Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1903
Chapter 1
Lorena, 27 de fevereiro de 1903
Amigo dr. Araripe Júnior,
Recebi o seu cartão e aguardo ― nem imagina com que ansiedade! ― o seu juízo sobre os meus Sertões. Na véspera havia lido o seu último artigo sobre os “Comentários” da nossa Constituição Federal, do dr. João Barbalho, e, francamente, ali notei, sob um aspecto inteiramente novo, ajustado ao destino dos povos americanos, a doutrina, sem número de vezes discutida e falseada, de Monroe. Mas o que sobretudo me impressionou foi o desassombro, a magnífica rebeldia de um espírito em plena insurreição contra o nosso sentimentalismo mal educado e estéril. Considero o paralelo, ou melhor, o contraste lucidamente exposto, entre as duas expansões, a teutônica e a ianque, como raio de uma visão que nos últimos tempos mais se tem dilatado no perquirir o destino superior da civilização. Sou um discípulo de Gumplowicz, aparadas todas as arestas duras daquele ferocíssimo gênio saxônico. E admitindo com ele a expansão irresistível do circulo singenético dos povos, é bastante consoladora a ideia de que a absorção final se realize menos à custa da brutalidade guerreira do “Centauro que com as patas hípicas escarvou o chão medieval” do que à custa da energia acumulada e do excesso de vida do povo destinado à conquista democrática da terra. Não calculo até que ponto se possa aceitar o seu otimismo sobre a hegemonia norte-americana. Mas, dado mesmo que ele falhe por completo, e que o malsinado imperialismo ianque se exagere até a posse dos países estranhos, ― de que nos valeriam lamúrias de superstições patrióticas? Vi no seu artigo um significado superior, sugerindo uma medida prática; subordinados à fatalidade dos acontecimentos, agravados pela nossa fraqueza atual, devemos antes, agindo inteligentemente, acompanhar a nacionalidade triunfante, preferindo o papel voluntário de aliados à situação inevitável de vencidos. É o pensar dos que não desejam ser amigos ursos da Pátria, embora atraindo a pedrada patriótica dos que por aí, liricamente, a requestam numa adorável inconsciência de perigos que a rodeiam. E julga-se feliz com esta perfeita uniformidade de vistas, o seu patrício adm or .
Euclides da Cunha
Lorena, 1º de março de 1903 Meu caro Borba
Recebi a tua carta sobre a demora das despesas. Que fazer? Se receberes até o dia 3 deste, manda-mas. Se não, espere-me aí entre os dias 6 e 10. Tão largo intervalo faço-o porque ao chegar, ontem, do Bananal, recebi um telegrama da morte, num escarro de sangue. Felizmente até agora não sei reproduziu. Mas preciso ser cauteloso.
Adeus. Para os Petrônios de que falas, a tua verve valente é bem suficiente. Enterra-lhes no cangote e farpa aguda da ironia. Euclides da Cunha
Lorena, 9 de março de 1903
Dr. Araripe Júnior
Cheguei de S. Paulo onde li o magistral artigo sobre Os Sertões e posso escrever-lhe desafogadamente porque não transmito a minha impressão, mas a de todos que sabem ler naquela cidade. O seu artigo fora anunciado por um telegrama vindo para o jornal da tarde A Plateia. O Jornal era esperado. Às dez horas da noite tinha-o lido quase toda a roda literária paulista e às dez e meia eu saí da redação do Estado de S. Paulo com o enorme estonteamento de um recruta transmudado repentinamente num triunfador. Compreendi então quanto é inerte (na significação que damos em mecânica à palavra) a opinião, mesmo entre espíritos cultos; absolutamente passiva, como a cera, um molde admirável para corporizar o pensamento dos eleitos. Porque, no dia seguinte, eu ― que até então era um engenheiro-letrado, com o defeito insanável de emparceirar às parcelas dos orçamentos as idealizações da Arte era um escritor, apenas transitoriamente desgarrado na engenharia. A sua grande generosidade, a sua honrosíssima simpatia, garantidas ambas por um espírito robusto, impuseram-me ― libertando-me do aspecto dúbio, meio profissional, meio artista, que me tornava um intruso em todas as carreiras. Nem sabe quanto lhe devo… Além disto aquela análise recorda a crítica reconstrutora de Macaulay. A significação histórica do grande agitador sertanejo que delineei apenas, ajustando-se à escola antropológica, aparece mais nítida, explicada pelas circunstâncias especiais do meio que não tive tempo de conhecer e pelo caráter essencial do indivíduo que não apreendi com segurança, dadas as causas perturbadoras que radicavam a minha observação. Ao chegar encontrei reclamações de empreiteiros que me obrigam a seguir já, em viagem. ― Até muito breve, porém. Creia sempre no patrício e adm or .
Euclides da Cunha
Lorena, 12 de março de 1903
Dr. Araripe Júnior
Chego de viagem; fantástica viagem em que, rompendo pelos caminhos deste velho recanto de S. Paulo, eu fui bater na Bahia e no século XVII… É que o trole me conduzia a Silveiras e a Areias, enquanto o meu companheiro de viagem, o infernal Gregório de Matos, “um diabo passado por crivo de fios aristofanescos trançados com luxúria por mãos de feiticeiras”, suplantando o gordo empreiteiro que gaguejava ao lado não sei mais que estafantes conceitos sobre um orçamento ― o estupendo Homero dos lundus, arrebatava-me num prodigioso salto mortal do espírito sobre dois séculos, para a grande matriz das nossas tradições. E lá segui com ele, embetesgado nas vielas da velha capital… Belo sonho! Um dia estranho de vilegiatura ideal… Por uma evocação, exagerada talvez, eu vi a vida tumultuária da Arcada original dos Capadócios, nos velhos tempos e em plena vernação dos seus atributos característicos. E foi num verdadeiro estonteamento ― entre risos, rasgados de violas, dolências de modinhas, saracoteios de sambas, e, aqui, passando entre serpentinas e cadeirinhas adamascadas, ali acotovelando reinóis recém-chegados ou esbarrando num volver de esquina com o frívolo Rocha Pita, contemplando de relance o padre Damaso, evitando, adiante, o feroz “Braço de Prata”, saudando mais longe o previdente Lancastre ― que eu vi pela primeira vez o terrível trombeteiro de má morte, o vilanaz Aristófanes das mulatas. Que ressurreição e que figura! E quando o pobre velho me desapareceu, afinal, obscuramente, num engenho de Pernambuco, toda a sua ironia de fogo e as suas rimas cauterizantes e as suas risadas vingadoras extinguiram-se também, de chofre. É uma vida a que se assiste entre risos e comenta-se com austeridade. Porque o que ressalta, sobrepujando toda a sua desenvoltura pagodista ― é o eterno martírio dos predestinados. Mais do que o homem, biologicamente falando, Gregório de Matos foi um admirável órgão social quase passivo, feito uma alavanca, cuja força eram as próprias forças coletivas: uma máquina simples em que se corporizaram muitas tendências da raça nova que surgia. Foi “herói” na alta significação dada à palavra pelo dramático Carlyle: prefigurou, fundindo-se na sua individualidade isolada, muitos aspectos de um povo. E passou pela vida obedecendo à fatalidade mecânica de uma resultante intorcível: incorrigível, rebelde sempre à visão estreita dos que pensavam morigerá-la, como se houvesse preconceitos ou regras para estes avant-coureurs das nacionalidades, títeres privilegiados, arrebatados pelas leis desconhecidas da história. Foi um grande sacrificado o desenvolto folgazão! E maior que os seus êmulos, de Juvenal a Bocage, a sua sátira, em que pese ao tom ferocíssimo e maligno, pertence-lhe menos do que às rebeldias nascentes e relaxamentos inevitáveis de uma sociedade em que se chocavam os vícios de um povo velho, agravados pela “bebedeira tropical” e os instintos inferiores de duas raças bárbaras. Desta alquimia horrorosa, tendo como reagentes o deslumbramento solar, a canícula mordente e a terra fecunda, só podia surgir naquela retorta da Bahia desmedida aquele precipitado. Foi tão natural e espontâneo que ainda não se extinguiu. Difundiu-se em dois séculos, e aí está, impressionante, nesta adorável capadoçagem nacional que atenua em boa hora a nossa melancolia de semibárbaros… Mas noto a tempo o desgarrão que me desorienta, escrevendo, rápidas, estas linhas, tomando-lhe o tempo e expondo aí, desalinhadas e em tiagrante, a impressão ou antes uma das impressões que me deixou seu belo livro. Vou relê-lo e talvez melhor o compreenda. Recebi o seu cartão. Não devia surpreendê-lo o efeito do artigo. A sua ação intelectual, afirmo-o, e confirmam-me algumas cartas que a respeito recebi, ― é muito maior do que julga. Pretendia falar sobre o notável mimetismo psíquico da obnubilação exposto no livro com tanta clareza. Mas onde iriam parar os meus orçamentos e os meus projetos e os meus empreiteiros, se eu firmasse a pena nesta discussão? Até breve, e creia sempre na alta consideração e estima do patrício e admirador
Euclides da Cunha
Lorena, 16 de março de 1903
A Henrique Coelho, bom e distintíssimo companheiro dos bons tempos saúda, e agradece o belo presente do livro A Constituição de 1891 e a Constituinte de 1901, que lerá com a máxima atenção e a mais decidida simpatia.
[Cartão de visita. Impresso: Euclides da Cunha]
Lorena, 16 de março de 1903 Dr. João Ribeiro
Saúdo desejando-lhe felicidades.
Aqui recebi as Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa com a gentilíssima dedicatória que aprouve a sua generosidade fazer-me, prefigurando-me uma posição na qual eu nunca cogitei por ser tão contraposta à rudez profissional a que me fui, bem a contragosto, me afeiçoando.
Penso que a nossa Academia não ganhará grande coisa com a minha entrada. Sou um sacrificado a uma carreira que entre nós se faz à custa do olvido quase sistemático de todas as noções teóricas longamente adquiridas, porque se atém à prática ronceira imposta pela nossa atividade rudimentar, sem nada que recorde a opulência industrial e artística de outras terras.
E como em má hora, obediente a minhas tendências de nômade, abracei francamente a engenharia ativa, entro a desconfiar que já estavam embotadas as faculdades que acaso possui para aprender a dominar assuntos de uma ordem mais elevada e ampla.
Apesar disto não posso definir-lhe a ufania, o contentamento real com que aceito o título de seu “futuro colega de Academia”.
Não tenho outro melhor, nem mesmo igual neste país em que o parasitismo se alastra até às mais simples noções da ciência importada, e onde só há verdadeira autonomia de viver entre alguns abnegados que se devotam à guarda das nossas tradições e à luta pela formação de um espírito nacional desfalecido ou ausente permanentemente invadido pelas tendências de outras raças mais que fortes que nos cercam.
Pensando assim, seu eu por uma falsíssima e revoltante modéstia inventasse agora não sei quantos adjetivos deprimentes para me parecer inferior ao lugar que tão nobremente me aprontou, faria figura covarde que se mutila para não marchar para a batalha. Não. Surpreendido embora, atendo ao chamado e apresto-me também para “nossa guerra dos cem anos”.
E creia que não é só como discípulo e admirador, mas também como irmão, irmão em armas, que lhe envio um abraço. Euclides da Cunha.
Lorena, 22 de março de 1903 Dr. Lúcio de Mendonça Recebendo a sua carta no momento de seguir de viagem, não quero, entretanto, demorar-lhe a resposta tal a satisfação despertada pela sua leitura.
Além disto, ela vem de uma terra sagrada para mim, essa alpestre Teresópolis, onde passei os mais verdes anos e me criei; de sorte que a adorável vila forma o cenário mais longínquo das minhas recordações e das minhas saudades. É natural que daí só me venham emoções superiores; e nenhuma maior, eu poderia sentir que a transmitida pela sua carta onde vejo um aplauso sincero menos ao valor que acaso possa ter o meu livro que aos sentimentos o inspiraram.
Infelizmente, porém, julgo que não corresponderei às esperanças que ele sugere e que o sr. tão bondosamente enuncia. A minha engenharia rude, engenharia-andante, romanesca e estéril, levando-me em constantes viagens através do dilatado distrito, destrói a continuidade de quaisquer esforços na atividade dispersiva que impõe. Aí está um colega, e querido amigo, Bueno de Andrada, que a conhece bem sob os seus vários aspectos desde o estilo aleijado dos ofícios à alma tortuosa dos empreiteiros. Entretanto, com uma teimosia incoercível, eu vou alinhando, através da secura dos orçamentos, novas páginas de uma livro que será tardio, ─ feito em minutos de folga, e sem a inteireza emocional que a Arte exige.
Em virtude mesmo desta vida fatigante, esqueceu-me mandar-lhe, e tal incorreção involuntariamente a cometi para com outros distintos patrícios, ─ um exemplar dos Sertões. Corrigirei a falta quando estiver pronta a 2ª edição, com a vantagem de oferecer um livro, sem os deslizes de revisão que existem nos da 1ª.
Desejando-lhe felicidade, peço que acredite na alta consideração do seu comp ta . e adm or . Euclides da Cunha
Lorena, 30 de março de 1903 Amigo dr. Araripe Júnior Chego de viagem e tenho a felicidade de encontrar a sua carta, de 23, que respondo. Antes de tudo, novos agradecimentos pela 2ª parte do estudo sobre os Sertões. Divergimos apenas num ponto: notei que é maior que a sua a minha simpatia pelos nossos extraordinários patrícios sertanejos. Quanto à História da Revolta ─ é ainda um plano. Só poderei iniciá-la quando me aparecer o primeiro dia de folga nesta vida trabalhosa. Além disso, levado pelo dever profissional a misteres tão diversos, terei de lutar muito para considerar aquele assunto. Se o artista é sobretudo um indivíduo empolgado por uma impressão dominante, estou nas mais impróprias condições para isto.
Shakespeare não faria o Hamleto se tivesse, em certos dias, de calcular momentos de flexão de uma viga metálica; nem Miguel Ângelo talharia aquele estupendo Moisés, tão genialmente disforme, se tivesse de alinhar, de quando em vez, as parcelas aritmeticamente chatas de um orçamento. E eram gênios.
Por isso mesmo, escrevendo há dias ao dr. João Ribeiro, agradecendo a remessa das Obras poéticas de Cláudio Manuel da Costa ao futuro colega da Academia, disse-lhe sinceramente que não me julgava aparelhado para aquela posição.
Eu creio, porém, que sairei breve desse desvio morto da Engenharia, sem descarrilhar; aproveitarei o primeiro triângulo de reversão que aparecer, e avançarei na minha verdadeira estrada.
Revendo a 2ª edição do meu livro, chamei, em nota, a atenção do leitor para o “Reino Encantado”, a propósito do caso da Pedra Bonita. E faria a chamada antes, se conhecesse antes aquele romance. Penso que o senhor é injusto no aniquilar aquele seu trabalho, talvez porque o tenha escrito dia a dia para rodapé de um jornal. Sem lisonja, considero-o. Pena é que tivesse abandonado aquela trilha. Não temos romances históricos, sendo a nossa vida nacional tão farta de episódios interessantíssimos e originais. A este propósito, estou quase a lhe dar o mesmo conselho que me deu há poucos dias, em carta, o dr. Lúcio de Mendonça: aviventar com a fantasia criadora um dos mil incidentes da nossa história. Temos quadros e sucessos que fariam o delírio de Dumas e Walter Scott.
Aí está, para citar só um exemplo, esta arrebatadora figura de d. Pedro I, lindíssimo tipo de um rei-cortesão da liberdade, ─ a desafiar os mais ardentes artistas. E deixamo-lo na eterna mudez da estátua do Rocio… Iria longe se lhe dissesse quanto pretendia dizer, tomando-lhe pecaminosamente o tempo precioso. Lá para abril pretendo ir até aí. Hei de procurá-lo e conversaremos melhor. Aqui fico sempre ao seu dispor, como discípulo muito amigo e admirador. Euclides da Cunha
Lorena, 30 de março de 1903 Amigo dr. Araripe Júnior Chego de viagem e tenho a felicidade de encontrar a sua carta, de 23, que respondo. Antes de tudo, novos agradecimentos pela 2ª parte do estudo sobre os Sertões. Divergimos apenas num ponto: notei que é maior que a sua a minha simpatia pelos nossos extraordinários patrícios sertanejos. Quanto à História da Revolta ─ é ainda um plano. Só poderei iniciá-la quando me aparecer o primeiro dia de folga nesta vida trabalhosa. Além disso, levado pelo dever profissional a misteres tão diversos, terei de lutar muito para considerar aquele assunto. Se o artista é sobretudo um indivíduo empolgado por uma impressão dominante, estou nas mais impróprias condições para isto. Shakespeare não faria o Hamleto se tivesse, em certos dias, de calcular momentos de flexão de uma viga metálica; nem Miguel Ângelo talharia aquele estupendo Moisés, tão genialmente disforme, se tivesse de alinhar, de quando em vez, as parcelas aritmeticamente chatas de um orçamento. E eram gênios. Por isso mesmo, escrevendo há dias ao dr. João Ribeiro, agradecendo a remessa das Obras Poéticas de Cláudio Manuel da Costa ao futuro colega da Academia, disse-lhe sinceramente que não me julgava aparelhado para aquela posição. Eu creio, porém, que sairei breve desse desvio morto da Engenharia, sem descarrilhar; aproveitarei o primeiro triângulo de reversão que aparecer, e avançarei na minha verdadeira estrada. Revendo a 2ª edição do meu livro, chamei, em nota, a atenção do leitor para o “Reino Encantado”, a propósito do caso da Pedra Bonita. E faria a chamada antes, se conhecesse antes aquele romance. Penso que o senhor é injusto no aniquilar aquele seu trabalho, talvez porque o tenha escrito dia a dia para rodapé de um jornal. Sem lisonja, considero-o. Pena é que tivesse abandonado aquela trilha. Não temos romances históricos, sendo a nossa vida nacional tão farta de episódios interessantíssimos e originais. A este propósito, estou quase a lhe dar o mesmo conselho que me deu há poucos dias, em carta, o dr. Lúcio de Mendonça: aviventar com a fantasia criadora um dos mil incidentes da nossa história. Temos quadros e sucessos que fariam o delírio de Dumas e Walter Scott. Aí está, para citar só um exemplo, esta arrebatadora figura de d. Pedro I, lindíssimo tipo de um rei-cortesão da liberdade, ─ a desafiar os mais ardentes artistas. E deixamo-lo na eterna mudez da estátua do Rocio… Iria longe se lhe dissesse quanto pretendia dizer, tomando-lhe pecaminosamente o tempo precioso. Lá para abril pretendo ir até aí. Hei de procurá-lo e conversaremos melhor. Aqui fico sempre ao seu dispor, como discípulo muito amigo e admirador. Euclides da Cunha
Santos, 5 de abril de 1903 Amigo Martim Francisco Felicidades! Aí vai o Armitage. Obrigadíssimo. O Saint-Hilaire depois; preciso ainda das lições do extraordinário observador que olhou com tanto carinho as coisas de nossa terra. Em breve hei de lhe levar o belo livro em que Liebig desvenda, de modo desapiedado e convincente, o diletantismo filosófico de Francisco Bacon ─ o mais ousado e feliz dos charlatães do século XVII. Recado do amº e adm or . Euclides da Cunha
Lorena, 26 de abril de 1903 Escobar Saudo-te Recebi afinal a carta do Laemmert ─ e tenho presente a ordem de Rs. 2:198$750 ─ líquido que coube da 1ª edição dos Sertões. À vista disso escrevi hoje ao José Augusto, pedindo-lhe dizer-me para onde enviar a quantia de 219$875, que lhe é devida pelo nosso contrato verbal. Como temo, entretanto, que por qualquer circunstância não receba ele a carta ─ peço-te torná-lo ciente do caso. E escreva-me. Lembranças aos teus. Do Euclides P.S. ─ O Lafaiete roeu-me, terrivelmente, a corda. Qual revistas do Instituto… qual nada! Engraçado! Euclides
Lorena, 28 de abril de 1903 Meu grande amº dr. Egas Moniz Saúdo-o, desejando-lhe felicidades e a toda a Exma. família. Recebi pelo Arnaldo o seu gentilíssimo cartão, que me veio despertar saudades dos poucos mas inolvidáveis dias que aí passei, nessa adorável terra da Bahia. A sua opinião sobre os Sertões, guardo-a entre as que mais me podem enobrecer. Tenho aqui, em roda, na quietude do meu gabinete, uma esplêndida sociedade silenciosa de amigos que me falam com a eloquência das suas cartas animadoras e sinceras. Faltava-me a frase triunfal e ardente de Pethion de Villar. Tenho-a agora. Creio que está nestas expressões generosas a melhor crítica do meu livro. Em que pese a sua feição combatente, tracei-o com uma enorme Piedade pelos nossos infelizes patrícios sertanejos. É um livro destinado aos corações. Devem compreendê-lo admiravelmente os poetas e os bons, se não vai nesta conjunção dispensável redundância. Aguardo o que está escrevendo. Tenho o Diário, que me manda o tio José. Pela Revista do Grêmio acompanho o seu notável esforço no propagar o espírito da nossa terra entre outros povos. E admiro-lhe a abnegação ante tarefa de tal porte. Não deixe de mandar-me logo qualquer tradução que faça dos excertos escolhidos, dado que a rudeza do meu estilo se possa afeiçoar aos encantos de outra língua. E escreva sempre a quem é há muito tempo seu adm or . m to . am o . Euclides da Cunha
==Lorena, 29 de maio de 1903 Max Fleiuss Respondo a carta de V. Não recebi o ofício do sr. Raffard notificando-me a eleição para o honradíssimo cargo de sócio correspondente do Instituto Histórico. Sabendo dela apenas pelos jornais e por algumas cartas de amigos, aguardava a participação oficial para agradecer tão grande distinção, certo entre as maiores que eu poderia desejar tão falto de méritos me considero para a receber. Tratando de fim principal de sua carta, vacilo em deferir ao seu delicado convite, já pelo diminuto do tempo ─ que as exigências da minha profissão agravam ─ já por me faltarem recursos para apreciar rigorosamente a figura notável do Duque de Caxias, uma vida que, como sói suceder com a de todos os grandes homens, foi um aspecto da nossa própria vida nacional. Ao mesmo tempo, porém, penso que não devo forrar-me ao encargo em que convergem a obrigação de atender a quem tanto me enobrece com o seu conceito e a atração inegável do assunto. Mas, aceitando-o, só posso contar com a boa vontade e com o amor que dedico ao passado da nossa terra; e como estes atributos não bastam à extensão da tese, temo iludir a expectativa tão favorável que a sua carta revela. Por isto alvitro uma ligeira variante à minha missão; ao invés de uma “Memória” (porque para isto talvez seja escasso o prazo de que disponho), farei o discurso oficial em nome do Instituto. Deste modo se tiver a felicidade de lhe dar a amplitude e o valor de uma monografia digna de nota, valerá pela “Memória” em questão, e, no caso contrário, terá menos relevo, se não passar despercebida, a deficiência do meu trabalho. É, como vê, um alvitre prático de quem, fiando muito pouco de seu valor, não quer, entretanto, fugir a tão nobilitador encargo. Não posso terminar sem lhe agradecer muito o juízo que externou sobre Os Sertões. Obrigadíssimo. Não remeti como desejava, um exemplar ao Instituto porque a 1ª edição se ressente de muitos deslizes de revisão. Estando já pronta a 2ª, que sairá por estes dias, apressar-me-ei em corrigir a falha. Lamento não conhecer o parecer do sr. Afonso Celso, a que se referiu. Aguardando as suas ordens, sou com a maior consideração ─ crº obr mo . atº adm or . Euclides da Cunha
Junho de 1903 Max Fleiuss Enviei hoje ao Exmo. sr. comdor. Raffard a resposta ao seu ofício notificando-me a eleição para o cargo de sócio do I. H. G. Brasileiro. Não foi antes porque ao chegar tive de seguir em viagem urgente, da qual hoje voltei. Certo da sua proposta relativa ao Centenário de Caxias, renovo o que aí lhe disse: cumprirei o que determina o Instituto, mas sem prazo fixo. Oportunamente, com mais vagar, lhe escreverei. Disponha sempre do cr do . obr do . e adm or . Euclides da Cunha