Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)

Part 2

Chapter 23,107 wordsPublic domain

--Apostarei eu (disse Solino) que, se a Pindaro lhe armarem com poesia levantada sobre os bons conceitos, e versos, que com serem amorosos, sejam arrogantes, que o tomaram como passaro em visco.--Para isso (disse o doutor) arredar-lhe as occasiões, e vá com declaração, que não tratamos de poesia.--Essa condição (accudiu Pindaro) logo ao principio ficou declarada; que como exceptuastes livros divinos, n'esse numero devem estar os dos poetas, que mereceram este nome; e o que elles antigamente tiveram, e ainda agora lhe dão os Latinos, assim o deixa entender. E Platão quando d'elles escreve, lhes chama divinos interpretes dos deuzes, possuidos de espiritos celestes: d'onde Marco Tullio tirou os louvores, com que os trata. Origenes affirma que a poesia é uma virtude espiritual, que inspira em os poetas, e lhes enche o animo e o entendimento de uma divina força. Santo Agostinho lhes chama theologos para cantarem os louvores divinos. Diziam os philosophos antigos que, se os deuses falassem, seria em verso: trazendo exemplo do oraculo de Apollo, e das Sibyllas. Cassiodoro diz que a poesia tomou principio da divina escriptura. De maneira que por auctoridade de tão grandes varões, nunca os livros de poesia podem vir em competencia com os de que até agora tratastes; que d'outro modo já estivera concluida a differença.--O que eu vejo (tornou D. Julio) que, ainda que o doutor vos cerrara a porta, que mettido de ilharga dissestes tudo o que cumpria a vosso intento por junto, o quanto para mim estaes declarado; o com o desejo de ouvir a opinião do doutor, não digo o mais que me, parece.--Ora (respondeu elle) não quero que a essa conta fique o meu voto ás escuras; e digo, não falando em poesia, que não escolho lição de historiadores verdadeiros, nem tenho por melhor a dos fingidos; porque uns servem de conservar a memoria, os outros de enganar o entendimento: e serão melhores os livros que deleitem a memoria, e a vontade, e apurem, e levantem o entendimento, como os de recreação, que com alguma enganosa novidade tratam de materias politicas, e engraçadas: de côrte, de aldeia, e de qualquer sujeito aprazivel: e ha d'estes muito bem recebidos, approvados, e proveitosos na republica, cuja variedade, e doutrina é para mim lição muito saborosa.--Não estou mal com essa opinião (disse o doutor) o quasi que vós, e eu estamos em um mesmo pensamento; senão que deixastes de declarar o que agora me fica para dizer; porque até aqui falámos do modo de compor, e escrever livros; e não das materias, que escriptas serão agradaveis. E deixando em duvida o vosso parecer para se conferir com a tenção; o meu é, que o melhor modo de escrever são os dialogos escriptos em prosa, com figuras introduzidas, que disputem, e tratem materias proveitosas, politicas, engraçadas, e cheias de galanteria: sendo a primeira figura da obra o autor d'ella; e isso que vá guiando, e introduzindo as mais, que sejam apropriadas áquellas materias, de que hão de tratar entre si. E além de ser este estilo mais claro, mais vulgar, mais excellente, inclue em si a lição de todos os outros modos de escrever, como o são os da historia verdadeira, e fingida, das artes liberaes, e mecanicas; das sciencias, e disciplinas necessarias; das profissões particulares; da razão do governo; da vida politica ou privada. E quando este modo de escrever não tivera por si mais que a auctoridade dos que n'elle escreveram, como foi Platão, Xenofonte, Tullio, e outros infinitos: essa bastara para acreditar os dialogos. Além d'isto, eu tenho para mim que aquella é melhor escriptura, que com mais perfeição, e viveza imita a pratica, e conversação dos homens; porque assim como a melhor pintura é a que mais se parece com a obra da natureza, a que quer contrafazer; assim a melhor escriptura é a que retrata com mais semelhança o falar, e conversação d'entre os amigos. Nos poemas tinham os poetas antigos que o mais levantado era a tragedia pela imitação natural da pratica, com introducção de figuras, junto com a gravidade, peso, e tristeza dos successos tragicos. E porque tambem a variedade é a que mais costuma enterter, e deleitar o animo dos homens, e esta é mais certa, e mais propria nos dialogos, me parece que no gosto d'elles serão melhor recebidos.

--Pois assim é (disse D. Julio) que a principal razão porque approvaes os dialogos, é porque mais familiarmente se parecem com a pratica. Desejo saber qual é mais nobre cousa, se a pratica, se a escriptura: porque a mim me parece que á escriptura se deve o melhor logar, e que antes merecia a pratica por se parecer com ella; o que agora encontra a vossa opinião.--Nenhuma duvida ha (respondeu o doutor) que a pratica seja mais nobre, mais antiga o mais excellente; porque, além de o falar ser operação natural dos homens, e acto em que elles fazem vantagem, e differença a todos os animaes, a escriptura não é mais que uma escrava e servente das palavras, e o escrever não é outra cousa mais que supprir com um instrumento por meio da arte, e das mãos o que com a voz se não póde exprimir e alcançar com os ouvidos, ou por distancia de logar, como quem escreve aos ausentes, ou por discurso de tempo, como quem escreve para os vindouros. E porque nunca a escrava é tão nobre como a senhora a quem serve, em quanto escrava, nem o que substitue em logar d'outrem se lhe póde preferir no mesmo logar; assim nunca a escriptura póde egualar a nobreza e perfeição da pratica.--O contrario me parece a mim (replicou o fidalgo) porque nem por a pratica ser mais antiga, e primeira que a escriptura é mais perfeita; antes ella foi a perfeição da pratica: e posto que seja própria operação do homem o falar, não é n'elle menos nobre accidente o de escrever; antes me parece mais digno o que elle alcançou por arte, que o que adquiriu por uso: e quasi que ousaria a dizer que é operação sua o falar, dada a respeito de haver de escrever, pois esse é o meio de se perpetuar, sustentando no entendimento dos presentes, e na lembrança dos futuros a memoria das cousas passadas. Assim que nem por a primeira razão merece a pratica melhor logar, nem a escriptura, por servente e ministra sua, é menos nobre. Porque o sol serve de mostrar as cousas creadas, que lhe são muito inferiores, e de dar luz e nutrimento a outras de menor qualidade, e nem por isso ellas se lhe podem antepôr. E quanto a substituir a escriptura em logar da voz, ella o faz por tão excellente maneira, que lhe tem muita vantagem; pois o que a voz não póde exprimir juntamente em differentes logares, e a diversas pessoas em um mesmo tempo, o faz a escriptura com grande perfeição, podendo muitas pessoas, em differentes logares, lêr em um mesmo tempo a propria cousa: pelo que me parece que, ainda que a vossa escolha fosse boa, não fundastes bem a razão d'ella.--Certo (disse Leonardo) que de ambas as partes déstes tão boas razões, que fica duvidosa a melhoria. Porém concedendo á pratica a excellencia, a acção, o modo e a graça de falar, que é uma viveza a que se não eguala outra nenhuma lembrança; a escriptura tem tantas grandezas que parece egualmente necessaria para a vida, pois ficava o mundo ás escuras sem a luz da dilação escripta; e só na tradicção dos homens se salvaria a memoria das cousas; e nas principaes dominaria a ignorancia com mero imperio. Porém, deixando isto por averiguar, pois com tanta galantaria e agudeza está tocado o que baste, quero que passemos adeante, e, por me fazerdes mercê, que me ensineis se na pratica, em voz, e na escriptura considerada tem bom logar a nossa lingua portugueza; porque ouço de má vontade a alguns naturaes que tratam mal d'ella e a condemnam por grosseira e limitada.

--Uma cousa vos confessarei eu, sr. Leonardo (disse a isto D. Julio) que os portuguezes são homens de ruim lingua, e que tambem o mostram em dizerem mal da sua, que assim na suavidade da pronunciação, como na gravidade e composição das palavras é lingua excellente. Mas ha alguns nescios, que não basta que a falem mal, senão que se querem mostrar discretos, dizendo mal d'ella: e o que me vinga de sua ignorancia, é que elles acreditam a sua opinião; e os que falam bem desacreditam a ella e elles.--Bravamente é apaixonado o sr. D. Julio (acudiu o doutor) pelas cousas da nossa patria: e tem razão, que é divida que os nobres devem pagar com maior pontualidade á terra que os creou. E verdadeiramente que não tenho a nossa lingua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa; antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, efficaz para mover, dôce para pronunciar, breve para resolver, e accommodada ás materias mais importantes da pratica e escriptura. Para falar é engraçada com um modo senhoril: para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a musica: para prégar é substanciosa, com uma gravidade que auctorisa as razões, e as sentenças: para escrever cartas nem tem infinita copia que damne, nem brevidade esteril que a limite: para historias nem é tão florida que se derrame, nem tão secca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céo da bôcca com aspereza, nem arrancar as palavras com vehemencia do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as linguas o melhor: a pronunciação da latina; a origem da grega; a familiaridade da castelhana; a brandura da franceza; a elegancia da italiana. Tem mais adagios e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade. E se á lingua hebrea pela honestidade das palavras chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em materia descomposta quanto a nossa. E para que diga tudo, só um mal tem, e é que pelo pouco que lhe querem seus naturaes, a trazem mais remendada, que capa de pedinte.--Folguei extranhamente de vos ouvir (disse Solino) por não ficar tão covarde, como até agora estava, em ouvindo murmurar da lingua portugueza; e não ousava, ou não sabia dizer a minha opinião, a qual cuidava que me nascia do amor que lhe tenho, e que cada um tem ás suas cousas como o corvo aos filhos, e Pindaro ás suas trovas. Porém quando um homem tão bem fundado na razão como o doutor, e tão auctorisado em seu parecer sustenta esta parte, nenhuma haverá já tão rija, que me tire o atrevimento.--Nem a lingua (disse Pindaro) pois não ha amizade que vos faça perder o costume.--Perdoae-me (tornou elle) que vos feri por não perder o golpe. E tornando ao que aqui se tratou para recordar o que começamos, averiguou o doutor que a melhor maneira de escrever eram os dialogos (ficando meu direito reservado nos livros de cavallarias), tocaram-se louvores da pratica e escriptura com muito engenho; declarou-se como a lingua portugueza não desmerece logar entre as melhores, para n'ella se escreverem materias levantadas, apraziveis, proveitosas e necessarias. Que falta entre vós para que d'estas noites bem gastadas, d'estas duvidas bem movidas, e d'estas razões melhor praticadas se faça um ou muitos dialogos, que sem vergonha do mundo possam apparecer nas praças d'elle á vista dos curiosos, e ainda dos murmuradores?--Tem Solino muita razão (disse D. Julio) e se assim forem os dialogos como se podem formar com a pratica de alguns que estão presentes, bem se auctorisará a opinião do doutor, posto que a minha fique de vencida com a vantagem que aqui tem a pratica das escripturas alheias. E pois se aproveitam tão bem as noites n'este logar, razão é que por meio d'elles se communiquem a quem se aproveite da doutrina e interesse d'ellas.--Se eu não dormira tão poucas horas da passada (disse o doutor) ainda houvera de proseguir adeante e responder a isso; mas com vossa licença me vou recolher e amanhã accudirei mais cedo.--Acompanhemos o doutor (disse o fidalgo), e levantando-se elle, se despediram todos com muita cortezia, deixando ao senhor da casa magoado de se acabar tão depressa a conversação; que quem sabe estimar a que é tão boa, tem sentimento das horas que d'ella perde.

DIALOGO II

DA POLICIA E ESTYLO DAS CARTAS MISSIVAS

Ficaram os amigos tão affeiçoados á conversação d'aquella noite, que, por fazerem a do outro dia mais comprida, acudiram a ajuntar-se logo depois de se pôr o sol; porém cada um com pejo de ser o primeiro, passeavam em dois postos, o doutor com D. Julio, e Pindaro com Solino á vista da casa de Leonardo, até que elle chegou á janella; e mostrando o mesmo desejo que os quatro traziam, facilitou o receio e approvou as horas. Subiram todos, e disse o doutor:--Pareceu-me este dia tão comprido, na esperança da noite, como aos trabalhadores que devem o jornal.--E a mim (tornou Leonardo) a noite, depois que me deixastes, tão importuna como quem espera a manhã para cousa de seu gosto: e assim não é muito que vós viesseis tão cedo, e que a mim me pareça que já era tarde.--Todas as cousas que se desejam muito (tornou D. Julio) por pouco que se dilatem, tardam mais.--E as que se temem (proseguiu Solino) por muito que tardem, parece que se anticipam. D'onde um disse maravilhosamente que o que queria que a quaresma lhe parecesse breve, devesse pagamentos para a Paschoa. Emfim chegou mais cedo este prazo que todos desejamos: e se o senhor da casa dormiu pouco, eu apostarei que ha algum na companhia que se desvelou mais.--Não era occasião para descuidos, (disse o doutor) e nos mancebos era demasiada desconfiança entrar n'esta batalha desapercebidos.--Os apercebimentos (tornou o fidalgo) podem fundir muito pouco: porque como até agora é incerta a materia de que se deve tratar, serão sem fructo as diligencias.--É engano (replicou Solino) que nunca falta uma carta em que prender; como um homem tem as suas apuradas e ha cousas que se levam a rasto como corpo morto, e quando sejam bem cuidadas, nunca são mal ouvidas. E se não, digam-n'a as olheiras com que esta manhã vi a meu amigo Pindaro.--Já sei (disse Pindaro) que vêdes mal: mas contra mim ainda é peior a vossa tenção que a vista; não me pagaes bem o que vos mereço, mas é na moeda que tendes.--E na que corre (tornou elle) que o rifão de agora diz que fazer e dizer mal, nunca se perde. Não vos escandaliseis; que tudo ha nos homens e nas cartas. Essa (disse então D. Julio) hei eu de partir: porque desejava muito alçar por ellas; e pois o doutor falou hontem em cartas missivas, e approvou para ellas a lingua portugueza, nos ha de declarar o que ha de ter uma carta para ser cortezã e bem escripta.--Esse cargo (tornou o doutor) convem mais ao senhor da casa: porque ainda que a carta consta de lettras, não é profissão de lettrado fazel-as cortezãs: e quem sabe tanto do estylo da côrte como Leonardo, póde dar lei para ellas.--Vós (respondeu elle) sois doutor em tudo, e meu superior em todas as materias, e como tal me podeis dar o grau de cortezão. Eu o quizera parecer na confiança, e em obedecer ao gosto d'estes amigos. Mas para eu proseguir com auctoridade é bem que vós comeceis a principiar a materia: dizendo, que nome é _carta_, e o seu principio, pois me daes o cargo antes de estar apercebido para elle.--Bem sei (lhe respondeu o doutor) que por me honrardes a mim tomaes tudo á vossa conta; folgarei de a dar boa do que me encommendaes.

Este nome _carta_ é generico, e teve origem de uma cidade do mesmo nome, d'onde foi natural a rainha Dido, que, por o amor que tinha á sua patria, pôz á que edificou por nome _Cartago_. E porque em carta se inventou primeiramente a maneira em que se escrevia (ou fosse papel, ou outra cousa semelhante a elle) tomou d'ella o nome como de _Pergamo_ o _pergaminho_. É para saber que nos primeiros tempos, quando se inventaram as lettras, escreviam os homens nas folhas das arvores: como ainda hoje nas da palmeira escrevem os gentios de algumas partes do oriente: as Sybillas n'ellas escreveram suas prophecias; e assim se chamaram a seus escriptos _folhas sybillinas_; e ainda na linguagem portugueza se conserva alguma cousa d'esta antiguidade, pois dizemos _folhas de papel_ sem o papel ter folhas, mas é em lembrança das primeiras que se usaram na escriptura. Depois se escreveu em uma casca tenra de arvores, que é o entreforro da cortiça. E porque a esta chamavam _livro_, conservam ainda agora elles o nome, e a divisão que agora fazem os escriptores de _livro primeiro_, _segundo_, e d'ahi adeante é o numero, porque então deviam contar aquellas cascas. Tambem se escreveu em o miolo de uma maneira de juncos, a que chamaram _papiros_: d'onde aos latinos ficou o nome para o papel. Depois se escreveu em taboas nas quaes sobre cêra, com um instrumento de ferro ou de latão, a que chamavam _estylo_, se assignavam as lettras; e do ferro com que se escreveram, se veiu a derivar o que agora dizemos _bom_ ou _máu_, _humilde_ ou _altivo estylo_ de escrever, passando-se por translação a perfeição do instrumento ao concerto e policia das palavras. D'este proprio modo se usa no nome de carta, que alcança em genero a todo genero de papel escripto e ainda pintado. Os portuguezes fazemos este nome particular tomando _carta missiva_ por a principal de todas; e assim basta dizermos _carta_, sem mais declaração, para se entender que é esta; porém nas especiaes d'ellas usam o nome com seus attributos. E nos instrumentos judiciaes, que testemunham antiguidade, se diz _carta precatoria, dimissoria, citatoria, de liberdade e de venda_, e outras muitas: e ainda as de jogar, sem terem lettras, se chamam commummente cartas. E a gente aldeã, conservando alguma cousa da antiguidade, a qualquer estampa ou pintura em papel chamam _carta_. Os latinos puzeram nome ás cartas missivas _Epistola_, do verbo grego, que quer dizer _mandar_: e _letras_, porque a carta consta d'ellas. Os italianos deram singular e plural a este nome segundo. E na nossa lingua a que chamam limitada, não faltou nenhuma d'estas differenças, antes houve maior perfeição: porque a umas chamaram _cartas mandadeiras_; ás que tinham menos de papel, _escriptos_; e ás cartas de Italia _lettras_, que são as de Roma, e as de cambio; porque deviam ter o mesmo principio; porque logo nos de Portugal mandavam os reis d'elle por lettras copiosas doações á sé apostolica, do que conquistavam. De maneira que o nome de carta, quanto á sua origem, é geral e commum; e entre nós particular das cartas missivas; e pois lhe descobri o nome, é necessario, sr. Leonardo, que lhe deis agora o ser.