Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Part 3

Chapter 34,038 wordsPublic domain

--Parece-me (respondeu elle) que estou já no meio da minha obrigação (conforme ao dito do poeta) que quem começou, tambem tem feita a maior parte. E passando do nome da carta aos exteriores d'ella, digo que ha de ter: Cortezia commum, regras direitas, lettras juntas, razões apartadas, papel limpo, dobras eguaes, chancella sutil, e sêllo claro; e com estas condições será carta de homem da côrte. E falando da cortezia (disse Solino) que entendeis n'ella?--A cortezia (lhe respondeu elle) não falando na leitura da carta, é o sobrescripto, o apartado da cruz, até á primeira regra; e do principio do papel até o começo de todas: e o final, o nome de quem escreve, abaixo da data da carta. E porque n'isto ha differentes costumes, e erros, me parece bem fazer de tudo lembrança.--Nos sobrescriptos temos pouco que tratar (tornou Solino) que depois que com a pragmatica os cercearam, não ha já _prezados_, _magnificos_, _honrados_, e _illustrissimos_, nem os _senhores_. Ainda (tornou Solino) ficaram alguns de rodeio que são muito para vêr, e assim o dizem elles: a cujo proposito vos hei de contar uma historia. Eu (como todos sabeis) vejo com oculos, e (conforme a opinião de alguns) com elles muito menos. Os dias atraz, sendo eu ainda innocente d'este costume, me deram uma carta de um amigo, que dizia: _Para vêr o senhor Solino_: aberta ella, a lettra tal, tão miuda, e embaraçada, que desmentia o sobrescripto, e por nenhuma via pude vêr o que dizia. Mas respondi n'outra lettra muito peior, e puz no sobrescripto: _Para cegar o senhor Fuão_; ao que elle depois me respondeu, que estava pelo costume dos presentes.--Nem todos se hão de seguir (disse o doutor) que, como escreve o philosopho Favorino, cada um deve usar de palavras presentes, e costumes antigos; e mais quando é uso é abuzão, que no primeiro, por ser tal, offenderam as leis; e no segundo o reprehendem os mesmos que o usam. Comtudo Leonardo dirá o que lhe parece.--A mim respondeu elle que a lei é boa, e a cautella escusada. Porém o sobrescripto tem mais partes de cortezia, que essa que dissestes, ainda que á primeira vista pareça cousa tão limitada. E para que comecemos em ordem; _sobrescripto é_ uma noticia vulgar da pessoa a quem se escreve, e do logar aonde lhe mandam a carta, exprimindo-se n'elle o nome, e a dignidade, por onde é mais conhecida, e o do logar onde n'aquelle tempo assiste. N'esta regra geral ha uma limitação, e é: Que ás pessoas do grande titulo, e cargo se pode calar, ou usar de outro modo differente esta segunda noticia; porque, além dos cargos declararem muitas vezes a assistencia das pessoas, parece cortezia que as que são mui conhecidas por seu titulo, e dignidade, basta essa, e o nome para serem buscadas. O primeiro modo é, como se escrevessemos a N. Vice-Rei da India, A. N. General de Portugal. O segundo como a N. Embaixador d'el-rei de Hespanha em a Côrte de Roma. E posto que estes assistam a tal tempo em villas, ou cidades particulares, não é necessaria outra leitura no sobrescripto. Não trato aqui das cartas enviadas aos reis, de seus vassalos, porque não entram n'esta regra as que vem dirigidas a seus conselhos particulares.--Bem podereis (disse o doutor) metter n'esse logar a historia de um letrado da minha profissão, que mandando uma informação á Meza do Paço, poz no sobrescripto: _A El-Rei nosso Senhor nos seus Paços da Ribeira, junto de Luiz Cesar_.--D'outro soldado ouvi eu contar (disse Solino) que escreveu á India: _A. N. Vice-Rei da India, nos Paços de Goa, defronte de um Lanceiro torto_.--Para gente tão nescia (disse Leonardo) não servem preceitos: mas em outra vejo muitas vezes sobrescriptos tão miudos, e sobejos, que pessoas muito particulares se podiam dar por afrontadas d'elles, como é: A fuão, em tal terra, em tal rua, detraz de tal parte, defronte de tal casa, e junto a N. E ás vezes é a pessoa tal, que deve ser mais conhecida por si, que pelas confrontações.--Dos sobejos (atalhou Solino) não posso eu calar um, que vi ha poucos dias, de um frade que escreveu ao seu provincial, que tinha cinco padres nossos, como conta benta, e dizia: _Ao muito Reverendo Padre nosso, o nosso Padre N. nosso Padre Provincial, no Convento de nosso Padre S. N. Padre nosso_.--Por isso digo (proseguiu Leonardo) que a noticia deve ser vulgar que nem afronte, nem lisongeie, nem sobeje, nem falte.--Mais provavel é (disse D. Julio) que se peque nos sobrescriptos por demazia, que por falta; porque todos dizem o nome da pessoa, e a terra para que escrevem.--Não já um (respondeu Pindaro) que escreveu: _A meu filho o Licenciado em Salamanca, que Deus guarde_, parecendo-lhe que bastava o grau em logar do nome. Mas que logar dareis vós aos titulos dos sobrescriptos? Que ha alguns mais compridos que as cartas que resam o nome, o titulo, o senhorio, o cargo, a commenda, e ainda as pretenções da pessoa a quem se escreve.--A mim me parece (tornou Leonardo) que os titulos é cousa conveniente, e necessaria; usados porém com moderação conforme ao que tenho dito: que noticia vulgar é ser um homem conhecido por o senhorio, e cargo que tem; e assim se ha de escrever de cada um o cargo que tem. e por onde é mais conhecido. Do senhorio como: _A. N. senhor de tal Villa_. E estando em ella: _A. N. na sua Villa N_. O que tambem se usa nos logares, e quintas, em que cada um assiste. Do cargo: _A fuão, do Conselho d'el-Rei, e seu Presidente da Fazenda, da Consciencia_, etc. _A fuão Desembargador d'el-Rei nosso senhor, e seu Ouvidor dos Aggravos_, etc. Tudo isto com a brevidade necessaria: por que o sobrescripto, como disse, serve de noticia, e não já de adulação. E na carta, não se permitte no sobrescripto o que se não consente no interior; como se algum escrevesse a este Fidalgo, e lhe quizesse pôr os títulos, que elle merece, no sobrescripto; convém a saber: _A D. Julio, Columna da nobreza de seus passados, e gloria das esperanças de sua patria_. Ou: _Ao Doutor Livio, honra e luz do Direito Civil, exemplo da philosophia, e thesouro da humildade_: cousas eram estas, que d'elles se podiam dizer: porém não são no logar do sobrescripto. E passando d'elles adeante.

A segunda cortezia é no papel, da cruz até á primeira regra; que ha alguns, que lhe põem os olhos muito junto com as sobrancelhas: outros, que lhe deixam pelo meio uma estrada de coches; e pela desconformidade, que ha entre uns, e outros, veio a ser a regra entre os eguaes, que fique em branco a quarta parte do papel, que vem a ser no alto a primeira dobra; e na ilharga um espaço razoado, que dá logar á mão para ter a carta sem cobrir as lettras, e para se cortar, ou passar chancella sem as offender.--E de que nasce (perguntou Pindaro) que muitos deixam mais de meio papel em branco da ilharga, e vão a cerzir a lettra com a cortadura da tesoura?--Esse erro, e outros muitos (respondeu elle) nascem de mudarem alguns os serviços ás cousas: porque a invenção não estava mal no seu logar, se a não fizeram servir nos alheios. Em cartas de negocio, feitas a pessoas occupadas, que se fazem por capitulos, e apartadas, ou perguntas sobre materias dos mesmos negocios, se deixa egual parte do papel para responder á margem em ordem a cada uma das cousas; e assim fica servindo para duas, uma mesma carta; mas estas não guardam a regra, nem a cortezia das missivas. O mesmo erro ha no que Solino primeiro apontou dos sobrescriptos: _Para vêr o senhor Fuão_, que nasceu de alguns papeis emmaçados, que se passavam de ministro a ministro com sómente aquelle sobrescripto sem outra carta, e sem terem mais de carta, que o irem cerrados, e sellados, deram occasião aos que usam o mesmo termo nos sobrescriptos d'ellas.

--Muitos erros ha (disse D. Julio), nascidos da mesma occasião. E posto que seja sahir um pouco fora do proposito, é tão grande bugia da virtude e da honra a vaidade, que, sómente por a seguir em as apparencias, tropeça a cada passo em desatinos. Este escreveu, _Para vêr_; porque N. Ministro, ou privado escreveu assim; e veste de tal panno, porque N. de maior qualidade o trazia; e o que este fez (pode ser por remediar o seu frio) faz outro á imitação, e se abraza de quentura. A Hespanha se passou o uso de vestir dos soldados de Flandres, por bizarria; e razão tinham de imitar em outras cousas aos praticos que militam em uma praça tão ennobrecida das nações da Europa; mas o que elles faziam obrigados do clima, e o sitio da terra, usavam os cortezãos por gala, levados do engano da verdade, os chapéos de aba grande contra a neve, os ferragoulos abotoados, e com descanços para o frio, as meias de escarlata debaixo de botas altas contra a humidade, as solas levantadas por detraz, para não resvalarem nos caramelos, as roupetas abertas sobre as armas; tudo isto, e outras muitas cousas, sendo inventadas pela necessidade, se passaram á galanteria. Deixo as côres de Rei, e da Infante, e a historia do Mercador com el-rei D. João o III, que lhe pediu que se quizesse vestir de um panno que tinha muito rico, o qual lhe daria de graça; que com este ardil, em el-rei o vestindo, vendeu elle a mór valia uma quantidade de peças d'aquella côr que lhe haviam entrado n'uma partida.--Não é isso sómente nas cartas, e nos arrojos, disse o doutor; que ainda passa adeante o engano. Em a côrte do imperador Carlos V, andando elle indisposto, lhe mandaram os medicos comer borragens, por ser herva medicinal para a sua enfermidade; e porque os fidalgos e titulares a viam de ordinario na meza imperial sem advertirem a occasião porque se fazia, veio a valer entre elles muito, e a fazerem mil iguarias d'aquella herva, de sorte que se semeavam tantas nas terras onde a côrte assistia, que não havia agros d'outro fructo. Vão-se emfim as cousas mal, e ás vezes são nascidas de bom costume.--Assim é (disse Solino) que até oculos, que se inventaram para remediar defeitos da natureza, vi eu já trazer a alguns por galantaria.--D'essa maneira seguiu D. Julio se devia mudar para as cartas o estillo dos papeis, que o não estão por imitarem aos validos. E tornando á cortezia, que cousas tem mais de que tratar?

--A terceira, tornou elle, é o nome, e signal do que escreveu a carta, que nem ha de estar tão junto das lettras, que pareça soffrego d'ellas, nem no meio do papel como quem escolheu melhor logar, nem tão apertado, que fique ausente das regras, nem tanto na ponta do fim, que pareça que se amuou áquelle canto; mas com um meio ordinario, como é assignar-se um pouco abaixo das regras, mais inclinado á parte direita que á esquerda, que é uma certa modestia, e humildade de quem escreve.--E que dizeis, (perguntou o doutor) do acompanhamento do signal? Porque ha uns que se nomeiam _servidor de vossa mercê_ N., outros _vassallo_; outros _captivo_, outros _seu_ N. e ha n'isto muita variedade, e ignorancia.--Primeiramente (continuou Leonardo) _servidor_ já se passou das cartas para os retretes: _servo_ para os matos, e _captivo_ para os comprimentos refinados em a pratica; _creado_, era termo bem creado, e _seu_ é descortezia: e por fugir d'esta, e de alguns extremos, o mais seguro é escrever cada um o seu nome sem mais leitura.--Não sejaes tão estreito nas licenças(disse Solino) que deitaes a perder cartas que só pelos comprimentos do signal merecem fama. Um homem escrevendo a sua propria mulher, se assignou _vosso servo N._, e ella o fazia tal na mesma ausencia. O outro, de que contam vulgarmente, porque corria nos signaes o _menor creado de vossa mercê N._, escrevendo a sua mulher se assignou _o menor marido vosso N._, e a senhora devia de ter mais varões que a Samaritana. De uma gentil dama sei eu (disse Pindaro) que escrevendo a um seu galante se assignou _sua N._, e elle lendo a carta, voltou para um amigo com que estava, e disse _sempre temi esta nova_; e perguntando-lhe o outro que era? Respondeu _sua N., e é principio de verão_: Outro em Coimbra, querendo-se humilhar muito aos pés de um amigo, a que escrevia, se assignou _Antipoda de vossa mercê N._--Quanto mais galantes são essas historias (tornou Leonardo) tanto mais de estimar é a moderação, e bom termo de não se sahir d'aquelle limite da cortezia commum; e passando d'ella ha de ter a carta regras direitas, que ha alguns que escrevem em escadas como figuras de solfa: lettras juntas, e razões apartadas, com a distincção dos pontos, virgulas, e accentos necessarios, para fazerem perfeito sentido das razões; porque ha cortezãos, que por aformosearem a lettra, e facilitarem melhor os rasgos da penna, vão encadeando as lettras pelas cabeças, como sardinhas de Galliza; e de maneira confundem a escriptura, que não ha tirar d'ella o sentido verdadeiro de seu dono; e ha cartas bem notadas, que por mal escriptas perdem reputação; o papel seja limpo para n'elle empregar sem fastio a vista o que ha de lêr, e porque pareçam melhor as lettras bem ordenadas; a chancella sutil, porque ao abrir da carta a não offenda, que alguns a fazem parecer carta rota antes de lida: dobras eguaes, porque o concerto auctorisa as cousas, e as faz parecer melhor: o sêllo claro, assim para lustro da carta, como para guarda d'ella, pois é o cadeado que a defende dos curiosos de saber segredos alheios.--Não corrais com tanta pressa (disse D. Julio) por essas particularidades, e miudezas, que em algumas d'ellas tinha perguntas que fazer; mas contentar-me-hei com as que se me offerecerem de novo sobre a materia das armas, e tenções com que se costumam sellar as cartas; e assim estimarei que nos digaes d'isto alguma cousa.

--As armas (respondeu elle) é a insignia que cada um tem de sua nobreza, conforme ao appellido com que se nomeia, e com o sinete d'ellas sella as cartas de importancia, ou com elmo, e folhagens sobre o paquife do escudo, ou com elle em tarja, como tenção; que estas como são pensamento, e desenho particular, se abrem ás vezes em redondo, ovado, ou quadrangulo, e outras figuras, sem respeitar a do escudo. Em Portugal é cousa muito antiga aos principes trazerem tenções, e emprezas com lettras, e ainda as usavam misturadas nas Armas Reaes, que posto que n'aquelle tempo não estavam tão apuradas como agora, nem eram sujeitas á arte, que d'ellas e para ellas fizeram os modernos, não lhes faltava entendimento, e galanteria. El-rei D. João o I trazia na orla das Armas uma lettra, que dizia: _Por bem_. E a rainha D. Filippa de Alancastre sua mulher, outra que respondia a esta em Inglez que dizia: _Me contenta_. O infante D. Fernando seu filho, o Santo, trazia uma capella de hera com seus cachinhos, e no meio d'ella a Cruz de Aviz, de cuja cavallaria era Mestre. O infante D. Pedro uma capella do carvalho com suas bolotas, e no meio umas balanças, e nas Armas Reaes, no banco de pinchar, em cada pé d'alto abaixo mãos, e por cima umas lettras escriptas muitas vezes, que diziam: _Dizer_, e entre cada palavra d'estas um ramo de carvalho com bolotas. O infante D. João, que foi mestre de S. Thiago, casado com a neta do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, trazia uma capella de ramos de silva com cachos de amoras, com as bolsas de S. Thiago no meio, e tres conchellas em cada uma com uma lettra em Inglez, que dizia: _Com muita razão_. O infante D. Henrique, Mestre na Ordem de Christo, trazia as armas do Mestrado, e de antigas de Portugal, e ao redor um cinto largo de correia, que abroxava no cabo de baixo, e uma fivella que fazia volta com a correia, e em Inglez a lettra dos cavalleiros de Garrotea, que elle tambem era, e dizia: _Contra si faz quem mal cuida_. E uma capella de carrasco, e no banco de pinchar tres flôres de lirio em cada pé. El-rei D. Affonso o V trazia pintado um mundo com esta lettra: _Conheço que não te conheci_. El-rei D. João II seu filho, trazia um rodizio, com esta lettra: _Setere_: e na outra trazia um Pelicano ferindo o peito, e dizia a lettra: _Pela lei e pela grei_. A rainha D. Leonor sua mulher, trazia uma rede de pescar, a que chamam rastro. El-rei D. Manoel, uma esphera com uma Cruz. A excellente senhora, uns alforges, e nas cevadeiras pintadas as Armas de Castella com esta lettra: _Memoria de mi derecho_. O marquez de Valença, neto do conde D. Nuno Alvares, trazia dois guindastes, que levantavam um titulo de pedra, com quatro lettras, cada uma por parte. E além d'estas ha memoria d'outras muitas, que dão testemunho do uso que d'ellas havia n'este reino.--Por certo, disse D. Julio, que estou assás contente do fructo que colhi da minha pergunta, por saber curiosidade tão notavel dos nossos principes antigos, que para a minha natural inclinação é a cousa de maior gosto, e interesse: e não fôra menor; pois falamos de Armas, e Tenções, e vós sois visto n'ella fazer que saibamos mais alguma cousa atraz d'esta materia, principalmente d'onde nasceu, e teve principio o uso dos Escudos de Armas, e das Tenções.

--Quanto á minha opinião (respondeu Leonardo) é que armas, e emprezas, ou tenções não tiveram no seu principio a differença, que agora lhes assignam os que d'ellas escrevem de lettras, e corpos sem lettras, com limitações, e regras mui apertadas. Antes me parece, que as armas eram as insignias que os reis, e imperadores davam aos seus para ser conhecida sua nobreza, conformando-se na figura d'ellas com a qualidade dos successos por onde as mereceram, ou com a antiguidade do sangue d'onde descendiam a quem as davam, e as que os mesmos reis tomavam para si em memoria de semelhantes feitos, ou derivadas por seus antecessores. Emprezas, ou tenções são as que os mesmos reis, principes, ou particulares tomam, conformando as figuras, e lettras com o desenho, e pensamento que cada um tem, para emprehender cousas altas. E d'aqui adeante entram as regras, que depois lhe aconteceram; que, por ser um discurso mui comprido, não tem logar em noite tão breve. Além d'estas ha, outras armas dos reinos, provincias, republicas, e cidades, que se devem chamar _diviza_, que tiveram principio ou das cousas de que são mais abundantes, ou da maneira em que fôram povoadas, ou adquiridas. E no que toca ao principio das armas, Hercules foi o primeiro que trouxe por armas a pelle do leão que matou na relva Nemea, depois da victoria que d'elle teve, e antes d'esta victoria trazia a mesma ínsignia do porco de Erimanto, que matou em Arcadia. Jazon trouxe por armas o Velocino de ouro, que conquistou. Thezeu o Minotauro. Ulysses, o Paladion, e Eneas o escudo que ganhou de Ulysses na guerra de Troia: estas eram verdadeiras armas, em memoria de valorosos feitos. E quanto ao principio das emprezas, escreve Pauzanias, que Agamemnon trazia no escudo a cabeça de um leão de ouro, com uma lettra que dizia: _Este é terror dos homens, e o que o traz é Agamemnon_. Antioco trazia por armas outro leão. Heitor, dois leões de ouro em campo vermelho. Seleuco um touro. Alexandre, um rei de ouro em seu throno em campo azul. Alcibiades um Cupido. Lucio Papirio o Pégazo. Cezar uma aguia preta. Pompeio um leão com uma espada empunhada. Judas Macabeu um dragão vermelho em campo de prata. Attila um açor coroado. E cada um d'estes, posto que poderam tomar a figura das armas em significação de feitos celebrados, e victorias adquiridas, só quizeram dar-lhe as figuras conforme ao seu pensamento; e Cesar, ao agouro que da aguia teve. E descendo ás armas particulares dos reis, que sabemos: As do imperador é uma aguia preta de duas cabeças em campo de ouro, em memoria da de Julio Cesar, e da união do Imperio Oriental, e Occidental. Armas d'el-rei de França são tres flôres de lirio de ouro em campo azul, que fôram milagrosamente dadas a el-rei Clodoveu. Armas d'el-rei de Portugal, os cinco escudos de azul em cruz, em signal do vencimento que o primeiro rei D. Affonso teve dos cinco reis mouros no campo de Ourique, e n'elles, e com elles, os trinta dinheiros de prata, por que nosso Senhor foi vendido, em memoria da sua Paixão, e do apparecimento que o mesmo rei vio antes da batalha: por orla das armas sete castellos de ouro em campo vermelho, e por timbre, um Drago coroado. Armas d'el-rei de Inglaterra, tres Leopardos de ouro em campo vermelho: posto que d'antes tinha el-rei Arthur por armas tres corôas de ouro em campo azul. Armas d'el-rei de Hespanha, os castellos, e leões, tão conhecidos no mundo. Armas d'el-rei de Frizia, um escudo de prata, riscado de linhas vermelhas, e atravessado com uma banda azul. Armas d'el-rei de Jerusalem, uma cruz de ouro nos extremos, com cruzetas do mesmo metal, e outras pelos vãos dos angulos. Armas d'el-rei de Polonia, duas aguias de prata e um homem em cima de um cavallo, do mesmo metal. Armas d'el-rei de Irlanda, uma harpa, e uma mão que a está tocando. Armas do Preste João da India, um crucifixo negro, com dois azorragues, em campo de ouro. Deixo outros muitos, como os bastões de Aragão, as cadeias de Navarra, a romã de Granada, as bandas de ouro, e vermelho de Malhorca, e outras que querer contar fôra infinito. Tem do mesmo modo as provincias suas armas. Primeiramente, as quatro partes, em que o mundo se divide: Azia, tres serpentes: Africa, um elephante: Europa, um cavallo: A America, um crocodilo: Italia tinha por armas antigamente o cavallo: Thracia, um Marte: Persia, um arco: Scythia, um raio: Armenia, um bode: Fenicia, um Hercules: Sicilia, uma cabeça armada: Albania, um cágado: Frizia, uma porca: Hespanha, um castello: Luzitania, uma cidade. As Republicas tem tambem suas armas particulares: A de Veneza, um leão com um livro nas unhas: A de Sena, uma loba: A de Genova, um S. Jorge: A de Florença, um leão com um livro de ouro. As Cidades, da mesma maneira: Athenas, a Coruja: Roma, a aguia: Lisboa, uma nau com os corvos, em memoria do corpo do glorioso Martyr S. Vicente, seu padroeiro: Coimbra, o drago, e a donzella coroada: Evora, as cabeças das vigias: O Porto, a imagem de Nossa Senhora entre duas torres: Leiria, uma torre entre dois pinheiros, e n'elles dois corvos. E assim todas as outras. Porém isto é já muito tarde, e gastámos n'esta materia mais tempo do que convinha á das cartas, em que começamos; e porque nas armas, e tenções nos não fique por saber algumas significações, e figuras de armas dos particulares senhores, e fidalgos de Portugal, que todas fôram merecidas com louvores de gloriosos feitos: deixando os animaes, significadores de fôrça, braveza, e velocidade: e os planetas de poder, antiguidade, e clareza, e outras figuras semelhantes: Banda significa postura de taboa: Escada, o engenho por onde se cometteu alguma obra de valor, ou difficultosa entrada, com risco da vida: faxa, ou barra, representa victoria da batalha singular de cavalleiro a cavalleiro, e quantas fôrem, tantos diremos que são os vencimentos com que se ganharam as armas. Parte de muro, torre, ou castello, significa ser ganhado, entrado, ou soccorrido, com esforço, e perigo da vida. Escadas, asteas, ou pedaços de lanças, denotam subida trabalhosa, ou defensão arriscada na mesma subida. Assim que a variedade dos corpos, ou forma que vêdes nas armas, todas nasceram de illustres façanhas, e valorosos feitos. E todas as das empresas, e tenções, dão signal claro do animo, e pensamento de seus donos: e com umas, e outras se devem sellar as cartas, de maneira que se divizem as figuras, e lettras d'ellas, como tenho dito.--Vejo (disse Solino) que temos a carta cerrada, sellada, e com sobrescripto, sem ainda sabermos nada do principal d'ella. Não vos enfadeis (respondeu elle) que na noite de ámanhã a abriremos, e leremos muito de vagar a estes senhores, se não ficarem de agora cansados do sobrescripto.--Antes (disseram elles) que só o dia seguinte lhes parecia comprido, e vagaroso. E dando fim á conversação d'aquella noite, deram o que d'ella ficava ao repouso, que com a moderada recreação de horas bem gastadas é mais aprazivel.

DIALOGO III

DA MANEIRA DE ESCREVER, E DA DIFFERENÇA DAS CARTAS MISSIVAS