Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 5
CARTA MODERNA
"Esta cidade está abastada, mas descontente: o mar cheio de corsarios: os portos de receios: o paço de requerentes; e elles de queixumes: para os validos tudo é pouco: aos desamparados não cabe nada: do remedio de tantos males não ha boas novas; e as minhas são que entre todos elles me falta a vossa companhia."
--Essa (disse Leonardo) se póde ajuntar por exemplo ás antigas que relatei: e por não me empregar em outras, que seria demasiado trabalho a todos ouvil-as, e a mim recital-as, peço-as de recommendação de alguma pessoa ou de algum negocio, nas quaes tem mais logar a disposição e offerecimento dos rhetoricos, encarecendo os merecimentos da pessoa ou a importancia da causa que encommendaes, facilitando-a na condição e vontade a quem a pedia; concluindo com a petição e offerecimento de vossa parte: e todas estas, e ainda um exordio de sentença, que hei por escusado, se vêem em uma carta que ha pouco que li, que um rei de Portugal antigo, escreveu ao de França, encommendando-lhe um fidalgo que ia estudar a Pariz; e dizia tirada de latim, em que estava em um livro extrangeiro:
CARTA DE EL-REI DE PORTUGAL AO DE FRANÇA
"Entre as virtudes e excellencias dos principes, me pareceu muito digna de louvor a de terem particular cuidado e lembrança dos vassallos benemeritos em seu serviço, para com favores e mercês os ajudarem: e por esta razão me pareceu que devia encommendar a vossa magestade D. Pedro de Almeida, que por occasião de seus estudos vae a essa côrte de Paris, posto que claramente conheço que, sem recommendação minha, vae assás encommendado pela liberalidade e brandura com que vossa magestade honra e recebe os homens tão illustres como elle é. Além do que, tem elle tantas partes e entendimento, que não achará melhor terceiro, que a si mesmo. Deixo seu pae D. João de Almeida conde de Abrantes, que com suas singulares virtudes e claros feitos, adquiriu e conservou até á morte muito estreita privança e amizade com meus antecessores e commigo; de sorte que ponho em duvida se importe mais a seu filho a minha carta, se a fama e lembrança de seu pae. De qualquer modo o encommendo muito a vossa magestade. E de minhas cousas não offereço de novo nada; pois pela irmandade de meus antepassados e minha, em toda a occasião deve vossa magestade usar d'ellas, como se foram communs a ambos."
Outra achei no mesmo logar, de el-rei D. Manuel, mais breve que a passada, que era de seu antecessor, a qual elle escreveu ao mestre de Rhodes, encommendando-lhe um noviço portuguez, que ia servir a religião que será para exemplo das menos enfeitadas. O grão, mestre era o cardeal Pedro de Buzon, e dizia:
CARTA DE EL-REI D. MANUEL AO GRÃ MESTRE DE RHODES
"Ayres Gonçalves, filho de Henrique de Figueiredo, vae a tomar o habito d'essa religião: não pareceu fóra de proposito nem de humanidade, encommendal-o a V. P. assim por sua nobreza, e ser creado de minha casa, como pelos serviços e merecimentos de seus passados com os reis meus antecessores; e finalmente por seu bom esforço e virtude. Rogo a V. P. que com sua costumada brandura o favoreça de sorte que n'elle se accrescente o valor e a devoção que leva: e não porei esta obrigação no menor logar das muitas que tenho a V. P."
As cartas de agradecimento tem o campo mais largo para n'ellas se espalhar a penna, e o entendimento; pois quem mais se obriga e encarece o que recebe, escreverá com melhor termo, não sahindo dos da carta missiva: e já os antigos não desconheciam esta galanteria; pois Lybanio respondendo a Demetrio, que o obrigava a que lhe pedisse, escreveu assim:
CARTA DE LYBANIO A DEMETRIO
"Não daes logar a que eu vos peça, porque me mandaes tudo. Ainda bem as arvores não dão seu fructo, quando vossos creados m'o trazem: e do que até nos agros se sente a falta, eu a não tenho. Como me haverei n'isto? que o lavrador, quando o tempo lhe nega a agua, então a pede: porém, se chove, contenta-se de vêr que favoreceu o céo suas esperanças."
O queixume por carta se deve fazer com toda a moderação que a urbanidade requere: e póde n'estas servir para exemplo e lembrança a que Olympias, mãe de Alexandre, respondeu a seu filho, a uma em que elle se assignava por filho de Jupiter, que dizia:
CARTA DE OLYMPIAS A ALEXANDRE
"Muito me alegro com a victoria que alcançastes da cidade de Tyro; e com todas vossas venturas e façanhas: porém tive por grande affronta minha vêr que vos nomeaes por filho de Jupiter na carta que d'esta nova me escrevestes. Estimarei muito, meu filho, que aquieteis n'isso o pensamento, e me não leveis a juizo ante a deusa Juno; que algum grande mal me ha de ordenar, sabendo que por lettra vossa me chamaes manceba de seu marido."
E se me não parecêra um pouco enfeitada uma carta que Angelo Policiano escreveu ao grande Lourenço de Medicis, a podéra pôr em exemplo da moderação de queixume, porque dizia:
CARTA DE ANGELO POLICIANO AO DUQUE DE FLORENÇA
"O poeta é semelhante ao cysne na brancura e suavidade, em ser affeiçoado a correntes de agua e amado de Apollo. Comtudo, dizem que o cysne não canta senão quando o vento zephiro respira. Não é logo muito que eu seja mudo tantos dias, sendo poeta vosso, se vós, que sois meu zephiro, n'elles me faltaes."
As cartas jocosas, ou de galantaria, tem mais campo, e liberdade para se poderem usar n'ellas alguns termos fóra das limitações das nossas regras; porque assim em se entenderem mais, como em se sujeitarem menos, ficam desobrigados das primeiras leis. que são _brevidade sem enfeite_: _clareza sem rodeios_: _propriedade sem metaphoras_; pois o termo da graça e galantaria, n'isso se differença do sizudo e pontual; não negando que ha algumas que não perdem a graça nem o sizo, como é uma que Lybanio escreveu a Aristoneto, que dizia:
CARTA DE LYBANIO A ARISTONETO
"Onde vos achaes, sei que dizeis sempre mal de mim; eu pelo contrario não perco occasião de dizer louvores vossos; porém quem a ambos nos conhecer, a nenhum de nós ha de dar credito."
Das mais ha tantos e tão differentes exemplos, que seria aggravo a cada uma das outras trazer aqui algumas bem escriptas. Só direi que uma especie d'ellas é narrativa, motejando do mesmo, que contam, ou das novas que dão; que não são por esse respeito pouco engraçadas. Ha outra das de disbarates, que, parecendo que se desviam nas palavras do proposito que tomam, dão a entender, como em enygma, o pensamento de quem as escreve; e são estas graciosas com subtileza. Outra ha das de murmuração em materias leves, como satyras menores: e umas e outras tem a galanteria no pintar e descrever as pessoas e as cousas, com apodos graciosos, encarecimentos desuzados, palavras facetas, phrase humilde, accommodada sempre ao sujeito. É certo que n'isto tiveram mão particular os portuguezes, que escreveram ao gracioso, que nem os italianos na phrase burlesca, nem os hespanhoes no estylo picaresco os egualaram.
--Não vos houvera eu de consentir esse salto (disse Solino) deixando tantos exemplos em aberto, se não tivera pensamento de cobrar a demasia n'outra occasião; e assim por isso, como por ser já passada tanta parte da noite, vos peço que façaes a vontade ao sr. D. Julio com essas cartas Reaes, de Estado e Governo, que as está desejando com a vida; pois a sua é nadar na altura de cousas semelhantes.--Eu vos mereço (respondeu o fidalgo) a boa opinião em que me tendes: porém egualmente me contentam todas as cousas em que fala o sr. Leonardo: e porque sempre as ultimas me ficam parecendo melhor que as primeiras, posso desejar esse terceiro genero de cartas; e se d'elle tornar ao primeiro, farão o mesmo effeito na minha satisfação.--Para responder a esse favor (tornou Leonardo) havia mister o tempo que hei de gastar nas cartas que me ficam: e assim ou uma ou outra cousa me havei por perdoada.
Não deixou o doutor ir os cumprimentos por deante, dizendo que eram em prejuizo de terceiro; e proseguindo Leonardo, disse:
--As cartas do terceiro genero, que, pelas materias importantes, e differença das pessoas, são mais graves e humildes; posto que se incluem algumas d'ellas á oratoria, aproveitando-se da elegancia e razões para persuadir, consolar, dar louvores ou reprehender; e posto que d'estas estão cheias as chronicas e annaes de todos os reinos, recitarei algumas que pareçam menos vulgares e mais breves para exemplo, como é uma que os consulares C. Fabricio e C. Emilio escreveram a el-rei Pyrrho sobre uma consideração em materia de Estado, que dizia:
CARTA DE FABRICIO EMILIO A EL-REI PYRRHO
"Pelos aggravos que de vós temos recebido, o maior cuidado nosso é fazer-vos guerra com animo inimigo e braço esforçado: porém, para exemplo commum de fidelidade, nos pareceu conservar-vos a vida, porque com a perda d'ella nos não faltasse um contrario valoroso a quem vencer. Nicias, vosso particular, veiu ter comnosco, pedindo-nos preço certo por vos dar morte occulta; em que nós não consentimos, fazendo-lhe perder a esperança de tirar fructo da sua maldade. Juntamente assentámos dar-vos este aviso; porque, se alguma cousa acontecer, se não presuma que sahiu do nosso conselho; e não sendo o intento d'elle pelejar por preço, premio ou engano, vós, á falta de cautella, percaes a vida."
Tambem me não parece indigna de lembrança uma,
com que Rhodoge, mãe d'el-rei Dario, o reprehendia, e aconselhava na segunda expedição contra Alexandre; que foi a que se segue:
CARTA DE RHODOGE PARA ELREI DARIO, SEU FILHO
"Deram-me novas que ajuntaveis poderosos exercitos de todas vossas gentes e das alheias, para de novo offerecerdes batalha a Alexandre. Não sei a que effeito; pois o poder de toda a redondeza não basta para pelejar com os deuses immortaes que a elle o favorecem. Deixae esses pensamentos altivos; apartae-vos da vangloria d'elles, concedendo á grandeza de Alexandre alguma cousa; que melhor é deixar o que não podeis ter, para gosar livremente o que possuis; que, querendo dominar tudo, ficar sem nada."
Cada um dos presentes gabou estas cartas com tanto extremo, que não deixaram que com ellas acabasse Leonardo sua obrigação; porque (disse D. Julio) já pelo voto de Solino, estas são as cartas, que entram na jurisdicção de minha curiosidade, não consinto que nos exemplos seja este genero mais limitado; mórmente que d'este se tira outra doutrina mais que a das cartas, que é a variedade das historias e occasiões d'ellas.--Eu (respondeu Leonardo) ainda tinha cabedal para ir adeante, se as horas tornaram atrás; mas partirei (como dizem) a contenda pelo meio, recitando uma carta, que o grã senhor dos turcos escreveu aos amazonios; e a valorosa resposta que elles lhe mandaram: e dizia a primeira:
CARTA DO TURCO AOS AMAZONIOS
"Se por defensão de vossa liberdade sustentáreis guerra contra meu poder, não vos tivera tanto por inimigos, como por valorosos cidadãos, que pela patria, filhos, parentes e amigos punheis as vidas. Porém com nenhuma razão me persuado que os que deixaram tantos annos governar o reino a mulheres (como tenho ouvido) recusem agora o imperio, e governo de homens valorosos."
E a esta carta responderam elles outra, que dizia:
RESPOSTA DOS AMAZONIOS
"Este reino das amazonas, que, como por affronta nossa nomeaes, com o seu mesmo exemplo nos aconselha não obedecer a outrem: porque temos por infamia e torpeza que o exforço varonil seja vencido do espirito e braço feminino. Pelo que deveis julgar por invenciveis em armas, e dignos do governo e principado do mundo homens, entre os quaes até as mulheres apprenderam a reinar."
E porque com exemplos gentilicos e barbaros não dê fim á conversação d'esta noite, direi por remate uma carta que o veneravel sacerdote Beda escreveu a Carlos Martelo, rei de França, e aos mais potentados d'aquelle reino sobre a entrada dos mouros em Hespanha, que dizia:
CARTA DO VENERAVEL BEDA A CARLOS MARTELO REI DE FRANÇA
"Em quanto se move perigosa e cruel guerra na christandade, se apparelha notavel ruina de toda a Europa: porque os sarracenos, occupada a Africa e Libya, começando de Ceita, tem conquistada toda a terra de Hespanha, tirando a das Asturias e Cantabria. Africa, que o capitão Belizario cobrou aos romanos, e que cento e setenta annos obedeceu a seu imperio, juntamente com a Hespanha Betica, tem tomado os mouros, fazendo-a obedecer a seus falsos ritos, com grande ignominia e affronta do nome christão. Que cousa póde haver mais excellente, valorosa e pia, que contra estes inimigos de Deua tomar armas? Que fizeram os suevos, os allemães e os mais varões do nome christão, que com tão grandes destruições tendes perseguidos? Perto estào, e sobre vossas cabeças os sarracenos, que com soberbo jugo ameaçam a toda a redondeza da terra. N'elles tendes formosissimos reinos, grossas cidades, ricos despojos; e vos esperam grandes triumphos da victoria: e principalmente incomparavel premio de gloria com Christo nosso Salvador, que para tão santa empreza com continuos brados vos está chamando."
Certo, disse o doutor, que, se pudéra dilatar a noite pelo interesse de tão proveitosa doutrina; mas porque n'esta se não ha de dar fim ao nosso exercicio, fiquem algumas perguntas, que agora escuso, para outra occasião, pois agora a não tiveram as cartas amorosas nem as de desafios.--As primeiras (replicou Leonardo) deixei por ser improprio da minha edade tratar d'ellas; as segundas, por me não embaraçar com o duello que está reprovado. Porém fica o campo livre para os mancebos. Com isto se despediram dando-se boas noites: e o estudante foi encarecendo ao companheiro o muito que o espantára vêr tanta côrte em uma aldeia; que as cousas achadas onde não se esperam, são de maior admiração, e de mais estima.
DIALOGO IV
DOS RECADOS, EMBAIXADAS E VISITAS
Amanheceu o sol tão claro e gracioso, que alguns dos amigos por se lograrem d'elle com a occasião da caça se espalharam pelos montes; mas depois de horas de vespera visitou o estudante em companhia de Pindaro ao doutor Livio, com quem passaram a tarde n'um seu jardim em boa conversação, esperando a da noite, a que elles foram os primeiros que acudiram, e se acharam em casa de Leonardo; que commummente nos lettrados se accende melhor o desejo de saber, e não n'aquelles aos quaes lhes custou menos. Sentaram-se á vista do fogo, que á conta dos hospedes estava melhor ordenado; e depois de gastarem algumas palavras de cumprimento, chegaram D. Julio e Solino a quem todos fizeram muita festa; e, reprehendidos da pequena tardança, disse Solino:--Grande espaço ha que eu pudera gosar esta companhia, se me não detivera em esperar resposta de um recado, que mandei ao sr. D. Julio.--E eu (respondeu elle) se vos não encontrára, ainda não tinha entendido o vosso moço; porque de maneira embaraçou o que me mandaveis dizer, que nem por discrição pude tirar o recado: nem vos desfaçaes d'elle para os que forem de importancia, que val a peso de ouro.
A isto se começaram todos a rir, e tornou Solino:--O meu moço, sr. D. Julio, tem desculpa em ser nescio, porque é meu moço; que, se soubera mais, eu o servira a elle; mas os creados dos grandes, como vós, esses hão de ser discretos, pois são tão bons como eu: e comtudo eu vos sei dizer que ha aqui moço que no dar um recado o pudera fazer como ao que lá mandei, que não é dos peiores da sua ralé, e já entermette de lêr carta mandadeira: mas nos recados ainda agora lê por nomes, e não acerta a nenhuma cousa.--Pouca paciencia tenho (disse o doutor) a um creado que esperdiça o entendimento de seu amo: mandaes um recado concertado, discreto e cortezão: e o madraço, que o leva, muda-lhe os trastos e desentôa com uma parvoice que vos desacredita, como com os meus me tem acontecido mil vezes.--Nos vossos não é muito (disse Solino) que daes os recados guarnecidos de rhetorica com seus vivos de latim, que são mais perigosos na bôcca d'estes, que vidro em mão de menino: mas os meus, que não passam de quatro palavras em linguagem corrente, e que assim os virem do carnás e me mettam em vergonha, não é desgraça? Ora prometto que os de importancia eu mesmo os leve como aconteceu ao cortezão ausente, que levou elle proprio a carta a sua mulher: e os que houver de dar o meu moço, que sejam seus, por não andar remendando o burel da sua natureza com o trabalho da minha disciplina. D'aqui por deante bôcca faz jogo: digo, que o que o meu moço disser, elle o diz, e que me não ha de chamar por auctor das suas impertinencias.--Certo (disse Leonardo) deixando de tratar dos meus, e vossos recados, que importam menos, e de outros em que vae tão pouco, que é uma das cousas de maior consideração aos reis, principes, republicas, e aos grandes mandarem suas embaixadas, visitas e recados por homens de auctoridade, discretos e bem disciplinados, em cujas razões e procedimentos consiste muitas vezes o bom successo do que pretendem. E assim os reis, principes e republicas nas materias de estado; as cidades e povos nas occasiões das côrtes; os senhores particulares nas visitas; devem sempre escolher homens, que no entendimento se avantajem dos outros, porque não sómente conseguem o fim da pretenção de quem os manda; mas o acreditam: e porque ás vezes por respeitos, privança e valia se antepõem os menos sufficientes para estes cargos, se deitam a perder negocios de uma republica, em que consiste a quietação e honra d'ella.--Pouco e pouco (disse Pindaro) se foi o sr. Leonardo á materia dos recados, que não ficam fóra de seu logar, depois de o terem as cartas missivas; e bem se póde fazer a noite bem assombrada com tão bom sujeito.--Desculpado estou (respondeu elle) com o trabalho, que na de hontem cahiu á minha conta, em fugir d'elle; mas não de approvar a vossa advertencia.