Côrte na aldeia e noites de inverno (Volume I)
Part 10
--Todos (disse Solino) deram sua pancada a esta lebre; Leonardo, que a levantou, deixou-se ficar no covil; e eu fiquei atrás dos galgos sem dar um brado; farei muito, se agora quizer desmanchar o bemdito de todos. Comtudo a minha opinião é que quanto tendes feito na grandeza e poderes da cubiça é errado, e que se haviam de attribuir ao ouro, e não a ella. E tratando da pintura, em que a embaraçastes, e quizestes assemelhar com o amor, tenho por mui errada a declaração d'ella: e posto que seja contradizer a tão grandes entendimentos, a hei de explicar ao meu modo, que me parece que a pintaram os antigos: mulher por sua fraqueza; pois é tal, que se rende a qualquer pequeno, e vil interesse; despida como desavergonhada, por quão sem respeito, nem moderação se atreve a commetter qualquer infamia; com azas por a ligeireza, com que se arremessa a qualquer preza como ave de rapina; cega por pedinte, mendiga, e importuna: e se isto não é, venho a presumir que a fingiram com o rosto de mulher, e as pennas de ave como a harpia, que na etymologia propria do seu nome manifesta o roubo e condição do cubiçoso: e assim como a harpia damna, e descompõe todos os manjares a que chega, assim a cubiça estraga e corrompe toda as virtudes: pelo que me parece que nenhum parentesco tem com amor, que na nobreza é tão desegual, e pelos louvores de sua excellencia tão conhecido. O a que se podera voltar a nossa porfia, e arguir mil historias extremadas, é a tratar dos poderes do ouro, e da valia do interesse, que já nos tempos antigos, e no prezente de agora póde tanto, que obrigou a dizer a um auctor que esta é a verdadeira edade do ouro, porque só elle senhoreia os animos dos homens. E viera isto mais ao proposito da vossa peregrina, que com elle e sua formosura não pôde vencer a um coração ingrato.--A mim me parece (respondeu Leonardo) que vós tinheis mui boa razão se a não guardareis para tão tarde: porém em a noite d'amanhã se lhe fará justiça; que n'esta é rasão que se dê ao hospede lugar conveniente para o repouso, pois ha de ir á cidade e voltar no mesmo dia.--Por não mandar em casa alheia (disse o prior) não defendo a minha parte; mas prometto, se voltar a horas que possa passar a noite tão bem como esta, de a não perder.
Então se levantaram os mais e se despediram; e o prior gastou muitas palavras em manifestar a Leonardo a inveja que tivera d'aquella companhia: ao que elle respondeu com a que a todos fazia com a vista da peregrina, que lhe ficára em casa; que posto que a boa conversação é manjar da alma, a vista de uma estranha formosura, que rouba as de todos, tem muito maior poder sobre o desejo.
DIALOGO VII
DOS PODERES DO OURO E DO INTERESSE
No mesmo tempo, em que os amigos se juntaram para o seu costumado exercicio, se apeava o prior no pateo de Leonardo; que o desejo que lhe causara a noite do dia d'antes, o fez tornar mais cedo da cidade. Foi recebido com alegria: e depois de lhe perguntarem do bom successo de sua jornada, lhe disse Solino:--Agora vejo que roubou a ventura a empreza d'aquella peregrina ao sr. D. Julio: pois a deu a quem a deixa de vêr por nos ouvir.--Antes vereis (respondeu o prior) quão poderoso é o ouro, que até para ouvir falar n'elle deixo a propria casa, e n'ella a vista de tão extremada formosura.--Não sois vós (acudiu Leonardo) o primeiro que a deixastes por ouro, nem usaes n'esta occasião como avarento, pois que vindes com esse titulo de cobiça enriquecer a todos, e a esta casa.--Vós (respondeu elle) me individaes para me empobrecer com a mercê e cortezia que me fazeis; de maneira que sempre o meu erro é dourado para contentar os cobiçosos, quando pareça a Solino culpa deixar a vista da minha hospeda pelo interesse da vossa conversação.--Não é só elle o que vos accusa (disse D. Julio) antes eu de a vós deixardes me queixo, ainda que de a acompanhardes tinha ciumes.--Só esses faltavam (tornou Solino) para a conversação ficar de ouro e de azul; mas se d'este se batera moeda, nenhum de nós se queixára de pobre, porque a dos comprimentos é a mais corrente de todas. Porque o maior mal que o avaro faz ao ouro, é impedir-lhe a corrente com a prisão em que o encerra, podendo com elle até ás prisões fazer agradaveis e formosas, que para isso imagino que se inventaram as cadeias e grilhões de ouro, que d'elle servem para ornato, e dos outros metaes para castigo.--Não me descontenta essa razão (disse Leonardo), porque se ao ouro quando sahe da mina, antes de o pôrem em seus quilates, chamam os artifices _ouro bruto_, quanto com mais razão merece este nome o que o avarento tem escondido e fechado? E a este proposito me cabe contar uma historia que li esta manhã; e se fôr sobejo, pelo que callei a noite passada, se póde descontar o que agora disser.
Houve em Italia, em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado pae de familia, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus antepassados, dotado de muitas partes, e graças da natureza, e tão liberal do que possuia, que mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e experto nos negocios de mercancia, que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram: e era notavel espanto aos naturaes verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo; e em o filho a avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo, estava menos rico, muitas vezes lhe dizia e aconselhava com brandura que conservasse, com o que ganhara, a honra que tinha de seus passados; e não degenerasse d'elles, por seguir a villeza do interesse: que usasse das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o creára, e honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos e parentes; benigno aos pobres e se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas sem fructo. Mas como falar a um morto, e aconselhar a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que o senado d'aquella republica por a nobreza, e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava, o elegeram em companhia de outros para ir com uma embaixada a Roma ao Summo Pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas, com que entrou na camara do filho; e abriu os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado; e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente; deu libré a seus creados; comprou ricas armações e baixellas; encheu a estrebaria de cavallos formosos; fez esmolas a muitos pobres; acudiu em occasiões a parentes e amigos necessitados; dispendeu emfim aquella prata e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntára da maneira em que elle, quando florescia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro encheu os saccos em que antes estava, de miudos seixos e areia: e posto tudo na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as casas como d'antes. Tornou depois o filho da sua embaixada: e os pequenos irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado d'elles ficou confuso; e enleado lhes perguntou logo d'onde houveram tão ricos vestidos, e tão formosos cavallos. Ao que elles com uma simplicidade innocente responderam que seu pae e senhor vivia com differente largueza da que d'antes tinha; e que outros trajos e cavallos de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a ella, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára: e como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde o tinha posto. Entrou na sua camara, abriu os cofres: e vendo que os saccos estavam cheios, e da maneira que elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar a mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros o chamavam, e o senado o esperava. Depois que deu fim a aquella obrigação (que a elle não pareceu que fosse tão custosa) fechando-se devagar no seu aposento, abriu as arcas e os saccos, em que lhe parecia que estava a sua bemaventurança; e vendo o engano da areia e seixos que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e brados. A que primeiro, que todos, acudiu o generoso velho, perguntando-lhe que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? Ai de mim (disse elle) que me roubaram as riquezas, que com tantos trabalhos, e em tão largo discurso de annos tinha grangeadas. Como é possivel que te roubaram (respondeu o pae) se eu vejo esses cofres e saccos cheios, que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? Ai triste de mim (tornou o filho) que o de que elles estão cheios, não é do ouro e prata, com que os deixei; que não tem agora mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: Ah! enganado filho! que importava para ti que estes saccos estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento do filho com esta resposta; que a mim me pareceu digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.
--Eu a tenho por tal (disse o prior), e a historia por maravilhosa para o nosso intento; e andou muito bem o pae de cumprir em vida o testamento do filho; porque, como disse Pub. Mimio, nenhuma cousa o avaro faz boa, senão quando morre, porque deixa o que tem a quem possa usar d'elle.--E o mesmo (disse Feliciano) escreveu que para ninguem o avarento é bom: e para si peior que para todos; pois nem dispende, nem se aproveita: e n'este sentido me parece maravilhosa a allegoria d'aquella engenhosa fabula de Midas, que, pedindo aos deuses, como cobiçoso, que tudo o que tocasse se lhe convertesse em ouro, perecia de fome na grande abundancia do que pedira. E quando a necessidade o fez mudar a petição forçado do mal, que como bem procurára, lhe mandaram que se fosse lavar ao rio Pactolo; que fez corrente do que elle queria fazer estanque, pondo em suas douradas areias, para communicar a todos, o que Midas só para si queria ter usurpado.--Bem se representou em Midas (accrescentou Pindaro) um cobiçoso no pedir e em se não aproveitar: que por isso disse Seneca que mais facilmente se atreveria a alcançar da fortuna que désse, que de um cobiçoso que não pedisse. Mas deixemol-os a elles com seu engano, e falemos nos poderes do ouro, que é o para que Solino nos convidou a noite passada.--Como é certo (disse elle) que para o ouro todos se convidam de boa vontade, e vós, pela que tendes a este metal, parece que estivestes de ponto sobre a materia.--Não a apontei (respondeu Pindaro) por esse respeito, mas por me contentar da que escolhestes; e é desgraça minha que para os outros levantaes d'ouros, e para mim de espadas.--Eu me quero metter entre ellas (acudiu D. Julio) e se assim parecer aos mais, diga Solino todos os males do ouro, pois tem boa mão para dizer mal; o Pindaro todos os bens: e sobre o que ambos disserem ficará logar aos mais de darem suas razões.--Errastes, sr. D. Julio (disse o doutor), que para Solino dizer mal no sentido que vós quereis, ha de dizer bem do ouro, e Pindaro os males.--Dou-me por vencido, respondeu elle:--E eu por obrigado (disse Pindaro) a obedecer. Todos festejaram a eleição; e ordenando que fosse o primeiro, começou d'esta maneira!
Se as causas são pelos effeitos conhecidas, e elles testemunham a excellencia ou maldade d'ellas, qual o foi de maiores males e damnos na redondeza, e metteu aos homens em mais perigosos trabalhos que o ouro, a quem com muita razão podiam todos chamar _peste do mundo_? E posto que os notaveis exemplos das destruições e ruinas que n'elle fez, podiam tomar mais tempo do que agora tenho para tratar d'elle; quero começar primeiro de seu nascimento, para que mostrem os seus arriscados principios os desastrados successos para que a malicia humana o descobriu. E não desprezando o que diz Plinio tão doutamente, que não contentes os homens com o que a superficie da terra produzia para sua recreação e mantimento, a formosura das arvores, a diversidade dos fructos, a belleza e cheiro das flores, a verdura das hervas, o esmalte das boninas, a abundancia dos legumes; quizeram desentranhar do centro d'ella os segredos que a benigna natureza nos escondia. Nasce o ouro nas entranhas dos montes, e nas arterias occultas dos penedos; e subindo como arvore da profunda raiz, d'onde começa, vae espalhando os ramos em desegual medida, convertendo o sol com seus poderes aquella materia disposta e propinqua, até que chega a ser ouro, e se demonstra por duvidosos signaes na face da terra; que logo d'aquella emprenhidão se mostra triste, dando por indicios da riqueza que encerra, herva descórada, delgada, subtil e sequinhosa areia, e barro leve, secco e sem proveito; e até as aguas, que por entre as veias descem, sahem cruas e com sabor pesado. Espreitando estes signaes a industria humana, entra fazendo guerra ao profundo, caminhando por debaixo dos montes sustentados em columnas da mesma terra, deixando a vista do sol e das estrellas, pondo as vidas ao risco das ruinosas machinas, que mil vezes o opprimem, que tanto a nossa sede fez cruel á benigna terra, que parece menor temeridade tirar do fundo do mar perolas e aljofar, que do seu seio o inimigo ouro, que ainda então o não é mais que nas esperanças. Depois de tirado com tão custosas diligencias, sahindo como parto de venenosa vibora, rompendo as maternas entranhas, com o fogo se aparta, apura o aperfeiçoa. ficando menos apto para o serviço dos homens, na cultivação dos campos e arvoredos, e mais apparelhado para sua destruição e ruina: porque ou se lavra para ostentações e demasias da vaidade, ou se bate e cunha em moeda, cujo preço tyrannisa os poderes e graças da natureza. Tirou o ouro a valia a todas ellas, e fez em si estanque de todos os commercios do mundo, no qual, antes que elle apparecesse, se trocavam as cousas umas por outras, com uma composição e trato mais conforme e obrigado á necessidade e commodos da vida que aos roubos da cobiça, maldades da avareza e sobejidões da vaidade; e apoderou-se tanto de tudo o que na terra havia, que veiu a ser preço até da liberdade dos homens contra o direito natural, em que viviam. Foram crescendo seus atrevimentos: e se antes de sahir do centro da terra começou a matar homens, sahindo d'ella se levantou contra o céo, fazendo guerra de rosto a rosto a todas as virtudes: tirou logo a vara das mãos á justiça: e deitado em sua balança perverteu o fiel de sua egualdade. Diga-o Commodo imperador, que todos os crimes de homicidios e insultos deseguaes, remiu a preço de ouro, vendendo por elle publicamente não só a pena dos delictos, mas os proprios logares dos julgadores. Cerrou os olhos á misericordia, para não se compadecer dos affligidos: como se viu no exercito de Tito Vespaziano, que tendo cercada Jerusalem, os moradores, que opprimidos da fome se sahiam da cidade com licença sua, enguliam primeiro uma pequena moeda de ouro, para que na passagem o pudessem salvar dos inimigos; os quaes sabendo esta astucia, a dois mil, que em dois dias sahiram da cidade, partiram pelo meio para lhes tirarem do bucho a moeda, por não esperarem que com o termo commum da natureza d'ahi a pouco espaço a lançassem fóra: assim que aquella pequena quantidade de ouro, qual de finissima peçonha, lhes tirou a vida. Derribou a columna, e quebrou os braços á fortaleza, atados com as prisões de seu interesse: diga-o Ulysses que por elle vendeu a Priamo o corpo de Heitor Troyano; e Aulo Posthumio, que a preço de ouro deixou a empreza da guerra de Jugurtha, e a gloria d'ella. Desterrou do mundo a fidelidade; pois por elle vendia Nicias aos romanos a vida de el-rei Pyrrho seu senhor: Demonica a cidade de Efezo a Bresso capitão francez, que de industria a afogou com peso de ouro: Tarpeia Romana, a entrada do Capitolio aos Sabinos, que do mesmo modo com o peso de ouro e dos escudos a acabaram. Depravou a piedade, e veneração que os antigos tinham aos mortos, não perdoando a suas sepulturas, como el-rei Dario, enganado com o letreiro da de Semiramis, que dizia que, se algum rei seu successor se visse em necessidade, abrisse aquella sepultura, e acharia um thesouro: elle confiado creu o letreiro, revolveu a pedra; e achou outro que dizia: _Se não foras cobiçoso, não andaras desenterrando os mortos._ Os romanos desenterraram os mortos de Corintho para lhes tirarem a moeda que tinham por costume metter comsigo na sepultura; para o que é mais notavel aquelle caso extranho que conta Paulo Diacono, de Rodoaldo rei de Lombardia, o qual, porque seu pae se mandára enterrar com as insignias reaes de ouro, abriu uma noite secretamente a sepultura, e, depois de roubar e despojar o cadaver paterno, lhe appareceu S. João Baptista, em cuja egreja aquelle corpo estava enterrado; e reprehendendo-o rigorosamente, lhe mandou em castigo do atrevimento que commettera, que mais não entrasse n'aquella sua egreja: e assim querendo o rei alguma vez commetter a entrada, foi pelo mesmo santo lançado fóra. O ouro sustenta e favorece a todos os peccados capitaes, a soberba com suas pompas, apparatos e vaidades. As baixellas de Midas, as grandezas de Cresso, os escravos de Claudio, o theatro de Nero, as casas de Clodio, e todos os mais excessos da vangloria d'elle nasceram. A avareza n'elle como em materia propria se conserva e accrescenta; por elle deixava Oco, riquissimo rei dos persas, de sahir de casa por não dar certas moedas de ouro ás mulheres que o sahiam a receber como era costume d'aquelle reino, como conta Plutarcho. Nero despojava por este as matronas bem vestidas, e roubava as tendas dos mercadores: e Angeloto, de quem escreve Pontano que era tão avaro, que se levantava de noite a furtar a ração a seus proprios cavallos; e sendo achado pelo estribeiro ás escuras no furto, o açoutou cuidando que era dos escravos da estrebaria. A sensualidade com o ouro se cria, pois a força d'elle corrompe a pudicicia, como os antigos engenhosamente significáram na fabula de Danae, a quem Jupiter enganou convertido em chuva de ouro: d'elle nasceram os estupros de Commodo, os incestos de Caligula, as luxurias de Heliogábalo, os adulterios de Julio Cesar; pois só a perola com que conquistou a Servilia, mãe de Bruto, lhe custou seiscentos sestercios. Por ouro tem a ira feito abominaveis estragos e homicidos no mundo. Pygmalion matou a seu cunhado Sichueu por lhe roubar o thesouro que tinha. Polimnestor tirou a vida a Polidoro, de quem era tutor, por lhe roubar a herança das riquezas que esperava. As demazias e sordidezas da gula, a delicia e sobejidão dos manjares com elle se compram.--Das mezas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Lucúlo, dos manjares e convites de Heliogábalo elle tem a culpa. A venenosa inveja n'elle, como em seu objecto natural, se emprega toda. Herifile invejosa das manilhas de ouro de Adrasto entregou á morte Amfiarau seu marido; e Julio Cesar invejoso das riquezas da Luzitania, se fez salteador das cidades d'ella. A preguiça e descuido sobre o ouro descança e se aquieta: elle fez preguiçosa e muda a lingua de Demósthenes com o preço que lhe deram por não orar: e o symbolo e jeroglifico da preguiça foi o kagado, por o vagar e peso com que se move. Que cousa com mais difficuldade e tardança se abala, que um rico? E se a diligencia cahiu em sorte á pobreza, pois a necessidade foi inventora das artes e subtilezas; o peso do ouro entorpece os sentidos empregados todos n'aquella materia: e, por conhecer esta verdade, Crates Thebano o afogou no mar para apprender a philosophia. Pitaco e Anacarso não acceitaram a Cresso o que lhes mandava: Anacreonte tornou a engeitar a Policrates o que lhe déra: e Curio recusou aos Samnitas o grande peso d'elle que lhe traziam.
Foi o ouro finalmente a ruina de todos os bens, que mereciam este nome; e um veneno mortifero para a vida humana: e se muitos a perderam indo em seus alcances pelo centro da terra, e outros buscando as extranhas, em que elle se cria, por remotos climas entre irracionaes Ethiopes feneceram; não estão seguros do mesmo damno os que dentro em suas casas, e fechado em seus cofres o possúem. E fazendo pausa em seus males (que para os contar todos fôra infinito) só um bem tem o ouro, que eu não quero deixar á conta dos louvores de Solino, que é o que os Gregos declararam n'aquelle seu celebrado proverbio, que diz: _O de que serve ao ouro a pedra de toque, serve o ouro ao homem_; pois no toque d'elle, como em um espelho de desenganos, é conhecido: e se elle d'esta minha invectiva se houver por aggravado, vingança lhe tem dado a ventura até ao que de seus males me fica por dizer.
Todos ficaram por extremo satisfeitos de ouvir a pratica de Pindaro; e o prior a gabou de bem ordenada, e elegante; e gastaram n'isto algumas razões, tendo os olhos em Solino, que começando a falar com engraçadas mostras os obrigou a silencio, e disse: