Correspondência ativa de Euclides da Cunha em 1895
Chapter 2
Que a mais ampla felicidade te rodeie em companhia de toda a família. Não te tenho escrito pelo seguinte: a vida rude e trabalhosa da roça não me permitia; fiz a colheita da fazenda do meu velho, tive que lidar com vasta série de trabalhos que me eram totalmente estranhos etc. – além disto eu confiava e confio na tua longanimidade, certo de que me perdoarias a gravíssima falta. Cansei-me afinal da roça; senti-me alquebrado pela faina de roceiro; a atividade exclusivamente muscular cansou e eu reconheci que ainda era cedo para fugir às agitações da vida.
Deixei por isto a Fazenda do velho que aprovou a minha resolução.
Estou como engenheiro ajudante nas Obras Públicas deste Estado – abraçando assim francamente a minha verdadeira profissão. Aguardo a todo o momento a reforma que pedi.
Aí está em traços rápidos a alteração que sofreu a minha vida – aguardo sobre ela o teu parecer valiosíssimo de constante e leal amigo.
Moramos na rua de Santa Isabel – numa casa que ainda não tem número porque foi concluída agora, por isto peço-te enviares as tuas cartas para a rua do marechal Deodoro nº 19, residência do distinto colega teu, o Reinaldo Porchat – um dos meus raros e dignos Amigos.
Estou certo que ainda este ano iremos até aí; para mim fazer uma viagem à Campanha – terra de tantos bons e leais amigos – é fazer uma romaria, é procurá-la com a mesma devoção religiosa que leva os Muçulmanos à Meca. Não acredites que seja isto um exagero: os homens daqui poder-te-ão dizer talvez melhor do que eu toda a imensa afeição que dedico à tua, à nossa boa cidade.
Adeus, meu caro amigo, recomenda-nos muito a toda a família – abraça por mim aos bons amigos daí e não esqueça nunca o amº. e adm or . Euclides
N.B. – Todos de casa, bons.
S. Paulo, 26 de setembro de 1895 João Luís
Desejo-te muitas felicidades, assim como a toda a família. Tenho-te escrito todas as vezes que posso abrir um parêntesis na minha vida atarefada. Firme no meu propósito continuo a escrever, embora os amigos daí: você, o dr. Brandão, B. Veiga e outros – respondam-me com um silêncio extraordinário. Estarão mal comigo? Agito às vezes este ponto de interrogação sinistro como o Hamlet nas malhas do ser ou não ser e como herói Shakesperiano deixo-me dominar pelas mais dolorosas dúvidas. Enfim é possível se hajam perdidos as cartas que tenho escrito. Vou, por isto, heroicamente, insistir na correspondência.
Tenho-me dado perfeitamente na vida estudiosa que levo – muito contraposta à existência tranquila demais da roça. A vida ativa de engenheiro, mas de engenheiro a braços com questões sérias e não cuidando de emboços e reboços em velhos pardieiros – veio convencer-me que tinha muito ainda a aprender e que não estava sequer no primeiro degrau de minha profissão. Por aí já vês que a minha atividade intelectual agora converge toda para os livros práticos – deixando provisoriamente de lado os filósofos, o Comte, o Spencer, o Huxley etc. – magníficos amigos por certo mas que afinal não nos ajudam eficazmente a atravessar esta vida cheia de tropeços e dominada quase exclusivamente pelo mais ferrenho empirismo. Infelizmente é uma verdade: as páginas ásperas dos Aide-Mémoires ou dos Engineer's pocket books são mais eloquentes, neste fim de século, do que a mais luminosa página do mais admirado pensador. Imagina, se podes, a imensa tristeza que sinto ao escrever isto.
Não prolonguemos, porém, divagações inúteis. Amanhã escreverei a outros amigos daí. Recomende-me muito ao cel. Faria, dr. Brandão, B. Veiga – enfim aos que aí me estimam tanto quanto eu acredito.
Recomenda-nos, a mim e a Saninha a toda a família. Aceita apertado abraço do amº. e abr do . Euclides da Cunha
P.S. – Pondo ontem em ordem alguns papéis encontrei uma conta de cinquenta e poucos mil do sr. Adolfo Luís; com verdadeira surpresa vi que a não tinha ainda pago, por lamentável esquecimento. Peço-te perguntar a ele se quer que mande pelo correio ou se tem aqui alguém a quem eu possa entregá-la. Adeus. Euclides
S. Paulo, 3 de outubro de 1895 Porchat
Saúdo-te. O portador deste é um pobre rapaz, carregado de família numerosa e a braços com sérias dificuldades para sustentá-la. Vou fazer todo o possível para ampará-lo – desejo que me auxilies na empresa; recomendo-to. Ele quer uma coisa simples e que não creio difícil – trabalho. Estendo ao dr. Antonio Bellegarde este pedido.
Até logo. Recado do amigo Euclides
S. Paulo, 9 de outubro de 1895
João Luís
Saúdo-te assim como a toda a família. Até que afinal!…! Afinal consegui a suprema ventura de ter uma carta tua, duplamente valiosa, porque trouxe as duas fotografias fidelíssimas, a moral e a física do companheiro e bom amigo ausente. Eu já andava andava bastante contrariado com o silêncio dos meus amigos da Campanha e achava singular que não encontrassem nas suas longas horas de tranquilidade cinco minutos para escreverem-me; rompeste felizmente o criminoso silêncio. Lamentei que a tua carta, tão vibrante e iluminada, trouxesse, dividindo-a transversalmente na sua primeira página, tristíssima novidade que ali estava anômala como um farrapo de treva, como um trapo de nuvem tempestuosa num céu claríssimo e vasto. Devias tê-la enviado num de papel, à parte, porque ela é um traço eloquentíssimo da feição dolorosa da alma humana… Passemos porém, a outro assunto. Ficamos muito satisfeitos com a notícia da tua próxima vinda aqui. Que ela não fique apenas em projeto e se vieres previne-me antecedência a fim de esperá-los porque não dispenso absolutamente a satisfação de acolher o meu amigo e família na minha tenda de árabe. O que poderei dizer-te de novo sobre a minha vida? E sem mesma, incoerente, sulcada, de desânimos profundos, agitada, de ações tumultuosas, iluminada às vezes por esperanças imensas… Felizmente porém, meu caro João Luís, prendi-a à de dois filhos pequenos, transformei-a de direito que é para quase toda a gente em dever imprescritível (se é que admites tão singular dever) e sigo avante. Deves saber que a minha índole é contraposta ao meio tumultuoso em que estou, aonde a luta pela vida lembra, pela ferocidade e pelo bárbaro egoísmo a agitação da idade das Cavernas. Estou entre trogloditas que vestem sobrecasacas, usam cartola e leem Stuart Mill e Spencer ― com a agravante de usarem armas mais perigosas e cortantes que os machados de Sílex ou rudes punhais de pedras lascadas. Imagina agora que milagres tenho feito: vou bem entre eles! Não me devoraram ainda e ― fato singular ―! não precisei para isto despir-me da rude simplicidade espartana que desgraçadamente tenho. Atravesso essa sociedade agitada numa abstração salvadora, cedendo automaticamente ao dever com a precisão de uma máquina moderna. Em compensação, a sociedade moderna ― essa que nós também conhecemos encontra no meu lar ampla, iluminada, vastíssima ― limitada pelos quatro ângulos da minha estante. E assim vivo aqui nesta boa terra. E você? Persiste ainda no propósito de permanecer ai perenemente, na Tebaida ― como um monge imberbe, ilogicamente desalentado? Não te atrai uma estrada mais perigosa e abrupta para o futuro? Conta-me alguma coisa neste sentido, na resposta a esta que espero breve. Diga ao nosso grande amigo dr. Brandão compreendo perfeitamente que somente raras vezes terá tempo para escrever aos amigos, com a vida atarefada que aí leva. Recebemos o broche que aí ficara e não comuniquei porque era desnecessário. Recomende-nos muito a todos da tua família e do dr. Brandão. Mal resta-me espaço para assinar-me como sempre. Amº. obr mo .
Euclides da Cunha
S. Paulo, 6 de novembro de 1895 Ilustre amigo dr. Brandão
Saúde e felicidades é o que vos desejo assim como a toda a Exma. família – a quem nos recomendamos muito, eu e a Saninha.
A ausência das minhas cartas não provém do fato de não receber eu as do distinto amigo e sim das grandes ocupações que me assoberbam.
Nas horas de trabalho entretanto faço ligeiras pausas, durante as quais recordo-me sempre dos bons amigos da Campanha, muitos dos quais constituem para mim fonte de perene saudade. Peço-vos dizer isto ao nosso velho (velho vai escrito como o melhor eufemismo que achei para dizer a um tempo bom e respeitável) amigo Bernardo Veiga e outros.
O meu Solon faz hoje uma visita à vossa digna família. Este retrato dirá, no seu silêncio, muito mais do que eu agora poderia dizer.
Não tenho estado com o dr. Carlos; duas ou três vezes nos encontramos e ofereci-lhe a minha casa; creio, porém, que ele sofre do mesmo mal que me assaltou: trabalho e trabalhos – de modo que não tem tempo de visitar-me.
O que me diz, o meu digno amigo das coisas da nossa terra? O que diz acerca dessa aura de esperança que agita as cabeças brancas dos velhos fiéis, caducos cavalheiros andantes da Restauração?
A História tem também seus absurdos; talvez tenhamos que lhe fornecer mais um. Confesso-vos que a coisa será interessante e – porque não levar ao extremo a confissão? – asseguro-vos que intensa curiosidade dá-me alguma vontade de que o absurdo se realize. Tenho saudades daquela minoria altiva anterior ao 15 de novembro… há tanto republicano hoje… Para mim Restauração teria o valor de fazer ressurgir a legião sagrada mais enérgica e mais orientada, capaz de vencer com mais dignidade e com mais brilho. Com certeza, porém, esta linguagem não está agradando ao meu digno amigo e torno a outro assunto.
Não sei se poderei ir este ano aí – farei entretanto todos os esforços neste sentido.
Estou em falta com muitos amigos pelo silêncio que para com eles tenho mantido – peço-vos desculpar-me com eles – em breve escreverei a todos.
A minha família vai bem; os meninos continuam fortes e sadios. A Saninha envia muitas recomendações à sua digna e respeitável comadre e eu enviando saudades a todos peço que acredite na estima e consideração do amº. e adm or . Euclides
S. Paulo, 19 de novembro de 1895 João Luís
Saúdo-te, desejando felicidades.
Depois de desastrosa viagem a Lorena e sofrendo as consequências do impaludismo, adquirido num banho forçado do insidioso Paraíba, aqui cheguei.
A vista do que disse estou certo que me desculparás o levar tanto tempo silencioso. Ao chegar aqui não pude de pronto satisfazer o pedido da tua última carta: a capital paulista na ebriez das festas republicanas impediu-mo. Como encontrar em tais dias o tranquilo pensador Manzoni?
Deixei passar a onda e hoje dirigi-me ao Garraux. Infelizmente não encontrei o livro; esperam-no, porém, muito breve.
Enquanto não chega, pois, peço-te um esclarecimento: Qual das obras de Manzoni queres? Há duas, tratando ambas do direito Civil Italiano – uma, completa, com comentários, constando de 15 volumes e outra, menor (7 volumes) tratando exclusivamente do Direito Civil.
É bom esclareceres neste ponto o teu pedido.
O Garraux espera breve as duas obras citadas.
Ando meio adoentado: não é debalde que se atravessam os pantanais de S. Paulo. Se o mau estado de saúde continuar tomarei outra vez o velho cajado de peregrino e procurarei outras terras. É destino. Às vezes, chego a acreditar que tenho a vida mais incômoda ainda que a de Ashverus – porque afinal aquele pobre diabo não tinha mulher e filhos.
Pergunte ao dr. Brandão se não recebeu uma carta minha e um retrato do Solon. Por que não me escreve nosso distintíssimo amigo?
A Saninha manda muitas saudades à d. Fernandina e a toda a sua família.
Envia-te apertado abraço o amº. e velho companheiro Euclides
S. Paulo, 8 de dezembro de 1895 João Luís
Saúde, paz e felicidades.
Já deves ter em mãos os cartões que encomendaste e com certeza aplaudiste já o sentimento estético que revelei, porque foram calcados sobre desenho meu.
Quanto ao Borges Carneiro – como já te participei é preciso esperar alguns dias. É verdade que encontrei um exemplar no Garraux – mas em que estado! Cheio de traça, corroído em mil partes, poeirento, imundo, quase ilegível; não tive a coragem de comprá-lo, embora o dessem por baixo preço. Espero assim os exemplares que segundo me diz o Ferreira estão a chegar.
As coisas por aqui vão na mesma, sem interesse algum. Eu continuo na vida transitória de empregado público dilettanti – porque afinal de contas devo-te dizer que a acho simplesmente detestável e cheia de velhos vícios repugnantes. Já estou quase engenheiro – graças às peregrinações pelo sertão e um trabalho intensivo de três meses. Paguei para isto um duro imposto: uma intermitente que creio haver conseguido debelar porque há dois dias que se não manifesta. O meu velho foi dar uma volta ao Rio da Prata, espero a volta dele, a fim de orientar novamente a vida. Sou incorrigível, meu caro João Luís: Não sei quando acabarei de iniciar e destruir carreiras. Já estou cansado entretanto desta tarefa de Sísifo: os trinta anos aí vêm, perto, ameaçadores, trinta anos de agitação nervosa que já são quase velhice. É preciso parar.
Estou com uns retratos do meu filhinho mais moço para mandar; esqueci-os porém, em casa – amanhã ou depois irão. Já não espero cartas do nosso amigo dr. Brandão; substituo-as, porém, às vezes – recordando as antigas palestras, iluminadas sempre pela grande lucidez de um dos espíritos mais robustos que conheço. És mais feliz neste posto do que eu: há homens que valem uma sociedade numerosa. Ele que não me escreva mas que não se esqueça do antigo discípulo.
Vou encerrar esta. Insistente, terrivelmente cacete, aqui, a meu lado, um empreiteiro – uma sanguessuga qualquer, pede-me por todos os medalhões do Céu, de S. Benedito e S. Pedro, que lhe passe um atestado. Vou satisfazê-lo.
Adeus – Recomendações a toda a família – apertado abraço em todos os amigos.
Escreva sempre ao amº. e adm or . Euclides da Cunha