Chapter 2
— A preta disse mais: deu a entender que minha prima estava, mas dera ordem de te dizer que não.
— Era falso?
— Era verdade.
— Mas então?...
— Eu te explico. Rufina sabe que tu gostas dela; tu deves saber que ela gosta de ti; todo o mundo sabe que vocês gostam um do outro. Ora, se lá fores quando nós estamos, bem...
Gil Gomes tinha-se levantado e dera quatro ou seis passos na salinha, sem ouvir o resto do discurso de José Borges, que teve em si o seu único auditório.
No fim de alguns minutos, o colchoeiro sentou-se outra vez e inquiriu o amigo:
— Dizes então que eu gosto de tua prima?
— É visível.
— E que ela gosta de mim?
— Só um cego o não verá.
— Ela supõe isso?
— Vê e sente-o!
— Sente-o?
O colchoeiro esfregou as mãos.
— Gosta de mim? repetiu ele.
— E tu gostas dela.
— Sim, confesso que... Parece-te ridículo?
— Ridículo! Essa agora! Pois um homem como tu, dotado de verdadeiras e boas qualidades, há de parecer ridículo por gostar de uma senhora como Rufina?...
— Sim, creio que não.
— De nenhum modo. O que te digo é que toda a circunspecção é pouca, até o dia do casamento.
Ouvindo esta palavra, Gil Gomes sentiu um calafrio e perdeu momentaneamente todas as forças. A idéia talvez lhe passasse alguma vez pelo espírito, mas vaga e obscura, sem se fixar nem clarear. José Borges proferia a palavra em toda a sua realidade. O colchoeiro não pôde resistir ao abalo. Ele vivia em uma agitação que o punha fora da realidade e sem efeitos. A palavra formal, na boca de um parente, quando já ninguém ignorava a natureza de seus sentimentos, era um golpe quase inesperado e de efeito certo.
José Borges fingiu não reparar na impressão do amigo, e continuou a falar do casamento, como de uma coisa indeclinável. Teceu os maiores elogios à viúva, à sua beleza, aos seus pretendentes, às suas virtudes. A maior destas era a economia; pelo menos, foi o que ele mais louvou. Quanto aos pretendentes eram muitos, mas ultimamente estavam reduzidos a cinco ou seis. Um deles era desembargador. No fim de uma hora, José Borges saiu.
A situação do colchoeiro complicava-se; sem o pensar achava-se às portas de um casamento, isto é, de uma grande despesa que viria abalar muito o edifício laborioso de suas economias.
Passou-se uma semana depois daquele diálogo, e a situação de Gil Gomes não melhorou nada. Pelo contrário, agravou-se. No fim desse tempo, tornou a ver a viúva. Nunca lhe pareceu mais bela. Trazia um vestido simples, nenhum ornato, salvo uma flor ao seio, que ela em ocasião oportuna tirou e ofereceu ao colchoeiro. A paixão de Gil Comes foi-se convertendo numa embriaguez; ele já não podia viver sem ela. Era preciso vê-la, e quando a via, tinha ânsia de lhe cair ao pés. Rufina suspirava, falava; quebrava os olhos, trazia arrastado o pobre Gil Gomes.
Veio mais uma semana, depois outra e mais outra. O amor trouxe algumas despesas nunca usadas. Gil Gomes sentiu que a avareza afrouxava um pouco as rédeas; ou, por outra, não sentiu nada, porque nada podia sentir; foi alongando os cordões à bolsa.
A idéia do casamento aferrou-se-lhe deveras. Era grave, era um abismo que ele abriu diante de si. Às vezes assustava-se; outras vezes fechava os olhos disposto a mergulhar nas trevas.
Um dia, Rufina ouviu ao colchoeiro o pedido em regra, ainda que timidamente formulado. Ouviu-o, fechou a cabeça nas mãos e recusou.
— Recusa-me? clamou o infeliz aturdido.
— Recuso, disse firmemente a viúva.
Gil Gomes não contava com a resposta; insistiu, rogou, mas a viúva não parecia ceder.
— Mas por que recusa? perguntou. Não gosta de mim?
— Oh! interrompeu ela apertando-lhe as mãos.
— Não é livre?
— Sou.
— Não compreendo, explique-se.
A viúva não respondeu logo; foi dali a um sofá e meteu a cabeça nas mãos, durante cinco minutos. Vista assim era talvez mais bela. Estava meio reclinada, ofegante, com alguma desordem nos cabelos.
— Que é? que tem? perguntou Gil Gomes com uma ternura que ninguém era capaz de supor-lhe. Vamos lá; confie-me tudo, se alguma coisa há, porque eu não compreendo...
— Amo-o muito, disse Rufina erguendo para ele um par de olhos belos como duas estrelas; amo-o muito e muito. Mas vacilo em casar.
— Disseram-lhe de mim alguma coisa?
— Não, mas tremo do casamento.
— Por quê? Foi infeliz com o primeiro?
— Fui muito feliz, e por isso mesmo receio que seja infeliz agora. Parece-me que o céu me castigará se eu casar segunda vez, porque nenhuma mulher foi ainda tão amada como eu fui. Oh! se soubesse que amor me teve meu marido! Que paixão! que delírio! Vivia para fazer-me feliz. Perdi-o; casar com outro é esquecê-lo...
Tornou a cobrir o rosto com as mãos, enquanto o colchoeiro, ferido por aquele novo dardo, jurava a seus deuses que havia de casar com ela ou o mundo viria abaixo.
A luta durou três dias, três longos e estirados dias. Gil Gomes não cuidou de outra coisa durante o combate; não abriu os livros da casa; talvez chegou a não afagar um freguês. Pior que tudo: chegou a oferecer um camarote de teatro à viúva. Um camarote! Que decadência!
Não podia ir longe a luta e não foi. No quarto dia recebeu ele uma resposta decisiva, um sim escrito em papel bordado. Respirou; beijou o papel; correu à casa de Rufina. Ela esperava-o ansiosa. Suas mãos tocaram-se; um ósculo confirmou o escrito.
Desde aquele dia até o do casamento foi um turbilhão em que o pobre colchoeiro viveu. Não via nada; quase não sabia contar; estava cego e tonto. De quando em quando um movimento instintivo parecia fazê-lo mudar de caminho, mas era rápido. Assim, a idéia dele era que o casamento não tivesse aparato; mas José Borges combateu essa idéia como indigna dos noivos:
— Demais é bom que todos o invejem.
— Que tem isso?
— Quando virem passar o préstito todos dirão: Que maganão! Que casamento! Rico e feliz!
— Rico... isto é... interrompeu Gil Gomes, cedendo ao costume antigo.
José Borges bateu-lhe no ombro, sorriu e não admitiu réplica. Ainda assim, ele não teria vencido, se não fosse o voto da prima. A viúva declarou preferível um casamento aparatoso; o colchoeiro não tinha outra vontade.
— Vá lá, disse ele; coupés, não é?
— Justamente; cavalos brancos, arreios finos, cocheiros de libré, coisa bonita.
— Mais bonita do que você, é impossível, acudiu o colchoeiro com um ar terno e galante.
Outro ósculo que o fez ver estrelas ao meio-dia. Estava decidido que o casamento teria o maior aparato. Gil Gomes reconhecia que a despesa era enorme, e intimamente pensava que era inútil; mas desde que ela queria, toda a discussão estava acabada. Mandou preparar a roupa dele; teve até de sortir-se, porque nada possuía em casa; aposentou os dois velhos rodaques, as três calças de quatro anos. Pôs casa. A viúva guiou-o nessa tarefa difícil; indicou o que ele devia comprar; escolheu ela mesma a mobília, os tapetes, os vasos, as cortinas, os cristais, as porcelanas. As contas chegavam às mãos do colchoeiro rotundas e pavorosas; mas ele pagava, quase sem sentir.
Na véspera do casamento, tinha ele deixado de pertencer a este mundo, tão alheado andava dos homens. José Borges aproveitou esse estado de sonambulismo amoroso para lhe pedir duzentos mil-réis emprestados. Coisa miraculosa! Gil Gomes emprestou-os. Era verdadeiramente o fim do mundo. Emprestou os duzentos mil-réis, sem fiança, nem obrigação escrita. Isto e a derrota do primeiro Napoleão são os dois fatos mais estrondosos do século.
Casou no dia seguinte. A vizinhança toda sabia já do casamento, mas não podia crer, supunha que era boato, apesar das mil provas que os noveleiros espalhavam de loja em loja... Casou; quem o viu entrar no coupé, ainda hoje duvida se estava sonhando naquele dia.
Uma vez casado, estava passado o Rubicão. A ex-viúva encheu a vida do colchoeiro; ocupou em seu coração o lugar que até então pertencera à libra esterlina. Gil Gomes estava mudado; fora uma larva; passava a borboleta. E que borboleta! A vida solitária da loja dos colchões era agora o seu remorso; ele mesmo ria de si. A mulher, só a mulher, nada mais que a mulher, eis o sonho da vida do colchoeiro; era o modelo dos maridos.
Rufina amava o luxo, a vida estrondosa, os teatros, os jantares, os brilhantes. Gil Gomes, que vivera a detestar tudo aquilo, mudou de sentimento e acompanhou as tendências da esposa. De longe em longe tinha uma estremeção na alma. “Gil! Exclamava ele, aonde vais? Que destino te leva à prodigalidade?” Mas um sorriso, um afago de Rufina dissipava as nuvens e atirava o colchoeiro à carreira em que ia.
Um ano depois de casado sabia jogar o voltarete e tinha assinatura no teatro. Comprou carro; dava jantares às sextas-feiras; emprestava dinheiro a José Borges de trimestre em trimestre. Circunstância particular: José Borges não lhe pagava nunca.
Vieram os anos, e cada ano novo achava-o mais namorado da mulher. Gil Gomes era uma espécie de cachorrinho de regaço. Com ela, ao pé dela, defronte dela, a olhar para ela; não tinha outro lugar nem outra atitude. A bolsa emagreceu; ele engordou. Nos últimos anos, tinha vendido o carro, suspendido os jantares e os teatros, diminuído os empréstimos a José Borges, jogava a bisca a tentos. Quando a miséria chegou, Rufina retirou-se deste mundo. O colchoeiro que já não tinha colchões, acabou a vida servindo de agente em um cartório de escrivão.
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