Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 4
Mui satisfeito ficou D. Julio de ouvir a Leonardo aquella noite na materia das armas; e quasi a escolhera antes, que a das cartas. Por alguns particulares, que desejava saber, quiz com mão alheia, por não parecer importuno, perguntar algumas cousas a Solino, que achou junto á sua porta; e depois de o saudar, lhe disse: Como estaes depois da noite de hontem.?--Como o dado (respondeu elle) que está de qualquer ilharga.--Deveis de ficar do azar (tornou D. Julio) pois tendes tão poucos pontos, que faltaes aos da cortezia:--Fiquei (tornou elle) tão cansado das da carta de Leonardo, que lhe tomei aborrecimento, e nem estou para vos servir, nem para o dizer, e perdoae-me.--Logo (disse o fidalgo) não quereis continuar na conversação d'esta noite.--Se a carta (lhe tornou Solino) ha de ser tão comprida como o sobrescripto, assim o imagino.--Pois a minha tenção (proseguiu elle) era pedir-vos que na materia das armas, que elle tocou, fizesseis hoje algumas perguntas á minha conta sobre alguns particulares das familias d'este reino.--Vós deveis buscar armas para me matar (disse Solino) porque das de hontem sahi eu tão escalavrado, que determinava fugir d'ella; e sei que tem Leonardo tantos livros de armas, e gerações, que, se o tirar a terreiro, havemos mister todo o inverno para o ouvir.--Eu me contento (respondeu D. Julio) com saber que elle tem os livros, e assim o escuso do trabalho:
porque n'elles lerei alguns feitos particulares dos Portuguezes merecedores dos brazões que seus successores possuem.--Bom seria (disse Solino) acabar as cartas antes de entrar por esses feitos, e para isso vos irei acompanhando até a casa de Leonardo, posto que tinha outra determinação.--Porque vós não falteis (respondeu D. Julio) quero ir mais cedo. E com esta pratica, e outras que occorriam, foram passeando, e entertendo o que ficava do dia, até que a sombra da noite, e uma chuva miuda os fez recolher a casa de Leonardo, onde os amigos esperavam já que elles chegassem; e com Pindaro outro estudante seu companheiro, por nome Feliciano, que, vindo-o a visitar, se aproveitou da occasião em sua companhia. Festejaram todos a Solino; e elle vendo o hospede, de novo se lhe inclinou com mais auctoridade, e disse para os outros: Tenho inveja á dita do senhor licenciado que veio ao abrir da carta, que cerrámos sem elle, e com não pequeno trabalho.--Não tivera eu por tal (respondeu o estudante) antes por grande ventura, se do passado me coubera alguma parte; e esta, que alcanço agora com o consentimento d'estes senhores por meio de meu companheiro, tenho por muito grande favor, e mercê de todos.--Essa humildade (disse Solino) está acreditando mil esperanças de vosso entendimento; e bem sei eu que o de Pindaro sabe fazer esta eleição dos amigos tambem, como em tudo o mais é discreto, e acertado: e para que entendaes o logar em que vos fico, sabei que eu sou o mais certo creado que elle tem entre os senhores presentes.
A esta cortezia respondeu Pindaro, e o estudante com as suas, até que o doutor os despartiu, e disse a Leonardo:--Bem gastado era o tempo em comprimentos tão cortezãos, e tão devidos, se o desejo, que temos de continuar a materia da noite passada, o não quizera poupar todo para ella: e assim vos peço que me façaes mercê, e a todos, de ir por deante.--Tendes razão (tornou elle) de me aliviardes mais depressa do cuidado, em que me mettestes. E tornando a traz, por me aproveitar dos vossos principios, dissestes que cousa era carta na origem do seu nome, os primeiros modos de escrever, e o como entre nós se conservou; tratei do sobrescripto, da cortezia, das lettras, do signal, das dobras, e sello da carta, o que bastou para todos ficardes mais enfadados, que saudosos.
Agora, começando a entrar na leitura das regras, saibamos que cousa é carta missiva, ou mandadeira, e o para que foi inventada; que pela definição de Marco Tullio, a quem todos seguem, é uma messageira fiel, que interpreta o nosso animo aos ausentes, em que lhes manifesta o que queremos que elles saibam de nossas cousas, ou das que a elles lhes relevam. Tres generos de _cartas missivas_ assigna o mesmo Tullio, aos quaes alguns costumam reduzir muitas especies d'ellas. O primeiro é das _cartas de negocio e de cousas que tocam á vida, fazenda e estado de cada um_, que é o para que as cartas primeiro foram inventadas; que, por tratarem de cousas familiares, se chamaram assim. O segundo, de cartas d'entre amigos uns aos outros, de novas e comprimentos de galantarias, que servem de recreação para o entendimento, e de allivio e consolação para a vida. O terceiro, de materias mais graves, e de peso, como são de governo da republica e de matérias divinas, de advertencias a principes e senhores e outras semelhantes. O primeiro genero se divide em cartas domesticas, civis e mercantís. O segundo em cartas de novas, de recommendação, de agradecimento, de queixumes, de desculpa e de graça. O terceiro, que é mais grave e levantado, contém cartas reaes em materias de estado, cartas publicas, invectivas, consolatorias, laudativas, persuasorias e outras, que se pagam a cada uma das que nomeei em todos os tres generos.--E onde deixaes (disse D. Julio) as cartas amatorias ou namoradas? que se na vossa edade não teem logar, parece que o mereciam n'este díscurso.--Bem sei eu (tornou Solino) quem as tomára no primeiro; mas o sr. Leonardo já não joga com essas cartas.--Não me esquecia de todo d'ellas (tornou elle), mas deixo-as para que no fim das mais sejam melhor recebidas, e para proseguir a materia quem agora as puder apurar.
--As do primeiro genero (disse o doutor) me parecem cartas muito seccas, que é materia esteril para que empregueis n'ella sem fructo o vosso entendimento.--Antes (disse Leonardo) como essas foram as primeiras, e d'ellas nasceram as leis e as regras para outras, será razão que debaixo d'este genero tratemos das mais, repartindo o pouco que eu soube dizer, por os logares de cada um. E assim me parece, que como a carta que escrevemos ao amigo sobre seu negocio; ao creado sobre as cousas da casa; e o mercador ao outro sobre seus tratos e mercancia; um aviso e uma relação que lhe não podemos fazer em presença, fazendo-o por meio de uma carta, devemos usar n'ella o que na pratica costumamos que é brevidade sem enfeite, clareza sem rodeios, e propriedade sem metaphoras, nem translações.--E quando (disse o doutor) faremos breves em uma carta?--Quando (respondeu elle de tal maneira, e com tal artificio a escrevermos, que se entendam d'ella mais cousas do que tem de palavras.--E como póde ser? (tornou elle).--Por meio dos relativos e subsequentes (disse Leonardo) que, sem nomear as palavras, as repetem; e por ordem das sentenças e adagios que sem entender as cousas as declaram; e n'isto se adeantam muito as cartas da pratica familiar, que, se escrevem de cuidado, e tem mais tempo de se furtarem palavras para se subentenderem razões.--E que cousa é enfeite ou affectação? (perguntou Solino).--É, disse elle, o cuidado sobejo de enfeitar as palavras com elegancia ou por via de epithetos, ou de escolha de logar para as syllabas fazerem melhor som aos ouvidos. E em favor d'esta opinião, dizia um homem insigne d'este reino, e que teve n'elle os melhores logares da republica ecclesiastica e secular, que a carta e a mulher muito enfeitada, em certo modo eram deshonestas: e eu antes seguira este voto, que o de alguns rhetoricos, que deram á carta missiva cinco partes de oração, convém a saber: _saudação, exordio, narração, petição e conclusão_: e se houvessemos de seguir o seu estylo, mudariamos de todo o das cartas.--Nunca rhetoricos (disse o estudante) souberam escrever cartas, se as sugeitaram ás leis da oração. Mas parece que o sr. Leonardo dá a entender que na carta se não devem usar epithetos ou adjectivos por evitar o enfeite, e sobeja elegancia d'ella: e eu tenho que sem elles se não póde escrever.
--Os epithetos (proseguiu Leonardo) ou servem para discripção e declaração das cousas ou para propriedade, ou para ornamento e enfeite d'ellas. Os primeiros são necessarios nas cartas como em tudo; os segundos menos, os terceiros escusados. Para dizer ou escrever, _um homem douto_, _uma mulher formosa_, _um cavallo ligeiro_, _uma arvore alta_, _um caminho comprido_, _um peito forte_, sào attributos necessarios para declarar o que queremos dizer; porque ha homem que não é douto, mulher que é feia, e os mais. Os de propriedade como _ferro frio_, _relva verde_, _sol claro_, _calma ardente_, _areia sêcca_, _pedra dura_, estes são pouco necessarios nas cartas: e sómente por comparação ou em adagios se devem usar n'ellas, como dizendo, _é duro como pedra_, ou _é dar em pedra dura_, ou _é malhar em ferro frio_. Os de elegancia e ornamento, tenho eu que se hão de degradar das cartas missivas para fóra do termo d'ellas, como agora _firme soffrimento_, _incansavel diligencia_, _solicito desejo_, _cuidadoso receio_, _importuna lembrança_, _desusada brandura_, e outros que tem juiz de seu fôro. Assim que não digo que faltem nas cartas epithetos necessarios, mas que se escusem os sobejos; nem se andem grangeando as palavras para fazerem assento em o cabo da sentença, que será ir contra a brevidade sem enfeite ou affectação.
--Parecia-me a mim (disse Solino) que a carta breve seria a de menos regras; e que não estava a cousa nos epithetos serem proprios ou necessarios. Uma carta (proseguiu elle) póde ser breve, e levar escriptas muitas
paginas de papel; porque póde tratar de tantos negocios ou cousas que as occupem, mas estarão relatadas de modo que seja a leitura comprida, e a carta breve.
--O segundo ponto (perguntou Pindaro) que é clareza sem rodeio, me parece a mim que fica declarado n'essa primeira parte; pois sendo breve a carta, e não tendo enfeite nas palavras, será clara e sem rodeios.--Não estaes no caso (tornou elle), que posto que a clareza é parte da brevidade, a clareza é das razões, e a brevidade das palavras: e assim póde a carta ser breve, mas confusa; e clara sendo comprida: que muitos para dizerem cousas querem estrada coimbrã, e caminho direito; buscam rodeios e atalhos em que se perdem, confundindo o que querem dizer. Em uma minha doença escreveu um amigo, e dizia: _Disseram-me que a saude de vossa mercê corria perigo na inconveniencia de medicos discrepantes no remedio dos males d'essa doença_. E fez estas trocas onde podia dizer: _Soube que os medicos não se conformavam na cura dos vossos males, que na duvida d'elles corria risco a vossa saude_. Outro me escreveu ha muitos dias: _Se vossa mercê não está ausente das lembranças que suas promessas me asseguraram de haver de ter muitas d'este seu captivo_. Havendo de dizer: _Se vos não esquece que me promettestes de ter lembranças de mim_. E porque ainda temos logar de tornar aos particulares das disposições das razões:
Passando ao terceiro ponto, que é _propriedade sem metaforas_, ou _translações_.--A propriedade (disse o doutor) era materia da noite passada, quando falastes das letras e razões em seu logar, sem barbaria, nem impropriedade no escrever: e como isto é parte do exterior da carta, já hoje não tem dia.--A propriedade que vós dizeis (accudio Leonardo) é exterior, mas muito differente a de que eu trato, e não pouco importante ao falar, e escrever, que é a propriedade das palavras na sua propria significação, sem serem emprestadas por via de translações para outros logares, que é termo que argue nobreza de linguagem; e porque fique mais declarado, sabei que dizemos em portuguez, falando propriamente dos nomes: _Bando de aves_, _cardume de peixes_, _rebanho de ovelhas_, _fato de cabras_, _vara de porcos_, _alcatéa de lobos_, _tropel de cavallos_, _cafila de camellos_, _récua de cavalgaduras_, _manga de arcabuzeiros_, _mó_, ou _roda de homens_; e se, trocando isto, disséramos: _Um cardume de aves_, ou _uma alcatéa de ovelhas_, ou _um fato de porcos_, seria impropriedade, e desconcerto. Dizemos tambem nos verbos: _Chiar_ de aves, _balar_ de gado, _grunhir_ de porcos, _ladrar_ de cães, _rinchar_ de cavallos, _bramir_ de leões, _empolar_ de mares, _encapelar_ de ondas, _assoprar_ de ventos, etc. E se dissessemos _chiar_ de porcos, _rinchar_ de leões, e _grunhir_ de cavallos, seria o mesmo erro. E porque ha metaforas e translações tão uzadas e proprias, que parecem nascidas com a mesma lingua, que como adagios andam pegadas a ella, se devem trazer (quando forem taes) nas cartas missivas, do mesmo modo que na pratica se costumam. Dizemos dos nomes: _folha de espada_, _lume de espelho_, _veia de agua_, _braços de mar_, _lingua de fogo_, _lanço de muro_, _faxa de ferro_, e outras semelhantes: e nos verbos: _lançar o cavallo_, _fazer á capa_, _quebrar a palavra_, _cuspir o pelouro_, _arripiar a carreira_, e outras muitas: e além d'estas tão usadas, e naturaes, que servem de propriedade á lingua portugueza, ha outras nascidas de proverbios, ou adagios, que tem o mesmo logar, e antiguidade, como são _furtar o corpo_, _ir vento em pôpa_, _nadar contra a agua_, _ficar em secco_, _repicar em salvo_, _tirar barro á parede_, _etc_. E quanto a carta tiver mais d'estas, será mais breve, e cortezã; pois, como primeiro disse, por este modo se entendem da carta mais coisas, do que tem escripto de palavras.
Pelo contrario, usando, em logar d'estas, outras humildes, populares, ou innovadas, será vicio na propriedade da carta; como se nos nomes dissessemos: _um feixe de cuidados_, _um mar de encommendas_, _um moio de queixumes_, _um golpe de razões_; e nos verbos, como: _enfeitar o desejo_, _tropeçar em cuidados_, _navegar em desconfiança_, e outras muitas. Esta é a propriedade, de que trato, e a que me parece que se deve usar no escrever das cartas missivas; porque não soffre o estilo d'ellas o que em a pratica, ou em outro genero de escriptura não sómente se permitte, mas muitas vezes se deseja.
--Espero (disse D. Julio) que deis alguma limitação, ou declareis a linguagem, que se deve usar n'este estilo das cartas; porque encontro muitas muito mal escriptas, cujos erros, a meu ver, nascem dos homens se cançarem muito em quererem parecer singulares.--Posto que isso pertence primeiro ao fallar, que ao escrever (respondeu Leonardo) pois, como já disse, devemos escrever como praticamos; as palavras da carta hão de ser vulgares, e não já populares, nem exquisitas: vulgares de modo que todos as entendam; e ao menos, que a quem se escrevem, não sejam peregrinas: e não já populares, que sejam termos humildes, palavras baixas, que a cortezia não recebe: e que tão pouco, em logar dos adagios, e sentenças, tenham anexins. Tambem se deve fugir ao termo exquisito de palavras alatinadas, ou carreteadas de outras linguas estranhas, que sempre tem o sabor da sua origem.--Assim na linguagem, como em tudo (accudio Feliciano) ficavamos satisfeitos, se de aquelles tres generos, em que o senhor Leonardo dividio as cartas, déra alguns exemplos que nos allumiaram; porque nem as regras sem elles ensinam de todo, nem se póde perder a lição de tão bom estilo. O que eu não pedira, se foram dos vinte generos de cartas, em que um rhetorico as dividio; que, por querer dar leis, e partes a cada uma, as confundio todas.--Em tudo (tornou elle) vos quizera satisfazer: porém cartas mais se hão de escrever em occasião, do que trazerem-se por exemplo; que é o porque eu lhe nào déra regra certa, nem das muitas, que ha bem escritas, se póde tirar; que esse auctor, que vós dizeis que lhe assignou vinte generos, achará fóra d'elles infinitas cartas, bem melhor escriptas, que as com que os elle quer auctorisar. Porém, com o presupposto de não dar preceitos:
As cartas do primeiro genero, familiares, domesticas, civis, e mercantis, respeitam tanto a brevidade, que não podem os rhetoricos dividil-as em partes, se não forem nas da oração; e bastava para exemplo aquella de Cicero a Cornelio, que dizia sómente:
CARTA DE CICERO A CORNELIO
"Alegrai-vos de eu não estar mal; pois terei o mesmo contentamento de saber que estais bem."
E muito é mais para notar uma carta de Octavio Imperador para Caio Druzo seu sobrinho, que contém bem mais coisas, e avizos que palavras, e dizia:
CARTA DE OCTAVIO A DRUZO
"Pois estais no Illyrico, lembrai-vos que sois dos Cezares; que vos mandou o Senado; que sois moço; meu sobrinho; e cidadão Romano."
E estas, e outras semelhantes, nem tem regra, nem deixam de ser cartas. Mas porque não só nos ajudemos das antigas, mas tambem com as nossas façamos pestoleta; esta é breve, e domestica, que um cortezão escreveu a seu amigo, a quem em uma ausencia deixára sua casa; e dizia:
CARTA MODERNA A UM AMIGO
"Estou tão confiado no que vos mereço, e tão seguro no que de vosso animo tenho conhecido, que me não dá cuidado a familia que deixei á vossa conta; senào o trabalho, que vos dará o sustentalla: não procuro saber d'ella mais, que novas de vossa saude; que em quanto a tiverdes, estará sem sobresalto a minha vida."
Á qual o amigo respondeu com brevidade; e dizia d'esta maneira:
RESPOSTA
"N'esta casa só vós fazeis falta; mas como sois o tudo d'ella, ainda que sobeja a minha diligencia, lhe falta tudo. No que é servir-vos, a todos satisfaço, senão o meu desejo, que é igual ás obrigações que vos tenho. Vivei seguro; e gozai saude; que, em quanto a tiver, porei por vossas coisas a vida."
--Não estão as cartas para desprezar (disse Solino) e para me assegurar se a vossa memoria é archivo d'ellas, ou se as ides fingindo de repente (ainda que isto é
menos curiosidade, que tenção) hei de pedir por parte d'estes senhores que de alguma nos deis semelhantes exemplos.--Não quero (disse elle) que acrediteis tanto o meu entendimento com mostrardes desconfiança da memoria; mas a troco do louvor vos hei de obedecer nas que me lembrarem: e proseguindo nas da segunda especie d'este genero, me parece carta civil, e breve esta, que um amigo escreveu a outro, que mudava sua casa para a terra, onde elle vivia; e dizia:
CARTA DE UM AMIGO
"Espero com grande alvoroço que venhais para esta cidade, para que com vossa companhia viva n'ella contente, e vós desenganado de quam pouco em si tem que me possa alegrar, senão depois que vos possuir."
A quem o amigo brevemente respondeu em outra que dizia:
RESPOSTA
"Assim como o desterro em o melhor lugar é penoso, nenhum pode haver tão esteril, que, tendo a tal amigo, não seja desejado. Vós sois a quem busco, é força que me contente a parte onde vos achar; que as pedras não fazem a cidade, senão os homens: nem as commodidades da vida a sustentam, senão os amigos."
As mercantis posto que são segundo os tratos, e negocios, e acodem mais a elles, que ao bom termo dos comprimentos; não deixa de haver muitas tão bem escriptas, que podem ter logar entre as melhores; e ainda que não é d'ellas uma, que eu vi há poucos dias, a darei por ser tão breve, e era esta:
CARTA MERCANTIL
"Ha nova de Cossarios no mar; e por esse respeito grande risco nas fazendas d'essa terra: porém a valia d'ellas será muito avantajada, se chegarem a este porto a salvamento; se a cubiça do interesse vence o perigo das encommendas, ponde-as em ventura; que eu a terei para mim por muito boa o vosso bom successo."
E assim não me desagradou outra, que dizia d'esta maneira:
CARTA MERCANTIL
"Com os tempos contrarios á navegação foram as occasiões ao nosso trato: que, como as mercadorias não foram requestadas de extrangeiros, estão ao presente abatidas: enviae-me menos d'ellas para que, faltando, mais as procurem os mercadores da terra; e n'essa vos não descuideis de fazer emprego, mandando-me o de muito boas novas vossas."
--Não me pareceu (disse o doutor) que tirasseis tão boa doutrina de materia tão limitada; porque esse primeiro genero de cartas tinha eu que não sahia de uns termos e principios, que andam escriptos no panno da serpe, como são: _Á feitura d'esta_. _Esta não é para mais_. _Uma de v. m. me deram_. _Pela de v. m. de tantos do passado_: _Depois de me encommendar em v. m._ E d'aqui correndo por seus capitulos _de quanto a isto_, e _quanto a est'outro_ até topar no _a quem Deus guarde_.--Esses principios (disse Solino) estão já muito bolorentos; mas ainda para cartas de mais ponto tenho outros grangeados de algumas secretarias velhas, como impressão de Torres, de que me valho nas pressas de uma boa nota, que não são tão corriqueiros.--Não me atreverei eu sem esses (disse Leonardo) a ir por deante pelo que vos hei por notificado.--Pois assim é (disse Solino) quero obedecer, ainda que perco grande valhacouto em os descobrir; porque sabei que é comer feito para os ronceiros d'esta mecanica; e o mór trabalho d'ella é desencalhar a penna com a primeira palavra: e são quatro: _Como quer que_, _Tanto que_, _Depois que_, e _Antes que_. E sabei que não ha proposito, que saia das unhas d'estes bilhafres; e nos capitulos de _quanto isto_ etc., se mette em logar do _quanto_, _no que toca a tal_, e _no que toca a qual_; que, a meu vêr, era melhor o _item_, que tinhamos tomado aos latinos. Mas os notadores de espada solta esgrimem já agora sem estes bordões maravilhosamente.--Bons estão os principios (disse D. Julio) porém haveis de metter a lettra em todos elles, para que nos não passem por alto.--Antes por muito rasteiros (respondeu elle) vos ficarão entre os pés. Porém tende tento, e vereis que são principios de parafuso e que se encaixam, e viram para todas as partes como grimpa.
"Como quer que os meus serviços montem ante vós tão pouco, e a vontade por minha seja de menos preço, etc.
"Como quer que o animo, com que sou vosso, me não deixa perder occasiões, em que vos sirva, etc.
"Tanto que soube que era cousa de vosso gosto deixar esta empreza, etc.
"Tanto que me vi desfavorecido de vossas lembranças, lancei mão do meu atrevimento, etc.
"Depois que me apartei de vós, não soube mais de mim, que para sentir saudades vossas, etc.
"Depois que meus males me deram logar para tomar esta penna na mão, a empreguei em procurar novas vossas, etc.
"Antes que me desculpe de meus descuídos, etc.
"Antes que vos dê larga conta dos meus successos, etc."
De modo, que são como materia prima, em que moldareis tudo o que quizerdes: porém não quero ir adeante, e tomar o tempo ao sr. Leonardo; que o vejo entrar já por outras cartas missivas.--Antes (lhe disse elle) tomei folego em quanto vos ouvia falar n'essas. E tratando das do segundo genero, que são cartas de novas, a que chamam narrativas de cumprimentos, que se dividem em cartas de agradecimento, recommendação, desculpa, queixume e outras muitas, cartas de galantaria ou jocosas, como chamam os latinos: Para as narrativas nos podia servir de exemplo aquella em que o imperador Tiberio Cesar dava novas de Italia a seu irmão Germanico, que dizia:
CARTA DE TIBERIO CEZAR A GERMANICO
"Os templos se guardam; os deuses se servem; o senado está pacifico: a republica prospera; Roma sã; a Fortuna mansa; o anno fertil; e isto, que ha aqui em Italia, desejo que da mesma maneira gozeis em Asia."
Deixo a que Cesar escreveu a Roma, das novas de Persia, que continha só tres palavras: _Cheguei: vi: venci._ E a de Gneu Sylvio, escrevendo as novas da Farsalia, que dizia:
CARTA DE GNEU SYLVIO
"Cesar venceu: Pompeio morreu: Rufo fugiu: Catão se matou: acabou a dictadura; e perdeu-se a liberdade."
E chegando a alguma, que com menos aperto faça sua relação, me não pareceu engeitar a que Marcello escreveu ao senado romano, dando-lhe novas da rota de Fulvio, que dizia:
CARTA DE MARCELLO AO SENADO
"Bem sei que a nova, que vos mando, é de sentimento. Fulvio Proconsul com treze mil homens foi desbaratado e ferido. Porém não vos cause temor este successo; que eu sou o mesmo, que, depois da batalha de Canas, mortifiquei a soberba de Hannibal, vencedor d'ella: contra elle caminho brevemente com o meu exercito para lhe fazer mais breve a alegria d'este triumpho; e em vós desejo muito o mesmo animo que levo."
--Uma carta (acudiu o doutor) me escreveu os dias atraz um amigo, de novas de Lisboa, que certo, pela brevidade, me pareceu digna d'esta lembrança, e dizia: