Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1904
Chapter 1
[1904] Escobar
A minha maldita memória somente agora me fez lembrar de uma dívida que não quero que fique velha. Peço-te para tirar do que aí vai o que te devo porque não sei —, livros, telegramas etc.
Não vá zangar!
Mande os fascículos da Revista Enciclopédica e venha até cá.
[Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha]
Santos, 1904 Solon
Recebi o teu cartãozinho. Estimei saber que estás bom. Há seis dias te escrevi. Vejo que se perdeu a carta.
Todos em casa vão bem. O Quidinho gostou muito da figurinha… que colaste na tua carta.
Escrevo-te de Santos, onde estou em serviço, apesar de ser domingo. Voltarei logo à tarde para Guarujá e levarei o teu cartão. Estuda sempre, meu filhinho!
Quero te ver breve bem adiantado. Cultiva também o teu coração, porque ele vale mais do que a cabeça. Sede sempre bom, digno e forte.
E não te esqueças de escrever-me sempre. Marca para isto, um dia certo da semana: a quinta-feira, por exemplo: para eu esperar as tuas cartas.
Adeus. Recomenda-me ao rev mo . pe. Numarelli e a todos os teus mestres.
Abraça-te o teu pai e am o . Euclides
S.l., [1904] [A Lúcio de Mendonça, 1904]
Li com o máximo interesse a sua carta de 22 onde estão alguns apontamentos sobre o nosso homem. Não se surpreenda com o desejo de conhecer tais pormenores, por parte de quem, (estudante militar e formando-se precisamente na época em que ― em pleno poder ― nos colocava acima de todos os homens deste país) devia-os conhecer perfeitamente. Explico: naquela quadra não calculei bem a situação; vi no homem apenas um dos muitos soldats heureux que entram estonteadamente na história. Além fui sempre um tímido; nunca perdi esse traço de filho da roça que me desequilibra intimamente ao tratar com quem quer que seja. Daí o ter perdido.
Aqui tenho um convite que leio hoje com tristeza e que na ocasião recebi com indiferença. “29 de janeiro de 1893. Euclides ― o marechal precisa lhe falar hoje. Pinto Peixoto”.
Lá fui constrangido na minha farda de 2º tenente e atrapalhado com a espada. Encontrei o homem na sala de jantar, à vontade, e em um dos seus dias de expansão. A filha mais velha, d. Ana, que já naquela hora matinal estava junto a uma máquina de costura ― retirou-se logo que a cumprimentei.
E o grande dominador abriu-me a apertadíssima pasta da sua intimidade: Veio em ar de guerra… não precisava fardar-se. Vocês aqui entram como amigos e nunca como soldados.
Decorei textualmente. Agora meu caro dr. Lúcio, vá preparando o mais fulminante alexandrino das Vergastas para fulminar a minha horrorosa inaptidão. O grande doador de posições, referindo-se à minha recente formatura e ao meu entusiasmo pela República, declarou-me que tendo eu direito a escolher por mim mesmo uma posição, não se julgava competente para indicá-la… Que perspectiva! Basta dizer-lhe que estávamos em pleno despencar dos governadores estaduais!…
E eu (nesta época sob o domínio cativante de Augusto Comte, e que isto vá como recurso absolutório) ― declarei-lhe ingenuamente que desejava o que previa a lei para os engenheiros recém-formados: um ano de prática na E. F. C. do Brasil!
Não lhe conto o resto. Quando me despedi pareceu-me que no olhar mortiço do interlocutor estava escrito: nada vales.
E tive ainda a inexplicável satisfação de descer orgulhosamente as escadas do Itamaraty, atravessar alegremente o saguão, embaixo, e sair agitando não sei quantos sonhos de futuro… um futuro que desastradamente eu tinha destruído.
Conto-lhe o caso para que avalie a insciência em que estava daquele momento histórico, o que explica a minha ignorância atual.
Por isso, sempre que puder, sem que isto seja um compromisso que lhe tome o tempo tão bem empregado ― transmita-me as suas impressões pessoais.
Santos, 13 de janeiro de 1904 Meu caro coronel Borba
Saúdo-te — e não preciso dizer-te que aqui estou às tuas ordens.
Peço-te que entregues ao sr. Ernesto Nogueira a importância das minhas 8 diárias. O pedido justifica-se pelas aperturas em que me pôs a mudança da minha tenda de engenheiro-árabe.
Adeus.
Recado do Euclides da Cunha
Santos, 16 de janeiro de 1904
[Cartão de visita] Ao Exmo. sr. Machado de Assis [Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha]
Euclides da Cunha [impresso]
Saúda; e comunica-lhe que na sua nova residência, em Santos, onde veio dirigir uma das seções do Saneamento, está inteiramente ao dispor do distinto mestre e amigo.
Euclides da Cunha
Santos, 23 de janeiro de 1904
[Cartão de visita] A Plínio Barreto, distintíssimo companheiro e amigo,
Euclides da Cunha [impresso] saúda afetuosamente: agradece-lhe as suas generosas palavras e pede-lhe que disponha sempre de seus diminutos préstimos nesta cidade…
[No verso]
Quanto à “bandeira”, estou verdadeiramente incomodado. Perdi-a na minha precipitada mudança! Além disso, aqui cheguei e me vi logo a braços com um serviço desconhecido e complexo. O Barjona que me desculpe e dê notícia. Estou doido para tomar pé no emprego, equilibrar a vida, volver às leituras prediletas e colaborar mais ativamente no Estado. Euclides
Santos, 15 de fevereiro de 1904 A Machado de Assis
Meu eminente mestre. O sr. está numa cidade que eu vi na mais remota juventude, e bem perto do pequeníssimo vilarejo onde nasci — Santa Rita do Rio Negro. Não a conheço mais. Mesmo dessa encantadora Nova Friburgo tenho uma impressão exagerada. Foi a primeira cidade que eu vi; e conservo-lhe neste rever na idade viril, uma impressão de criança, a imagem desmesurada de uma quase Babilônia… Calcule, portanto, quantas emoções me despertou a sua carta! Recebi-a em plena faina do meu triste ofício, e para logo olvidando não sei quantos requerimentos e reclamações, andei a vadiar galhardamente no passado. E foi uma consolação: vi-me por algum tempo fora desta agitação dispersiva em que ando metido. Realmente, desde que aqui cheguei não tive ainda um quarto de hora para me dedicar aos assuntos queridos, nem aos livros prediletos. Estou inteiramente embaraçado e preso numa rede… de esgotos! A comparação, tristemente realista, é tristemente verdadeira. Mesmo na ordem intelectual, a minha leitura exclusiva tem-se feito nuns pesados calhamaços, onde capa página faz o efeito de uma estrapada inquisitorial, no deslocar o espírito em sucessivas quedas. Durand-Clayde, Bechmann, Arnold (como estamos longe de Taine, Buckle, Comte, Renan…) estes bárbaros anônimos são os familiares deste Mau-Oficio…
Mas já lhes paguei o meu tributo de resignação, aprendendo afinal algumas formulazinhas entre as mil que ensinam; e livre, em breve, dos grandes charlatas, que a ciência brutalmente utilitária transformou em beneméritos curandeiros de cidades, — julgo que poderei em breve dedicar-me à minha profissão real.
E tanto assim é que lhe peço dizer-me para quando está definitivamente marcada a recepção na Academia. Prefiro a 1ª quinzena de maio; mas subordinar-me-ei ao seu parecer. De qualquer modo aguardo a sua resposta para ir desde já alinhando o discurso.
Recomende-me a todos os seus e creia sempre na maior consideração e profunda estima do colega muito admirador E. da Cunha
[Timbre: Comissão de Saneamento de Santos]
Santos, 5 de março de 1904 Meu ilustre mestre e amº [Machado de Assis]
Saúdo-te e à Exma. família.
Na carta que anteriormente lhe escrevi (enviei-a para Nova Friburgo) consultei-o sobre a data da recepção na Academia. Aguardo a sua resposta, por ir desde já dispondo as coisas, e poder estar aí no dia marcado. Penso que a melhor quadra é a de maio a junho; mas aguardo o que resolver.
Continuo na mesma vida fatigada de sempre. Encontro, entretanto, sempre algumas horas de folga para os estudos prediletos; e quando aí for hei de lhe dar conta do pouco que tenho feito.
Disponha sempre de quem é com a maior consideração adm or . e amº. E. da C.
Santos, 12 de março de 1904 Max Fleiuss
Recebi com a maior satisfação a sua carta de anteontem. Aqui estou às voltas com o meu triste ofício de engenheiro. Quer isto dizer que bem pouco tempo me sobra para cuidar de coisas mais altas. Calcule a minha revolta contra essa situação lastimável: chumbado à profissão ingrata que me desvia tanto dos estudos prediletos…
Mas realizo o milagre incrível de inventar o tempo; não deixo passar um quarto de hora de tréguas, nesta azáfama estéril — e neste estudo aos pedaços, mal feito, grandemente atrapalhado, vou seguindo pelos meandros de nossa história. Um velho paulista — homem dos bons tempos — cedeu-me a sua coleção completa da Revista do Instituto — e ali tenho colhido muitos materiais para fixar a fisionomia da nossa gente no princípio do século passado. Sem a conhecer bem, jamais poderei fixar os traços essenciais do nosso velho Caxias.
A sua carta perturbou-me. Realmente, um estudo da época de d. João VI é tentador. Além disto, para mim seria melhor o prólogo à grande vida do nosso grande e tranquilo heroi. É bem possível, portanto, que transfira para mais tarde o desempenhar-me do compromisso que tomei, para concorrer ao certame que se abrirá. Mas que prazo tem para isto? Para mim o grande valor da tese a desenvolver, está menos na figura de d. João VI que na alta significação da sua época. Quem a explanar com segurança fará simplesmente uma coisa extraordinária: As Origens do Brasil Contemporâneo.
Se me resolver a isto hei de lhe escrever. Em todo o caso mande-me dizer que tempo há para a entrega dos trabalhos. Os concorrentes que me citou seriam um motivo para que desde já eu evitasse o pleito, se a vontade de estudar não me dominasse a própria fraqueza.
Fez bem em mandar que eu aditasse ao folheto do Laemmert o parecer do Instituto, que tanto me satisfez.
Mande-me sempre notícias suas — e disponha sempre de quem é, com muita estima e consideração — amº. obr mo . e adm or . Euclides da Cunha
Santos, 19 de março de 1904 Ilustre am. Max Fleiuss
Em aditamento à minha carta anterior de 15, peço-lhe dizer-me quando se encerrará o prazo do concurso para a “Memória” acerca de d. João VI, assim como se é necessário uma inscrição para o mesmo, ou qualquer outra formalidade. Faço o pedido com a maior reserva porque ainda não sei se a minha vida atarefada me dará tempo para a empresa.
Saúdo-o cordialmente, subscrevendo-me amº., obr mo . e adm or . Euclides da Cunha
Santos, 28 de março de 1904 Escobar
Recebi o livro anteontem! Atrasado no correio.
Escrevo-te só para te dizer isso: continuam apertadíssimos os trabalhos.
Invejável vida! Quando vens? Quando te mudas para S. Paulo? Escreva. Mande notícias.
Lembranças ao Valdomiro.
Recomenda-me aos teus. Todos os de minha casa mandam lembranças.
Recado do Euclides
Rio, 22 de abril de 1904 Coelho Neto
Tens razão. Li a tua carta, e para logo, rompendo com um propósito que me parecia inflexível, procurei o Lauro Müller e pedi um emprego. Aquele velho companheiro, com enorme surpresa minha, ― tão destemperados andam os homens e os tempos! ― recebeu-me admiravelmente. Não era o ministro, era o antigo companheiro de ideal, o sócio daqueles estupendos sonhos de mocidade (ó República!…) que não sei mais onde existem. Mas antepõe-se um obstáculo grave: a legião inumerável de engenheiros desempregados, que entope as escadas das secretarias. Não imaginas o que eu vi… Vê se concebes, de momento, com o melhor da sua fantasia, o quadro de uma espécie de Encilhamento da Miséria. Há em cada caracol das escadas que levam aos gabinetes dos ministros urna espiral de Dante. Considera agora isto: eu entrei por uma delas; ninguém me conhecia; esquecera-me a preliminar de um cartão, de um empenho; de sorte que, a breve trecho, no apertão dos candidatos afoitos, capazes de pagarem com dois anos de vida cada degrau da subida, me vi frechado de olhares rancorosos… Estaquei, arfando, espetado, em pleno peito, por um cotovelo rígido e duro, de concorrente indomável; não ouvi o trágico ranger de dentes; ouvi grunhidos. Quis voltar; impossível: não havia romper-se a falange que se unia, em baixo, inteiriça, ombros colados como os dos suíços medievais na hora da batalha. Tirei desesperadamente o lenço amaldiçoei-te, ó homem, que, a cem léguas de distância, com um movimento da pena e um bater do coração, me atiravas naquela ciscalhagem de almas, de músculos e de nervos! Mas naquele instante alvorou um rosto amigo e desconhecido e, logo após, sacudida por um gesto, que roçou um impertinente cavanhaque vizinho, como a asa de um pássaro num capão de mato, uma pergunta: ― É o sr…? O cavanhaque contemplou-me curioso, um sujeito gordo e tressuante por sua vez recuou, e na face cheia espalmou-se-lhe um sorriso; um outro, também gordo (a que mais podem aspirar estes homens? Noto que na sua maioria os candidatos são repletos de carnes) fez o milagre de afastar-se um pouco… e num minuto, nem sei como isso foi, estava lá em cima. E lá em cima empolgou-me a vaidade, porque, em verdade, quem me levara até lá, com tanta felicidade, fora o Euclides da Cunha!
Estas tolices escandalosas só se dizem aos irmãos.
Em resumo, ― volto amanhã para Guarujá, já repleto de esperanças; e conto que dentro de 2 ou 3 meses estarei restituído à engenharia. Tenho a boa vontade incondicional dos dois Lauros ― Müller e Sodré, além de muitos outros. Mas como não poderei ficar inativo (repito: a minha demissão foi uma cartada no vácuo; preciso trabalhar já e já), aceitei o convite que me fez o Lage para escrever n’ O País. Escreverei também n’ O Estado. Mas tudo isto é provisório. ― Conversaremos melhor depois.
Recomenda-me aos teus e aos bons amigos de Campinas.
Abraço-te Euclides da Cunha
Guarujá, 27 de abril de 1904 Vicente
Aqui estou, diante de tua carta de 24, e a bater com ambas as mãos no peito, penitenciando-me de haver comentado amargamente o teu silêncio. De fato na roda íntima do Viegas, do Sete e do Catunda esbravejei homericamente contra a demora da tua resposta.
Mas passou…
Estive no Rio. Fui cativantemente recebido pelo Lauro Müller; e voltei cheio de esperanças. Considerando, porém, o doloroso estado em que encontrei ali a pobre engenharia — torpemente jogada na calaçaria estéril da rua do Ouvidor ou entupindo as escadas das Secretarias — creio bem que todas as esperanças são vãs. Que podem arranjar-me? Imagina, portanto, quanta vacilação e quanto agitar o ser e o não ser, me lavram devastadoramente o espírito… Espero muita coisa; alimento projetos vários todos mais ou menos viáveis; imagino outras, que se esvaem logo; e neste tumulto, vou-me agitando no estonteamento de quem segue tateando entre miragens.
Doloroso é isto: tenho doze anos de carreira fatigante, abnegada, honestíssima, elogiada, traçada retilineamente; passei-os como um asceta, com a máxima parcimônia, sem uma hora de festa dispendiosa, e chego ao fim desta reta tão firme, inteiramente desaparelhado!
Nada caracteriza melhor as deploráveis convicções deste país para os trabalhadores verdadeiramente dignos de tal nome. Mas não desanimo. Por comodidade prefiro ficar em Santos. Tenho pena da pobre família arrastada nestas mudanças continuadas… Há talvez um meio de ficar: vai construir-se o instituto ou a escola da herança do dr. Otávio.
Muitas pessoas desejam que eu me encarregue, administrativamente, dos trabalhos.
Apenas uma, o sr. Júlio Conceição, por motivos a que sou estranho, tem outros intuitos. Não sei se a tua intenção junto dele teria eficácia decisiva. Se assim o julgas, escreva-lhe a este respeito. Conseguindo aquele serviço, eu poderei continuar os estudos prediletos, e aguardar com mais serenidade que apareça uma colocação melhor.
Porque agora, de repente, não há boa vontade nem influências que me consigam boa colocação no funcionalismo. Está tudo tomado; e para alguns lugares vagos, que ainda existem, há triplicado número de candidatos que há muitos meses moram nas ante-salas das secretarias.
Segundo me disse o Müller, e eu verifiquei depois, muitos deles, já estão trabalhando desde muito tempo, gratuitamente, para adquirirem direitos à nomeação.
Ainda mais: para se entrar nesse quadro original de funcionários gratuitos… é preciso empenho!
Encaro, entretanto, estas coisas com serenidade. Assustei-me mais no naufrágio manqué do Alamiro. Lembras-te?
Pois, meu Vicente, estende-me de lá a tua mão amiga, para que este sudeste rijo da desgraça não arrebate inteiramente o teu Euclides
Lembranças a todos os teus Endereço: Santos (Guarujá)
Hotel de França — Quarto nº 8 — São Paulo
[Carimbo postal: 10 de junho de 1904] Ilmo sr. Francisco de Escobar
Espero-te domingo, sem falta, em Guarujá. Conversaremos melhor e talvez eu te possa guiar melhor quanto à tua pretensão.
Recado do am o . Obr mo . Euclides
São Paulo, 13 de junho de 1904 Ilustre colega e amo. dr. José Veríssimo
Saúdo-o desejando-lhe felicidades. Breve pretendo ir até aí, e então darei melhores notícias minhas. O objetivo único desta carta é enviar-lhe um número do Estado, onde se lê um artigo de Henrique Coelho, um magnífico companheiro e uma esperança. Sei da grande inclinação que o sr. tem pelo grande problema social; e desejo saber qual a sua opinião sobre o artigo do Henrique, que é um convencido e um dos poucos que no nosso reduzidíssimo meio intelectual se preocupa com estas questões.
Continuo ainda em Guarujá (Santos), para onde voltarei amanhã. Lá estou inteiramente ao seu dispor, e lá aguardo a sua resposta.
Creia sempre na maior consideração do seu am o . muito adm or . Euclides da Cunha
[Carimbo do bilhete postal:]
Guarujá, 20 de junho de 1904
[Bilhete postal]
Hotel de França — S. Paulo Ilmo. Sr. Francisco de Escobar
Seguirei S. Paulo logo que fique melhor filhinho menor gravemente queimado num pé. Falarei diretamente sobre o teu negócio. A carta não terá valor nenhum. Há tempo: ontem o Carlos Guimarães me disse que não é para já; depende da reforma judiciária; coisa de 4 ou 5 meses. Fiquei descansando.
Mas se por qualquer circunstância for absolutamente necessária a minha carta — diga-me por telegrama. Ela poderá chegar aí terça-feira.
Mas a carta pouco adiantará; à viva voz conseguirei tudo. Mande-me apenas algumas indicações a respeito.
Abraça-te o Euclides
[À margem:] Parabéns pela aceitação da proposta.
Guarujá (Santos), 24 de junho de 1904 Meu ilustre confrade e am o . dr. José Veríssimo
Saúdo-o, desejando-lhe felicidades.
Por uma carta, neste momento recebida, de Oliveira Lima, vi com a maior satisfação que o sr. aplaude o meu intento de seguir para os remotos pontos da nossa terra que desejo ver e estudar de perto. Ainda mais, sei que intervirá eficazmente para o sucesso pleno da minha tentativa. Venho agradecer-lhe a boa vontade e o valioso concurso. Não lhe escrevi antes porque não desejava que se ampliasse aquele intento, ainda instável e tendo como recurso único a minha resolução. Mas já que em boa hora aquele nosso distintíssimo confrade lhe revelou, venho dizer-lhe que espero tudo dos seus bons ofícios. Não escreverei diretamente ao barão do Rio Branco. Mas do que as minhas palavras valerão a sua e a de Oliveira Lima.
Para mim esse seguir para Mato Grosso, ou para o Acre, ou para o Alto Juruá, ou para as ribas extremas do Mahú, é um meio admirável de ampliar a vida, o de torná-la útil e talvez brilhantíssima. Sei que farei muito. Aquelas paragens, hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos, estão como o Amazonas antes de Tavares Bastos; e se eu não tenho a visão admirável deste, tenho o seu mesmo anelo de revelar os prodígios da nossa terra.
Se por acaso for tardia a organização das comissões demarcadoras dos nossos limites, poderei seguir só — com o objetivo de dizer sobre os aspectos físicos e riquezas essenciais daquelas regiões. Não creio que seja coisa difícil. Pelo menos não é uma novidade. O simples nome de Alexandre Ferreira (desculpe-me este envaidar-me em ousados paralelos) nos diz que o exemplo é velho, tem muito mais de cem anos. Além disto, se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?
Isto justifica as minhas fundadas esperanças. Aguardo a sua resposta; e espero muito breve abraçá-lo aí. Creia sempre na maior consideração do seu
muito cordialmente Euclides da Cunha
P.S. — Não há temer-se a oposição de um espectro, o Exército, por causa dos Sertões. Tenho lá, mesmo naqueles lugares, amigos — bastando citar o nome de Siqueira de Menezes. Além disto, o rancor despertado pelo livro vai muito atenuado…
Guarujá, 26 de junho de 1904 Escobar
Conversei ontem com o Henrique Coelho a teu respeito. Disse o que és. Ele ficou extremamente desejoso de te conhecer; e é escusado dizer-te que ampara francamente a tua candidatura. Podes escrever-lhe, baseado no que te digo. Satisfaz, assim, o que desejavas. Dispõe sempre do Euclides
Quanto ao resultado da minha ida a S. Paulo: esperanças! Esperanças!! Esperanças!!!… desespero! Euclides
Santos, 2 de julho de 1904
[Carimbo postal] Plínio
Seguiu hoje, registrado, o primeiro artigo para o Comércio.
Reclamo a tua revisão.
Recado do Euclides
[Carimbo no bilhete postal:]
5 de julho de 1904
Ilmo sr. dr. Plínio Barreto
Redação do Estado de S. Paulo S. Paulo Plínio
Escreveu-me anteontem o Oliveira Lima pedindo-me dois números do Estado de 25 (não sei se é a data do que traz a “Comédia Histórica”) — e eu imediatamente transmiti o recado ao Carlos Ferreira para enviá-los diretamente daí — para o Hotel dos Estrangeiros — Rio. Agora desconfio que pus o endereço errado. Verifica-me isto — porque me parece que mandei a carta para o Comércio, com o artigo que ontem seguiu.
Diga ao Laerte para transcrever o “Ideal da América” do País de ontem. Façamos a propaganda do magnífico Roosevelt, o grande evangelizador. Euclides
[À margem:] Quando aparece por aqui? Responda.
Guarujá, 5 de julho de 1904 Henrique Coelho
Transcrevo de uma carta de José Veríssimo, que não mando por tratar de outros assuntos que me interessam:
“Também me agradou muito o artigo que me fez o favor de enviar, do sr. Henrique Coelho, pelo fundo e pela forma, que é já de um escritor. De parte o talvez excessivo esmero de citações — a que aliás nós escritores brasileiros somos obrigados pela inépcia do nosso público — o artigo é muito bem feito. Não obstante extenso é de uma leitura fácil e agradável.”
Aí está um juízo feito na intimidade. Absolutamente sincero, portanto.
Adeus; felicidades. Abraço-te Euclides da Cunha
Guarujá, 7 de julho de 1904 Meu ilustre amo. dr. José Veríssimo
Recebi a sua prezada carta e fiquei satisfeitíssimo com o seu valioso juízo relativamente ao meu “Marechal de Ferro”. Também transmiti ao Henrique Coelho a sua opinião sobre o trabalho dele.
Quanto ao outro assunto — ela fortaleceu as esperanças na realização do meu ideal de bandeirante. Estou cada vez mais animado em levá-lo por diante. Que melhor serviço poderei prestar à nossa terra? Além disto, não desejo Europa, o boulevard, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro. Nestes tempos de fragilidade já não é pouco.
Ampare por isto, com o inegável prestígio do seu nome, a minha pretensão. E diga-me sempre uma palavra a respeito dela. Aguardo ansiosamente uma decisão.
Escrevi ontem outra vez ao nosso eminente confrade Oliveira Lima.
Recomendo-me muito a todos os seus, e creia sempre em quem é seu muito cordialmente. Euclides da Cunha
P.S. — Antes de partir tomarei posse da cadeira na Academia. Mas não poderei sair daqui sem uma decisão clara.
Guarujá, 18 de julho de 1904
[Bilhete postal]
Exmo. sr. dr. Plínio Barreto
Redação do Estado de S. Paulo Rua 15 de Novembro, 58 S. Paulo Plínio