Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 11
--Posto que eu podera dizer do ouro, como a raposa de Ezopo das uvas, a que nào chegava; nem quero tomar tão humilde vingança de quem me foge, nem (como alguns costumam) dizer mal de meu proprio desejo: a empreza é facil, e só no muito, que ha para dizer d'ella, difficultosa: porém se a copia aos discretos empobrece, (como um d'elles disse) nào pode ser que a do ouro faça effeito tào desegual; pois que n'elle consiste toda a riqueza. Bem o posso invocar como poderoso, e desejar ao menos uma bôcca de ouro, de que sahiram dignamente os seus louvores; mas é tào inimigo do que lhe quero, que, por me offender a mim, fugíra d'elles. E começando do nascimento d'este desejado metal, que quanto mais queremos culpar engrandecemos: Nasce (como Pindaro disse) nas entranhas dos montes, porque até a mesma natureza nos ensinou a fazer d'elle thesouro, pondo tantos muros da terra, para o defender, para que tambem a difficuldade e rareza lhe dê maior valia. Logo sahindo da mina, onde se cria, e provado no fogo, em que se apura, começa a fazer competencia com sua formosa côr ás mais bellas obras da natureza. O mais nobre dos planetas, que é o sol, dourado nos apparece, e o seu luzente carro com raios de ouro allumia a terra: o fogo, mais nobre e poderoso dos elementos, da sua côr se veste; o arco celeste, que nas tempestades da terra nos assegura, perfilado de ouro se descobre; as nuvens ao pôr do sol, da sua côr guarnecem os horisontes. As rosas brancas e encarnadas, os lirios roxos, e azues, as cecens brancas, os bem-me-queres, e as boninas com uma roza dourada no meio se guarnecem, e enfeitam para os olhos dos homens; os fructos das arvores, quando chegam á sua desejada perfeição, e as searas na fertilidade de suas espigas se tornam de ouro: e as mais formosas creaturas humanas, com as cabeças douradas, mostram sua belleza; e a esta imitação trazem os principes, e monarchas do mundo o ouro sobre a cabeça; os reis e imperadores nas corôas, os papas nas thiaras, os bispos nas mitras, e as matronas illustres nos toucados, ao pescoço, sobre o peito, e pendurado das orelhas, nos dedos, e nos braços, fazendo voluntarias prisões de sua formosura. No culto divino elle orna e aformosea os templos sagrados, as cruzes, imagens, retabulos, calices, patenas, lampadas, e castiçaes; com elle se adornam os tectos, frizos, columnas, pedestaes, e todos os ornamentos, e vestiduras da egreja. Batido em moeda é preço, e resgate das cousas de maior valia, sem que n'elle se começasse o trato, e commercio do dinheiro: pois antes que o cunhassem de ouro, o houve de prata, cobre, e latão: assim que, sem prejudicar a seus louvores o mal que usam d'elle os avarentos, lhe podiamos com razão chamar formosura do mundo; ornato, e guarnição de todas as virtudes. A humildade carregada de ouro se inclina mais, e é mais formosa, como foi a de Primislau primeiro rei de Bohemia; que no maior poder de sua riqueza, e senhorio, mandava trazer ante si as alparcas de pastor com que se creara, mandando que andassem em morgado a seus descendentes para antidoto contra a soberba da dignidade real. E deixando exemplos estrangeiros, a nossa rainha Santa Izabel, o nosso infante D. Fernando, a nossa infante D. Sancha, D. Branca, e D. Joanna, e o condestavel D. Nuno Alvares Pereira, bem douraram com sua grandeza, e poder a virtude da humildade. Com o ouro se exercita, e põe em pratica a liberalidade, que sem elle parecera virtude sem mãos; que mal as tivera Marco Antonio triumviro para aquelle excesso de magnificencia, que usou com um amigo, se o não tivera: porque, mandando-lhe dar pelo seu thesoureiro vinte cinco mil escudos, parecendo ao avarento creado que aquella largueza nascia da ignorancia de seu senhor, lhe mostrou aquella quantidade de dinheiro sobre uma meza, dizendo lhe que aquillo era o que mandava dar. Mas o romano por desmentir a malicia do thesoureiro (que entendeu logo) lhe disse: Fizeste bem de me avisar; que não cuidei que dava tão pouco: pelo que sobre estes accrescenta outros vinte cinco mil; e dá-lhe cincoenta. O mesmo, e quasi pelo mesmo modo, ouvi que acontecera a um principe de Hespanha com seu pae, mandando dar a uma moça humilde trinta mil cruzados. E vindo aos nossos exemplos: bem dourou e engrandeceu a liberalidade com seus poderes o nosso primeiro rei D. Affonso Henriques, que nas terras, que conquistava, edificou mais egrejas ricas, que Paços Reaes, e casas pobres: bem o seguiram os mais de seus descendentes em differente modo. D. Pedro o justiçoso com os pobres, que até a manga do braço direito mandava fazer mais larga, e comprida, para alcançar a todos no fazer mercês, como o mesmo rei dizia. Seu filho el-rei D. João o I, foi tão liberal com os vassallos que o serviram, que deixara sem patrimonio a corôa, se el-rei D. Duarte seu filho não fizera a lei mental, com que limitou sua largueza. El-rei D. Manuel com os poderes de sua riqueza, e a magnificencia de sua condição assombrou as nações extranhas, e ao nome portuguez fez mais honrado. A castidade mais excellente, e formosa parece guarnecida de ouro, que nos humildes trajos da pobreza; e por isso foi tão louvada em Scipião, que poderoso, rico, e vencedor, quando entrando Carthago lhe offereceram captiva uma formosa dona, e bem nascida, em logar de gosar d'ella a mandou honradamente acompanhada a seu marido com o resgate, que por sua liberdade lhe offereciam. Não faltou esta excellencia em muitas donzellas do sangue real d'este reino, que, deixando riquissimos dotes da ventura, offereceram a Deus este da natureza. E se é celebrado el-rei D. Affonso o Casto em Hespanha, não desmerecia este nome o rei portuguez, que persuadido de seu valoroso animo, e errado conselho, perdeu a vida nos campos africanos. A paciencia quanto é mais louvavel e excedente no poderoso rico, que no miseravel, em quem não tem execução a ira, nem a vingança. Rico e poderoso no mundo era Filippe, rei de Macedonia, que perguntando aos embaixadores athenienses o que lhe queriam, respondeu com inconsideravel liberdade um d'elles, que _vêl-o sem vida_; e elle voltando aos outros com muita brandura disse: _Dizei aos Athenienses que mais modesto é quem soffre essas palavras, que os sabios de Athenas, de quem elles se prezam_. E se contam d'el-rei D. Affonso I, rei de Napoles, que, sabendo que um creado seu dizia mal d'elle, lhe fez muitas mercês, com que elle obrigado disse depois de suas obras mil louvores; e o rei avisado d'isto disse: _Folgo que esteja em minha mão dizerem bem de mim_: tambem houve rei em Portugal que em muitas occasiões usou o mesmo termo, como se verá da chronica d'el-rei D. João o II, e de muitas memorias do III, não esquecendo a paciencia d'el-rei D. Diniz com seu filho, e a d'el-rei D. Pedro, sendo principe, com seu pae. A temperança medida por vasos de ouro, e ainda á vista d'elle, é mais estimada: como a de Curio, que com o ouro dos Samnitas deante não deixou a panella de couves, e nabos que cozinhava; antes respondeu aos que lh'o traziam, que não era necessario a quem com tão humildes viandas se sustentava. A sobriedade, e temperança nos nossos reis naturaes é tão louvada, que de mui poucos sabemos que bebessem vinho, e de nenhum que comesse demasiado: e tanto pareceu isto bem ás nações extrangeiras, que a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei D. Duarte de Portugal, e mulher de Frederico III, Imperador de Allemanha, não tendo geração, e averiguando os medicos que por a frialdade d'aquella provincia não concebia, porém que, se bebesse vinho, teriam filhos; ella não consentio no remedio: e Frederico disse que antes queria sua mulher esteril, que mal acostumada. A caridade, subida sobre columnas de ouro, se levanta sobre as estrellas; e ainda nos que sem lume da Fé a conheceram, com o poder do ouro a sustentaram: como Cimon Atheniense, poderoso, e rico, que mandava abrir as portas aos jardins e pomares, que tinha para que entrassem livremente os necessitados a colher seus fructos: mandava aos seus que, achando algum velho mal vestido trocassem com elle os seus para o melhorarem; dava todos os dias banquete publico aos que mendigavam pela cidade: e aos pobres de qualidade sustentava com esmolas secretas. Não fôram n'isto os nossos reis e principes portuguezes inferiores, como o testemunham os varios hospitaes, mosteiros, casas de caridade, e santos costumes, que deixaram n'este reino, para agasalhar peregrinos, sustentar, e vestir pobres, e curar enfermos e feridos: no que fôram, entre os outros, insignes os reis D. Affonso I, D. João I, II, e III, e o insigne cardeal e devoto rei D. Henrique. Á diligencia com muita razão lhe calçáram os antigos esporas douradas, pois o duro estorvo da pobreza, como pintou Alciato, impede as azas e limita os passos á diligencia. Com ouro e com os poderes d'elle conquistaram Alexandre, e Cesar em mui limitados annos a redondeza: o nosso rei D. Diniz com os poderes d'elle accrescentou em seu reino quarenta e quatro villas com castellos, e fortalezas; izentou a Ordem de S. Thiago de Portugal; e instituio a de Christo; e fez os primeiros estudos de Coimbra. E os reis D. João, e D. Manuel descobriram, e ganharam para a Fe as terras do Oriente com tanta inveja, como espanto das nações extrangeiras. De maneira que, se os avarentos, que usam mal do ouro e das riquezas, guerream com elle contra as virtudes, nenhuma cousa ha que tanto como elle as engrandeça e alevante. E se os cubiçosos na sua conquista perdem tantas vidas, muitas mais se compram, e resgatam a preço d'elle. E deixando o balsamo de ouro, tão admiravel nas feridas, o ouro potavel, tão celebrado dos distilladores nas enfermidades; qual risco da vida, qual perigo ou necessidade d'ella, qual oppressão ou captiveiro não remio o ouro? Elle faz a formosura das cidades, a belleza dos edificios, a fortaleza dos exercitos, a bizarria dos trajos, a galanteria das côrtes: com elle se alcançam n'ellas as honras, dignidades, titulos, e privanças, e até os louvores e as mesmas graças da natureza: todos o buscam, o desejam, e o conquistam: e ainda os outros metaes se querem converter n'elle por meio de alquime; os animaes se rendem á sua formosura; pois não ha caça mais certa que a que se toca com laço de ouro, nem melhor pescaria que a que se alcança com anzol d'elle: e é tão grande a fôrça de seus poderes, que se atreveu a dizer um auctor, que na maior furia de um leão, de um tigre, e de outra qualquer féra, se lhe lançarem moedas de ouro deante, amansarão com ellas sua braveza. E passando por todas as cousas da terra sua valia, podem os ricos subir ao céo por escadas de ouro, e dar-lhe com elle assalto e bataria, pondo as balas e settas d'este metal nas mãos da caridade. E de elle se subir em tanta altura nasce ficar de mim tão longe, como está de ser digno de seus louvores meu humilde talento, que, se fôra de tão illustre metal, tudo alcançara.
A todos pareceu extremada a oração de Solino, posto que alguns a esperavam menos grave, e mais engraçada: e assim lhe disse Leonardo:--Parecestes-me esta noite mais orador insigne, que murmurador galante. Folgo que, errando eu a eleição, acertasseis vós tambem os louvores.--Não vos agradeço (respondeu elle) os que me daes; por quanto d'antemão vos vingastes d'elles. Porém se quereis vêr em outrem com gravidade o que de mim esperaveis como satyra e agudeza, pois os bens e males do ouro estão encetados; diga o senhor prior agora os poderes do interesse, que no successo da sua peregrina achará largo campo para esta materia.--Essa é mui larga (disse o prior) e são passadas muitas horas da noite; e eu me não escusara com ellas, se não imaginara que todas as verdades, que cahem sobre este sujeito, hão de parecer murmuração. Porque dizer que o interesse tudo vence, e a tudo alcança, é sentença antiga, e experiencia moderna; porém, se particularisar os modos e termos, com que batalha, será ir com os dedos aos olhos de muitos. Se disser que o interesse quebrou muitos sceptros reaes, quem se defenderá d'elles? Se affirmar que torce, e derriba varas da justiça, quantas se virarão para castigar-me? Se ousar a dizer que profana as leis, e offende a immunidade das egrejas, temo que até na minha me neguem a entrada. Se contar que é carta de seguro de salteadores, couto de homicidas, torre do facinorosos, e merecimento de descuidados, quantos se levantarão contra minha verdade? Só direi em um conto breve o que de sua valia se pode presumir na necessidade; e será julgar pelas unhas o leão, e pela pisada de Hercules a medida de sua grandeza.
Um homem curioso, bem intencionado, e não mal entendido, andou alguns annos na milicia do Oriente: e vindo d'elle a este reino para se despachar, trouxe entre algumas cousas de menos valia, que curiosidade, umas imagens de santos, e anjos de marfim, maravilhosamente obrados. E depois de entrar em seu requerimento, deu conta a um amigo, pratico nas cousas da côrte, do estado de seus negocios; aconselhou-o elle como convinha e buscando entre o movel, que trouxera, peça que podesse offerecer a um ministro, com quem tinha intelligencia, lhe inculcava aquelles santos de marfim, que o tinham muito affeiçoado.--Como (disse elle) não trouxestes da India algum pagode, ou idolo de ouro d'esses gentios?--Para que? lhe perguntou o pouco esperto requerente.--Ah, respondeu o amigo, que para o que vós pretendeis, e cá se costuma, _Mais podem diabos de ouro, que anjos de marfim_. E assim não me parece que está mal o dito vulgar do povo, _que o interesse é diabo_. E pois o tempo é tão curto, seja isto uma cifra do que se pode dizer de seus poderes; que são tão grandes, que a mim me tiram a liberdade de falar, contra o desejo que tenho de vos obedecer. E sendo elles taes, e o ouro o principal interesse de todos, mui bem lhe cabem com os males, que Pindaro d'elle disse, os louvores com que Solino o celebrou fazendo a differença sómente no uso d'elle. Que se Santo Agostinho lhe chamou enfermidade da soberba, fraqueza das virtudes, materia de trabalhos, perigo do possuidor, senhor insoffrivel, e escravo atraiçoado; Santo Ambrosio, laço do demonio; S. Chryzostomo, escola dos vicios, e doença da alma; e se d'elle nasceu a Cresso a soberba, a Heliogábalo e Sardanápalo a luxuria, a Nero a crueldade, a Cómmodo e Vitelio a gula: se por elle Polycrates morreu na forca, Cresso na fogueira, Crasso degolado, Heliogábalo arrastrado, e outros ricos tiveram fins semelhantes; não teve a culpa o ouro, senão a má avareza de quem o possuia, ou a cubiçosa sede do que o desejava; pois elle nos animos livres não impede o caminho das virtudes, antes lhes dá forças, lustre e grandeza: como em um Constantino Magno, que enriqueceu a egreja Romana; um Carlos IV, que comprou com elle a vida; um Emmanuel, que honrou o nome Portuguez, o dilatou a fé catholica pelo Oriente; um Lourenço de Medicis, que honrou Florença: um Leonardo Lauredano, que libertou Veneza; um Carlos Brugi, que soccorreu a esterilidade de Flandres; e outros muitos, que o souberam dispender valorosamente. De maneira que n'elle está a condemnação ou justificação, a morte ou a vida de quem o possue ou deseja. Para o que eu acho extremada aquella historia, que toca Auzonio poeta em um seu epigramma. E é que um homem desesperado com uma paixão, que teve, se hia enforcar em um logar secreto, levando comsigo o baraço, em que havia de deixar a vida. Succedeu que com a força que fez, cahindo uma parte da terra n'aquelle logar, se lhe descobrio um thesouro; a cuja vista mudou logo o pensamento: e, levando o que achara, deixou em seu logar o baraço que trazia. Vindo depois o que alli o escondera, e achando-o menos, e em seu logar a tentação de sua desventura, fez, porque perdera um thesouro, o que o outro deixou de fazer porque o achara: de modo que a um deu a vida o ouro, a outro matou a avareza d'elle.--Com tão boa historia (accudiu D. Julio levantando-se) é razão que vamos satisfeitos, e deixemos ao senhor prior bem agazalhado, posto que pelo interesse de sua conversação deixara eu muitos dos que os outros desejam; porque se a opinião dos cubiçosos deu preço ao ouro e pedraria, á conversação dos sabios o não pode tirar a mesma ventura.
DIALOGO VIII
DOS MOVIMENTOS, E DECORO NO PRATICAR
Foi-se o prior da casa de Leonardo em apparecendo o dia: e n'ella em vindo a noite se ajuntaram os amigos, sentindo grandemente a falta d'aquelle que os deixara. Foi essa a primeira cousa, de que trataram: e entre outras disse Feliciano:--Por todas as razões se devia desejar a conversação de tão discreto, e douto cortezão, como é o prior, em todo o tempo, mas n'este das noites do inverno muito mais: e n'ellas encherá elle muito bem o seu logar; porque, além de saber e auctorisar o que diz com o fundamento das lettras e curiosidade que tem, é muito composto e engraçado no que fala: e por extremo me pareceu bem aquelle modo de encarecer negando na materia do interesse, e o descrever com brevidade nas historias.--Quanto mais ouvirdes d'elle (lhe respondeu Leonardo) vos parecerá melhor. E sabei que, antes de trazer aquelles habitos parecia muito bem nos de côrte; e que debaixo dos compridos pode ainda dar lições d'ella a muitos de capa e espada.--Parte é o falar bem (accudiu D. Julio) que leva tudo após si: e não consiste este bem só nas razões discretas e palavras escolhidas, senão no bom modo e graça de as dizer: o que eu comparo a uma cousa escripta de boa ou ruim lettra; que a boa aformosea, e dá ser, côr, e graça ao que lêdes; e a ruim desconcerta, empeça, e afeia as razões, sendo todas umas: e não faltarão mui perto exemplos d'esta verdade.--Fujamos das comparações para a doutrina (disse Pindaro) e melhor fôra ser essa a materia, em que se gastára este serão.--Ainda vos ficaram sobejos do passado (tornou Solino) pois vos adeantaes da companhia: porém eu a quero fazer ao vosso voto, se ha de ir aos mais.--Nem a mim me descontenta (disse Leonardo) se o doutor nos abrir o caminho.--Sempre (respondeu elle) me mandaes deante como os frades menores nas procissões; quero-os tambem imitar na obediencia: porém lembro-vos que são duas materias as que tocou o sr. D. Julio, convém a saber, a graça, e composição do rosto e corpo no falar, e o concerto das palavras, e discrição das razões.--Essa divisão parece escusada (disse Leonardo) porque a graça não se aprende, nem se pode alcançar por arte, pois é mero dom da natureza--Todas as cousas d'ella (tornou o doutor) se aperfeiçoam e melhoram com a arte: e, para saberdes logo esta verdade, tomarei á minha conta o em que vos parece que ha menos que dizer; e fique á vossa a demazia.