do riso á vontade, porque tendes muito que chorar quando com vosso sangue se lavarem as nodoas d'este meu vestido.--Esses casos (accudiu D. Julio) são da mera jurisdicção do esforço, e cavallaria; ainda que sejam acompanhados do entendimento, porque o valor do animo a tudo acode, e em nada perde ponto. E se não, vede a estimação que fizeram os reis catholicos do nosso prior do Crato D. Diogo Fernandes de Almeida, quando estando elles sobre Granada, e o prior sendo embaixador d'el-rei de Portugal, o ajudou a combater valorosamente tirando com muitos louvores d'aquella batalha feridas; e querendo-o el-rei desviar antes, porque não convinha ao cargo que trazia, lhe respondeu que, se o officio lh'o defendia, o sangue, e o animo o obrigava. E em que conta teria el-rei Filippe I a Frederico Badoaro, que os Venezianos lhe mandaram por embaixador a Genova, sendo elle principe de Hespanha, que estando com elles aos officios divinos no segundo logar, succedeu chamar o principe a si ao duque de Saboia; e acenando ao veneziano que lhe désse o lugar, o que elle não quiz fazer, o principe com acenos, e palavras asperas o mandou muitas vezes tirar; mas respondeu que antes havia de deixar a vida, que aquelle lugar, porque com a morte de um particular se não fazia affronta ao Senado; mas que se lhe faria muito grande, se désse o lugar, que lhe era devido, a pessoa inferior em merecimentos. E quanto á dissimulação, e soffrimento só nos esforços costuma a achar confiança para metterem em cortezania o que puderam estranhar com arrogancia: como aconteceu a Giuberto Dandalo, embaixador dos Venezianos ao Papa Nicolau III, que já mais foi ouvido, nem pôde alcançar entrada do Summo Pontifice, por o enojo que tinha contra o Senado, sobre a possessão de Ancona; até que, vendo elle o pouco que importavam suas muitas diligencias, fingio um dia, sahindo com alegre semblante, haver-lhe fallado, e alcançado o fim do negocio a que vinha: e sem esperar outra coisa se partiu para Veneza; onde perguntando-lhe o Senado o que passara, respondeu: "Não achei o Papa em Roma, nem quem me soubesse dizer onde o acharia."

--Mui principaes (disse o doutor) são as partes de esforço, e entendimento no embaixador; porém tem igual necessidade de todas as outras para representar com a nobreza a pessoa do seu rei: para com a magnificencia adquirir as vontades dos ministros, e criados: para com a gravidade, e brandura ser amavel, e auctorisado: para com o conhecimento das coisas do Estado, e experiencia d'ellas acertar nas que se lhe offerecessem: e para com a gravidade, e gentileza da pessoa dar uma approvação na vista, de tudo o que se conhecer de suas obras. Mas porque não pareça que vou fora do em que comecei: A que os embaixadores não levam recados, é certo, (que ainda que os seus sejam de maior confiança) que levam por escripto muito do que hão de dizer, e do que hão de pedir, ou conceder; porém a eleição do tempo, occasiões, e palavras fica subordinada ao seu entendimento; e para isso dão os reis, e seus conselhos supremos largas instrucções, regimentos, e ordens de como se hão de haver nas coisas os embaixadores; que são mais largas, quanto são mais remotas as provincias, a que são enviados.--O officio (disse Leonardo) é de tanta importancia, que nenhum outro demanda maior cabedal de partes da natureza, e das adquiridas por experiencia: e sei-vos eu dizer que houve n'este reino famosos homens d'esta profissão, e taes, que, querendo nomear alguns, faria manifesto aggravo a outros muitos. Mas se o gran-duque de Florença, vencido da eloquencia, e partes de Hermolau Barbaro (que estava em sua corte por embaixador dos Venezianos) com tantas mercês, e favores o persuadia a que ficasse em seu serviço; não faltaram outros, que sahidos d'este reino com o mesmo cargo, fizeram maior inveja a principes, a monarcas mais poderosos. E algum teve lugar nos tribunaes supremos da corte de Hespanha, que para negocios particulares de um principe d'este reino foi mandado a ella, que pela grande satisfação, que n'elles deu de sua pessoa, foi escolhido para os de uma monarquia tão dilatada. Mas não é de espantar que de um embaixador e messageiro particular se fizesse um conselheiro de estado, sendo criado da casa de um senhor, do serviço do qual, como de outro cavallo Troiano, sahiram heroes famosos, e varões insignes em todas as profissões: d'onde sahiram vice-reis, e capitães maiores para o Oriente, e soldados para capitães, e mestres de campo, que defenderam, e honraram o Norte; cavalleiros, e bailios, que sustentaram Malta; fronteiros valorosos, que se assignalaram em Africa, todos criados da mesma casa, onde se acharam sempre em grande copia espiritos, que honrem a Marte, e engrandeçam a Minerva, fazendo inveja aos mais avantajados nos exercitos, e presidios hespanhoes, e aos mais insignes nas escolas, e academias mais nomeadas da Europa.