Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1903

Chapter 3

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Meu venerando compatriota J. Nabuco, dando a preferência de seu sufrágio ao almirante Jaceguay, e implicando-a com tanta superioridade, o sr. deu à carta, com que me distinguiu, um raro traço de nobreza, sobredoirando o valiosíssimo autógrafo que guardarei carinhosamente entre as melhores relíquias, que possuo. De pleníssimo acordo com o seu pensar, e agradecendo-lhe muito, o tê-lo exposto sem rodeios, (porque me fez justiça de acreditar que de modo algum eu me poderia sentir abatido, no plano secundário que naturalmente ocupo ante aquele notável compatriota) posso afirmar-lhe que não aventurara a minha candidatura se a tivesse de opor à do autor do Dever do Momento, livro a que devemos em parte a felicidade de vermos restituído à atividade política aquele cuja Formação reflete incisivamente, sintetizado numa existência individual, a própria formação do que há de mais brilhante, de mais sério e de mais robusto na nossa consciência coletiva atual. Não vai a mínima lisonja nestas linhas. Todos os de minha geração devemos muito à sua palavra, porque a ouvimos precisamente na quadra em que sua tonalidade prodigiosa se harmonizou admiravelmente a todos os grandes arrojos e desinteresses da mocidade. Ela ― que por uma circunstância notável tantas vezes se alevantou em frente a Escola Politécnica ― dominava, não raro a dos nossos mestres e ampliou o nosso destino subalterno de engenheiros, dando-lhe um significado superior tão bem expresso naquele “triangulador do futuro”, a que se refere imaginativamente, golpeando de súbitos lances de gênio a secura matemática da aula de Construção, o bom e genial André Rebouças. Não me demorarei neste assunto, para não me delongar. Basta-me assegurar-lhe que nenhum de nós, rapazes daquele tempo, traiu aquela admiração antiga para que o sr. aquilate bem a verdadeira ufania com que recebi as suas letras. Quanto aos Sertões ― aguardo tranquilo o resultado de sua leitura. Os deslizes na forma que o inquinam (o José Veríssimo inflexivelmente os denunciou) empalidecerão na escala de sinceridade com que esboço as suas páginas. Aí está o seu único valor, mas este é desmesura. Releve-me esta verdade, o Dante, para zurzir os desmandos de Florença idealizou o inferno; eu, não, para bater de frente alguns vícios do no singular momento histórico, copiei, copiei apenas, incorruptivelmente um dos seus aspectos… e não tive um Virgílio a amparar-me ante o furor dos condenados! Não lhe devo tomar mais seu tempo que nesta ocasião pertence todo à nossa terra. Termino assegurando-lhe o meu maior apreço, a certeza e crescente admiração como comp. atº e amº.

Euclides da Cunha

Lorena, 22 de outubro de 1903 Max Fleiuss Diante do que me expôs com tanta franqueza na sua carta de 18, renuncio ao desejo de conhecer os documentos que aí tem sobre V. Magalhães. Tratarei apenas do escritor. Em todo o caso agradeço muito a boa vontade com que acolheu meu pedido. Nesta data envio ao dr. Marques Pinheiro a importância da jóia e mesalidade. Enderecei para o Instituto. Quanto à posse também penso que será a 6; e havendo algum contratempo, a 20. Cuide de preveni-lo com dois dias de antecedência. Até breve, pois, e disponha sempre de quem é com muita consideração amo. obr do . e adm or . Euclides da Cunha

Lorena, 26 de outubro de 1903

[Anverso de cartão postal:] São Paulo ─ Figueira Brava (Lorena) [Foto] [Reverso:] Dr. Lúcio de Mendonça Travessa do Marquês do Paraná, 6 ─ Rio de Janeiro Esta figueira é minha vizinha aqui, em Lorena. Não é admirável? Pelo menos, um esplêndido pretexto para que lhe mande minhas saudades e cumprimentos, ─ quem é, cordialmente, Lorena, 26 de outubro de 1903 Euclides da Cunha

Lorena, 2 de novembro de 1903 Escobar Recebi a tua carta, a respondo logo — 5 minutos antes de partir para S. Paulo. Não vou também ao Rio — mas às cabeceiras do Tietê, num serviço urgente. Tomarei posse no dia 20 deste. Até breve. Abraça-te o am o . Euclides Diga ao Valdomiro que breve responderei a última carta dele; logo que me desembaraçar da enormidade de trabalhos que aqui estão, esmagando-me.

Lorena, 16 de novembro de 1903 Coelho Neto Venho das cabeceiras do Tietê, depois de longa e penosa viagem, e contava encontrar, ao chegar, notícias tuas. Nem uma carta, porém. Por quê? Esta é a segunda ou terceira interrogativa que te faço profundamente surpreendido. Mas como, felizmente, estas coisas não têm força para a minha sólida estima, renovo-a sem mágoa, e já que não me dás notícias tuas, dou-tas minhas. Graças à minha rigidez nativa de caboclo, continuo bem nos steeple-chases desta profissão errante; e neste momento, ao meu lado, três pequenos titãs de um côvado de alto — toda a minha prole — perturbam-me consideravelmente com as suas risadas triunfais, cheias de vida. Em resumo, — tudo bem aqui. E lá? Vou propositadamente fazer ponto nesta pergunta, sem alongar esta, para não lhe desvirtuar o fim único de saber notícias tuas e dos teus. Adeus. Dá um pouco mais de atenção ao teu Euclides Recomenda-nos muito à Exma. senhora.

Lorena, 17 de novembro de 1903

Max Fleiuss Saúdo-o, desejando-lhe felicidades e comunico-lhe que no dia 20 próximo, se não ocorrer qualquer contratempo, aí estarei a fim de tomar posse do meu lugar no Instituto. Sem mais, creia-me na maior consideração do seu amo. cr do . obr o . e adm or . Euclides da Cunha

Lorena, 22 de novembro de 1903

Coelho Neto

Cheguei hoje do Rio onde tomei revolucionariamente posse de meu lugar no Instituto Histórico. Os jornais limitaram-se a transcrever a resposta do conselheiro Corrêa que pronunciou o seu 10008º discurso. Não transcreveram o meu; não podiam arquivá-lo tão a fundo, tão de frente, embora sob um aspecto geral, eu feri o presente abominável em que estamos. Sem vaidade ― tive, por alguns momentos, em tomo de mim, a simpatia tocante de alguns trêmulos velhinhos, e aqueles minutos irão consolar a minha vida inteira… Depois conversaremos: em dezembro (em princípio) irei visitar meu velho, e passarei aí para te abraçar. Então. eu não creio em Deus?! Quem te disse isto? Puseste-me na mesma roda dos singulares infelizes, que usam do ateísmo como usam de gravatas ― por chic, e para se darem ares de sábios… Não. Rezo, sem palavras, no meu grande panteísmo, na perpétua adoração das coisas; e na biha miserabilíssima e falha ciência sei, positivamente, que há alguma que eu não sei… Aí está neste bastardinho (e é a primeira vez, depois da aula primária, que o escrevo) a minha profissão de fé. Há de adivinhá-lo teu valente coração. Se existir o teu céu, meu brilhante amigo, ― para lá irei direitinho, num voo, um largo voo retilíneo desta alma aquilina e Unta ― com assombro de não sei quantos rezadores, cujas asinhas de bacurau servem para os voejos, na penumbra do Purgatório. E serás o meu companheiro de jornada, porque é na nossa superenervação, e é no nosso idealismo sem fadigas, e é na nossa perpétua ânsia do belo, que eu adivinho e sinto o que não sei. Singularíssimo ateu… Mas não quero tomar-te mais tempo. Até breve. Recomendações e abraços do

Euclides

Lorena, 27 de novembro de 1903 Escobar

Somente hoje, ao voltar de uma penosa viagem (sempre uma penosa viagem!) posso responder a tua carta de 19 em que me dás notícia do teu novo filho, o João, que poderá ser tudo ― Tenório, Sem Terra, Huss, de Deus, Valjean, VI ou V, Batista ou Fernandes ― mas nunca Bocó, como pecaminosamente o disseste, caluniando-me, por antecipação erradíssima, o rapaz. Nunca!

E que a velhice (tão acelerada anda-me ela agora em que há tanto velho trêfego neste país!) me permita um dia vê-lo, copiando, nesta vida, a marcha diretíssima do pai.

Já leste no Jornal de 26 o meu discurso no Instituto. Discurso, não; um desabafo. Leste a lista dos que lá estavam: era o ― Brasil, o Brasil Velho e Bom.

Que felicidade, meu amigo!

Não te rias: tive os olhos empanados de lágrimas quando, finda a sessão, aquelas mãozinhas trêmulas e mirradas se agarraram, num agradecimento mudo, à minha mão nervosa… Tu não calculas como me senti bem, ali, no meio daquela gente, que não distribui empregos; e como avaliei bem o vigor desta minha belíssima alma sonhadora, tão desprendida das infinitas esquírolas e da poeirada de coisinhas interesseiras que deslumbram tanta gente.

Depois conversaremos.

No dia 3 seguirei para S. Paulo. Encontro-te lá? Em tal caso previna-me com antecedência.

Lembranças aos teus; e recebe um abraço (do qual darás a metade ao nosso João) do amº velho Euclides da Cunha

P.S. ― Vai esta em dois pedaços porque escrevi precipitadamente em duas folhas diferentes.

S. Carlos do Pinhal, 9 de dezembro de 1903 Tio José

Recebi, do Rio, no dia da posse do Instituto, um telegrama seu de felicitações, e tão atrapalhado andei que nem o respondi. Peço-lhe desculpas… Sempre que lá vou procuro o Arnaldo ― sendo escusado dizer-lhe que é sempre o mesmo rapaz estudioso (até demais) e comportado como uma moça. E.

Lorena, 26 de dezembro de 1903

[Cartão postal a Machado de Assis]

[Reverso:]

“onde o estudante e aserenata acordam morenas filhas do país do Sul!”

Felicidades! Euclides da Cunha