Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 12
Primeiramente no movimento, e graça do falar, chamou Marco Tullio _eloquencia do corpo_: e Quintiliano disse que com todas as partes d'elle se ha de ajudar a pratica. E posto que esta doutrina parece que convinha então aos oradores, como agora aos prégadores, uns e outros praticam, e em todo o tempo é necessaria: e assim pintaram alguns o jeroglifico da rhetorica com uma mão aberta, outra cerrada.--Muito contraria me parece essa lição (disse D. Julio) á policia da côrte, onde é regra que o homem ha de falar com a lingua, e ter quieto o corpo e as mãos.--Eu concertarei essa regra com as minhas (replicou o doutor), que o homem no falar nem ha de parecer estatua, nem bonifrate: e logo vereis que o que quero dizer é o mesmo, em que vos quereis anticipar. O primeiro instrumento da pratica é a voz: e, para essa ser engraçada no falar, ha de ter estas propriedades, _Ser clara, branda, cheia, e compassada_: porque a voz escura confunde as palavras, a aspera e secca tira-lhes a suavidade; a muito delgada e feminina faz impropria a acção do que fala; a muito apressada empeça e revolve as razões, que por si podem ser muito boas: não trato das que a natureza inhabilitou para esta perfeição, como é a voz do gago, do cicioso, e do rustico grosseiro: mas na do cortezão tomara eu estes attributos; porque ha alguns que falam com a voz tão mettida por dentro, que deixam as palavras para si, e os ouvintes ás escuras, que lhes é necessario estar espreitando o que lhes querem dizer: e outros, que pronunciam com tanta aspereza, que espinham as orelhas dos que escutam; e outros, que falam tão apressadamente, que parece que levam esporas na lingua.--Entre vozes (disse Solino) tambem eu hei de soltar a minha: e no que é a voz cheia, que dizeis, quizera saber a differença; porque eu tenho que ainda é peor a muito grossa que a feminina: porque ha homem que, quando fala, mais parece tom de baixo, que espirito de voz. E egualmente aborrece vêr um homem com um rosto como uma peneira, muito versudo da barba e sobrancelhas, sahir com voz de frauta muito exprimida.--O meio (respondeu o doutor) em todas as cousas é a perfeição d'ellas: e se estaes bem lembrado, tambem deixei de fora a voz grosseira, como a quem a natureza privou da graça no falar. Depois da voz, os olhos dão muito espirito ás razões: porque, como elles são as janellas d'alma, por elles se communica vida ás palavras: e assim hão de ser claros, alegres e moviveis: porque os muito intensos, e extendidos entristecem; os muito apertados e franzidos movem a desprezo; os muito abertos, pasmados, e sahidos para fora, fazem temor; e posto que os olhos, por risonhos, nunca perdem a graça, parece que nas praticas graves, e de importancia, não hão de ser muito chocalheiros.--N'isso tendes vós muita razão (disse D. Julio) que ha homens. que dão olhado ao que falam: porém não vos esqueçaes das sobrancelhas.--Tambem a acção do falar toma muito d'ellas (tornou o doutor) porque franzidas fazem carranca, e mostram que fala um homem com melancholia; baixas representam tristeza, ou vergonha; muito arqueadas significam espanto; e levantadas alegria. E não menos convém a composição da barba, que fincada nos peitos mostra desconfiança ou porfia; e posta no ar vangloria: e o pescoço, que nem se ha de ter tão levantado que faça soberba nas palavras, nem tão baixo, que pareça que não pode com a cabeça; a qual não ha de estar tão firme, que pareça que a espetaram n'elle; nem se hade quebrar para todas as partes como grimpa. Da mesma maneira a bôcca ha de ser quieta quando fala, sem estar mordendo beiços, nem torcendo-se, nem inchando com as palavras; nem com o riso se ha do mostrar tão descuidada, que as entorne pelos cantos; nem tão apertada, que offenda a boa pronunciação e graça d'ellas; no que vae mais á lingua portugueza, que a outras muitas: porque sabemos que todas as nações orientaes naturalmente opprimem a voz na garganta quando falam, como os Indianos, Persas, Assyrios, e Chaldeus: e todos os Mediterraneos referem as palavras aos padares da lingua, como fazem os Gregos, Frygios e Asiaticos: e todos os occidentaes, como os Francezes, Italianos, e Hespanhoes, mastigam as palavras entre os dentes, e as pronunciam na ponta da lingua: posto que em alguns logares, conquistados outro tempo dos Africanos, ficaram usos e palavras, que ainda obrigam a sua pronunciação; mas os que estão mais izentos d'ella são os Portuguezes, como aqui na primeira noite da nossa conversação se tocou. Além d'estas partes do rosto tem o movimento do corpo o seu logar: que pode parecer airoso, quando fala, mostrando as materias sobre que fala nos contos, historias, graças ou galanterias, não representando o que diz com meneios de comediante, nem com modestia e compostura sobeja, mas com uma boa sombra, e um termo no persuadir assocegado, no relatar mais ligeiro, no arguir esperto, no desculpar ou defender-se mui brando; nem fazer badallos dos pés quando fala assentado, bolindo sempre: nem estar com os olhos n'elles quando passeia. Sobre todos os mais gestos ou acções, que tenho tocado, se ajuda a pratica do movimento das mãos, que ha de ser com um leve ar e compostura, com que o discreto favorece as palavras que diz, não falando com ambas ellas, nem chegando com alguma perto da vista dos ouvintes; e guardando estas e outras advertencias semelhantes, pode fazer um homem uma agradavel gentileza no praticar, emendando algumas faltas da natureza, ou favorecendo com o cuidado as graças, que ella lhe dotou: não tratando dos incuraveis, a que já não possam valer estes remedios; mas dos que á falta d'elles, e com o largo discurso de maus costumes se vieram a fazer incuraveis.--Parece que daes a entender, senhor doutor, (disse Pindaro) que ha mais algumas advertencias, que podem ser de importancia n'esta materia: e, para a tratar de fundamento, não é razão que fiquem de fora.--Para essas e para o mais, que tenho dito (respondeu elle), nomearei alguns vicios, que são contra o bom termo da pratica; que, reprovados n'ella, acreditarão as minhas opiniões, a que eu não posso nem quero dar nome de preceitos, posto que são fundadas em os melhores dos que d'esta materia escreveram.
O primeiro é _escutar-se um homem a si proprio quando fala, por se contentar do que diz_.
O segundo _repetir outra vez o que tem dito, com os olhos nos ouvintes, para que lh'o gabem_.
O terceiro _deter-se tanto nas palavras como que as vae pezando, e compondo para as dizer_.
O quarto _ir-se arrimando a bordões para que lhe accudam em tanto as palavras_.
O quinto _ir á mão ao que quer responder, por querer falar tudo_.
O sexto _bracejar muito, e dar grandes risadas a seus proprios ditos_.
O setimo _borrifar as palavras com o humidade da bôcca, por falar com vehemencia_.
--Vós (accudiu Solino) formastes aqui uns sete peccados mortaes contra a discrição, e cortezania, que não merecerá n'ella ter graça quem n'elles estiver culpado. Cada um dos presentes examine sua consciencia, porque receio que falaes de proposito contra alguem.--É tão má a vossa natureza (lhe tornou o doutor) que quer perverter a minha boa tenção, e d'estes peccados contra a policia tirar outros que offendam a amisade: vale-me porém ser a vossa conhecida. E proseguindo a materia dos vicios, os tres primeiros nascem do amor proprio que cada um tem a suas cousas, a que os gregos chamaram _Filaucia_: os quatro seguintes, ou da ignorancia, ou do descostume e falta de doutrina cortezã. Escutar-se um homem, quando fala, é de quem bem lhe parece o que diz: e posto que o vicio é natural, tem ruim patria; que o homem, que se escuta, é lisongeiro de si mesmo, e elle se paga por si de suas palavras, vendo-se e enfeitando-se n'ellas como em espelho, conforme os proverbios antigos, que _a cada um parece o seu formoso_; e outro, que _não ha melhor musico que cada um a si mesmo_; e que _a cada um contenta o seu rosto, a sua arte, e cheira bem o seu suor_.--Outro (disse Solino) me parece a mim melhor que todos esses, porque os declara; e é que _quem se contenta a si contenta a um grande nescio_; que não pode deixar de o ser o que do seu engano se satisfaz. E não achareis discreto d'esse feitio, que não caia nos tres primeiros laços: porque são encadeados uns com outros: e em se escutando um homem a si, o vereìs ir encarecendo as palavras com as sobrancelhas, enchendo com ellas a bôcca, e pronunciando-as com muito cuidado.--D'esses disse Horacio (accudiu Pindaro) que _falavam empolas_; é está muito bem o nome á inchação das suas palavras. Mas o segundo vicio, que é da repetição, parece menor erro; porque o que é bem dito se pode repetir, conforme ao que disse o poeta; e só será a culpa quando o dito não fôr acertado.--Essa estimação não ha de ser feita por seu dono (respondeu Solino), nem elle pode pôr o preço a suas palavras, cuidando que fala ouro; em obras alheias, referidas por outrem, tem logar essa desculpa; e não se podem servir d'ella os que com os olhos, e com a repetição do que disseram, estão puxando por vós a que lh'as gabeis, e vos contenteis á força da sua razão; e mettem de quando em quando um _entendeis-me? estaes commigo? digo bem? que vos parece? não sei se me declaro_. De maneira que, para encarecerem o seu aviso, fazem dos outros nescios. E com este cahem logo no terceiro, que é deter-se muito em cada palavra, soltando-as por compasso, dilatando uma da outra, porque se não peguem: e é vicio, que fará ser aborrecivel a todo o mundo a quem o tem; e até á mesma discrição fará importuna este mau uso d'ella. E mais é mui certo andar annexa esta boa parte a uma fala de doente mui molle; que tudo junto vem a ser um xarope de semsaboria, que não ha quem o leve. O quarto não entendo bem, porque não sei ao que chama _bordão_ o doutor.--Sabei (disse elle) que os arrimos, a que se pega ou encosta o que fala, quando as palavras lhe cançam, se chamam _bordões_, e são de duas maneiras: uns que pertencem, ou para melhor dizer, que são impertinencias nas acções do falar; e outros nas palavras: os primeiros são mais culpaveis que os segundos, porque ha um que não sabe praticar comvosco sem vos estar desabotoando, ou alimpando o cotão, e arrancando a frisa do vestido: outro, que a cada palavra vos pega do cinto, ou travando-vos do braço vos molesta: e ainda ha alguns tão desatinados, que vos dão com a mão nos peitos a cada cousa que dizem: e outros que, se deixam de entender com quem praticam, o hão comsigo, não estando quietos com as mãos; esgravatando os dentes, ou bolindo nos narizes e falando, tirando cabellos da barba, e mordendo as unhas; e outros vicios semelhantes, que servem como uns espaços e reclamos, a que lhe acodem as palavras. Os segundos são mettidos na mesma pratica com alguns, que em cada palavra d'ella mettem um _diz_, _assim que digo_, _tal e qual_, _sim senhor_, _vae vem_, _então_, _senão quando_, _espere vossa mercê_, _assim que senhor_, _estaes commigo_; e outros muitos, fora os que vós apontastes no vicio da repetição, que são bordões da primeira classe.--Certo (disse Feliciano) que tem muita razão o doutor em dizer que este vicio e os dois, que se seguem, nascem do descostume, e falta da doutrina cortezã: porque eu alcancei ainda por condiscipulo um estudante, que na opinião dos mais não era tido por o que falava peior, que, por o grande odio, que tinha aos bordões, inventou um modo excellente para os desterrar da conversação dos amigos, com que tratava de ordinario; e foi um jogo de não menor engenho, que utilidade; e pelo exercicio d'elle se perdeu até a semente dos bordões entre aquelles amigos.--Não vos esqueçam (disse Leonardo) os termos de tão bom jogo, que já pode ser que occupemos com elle uma noite, mais bem empregada, do que o remedio será necessario para os presentes, porque não são dos homens limitados, que se apegam a estes encostos: e se quereis conhecel-os, ouvi-lhes contar uma historia, e metter-vos-hão n'ella mais bordões, do que tem de palavras.--O quinto vicio (proseguiu o doutor) é incomportavel; porque ha homens tão sôfregos de falarem tudo; que atalham as palavras ao que lhes começa a responder, querendo anticipar com o seu entendimento a tenção alheia.--Esses taes (disse Solino) falam a duas mãos, porque querem que vá tudo por elles. E como me acho entre esses, por não pedir por mercê que me ouçam uma palavra, deixo o feito sem parte; e como ficam falando á reveria, desfaço as suas sentenças com uma bochecha de agua.--Esses faladores são como cigarras, que atrôam, e não deleitam (disse D. Julio) e é sentença mui approvada entre cortezãos que tres cousas não ha de haver entre elles demasiadas, _sobeja parola, comprida porfia, e grande rizada_; porque _quem muito fala d'elle damna_ (como diz o rifão) _e com quem aporfia não disputes; e onde ha muito riso ha pouco siso_; que todos estes pertencem á conversação.--Essa terceira parte (proseguiu o doutor) é do sexto vicio, que é bracejar quando fala, e festejar com risadas seus proprios ditos o que se quer vender por discreto. E assim vereis alguns, que falam ás pancadas; e se acharem um pulpito deante, o farão em pedaços, como se a policia podéra soffrer o desassocego e inquietação da sua esgrima. As risadas, além de arguirem falta de entendimento, são mais impertinentes quando um homem festeja seus proprios ditos; que, para terem galanteria, elle, que os diz, ha de ficar sisudo; e os que o ouvem, risonhos. E assim os engraçados de nossos tempos que conhecemos, e outros, que deixaram esse nome, sabiam festejar moderadamente as graças alheias, e dissimular o riso nas suas, fazendo menos caso d'ellas.--Duas cousas (disse D. Julio) se me offerecem para vos perguntar n'essa materia: e seja a primeira, que moderação se ha de usar no riso, com que um homem festeja o conto ou graça do que falla deante d'elle?--Os homens (respondeu o doutor) não hão de ser tão sevéros que nunca riam como Catão Censorino, Anaxagoras, e Sócrates: nem como Marco Crasso, que rio uma só vez na vida; pois é definição e differença do homem _ser animal racional_, e a sua propria paixão é _ser rizivel_: porém não menos se ha de guardar de ser desentoado nas risadas; que, para n'isto haver uma moderação politica, lhe buscaram os antigos muitas differenças: e deixando o riso Jonio, Megarico, Sardonio, e Synclusio, dos quaes falam tantos auctores gregos, e latinos; colhida d'elles a melhor doutrina, não ha de rir o homem com a bôcca aberta que dá grande tom ao riso, nem com os beiços apertados, como costumam os que tem cieiro n'elles; nem sómente mostrando os dentes, que a estes chamaram os latinos _riso de cavalgaduras_; nem com um riso molle e affeminado, como era o Jonio; mas com uma boa sombra e graça na bôcca e no ar do rosto, com que se mostre, agradecido do que escuta. E se esta resposta vos satisfaz, bem podeis continuar com a segunda pergunta.--Ainda que as minhas (tornou elle) não fôssem muito a proposito, com o interesse de vossa doutrina ficariam desculpadas, como será esta: Se na graça, que outrem conta, em que eu a não acho, sou obrigado em primor cortezão a me mostrar risonho? Obrigado é o cortezão (respondeu o doutor) a se mostrar agradavel aos com quem se pratica: e não o poderia ser quando seccasse o riso na occasião, em que outrem mette cabedal para o provocar a elle; que seria mettel-o em desconfiança.--Eu me dou por satisfeito (disse o fidalgo) e já agora podereis passar ao setimo erro; em que ha pouco que discorrer segundo me parece; que nao é mais que um descuido e desattento dos que, mostrando o fervor do animo com que falam, borrifam com humidade o que dizem, e ás vezes a quem os escuta.--Não cuido eu (disse Feliciano) que são esses os de que trata o proverbio, que _falam fontes de prata_.--Antes (tornou Solino) lhes chamara eu _homens que falam frescos_ que nem uma manhã de abril deixa tao orvalhado um campo do boninas, como elles a roda dos que os estão ouvindo; e para estas immundicias houvera de ter a discrição um Almotacé da limpeza.--Desterrados pois (continuou o doutor) da conversação estes sete inimigos d'ella, parecerá um homem cortezão aos que o escutarem, falando agradavelmente nas palavras as leis que agora lhe der o senhor Leonardo: que posto que a verdadeira discrição seja natural, nenhum dos dons da natureza deixa de receber beneficio da arte, da continuação e dos costumes.--Muito depressa vos quereis desobrigar (respondeu Solino) e eu ainda esperava que passasseis pela minha porta, dando algum toque na murmuração, como déstes no riso: que tambem estes preceitos são fóra das palavras.--O riso sim (lhe tornou elle), mas não o murmurar; que é culpa que não se attribue á pratica, posto que alguns digam que sem esse sal a mais discreta é pouco saborosa: e é porque ha muitas cousas, que não queremos dizer, e folgamos em extremo de as ouvir. Assim que o que murmura ordinariamente agrada a gostos alheios de gente ociosa, com risco proprio. Porém, por fazer as pazes comvosco, entrarei em contendas, de que estou desobrigado, tocando na murmuração engraçada; e para lhe dar logar, a metterei no meio de uma sentença excellente, que diz que _dos animaes bravos a peior mordedura é a do praguento_; e _dos mansos a do lisongeiro_. O praguejar é maldade, o lisongear traição, o motejar levemente galantaria: o discreto nem ha de morder, nem lamber; porém picar levemente, e com arte, é graça da conversação. Para o que, deixando auctoridades, exemplos, preceitos, e cousas infinitas, que poderão levar grande tempo: o cortezão, quando arguir para graça, ha de considerar tres cousas: o que fala, com quem, e deante de quem. O primeiro por fugir de materia em que o presente desconfie: o segundo por não motejar com quem não saiba pesar e conhecer as galantarias: o terceiro por não falar graças, de que, algum dos ouvintes se envergonhe: porque de outro modo, sendo a graça pesada, perderia o nome. Não falo do murmurar de ausentes, que em todo o modo me parece culpavel. E bem podiam servir para lei d'estas galantarias as vossas, que a todos agradam, e que, se aos ouvintes não fazem fastio, tão pouco aos offendidos causam queixume.--Lembra-me (disse Pindaro) que no quinto vicio condemnastes o querer um homem falar tudo: e não déstes regra aos que falam pouco.--Seria (respondeu o doutor) por me conformar com uma sentença, que diz: _Aos que pouco falam, poucas leis lhes bastam_. Além d'isto até agora não tratei dos louvores do silencio, nem da verdade d'aquelle dito: _Assás sabe o que não sabe; se calar sabe_. E o outro, que: _O nescio calando, parece-se com o discreto_. Falo sómente da maneira de praticar entre os amigos, onde as palavras não tem mais que estas duas medidas, que são _falar a tempo_, e _a proposito_: a tempo, porque nem em todos se pode dizer tudo o que é bem dito.
Nas comidas se ha de fugir falar em cousas que enojem o estomago, e offendam ao gôsto, ainda que em outros logares podem dar muito. Entre enojados não dizer graças, ou contos, que desautorisem a tristeza, e provoquem a riso. Entre enfermos não contar historias, que causem temor ou desconfiança em seus males. Entre ecclesiasticos guardar-se de coisas que saibam a lascivia, e profanidade. A proposito; porque ha muitos, que se desviam do principio da pratica, de maneira que do primeiro salto vão parar a Flandres; outros, que em tudo querem metter uma historia que sabem, contar uma nova que lhes veiu, um dito que ouviram, um sonho que sonharam; e pela deleitação, que tomam de contar coisas proprias, perdem o decóro, com que hão de escutar as alheias, e o tento do que elles mesmos respondem: e tambem me a mim parece que me vou mettendo nas que não são minhas; que me fizeram passar os termos de maneira, que nem a meu amigo ficou tempo para continuar com a segunda parte d'este discurso.--Vós dizeis tudo tão bem (tornou Leonardo) que se perde pouco no que eu havia de accrescentar, quanto mais, que o que se dilata não se tira; e já ámanhã terei cuidado, ou espaço de cuidar no que hei de dizer, por não cahir no terceiro peccado de ir compondo as palavras com o vagar que enfastia.--Em casa cheia (disse Solino) de pressa se faz a cêa; e em entendimento tão rico, como o vosso, nem de cousas, nem de palavras pode haver pobreza: guarde-vos Deus de uns meus senhores, que as pedem fiadas aos livros de cavallarias, com suas sentenças de cabo de capitulo, que se se lhe atravessa um escarro de um dos ouvintes, varreu-lhes toda a prégação da memoria, e vão com a pratica em muletas até tomarem assento com muito trabalho seu, e de quem os escuta.--Hora, não o dêmos tão grande ao senhor Leonardo (disse D. Julio) que hoje o não deixemos dormir, pois ámanhã o havemos de despertar; que as duas noites passadas foram de hospede, e a conversação dos que são de mais gôsto, roubam melhor o tempo; e comtudo. a parte que se tira ao repouso, sempre faz falta,
Começaram-se os outros a levantar, e o velho ainda os deteve em pé dizendo:--O senhor D. Julio em tudo tem tenção de me fazer mercês; porém esta não é das em que fico devendo mais: porque antes quizera poupar o tempo do somno para viver, que o da vida para dormir. E se é verdade que na conversação de tão bons amigos só se vive, qual posso eu ter melhor, que, fazendo estas noites mais compridas, alargar a minha edade? que sentença é antiga, que _o tempo, em que dormimos, perdemos da vida_: pelo que chamaram ao somno _imagem da morte_.
DIALOGO IX
DA PRATICA, E DISPOSIÇÃO DAS PALAVRAS