Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1904

Chapter 2

Chapter 23,982 wordsPublic domain (Wikisource)

Saúdo-te. Estou intrigadíssimo. Escrevi há dias um cartão ao Laerte pedindo-lhe que me mandasse o Comércio — (que não assinei, até por um pacto vulgar de delicadeza pessoal) e não obtive resposta. O caso é aparentemente sem importância. Mas considerando a minha situação de colaborador recente, ali, essa desatenção pode ser uma revelação de desagrado. Concluo: talvez não tenham agradado os meus artigos. É exato? Diga-me francamente. Estou na mais completa impossibilidade de escrever uma linha para o Comércio enquanto persistir esta dúvida. E como foi por instâncias tuas que atendi aos pedidos do Laerte — peço-te esta explicação que se dirige sobretudo a um amigo.

É escusado dizer-te que de modo algum desejo que me mandem mais aquele jornal — gratuitamente — mesmo que a colaboração continue. De qualquer modo, aguardo a tua resposta, e abraço-te cordialmente. Euclides

[Bilhete postal]

Guarujá, 25 de julho de 1904 Ilmo. sr. dr. Plínio Barreto

Redação do Estado de S. Paulo S. Paulo

Amanhã, terça, pretendo ir até aí.

Previna o Valdomiro — e combinem de modo que possamos vir, juntos, na quarta. Euclides

Guarujá, 27 de julho de 1904 Plínio

Ontem respondi a tua carta — de acordo com o que disseste. Espero-te sem falta com o Valdomiro e o Breno. Não faltem. Estou a procurar assunto para escrever. Há muitos nesta terra… mas tão […] que a escolha é dificílima. Mandei para o País um com o título “Vida das Estátuas” — Pelo título poderás calcular o que é. Talvez o País não o publique. Se o fizer peço que seja transcrito no Comércio. Talvez valha a pena. É uma ferroada política… através de um temperamento.

Até breve Euclides

[Bilhete postal]

30 de julho de 1904

Ilmo. sr. Plínio Barreto

Redação do Estado de S. Paulo S. Paulo Plínio

Hoje aconteceu-me uma única. Escrevi para o Comércio… e mandei o artigo para o País! Vejo pelo recibo do registro! É que estava sob a impressão de uma carta do Lage, pedindo-me para não interromper a colaboração naquele. Expliquei o caso ao Laerte. Vou emendar a mão.

Até breve. Euclides

[Santos, 1904] Plínio

Recebi o teu cartão. Conversaremos depois sobre o Transiberiano. Por que não me mandam o Comércio?

Estou terminando um artigo para o Estado de domingo. Não posso enviá-lo hoje. Mandá-lo-ei expresso amanhã — de modo que esteja aí amanhã mesmo, sábado, à noite. — Previne ao Carneiro.

Quando vens? Responda-me porque talvez eu tenha que ir ao Rio. Euclides

A “Missão da Rússia” foi bem revista. Mas como é que me escapou e te escapou aquele — MAS SE ESQUECE etc.?

[Guarujá] Plínio

Escrevi-te hoje. Lembrei-te a transcrição do artigo “Vida das Estátuas” no Comércio. Nunca!!! O País estropiou todo o artigo. Um horror! Que revisão!

Abraça-te Euclides

Guarujá, 7 de agosto de 1904 Coelho Neto

Cheguei neste momento da ilha dos Búzios, onde estive com o Cardoso de Almeida. Encontrei a tua carta e leio-a, de pé, de mala a tiracolo e de botas, sem mesmo sentar-me, tal o desejo que tinha de notícias tuas. Obrigadíssimo. Vejo que estás bom e com a melhor coragem para a luta, embora digas o contrário. Impressionou-me apenas pouco agradavelmente o fato de não ires mais para a Europa. Por que? Conta-me isto. Egoisticamente folguei com a nova, mas, como amigo, lamento o caso, prevendo-lhe causas que sejam para você um desgosto. Conta-me isto. Quanto a mim estou entre miragens, tendo milhões de promessas, milhões de esperanças e creio mesmo que, amanhã hei de ver-me atrapalhado para escolher os empregos. Enquanto isto não acontece caio na engenharia a retalho das vistorias.

Quanto à Politécnica: ia tudo admiravelmente — eu queria, o governo queria muito, a congregação queria muitíssimo a minha nomeação, porém, à última hora razões muito sérias, e muito honestas, obrigaram-me a escrever ao sr. Garcia Redondo uma carta que era, afinal, o rompimento das nossas relações. Depois te contarei este caso melancólico. Renunciei desabridamente à pretensão. Mas muitos não me entendem neste ponto, de sorte que talvez ainda seja surpreendido com a nomeação.

Andas escrevendo muito. Três artigos diários! Não te esgota esta dissipação da fantasia e esta caçada exclusiva de assuntos? Quando voltas para Campinas? Afinal, tive razão… Não devias ter deixado a boa cidade provinciana. Vai fazer de filho pródigo, de talento e de ideais — e como o da Bíblia serás recebido com o melhor carinho daquela gente. Ainda bem.

Habituei-me ao Guarujá, ou melhor: o Guarujá comigo — tolera as minhas distrações, o meu ursismo, a minha virtude ferocíssima de monge e de dispéptico, de sorte que passo a melhor das vidas às voltas com o gárrulo H. Heine ou com o Gumplowicz terrivelmente sorumbático. Ponto. Imagina que ainda estou de botas, e de mala ao lado, e de chapéu à cabeça, — com os meus dois pequenos a puxarem-me desesperadamente para a sala de jantar! Recomenda-me aos teus. Abraço-te muito afetuosamente. Euclides da Cunha

Guarujá, 8 de agosto de 1904 Meu Pai

Acabo de receber do dr. Oliveira Lima um telegrama noticiando a minha próxima nomeação para a comissão de engenheiros para os limites do Peru. Não sei ainda em que cargo. De qualquer modo devo aceitar. Só terei a lucrar — como brasileiro que vai prestar um serviço à sua terra, como engenheiro que não pode ter um trabalho mais digno, e como escritor que não poderá ter melhor assunto. Quanto à família — ficará com a minha sogra, no Rio. Logo que se faça a nomeação irei ao Rio a fim de conhecer os meus encargos — e porei o sr. ao corrente de tudo. Se for possível, verei se consigo do governo do Estado de S. Paulo, onde conto com as melhores simpatias a nomeação para a Politécnica — para exercer este cargo, definitivo, na volta da minha comissão que será naturalmente provisória. Mas mesmo na hipótese contrária — penso que não devo deixar a oportunidade que se me apresenta para ampliar a minha carreira — sobretudo tratando-se de uma missão tão nobre. Estou certo de que o sr. aprovará a minha resolução. O que ocorrer de novo prontamente lhe comunicarei. Esta, rapidamente escrita, só tem por fim lhe dar parte disto. [...]

P.S. — Como já viu pelos jornais fui há dias à ilha dos Búzios, com o Cardoso de Almeida — que verificou em todos os pontos a exatidão do meu relatório anterior.

Guarujá, 8 de agosto de 1904

[Bilhete postal] Ilmo. sr. dr. Plínio Barreto

Redação do Estado de S. Paulo S. Paulo

Um anônimo entusiasta escreveu-me furiosíssimo por saber que vou colaborar num jornal de S. Carlos. Peço-te dizer-lhe (confio na tua argúcia incomparável) que vou deferir à sua vontade.

Hoje, mandei para o Comércio o “Kaiser”, sangrando com meia dúzia de farpas. Até breve,

Abraço-te Euclides

Saudades ao Valdoro

Guarujá, 11 de agosto de 1904

Meu ilustre amigo dr. José Veríssimo

Recebi neste momento a sua carta de 8, deste; e para logo comecei a preparar-me para a viagem — de modo a estar pronto à primeira voz. Ainda não recebi o telegrama de Domício, mas um do Oliveira Lima, ontem, à noite, noticiando-me a nomeação até o dia 12. Até breve, pois. Creia sempre em quem é seu muito cordialmente Euclides da Cunha

[Guarujá, 1904] Escobar

Desejo-te felicidades — e, principalmente, que encontres toda a família boa e feliz.

Insisto num pedido: encontra-me em S. Paulo, por qualquer preço o Ferro e Fogo de Sienckiewicz, mas em inglês. Talvez já exista algum no Garraux e com certeza no Rio.

Nada mais. Escreva-me das alterosas montanhas, se tiveres tempo e dispões sempre am o . obr do . Euclides

Guarujá, 22 de agosto de 1904 Meu ilustre confrade e amo. Domício da Gama

Saúdo-o, desejando-lhe felicidades.

Recebi ontem o interessante folheto de Chandless. Obrigadíssimo.

Ainda estou aqui — em Guarujá — mas pronto ao primeiro sinal de partida; e logo que termine uns projetos e orçamentos, que tenho em mãos, partirei para aí. Peço-lhe que me recomende muito ao nosso ilustre chefe, o barão do Rio Branco, e a todos os bons amigos — acreditando sempre em quem é seu muito cordialmente, Euclides da Cunha

Guarujá, 23 de agosto de 1904 Plínio

Recebi a tua carta. Obrigadíssimo. Quanto ao célebre escangalhador, já lhe sabia da capoeiragem — a que não devemos dar nenhuma importância. Em todo o caso agradeço muito o teu interesse e as tuas palavras.

Não sei quando irei até aí: talvez dentro destes 6 dias. Ando às voltas com dois longos orçamentos.

Lembrei-me do seguinte: enfeixar num volume os meus últimos artigos do Estado e do País. Talvez possa fazer o negócio com o Melilo. Nada quero lucrar — desejando apenas que a edição seja decente.

Se puderes, conversa com o livreiro sobre o assunto — mandando-me dizer o que ocorrer.

Lembranças a todos, do Euclides

P.S. — Calculo que os artigos darão um volume de 300 páginas — porque podemos aditar-lhes alguns outros entre os melhores dos que escrevi antigamente.

Pense sobre o assunto e responda-me algo a respeito. Euclides

[Timbre: Thomas Viegas. Caixa Postal, 224. Santos]

Guarujá, 25 de agosto de 1904 Meu Pai

Recebi a sua carta — e fico ciente do que nela me diz. Creio — mas há muita certeza — que os vencimentos são de 3:000$000 mensais. Em todo o caso não serão muito inferiores a esta quantia, para os 1 os comissários — havendo, além disto, uma ajuda de custo que ainda não se fixou. Quanto aos orçamentos da Bertioga e dos Búzios (mandei ontem o 1º) estou certo de que o dr. Cardoso de Almeida — saberá avaliar devidamente o trabalho.

O sr. tem razão: tenho sido idealista demais — e disto me arrependo. Vou fazer o possível para considerar as coisas praticamente, sem contudo perder a minha velha linha reta à qual já estou habituado. Para mim a comissão ao Purus terá o valor de preparar-me talvez outras — porque pretendo desempenhá-la com a máxima dedicação. Antes de partir — irei até aí, e conversaremos melhor. Esta vai sendo precipitadamente escrita porque pretendo acabar hoje o orçamento da colônia penal dos Búzios.

Peço-lhe que nos recomende a todos e abençoe ao filho e am o . Euclides

Guarujá, 27 de agosto de 1904 Meu ilustre amo. dr. Domício da Gama

Saúdo-o. Escrevi-lhe há dias comunicando haver recebido a monografia de Chandless e agradecendo-lha.

O meu fim agora é pedir-lhe que me diga em que data, mais ou menos, se realizará a partida para o Alto Purus.

Estou pronto mas considerando o mau estado sanitário do Rio, só levarei a família nas vésperas da viagem.

Aguardando as suas ordens aqui, em Guarujá, subscrevo-me, com a maior consideração, am o ., at o . adm or . Euclides da Cunha

Guarujá, 31 de agosto de 1904 Meu ilustre amo. dr. Oliveira Lima

Felicidades. Aqui o esperei longos dias para a peregrinação à lendária Bertioga. Afinal, não obtendo resposta às cartas que escrevi, para lá segui, sentindo sinceramente não ter ao meu lado quem tanto se devota ao nosso passado interessantíssimo. Como lembrança da romaria aí vai esta estampa, que não mandei cartonar, para facilitar a remessa pelo correio. Mais tarde lhe darei outras.

Ainda estou aqui, aguardando a voz de partida. Se souber de algo sobre ela queira dizer-me.

E creia sempre na afeição sincera de seu am o . e adm or . Euclides da Cunha

Guarujá, 31 de agosto de 1904 Meu ilustre amo. dr. José Veríssimo

Tenho-lhe falado tanto na minha ilha dos Búzios que não resisto à ideia de mandar-lhe uma amostra desse belo recanto da nossa terra. Veja como é caprichosa a nossa natureza: ocultar no mar alto uma de suas faces mais belas! Como o sr. talvez queira conhecer alguns dos do grupo que lá está, numerei-os: 1 — Benedito Calixto, talentoso pintor vicentista; 2 — Cardoso de Almeida, ministro da Justiça do Estado; 3 — Antonio de Godoy, chefe de polícia; 4 — um engenheiro cujo nome não me ocorre; e 5 — Alberto Souza, escritor paulista. No extremo do cartão, muito afastado, e em destaque, está um animal bem superiora todos os outros, um pescador da ilha, rija e empertigada figura de piraguara robusto.

Desculpe-me mandar a estampa sem cartão — é o melhor meio para o transporte no correio. — Até breve. Se souber alguma coisa sobre o dia provável da nossa partida, peço dizer-me logo — porque aqui estou na mais absoluta insciência das coisas. Queira abraçar por mim ao Veríssimo Filho; recomendar-me a todos os seus e dispor sempre do am o . at o . e adm or . Euclides da Cunha

P.S. — Faço votos para que já esteja inteiramente restabelecida a sua filhinha.

Guarujá, 1 de setembro de 1904 Meu ilustre amo. dr. Oliveira Lima

Ontem, depois que lhe escrevi e mandei registrada uma fotografia da nossa velha Bertioga — recebi a sua carta. Veio, ela, tirar-me de grande vacilação porque afastado, como estou, não sabia se estava ou não, próxima a época da partida para o Purus. Vejo que talvez ainda se demore. Em todo o caso renovo o pedido anterior, isto é, avisar-me com uns 8 dias de antecedência (se for possível) a fim de que eu siga para aí — o que não faço já para não expor a família à virulência da varíola. Penso que com certeza ainda aqui estarei até o dia 10. Revive assim, inesperadamente, o belo plano de um passeio a Bertioga. Espero que desta vez não surjam obstáculos que no-lo impeçam.

Fiquei satisfeitíssimo com a digna solução da sua crise. Bem lhe disse aí, que do barão do R. Branco o sr. só poderia esperar as maiores atenções e fidalga gentileza. Afinal a Venezuela é talvez a parte mais intelectual de toda a América Latina. Há, pelo menos, ali, uns poetas extraordinários, e de um, Estrada Palma, conservo ainda a impressão dos versos maravilhosos. De lá virão as suas cartas para o Estado, que as receberá festivamente. Peço-lhe que me recomende a todos os seus. Creia sempre no am o . at o . e adm or . Euclides da Cunha

P.S. — Muitos parabéns pela 2ª edição d’O Japão. Recebi a monografia de Chandless; obrigadíssimo.

Guarujá, 5 de setembro de 1904 Plínio

Recebi a tua carta — mas como o Mesquita dentro de 8 ou dez dias irá definitivamente para aí — não tratei com ele sobre o assunto de que trataste. Tenho passado muito mal! Imagine — uma nevralgia por dia! Não sei a que atribuir semelhante tortura, agravada neste momento pela necessidade urgente de recordar quase toda a astronomia. Aí está a razão porque não tenho escrito. Ainda hoje, a pedido do Mesquita, procurei traçar um ligeiro esboço da agitação da Independência — mas nada consegui escrever, sob a angústia desse parafuso sem fim que me atravessa a cabeça de lado a lado. Por outro lado uma sobrecarga intelectual assombrosa! Só respiro senos, cossenos, tangentes e tudo quanto há de seco e brutalmente insípido em matemática. Estou vendo que um dia acordo desfeito em raiz quadrada… extraída pelo célebre escangalhador das dúzias.

Afinal tudo esto passará — e como só seguirei para o Rio nos últimos dias deste mês (a nossa partida será em outubro) hei de ainda ter tempo de escrever algo para o Estado e Comércio.

Adeus. Lembranças a todos do Euclides da Cunha

P.S. — No dia 10 ou 11 chegará aí o Oliveira Lima (se vier por terra) e como não posso ir lá agora, telegrafar-te-ei — para que recebas o distintíssimo patrício. Ele deve seguir logo para aqui, onde o espero. Desculpa-me esta maçada, mas eu não poderia encontrar quem melhor, e até com vantagem, me substituísse. Euclides

Guarujá, 5 de setembro de 1904 Meu ilustre amo. dr. Oliveira Lima

Recebi a sua carta dando a boa notícia da sua próxima vinda. Peço-lhe dizer-me se vem por terra ou por mar — sendo o último caso, a meu ver, muito melhor.

De qualquer modo aqui o espero, aguardando o seu telegrama.

Sempre seu.

Muito cordialmente Euclides da Cunha

Guarujá (Santos), 6 de setembro de 1904 Meu ilustre mestre dr. Luís Cruls

Saúdo-o. Antes de vir para cá deixei no Laemmert, com uma dedicatória para o sr., um exemplar dos Sertões. Recebeu-o?

Como só teremos de seguir para Manaus em princípios de outubro, demorei a minha ida ao Rio, para livrar tanto quanto possível a família do mau estado sanitário dessa cidade. Espero ir nos últimos dias deste mês de setembro.

Creia sempre no discípulo am o . at o . e adm or . Euclides da Cunha

Guarujá, 6 de setembro de 1904

Meu ilustre amo. dr. José Veríssimo

A sua carta de 3 do corrente deixou-me verdadeiramente atônito; nunca, meu ilustre amigo, absolutamente nunca, batizei o menor dos acidentes topográficos nesta terra; e se tivesse de o fazer, creia que de modo algum me utilizaria do nome de quem quer que seja, por mais expressivo que ele fosse. Há por força um equívoco em tudo isto; alguma informação errada quem em prontamente destruirei desde que lhe conheça a origem.

Realmente, como diz bem o sr., seria lamentável, seria até desastroso, que eu escorregasse por esse plano inclinado do engrossamento abaixo, que os homens de hoje armaram… para subirem! Não — ainda estou, com o sr., ao lado da exígua minoria dos que entendem que o melhor serviço a prestar-se nesta terra, no atual momento, consiste sobretudo na seriedade, que é uma forma superior do heroísmo no meio deste enorme desabamento… Peço-lhe muito e muito que me esclareça; estamos enleados num mal entendu bem desagradável, mas que será desfeito.

Quanto à notícia do Jornal do Brasil — falsíssima. Veja por aí como andam esses homens! Não os conheço, nunca os conversei — e no entanto de julgam habilitados a afirmativas de tal porte!

Fez bem em não lhes dar o menor crédito: a partida para o Alto Purus é ainda o meu maior, o meu mais belo e arrojado ideal. Estou pronto à primeira voz. Partirei sem temores; e nada absolutamente (a não ser um desastre de ordem física, que me invalide), nada absolutamente me demoverá de um tal propósito. Já abri mão de outros interesses que aqui me ofereceram, de sorte que, até sob o ponto de vista material, a minha renúncia seria inexplicável. Além disto, eu teria o cuidado de notificá-la para logo ao barão do Rio Branco, ao sr. e ao Oliveira Lima. Assim, sobre este ponto — estamos entendidos.

Quanto ao Cubatão, dentro de dois dias (depois de consultar um velho conhecedor do assunto que assiste em Santos) dir-lhe-ei algo a respeito. Por ora o que sei é isto: Cubatões (e não Cubatão) chamam-se em geral os pequenos morros nas vertentes ou melhor, no sopé das cordilheiras. É o significado popular; talvez o melhor.

Mando-lhe nova fotografia com os sujeitos cujos nomes mandei na minha carta última. Muitas recomendações a todos os seus, e creia no seu am o . e at o . e adm or . Euclides da Cunha

Guarujá, 9 de setembro de 1904 Henrique Coelho

Ontem, quando aí estive, na Secretaria, não pude dizer-te o que sentia, na ocasião. Impediu-me a presença perturbadora de dois estranhos — embora o quer tivesse a fazer fosse bem simples. Isto: dar-te um grande abraço e dizer-te que o insucesso da minha velha pretensão eu o abençôo — e largamente compensado. Procurava, ansiosamente, uma cadeira, uma prosaica posição de lente — e encontrei dois corações. Francamente, prefiro os últimos. Sou um eterno idealista. Nem esta vida pode ter encantos sem esta forma superior e incompreensível à grande maioria dos vivedores. A tua estima e a desse Bento Bueno tão gentilmente grande no sentir e na nobreza incomparável com que espontaneamente se colocou ao meu lado — dizem que triunfei.

Abençoada a hora em que eu desejei sem um simples lente substituto da Escola Politécnica de S. Paulo!

As palavras animadoras e cativantes de Ramos de Azevedo foram certamente sinceras. Homens daquela têmpora não disfarçam o sentir, nem precisam disfarçá-lo.

Mas o fato é que foi — graças aos mais justos motivos — removida para o futuro, um futuro indeterminado, a realização do velho ideal.

E só por esta circunstância já não creio nela. Mudam vertiginosamente os tempos e os homens…

Pois bem! Não cuidarei mais disto — e continuo a dar-me parabéns.

Ganhei a partida. Obrigado, meu velho amigo; abrace por mim… Bento Bueno e creiam ambos, sempre, no teu Euclides da Cunha

Guarujá, 9 de setembro de 1904 Vicente

Felicidades. Recebi a tua carta de 5, e de acordo com ela esperei o Selvagem — que ainda não chegou. Escrevo-te atrapalhadamente no tumulto da arrumação da minha papelada, para a próxima mudança. Pretendo seguir depois do dia 22 para S. Paulo, e de lá para o Rio — devendo a partida para o Purus realizar-se na 1ª quinzena de outubro. Assim, tenho tempo de trabalhar um pouco em prol da tua candidatura. Afirmo-te que agirei fortemente. Escrevi ao Neto para que ele por sua vez a agitasse e estou bem convencido de que o pedido será satisfeito. Amanhã espero aqui o Oliveira Lima e vou atacá-lo diretamente. Depois — no Rio — espero conseguir algum resultado.

Mas lembra-te que esses homens não te conhecem como eu te conheço e que eu não posso, em que pesem as mais entusiásticas referências, dar-lhes uma ideia exata do teu valor real. É preciso agir. A inscrição para o concurso (li ontem esta notícia nos jornais do Rio e no Popular) já está aberta devendo encerrar-se no dia 30 deste. A eleição será em fevereiro.

Deste modo há tempo para que se faça o livro de prosa a que te referiste. Que ele se publique em janeiro — e isto talvez seja o triunfo. Será a espada de Breno lançada no último momento, num dos pratos da balança. Arma-te, pois, de uma forte decisão! Tem muita coisa feita; resta-te quase que apenas o trabalho material de uma escolha cuidadosa. Este resto de setembro pode ser aplicado em fazê-la e no conseguir o editor, mesmo em S. Paulo. Restarão outubro e novembro para a impressão. Em dezembro pode aparecer o livro… É indispensável este esforço. Tens pela frente adversários de há muito bem aconchegados nas côteries parciais que os aninham e a aviventam. Alguns sem grande valor, mas práticos, sujeitos que fizeram um nome como os usuários fazem a fortuna, vagarosamente, ajuntando todos os vinténzinhos dos aplausos frívolos e todos os mulambos de umas ideias esmirradas. Mas lá estão como grandes coisas. Não te resistirão no dia em que puseres ao lado do lírico da Rosa do Amor a rija envergadura do atleta magnífico da prosa. Para estes Kuropatkines das letras uma tática tempestuosa de Kuroki… Assim — não vaciles; não vaciles absolutamente! Considera-te numa batalha em que o triunfo só possa surgir nos deslumbramentos de um movimento inesperado. O livro é indispensável. Um dos concorrentes — e tem valor real — Souza Bandeira — só tem um livro que afinal é uma reunião de velhos artigos há muito publicados.

O exemplo, portanto, existe. Traço-te um programa que deve ser estritamente cumprido: deves ir a S. Paulo, reunir o melhor de tuas publicações dispersas, contratar logo o editor e a impressão — e anunciar desde já o livro, com o título competente. Não há tempo a perder. Não deves perder um dia. Responde-me logo, dizendo o que houveres resolvido. Deves apresentar-te à concorrência depois do dia 20 deste — em carta dirigida ao presidente da Academia — Machado de Assis — (rua Cosme Velho 18, Laranjeiras). O pedido especial a cada um dos acadêmicos, depois. É o que tenho a dizer-te hoje — na enorme atrapalhação em que acho às voltas com os preparativos da mudança. Não te esqueças: a inscrição encerra-se no dia 30 deste.

Lembranças a d. Biloca e a todos. Abraça-te fraternalmente o Euclides

[S.l. setembro de 1904] Plínio

Dolorosa, a tua carta de 8. Bem se vê que os tempos vão maus, campeando, impunes, todas as iniquidades. Se a desordem anda nos nossos próprios órgãos, que esperar do resto desta vida? As tuas pernas bailam, agitam-se, deslizam e revoluteiam sobre os patins, atiram-se em curas coreográficas a desenharem volutas pelo espaço em fora — e num belo (seria mesmo belo?) num belo momento, perturbam-se, atrapalham-se, escorregam, caem escandalosamente… e ficam intactas, e sofre todas as consequências da troça o pobre do teu braço esquerdo! O braço esquerdo! O braço morto do escritor, o braço que não atacou Pedrão, o braço que não assina Pistol, o braço inofensivo (embora segundo a gíria popular talvez não fosse outrora inocente!) Talvez ele esteja pagando velhas dívidas, mal veladas na maldade daquele parêntesis…