Chapter 1
Contra Ápio ou Da Antiguidade do Povo Judeu
Josephusbust
Autor: Flavius Josephus
Tradutor (para o inglês): William Whiston
Tradutor (do inglês para o português): Rodrigo Leite Valentin de Souza
Novembro, 2008 Sobre a presente tradução:
As palavras que eu tive absoluta certeza de que já existiam na forma portuguesa, as traduzi conformemente. As outras, porém, deixei como as encontrei. Alguns nomes porém (como Mâneton), já ví várias formas diferentes no português, então simplesmente decidí pela que me pareceu ser mais usada ou um meio-campo entre as formas que se usam; outros o próprio texto usou nomes diferentes (como Lysimachus e Lysimachi), o que eu creio que seja um erro na digitalização, onde fiz apenas uma observação e corrigi no corpo do texto. Algumas expressões estão entre colchetes [] porque: _ou o tradutor (William Whiston) completou o sentido da frase com o que se encontra entre os colchetes, os quais, vez por outra, mesmo me parecendo desnecessários ou presunçosos, foram mantidos por respeito ao tradutor e por dúvida se o trecho poderia ter sido retirado de outros códices (dados, aliás, que não vieram com o e-text para isso ser devidamente esclarecido); _ou eu tive de completar o sentido, quando do inglês para o português ficaria com o sentido difícil de se definir, o que fiz também com receios. Tentei, na medida do possível, evitar recorrer a isso. Mas também suprimí muita repetição que o texto em inglês continha ( como "but when THEY have sinned, THEY learn from others that THEY have transgressed the law" [o maiúsculo do "they" é meu]), o que, para alguns talvez pareça laconismo da minha parte. As palavras para as quais não encontrei tradução às vezes prejudicou meu entendimento pleno da frase, ocorrendo que acabei por deixar algumas palavras ao redor com suas várias possíveis traduções, (como em "Policrates, que é lacedemônio, conforme protegeu/dignificou (hat) os escritos de Tripoliticus (pois ele não é Theopompus, conforme é suposto por alguns) fez pela cidade de Tebas."); esses casos são identificados quando a palavra estiver com a barra / separando-as. As palavras ou expressões para as quais não encontrei tradução, as coloquei entre parenteses duplos de cada lado ((assim)) .
Livro I
1. Eu suponho que meus livros das "Antiguidades Judaicas", excelentíssimo Epafroditus, (2) tenha tornado evidente para aqueles que os leram com atenção, que nossa nação judaica é de todas a mais antiga, e tem uma existência com origem distinguível; como também, eu declarei nestes como nós viemos a habitar este país onde agora vivemos. Aquelas "Antiguidades" contêm a história de cinco mil anos, e são tiradas de nossos livros sagrados, mas estão traduzidas por mim no idioma grego.
De qualquer forma, visto que eu noto um considerável número de pessoas dando ouvido a acusações que são lançadas contra nós por aqueles que têm inimizade conosco, e não querem acreditar no que escrevi concernente a antiguidade de nossa nação, enquanto eles consideram que nossa nação é de uma data posterior por não encontrarem muitas menções [a nosso respeito] relatadas pelos mais famosos historiadores dentre os gregos, então eu acredito estar sob a obrigação de escrever algo breve sobre estes assuntos, em ordem, para condenar aqueles que nôs acusam de maldade e voluntária falsidade, e para corrigir a ignorância de outros, e também para instruir todos aqueles que estão desejosos de conhecer a verdade de quão grande antiguidade nós realmente somos.
Conforme o testemunho que produzirei para provar o que eu disse, eles o estimarão como de maior reputação da verdade, e o mais especializado no conhecimento dos próprios gregos. Eu também mostrarei que aqueles que têm escrito tão repreensivelmente e falsamente sobre nós, ficarão convictos de que é o contrário do que eles próprios têm escrito. Eu também esforçarei-me por dar uma explicação das razões de não haver um grande número de gregos que fizeram menção de nossa nação em suas histórias. Eu, de qualquer forma, trarei à luz aqueles gregos que não fizeram tal omissão de nossa história para aqueles que não os conhecem ou fingem não conhecer.
2. Agora, em primeiro lugar, eu não posso apenas maravilhar-me grandemente daqueles homens que supõem que nós somos obrigados a nada descuidar [a respeito dos] gregos, quando nós estamos indagando sobre fatos mais antigos, e devamos nôs informar de sua honestidade proveniente somente deles, enquanto não precisamos acreditar em nós mesmos nem em outro homem; pois eu estou convencido de que o completo oposto é a verdade neste caso. Eu penso disso _ se não seremos guiados por vãs opiniões, mas faremos investigação conforme a verdade advinda dos próprios fatos_ que eles julgarão que quase tudo concernente aos gregos aconteceram há não muito tempo atrás; pelo contrário, alguém talvez diga: "é de apenas ontem". Eu falo da construção de suas cidades, a invenção de suas artes, e a descrição de suas leis; e do cuidado na escrita de seus historiadores, sendo esta a última coisa que eles se põem [a fazer]. De qualquer forma, eles próprios reconhecem quão distantes estão dos egípcios, dos caldeus e dos fenícios (pois não contarei agora nós mesmos entre estes) que têm preservado os memoriais das mais antigas e mais duradouras tradições da humanidade; pois quase todas essas nações habitam países que são menos sujeitos à destruição do mundo sobre eles; e estes também têm tomado especial cuidado para nada omitirem do [muito] que foi feito entre eles; mas sua história foi estimada [como] sagrada, e colocam em tábuas públicas, como escritas por homens de grandioso conhecimento entre eles. Mas conforme o lugar onde os gregos habitam, uma miríade (*) de destruições ocorreram ali, e apagaram a memória dos antigos feitos; de modo que eles estavam até iniciando um novo modo de viver, e supõem sempre que alguém dentre eles foi a origem de um novo estado.
(*) No inglês: "dez mil destruições".
Também foi tarde, e com dificuldade, que vieram a conhecer as letras que eles agora usam; pois aqueles que regredirão o uso destas letras deles para uma distante antiguidade pretendem que eles aprenderam-nas dos fenícios e de Cadmus. Ninguém ainda provou habilmente que eles tenham qualquer escrito preservado daquele tempo, nem em seus templos, nem em algum outro monumento público. Por isso que a respeito daqueles que foram para a guerra troiana, portanto muitos anos mais tarde, é em grande dúvida, e grande investigação é feita, se os gregos usaram suas letras naquele tempo. E a opinião prevalecente, e mais próxima da verdade, é de que sua atual forma de usar aquelas letras era desconhecida naquele tempo. De qualquer forma, não há qualquer escrito que os gregos aceitem como genuíno entre eles mais antigo que os poemas de Homero, que ele mais claramente tornou público muito tempo depois do cerco de Tróia; ao contrário, a notícia foi de que, até ele não fez seus poemas por escrito, mas que sua memória foi preservada em canções, e foram reunir mais tarde [ainda], e que esta é a razão do tal número de variações dele encontradas. (3) Em relação àqueles que colocaram sobre a escrita de suas histórias, eu penso o mesmo em relação a Cadmus de Mileto, e Acusilaus de Argos, e alguns outros que talvez sejam mencionados como sucedendo Acusilaus, [de que] eles viveram apenas um pouco antes da expedição persa na Grécia. Mas quanto àqueles que primeiro introduziram a filosofia, e a consideração de coisas celestiais e divinas entre eles, tais como Pherceides o Sírio, Pitágoras, e Tales, todos com algum consentimento aceitam que eles aprenderam seu conhecimento dos egípcios e caldeus, e escreveram, porém, pouco. E estas são as coisas que se supõem serem as mais antigas de todas entre os gregos; e eles têm feito muito barulho para acreditarmos que os escritos com respeito àqueles homens são genuínos.
3. Como poderia então haver coisa mais absurda, os gregos serem tão arrogantes, para gabarem-se como sendo o único povo que está inteirado com a antiguidade, e que têm comunicado as verdadeiras descrições daqueles tempos longínquos de maneira exata? Ao contrário, quem não poderia facilmente reunir dos próprios escritores gregos, [provas de] que eles sabem pouco de algo fundamentado quando se põem a escrever, mas que, preferencialmente escrevem suas histórias de suas próprias conjecturas? Consequentemente eles, propositalmente, refutam-se uns aos outros em seus próprios livros, e não se envergonham de dar-nos as mais contraditórias descrições das mesmas coisas; e eu gastaria meu tempo num propósito fútil, se pretendesse ensinar os gregos a [obterem] um conhecimento superior ao que eu já [tenho]. Que grande desacordo há entre Hellanicus e Acusilaus sobre suas genealogias? Em quantas várias [vezes] Acusilaus corrige sem esforço Hesíodo? Ou, depois, de quantas maneiras Ephorus demonstra [que] Hellanicus contou mentiras na maior parte de sua história? Da mesma forma faz Timeus a Ephorus, e os posteriores escritores a Timeus, e todos os escritores mais tarde fazem a Heródoto (3), nem poderia Timeus concordar com Antíoco e Philistius, ou com Callias, sobre a História da Sicília, nem mais do que fazem incontáveis escritores a Athide ter seguido algum outro a respeito dos assuntos atenienses; nem faz os historiadores o mesmo, que escreveram o Argolics, sobre os assuntos dos Argives. Agora, o que mais preciso dizer sobre cidades específicas e pequenos lugares, enquanto no mais aprovado dos escritores da expedição dos persas, e das ações que foram nesta executada, há assim grandes erros? Ora, o próprio Tucídides é acusado de [ter] escrito coisa não confiável, embora ele pareça ter nôs dado a exata história dos assuntos de seu próprio tempo. (4)
4. Em relação aos tão grandes desacordos entre eles, talvez se determinasse que muitos [relatos] seriam confiáveis se alguém tivesse a idéia de fazer uma investigação sobre eles. Mas relaciono essas contradições principalmente com duas causas, as quais devo mencionar agora, e acredito que a que mencionarei em primeiro lugar seja a principal. Ora, se lembrar-nos que no princípio os gregos não tomaram o cuidado de preservar os registros públicos de seus muitos fatos, isso com certeza possibilitou àqueles que mais tarde escreveram sobre aqueles antigos acontecimentos a oportunidade de enganos, e a possibilidade de criar mentiras também. Pois estes registros originais de tais relatos antigos não somente têm sido negligenciados por outros estados da Grécia, mas até entre os próprios atenienses, que pretendem ser autóctones, e que aplicam-se ao conhecimento, não há tais registros; pelo contrário, eles mesmos dizem que as leis de Draco relacionadas ao assassinato, que existem atualmente em [forma] escrita é o mais antigo de seus registros públicos; que Draco ainda viveu apenas um pouco antes do tirano Pisistratus. (5) Assim como os arcadianos, que fizeram semelhante ostentação de sua antiguidade, sobre quem preciso falar em especial, visto que isso foi ainda depois, antes deles adquirirem suas letras, e aprendê-las, e [isso] também com dificuldade.
5. Tem que, então, naturalmente surgir grandes diferenças entre os escritores, quando eles não tinham relatos originais que contavam sobre a sua fundação, para talvez transmitir informações àqueles que tivessem uma inclinação para informar-se, e contradizer aqueles que contássem mentiras. De qualquer forma, suponhamos um segundo motivo, além destas anteriores contradições. É este: aqueles que foram os mais zelosos a escrever história não foram solicitados para se descobrir a verdade, ainda que fosse muito simples para eles fazerem de tal coisa uma profissão permanente; mas seus negócios foram demonstrar que eles poderiam escrever belamente, e impressionar com isso a espécie humana; e por tal maneira de escrever eles acreditam estarem habilitados a exceder outros, por referenciarem-se em si mesmos. Alguns deles entregam-se à escrita de narrações fabulosas; outros esforçam-se em agradar cidades ou reis, por escreverem em sua admiração; ainda outros diminuem-se encontrando falhas em relatos, ou nos escritores de tais assuntos, e pensam estar impressionando muito por assim fazerem. E realmente estes tornam qualquer coisa da mais contraditória em história verdadeira. Pois este é o grande caráter da verdadeira história, que todos nisto preocupam-se, tanto em falar quanto escrever as mesmas coisas; enquanto estes homens, por escreverem diferentemente a respeito das mesmas coisas, pensam que serão acreditados, por escreverem com este grandioso respeito para com a verdade. Nós, então, [que somos judeus] devemos render-nos diante dos escritores gregos no que tange a linguagem e eloquência de composição; mas não lhes daremos tal reconhecimento na veracidade da história antiga, e no mínimo de todos concernente aos assuntos de nossos próprios inúmeros países.
6. Em relação aos cuidados da escrita dos relatos de longínquas antiguidades entre os egípcios e babilônios, os sacerdotes foram incumbidos disso, e empregaram nisso uma filosófica preocupação. Entre os babilônios, foram os sacerdotes caldeus quem fizeram tal coisa. E os fenícios, que misturaram-se entre os gregos, os fizeram usar suas letras nos assuntos comuns da vida, e para comunicar a história dos negócios públicos; penso que talvez omitiram alguma prova, por todos os homens permitirem-no. Porém agora, conforme nossos antepassados, que não tomaram pouco cuidado sobre a escrita de semelhantes registros, (pois não direi que eles tomaram grande cuidado, maior do que outros dos quais já falei) e que eles incumbiram de tal matéria seus sumos-sacerdotes e seus profetas, e aqueles relatos têm sido escritos até hoje com máxima exatidão; além disso, se não for ousadia da minha parte em dizer, nossa história assim será escrita no futuro_ me esforçarei em te informar resumidamente.
7. Com o intuito de nossos antepassados não apenas nomear o melhor destes sacerdotes, e aqueles que preocuparam-se no culto Divino, por aqueles designados antes, mas prover meio da descendência dos sacerdotes continuar pura e sem mistura, quem é participante dos sacerdócio é obrigado a tomar uma esposa da mesma nação, sem dar consideração alguma a dinheiro, ou qualquer outra dignidade; mas ele faz um escrutínio, e obtém a genealogia da esposa por antigos registros, e adquire muitas testemunhas para isso. (7) E esta é nossa prática não somente na Judéia, mas sempre onde quer ***wheresoever*** que qualquer pessoa de nossa nação viva. E até aquele exato catálogo do casamento de nossos sacerdotes é guardado. Eu penso que no Egito e em Babilônia, ou em qualquer outro lugar do resto da terra habitada, onde quer que nossos sacerdotes estejam dispersos, eles enviam para Jerusalém os antigos nomes de seus parentes por escrito, assim também de seus remotos ancestrais, e significativamente os que são testemunhas também. Mas se alguém morrer na guerra, conforme já aconteceu a muitos, como quando Antíoco Epifanes invadiu nosso país, e também Pompeu, o grande e Quintilius Varus, e principalmente na guerra que ocorreu em nossos próprios tempos, os sacerdotes que sobreviveram compõem novas listas genealógicas dos velhos registros, e examinam as circunstâncias das mulheres que ficaram, para não admitirem mais aquelas que tenham sido cativas, por suspeita delas terem [sido estupradas] por algum estrangeiro. O que, porém, é o mais poderoso argumento da nossa exatidão no gerenciamento deste assunto é que _ direi agora_ nós temos os nomes de nossos sumos sacerdotes do pai para o filho, descendo em nossos registros, pelo intervalo de dois mil anos; e se algum destes tornou-se transgressor destes preceitos, fica proibido de apresentar-se no altar, ou de participar em qualquer outra de nossas purificações; e isso corretamente, ou de preferência, necessariamente feito, pois a cada um não é permitido de seu próprio consentimento ser um escritor, sendo somente dentre os profetas os que têm escrito os originais e primeiros relatos das coisas, conforme informados pelo próprio Deus por inspiração. E houveram outros que escreveram os acontecimentos de seus próprios tempos, e em distinta maneira também.
8. Pois não temos uma inumerável multidão de livros entre nós, discordando e contradizendo uns aos outros, [como os gregos], mas somente vinte e dois livros, (8) que contêm os registros de todo o tempo decorrido; que são devidamente acreditados [como] sendo divinos; destes, cinco pertencem a Moisés, que contém suas leis e as tradições da origem da espécie humana até a morte dele. Este intervalo de tempo foi de apenas três mil anos. Mas da morte de Moisés até o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou depois de Xerxes, os profetas que houveram depois de Moisés escreveram o que foi feito em seus tempos em treze livros. Os quatro livros restantes contêm hinos a Deus, e preceitos de conduta para a vida humana. É verdade que nossa história tem possuido escritores desde Artaxerxes, muito particularmente, mas não são estimados de semelhante autoridade como os anteriores, de nossos antepassados, porque não tem havido uma exata sucessão dos profetas desde aquele tempo. E que nós temos dado crédito firmemente a estes livros de nossa nação é evidente pelo que fazemos; pois durante muitas gerações conforme já passamos, ninguém teve a ousadia de acrescentar coisa alguma, nem tirar coisa alguma, ou mudar algo neles. Mas torna-se natural a todos os judeus imediatamente, desde o nascimento, estimar estes livros contendo as doutrinas divinas, para perseverar neles, e, se for o caso, morrer de bom grado por eles. Pois isto não é coisa nova para os dos nossos capturados, muitos deles em número, e frequentemente no tempo, serem vistos sofrerem torturas e mortes de toda espécie nos teatros, ao invés de dizerem uma palavra contra nossas leis e os registros nelas contidos. Enquanto que não há ninguém dentre todos os gregos que experimentariam o mínimo dano por aqueles relatos, não, nem se caso todos os escritos dentre eles fossem destruídos; pois eles os aceitam como discursos agradavelmente compostos, de acordo com as inclinações daqueles que as escrevem. E eles têm justamente a mesma opinião dos antigos escritores, visto que vêem alguém da presente geração corajoso o suficiente para escrever sobre tais assuntos, onde eles não estavam presentes, nem tiveram interesse o bastante para informarem-se sobre isso com aqueles que conheceram-nas; exemplos do que talvez houve nesta última guerra dos nossos, onde algumas pessoas têm escrito histórias, e as publicado sem nunca terem estado nos lugares relacionados, nem estando próximas deles quando as ações ocorreram; mas estes homens enfiam umas poucas coisas juntamente com boatos, e insolentemente ofendem o mundo chamando estes escritos pelo nome de Histórias.
9. No que diz respeito a mim, compus uma história verídica daquela guerra inteira, e de todas as particularidades que nela ocorreram, conforme relacionam-se em todos os seus negócios; pois eu atuei como general daqueles entre nós que são chamados galileus, conforme nos foi possível fazer alguma oposição. Fui então capturado pelos romanos, e tornei-me um cativo. Vespasiano e também Tito colocaram-me sob uma guarda, e forçaram-me a estar presente continuamente. Primeiro fui colocado em laços, mas fui mais tarde posto em liberdade, e enviado para acompanhar Tito quando ele veio de Alexandria para o cerco de Jerusalém, durante o qual nada aconteceu que tenha escapado do meu conhecimento; pois o que aconteceu no acampamento romano eu presenciei, e escrevi cuidadosamente; e [no que diz respeito a] informações dos desertores trazidos [para fora da cidade], eu era o único homem que os entendia. Posteriormente tive descanso em Roma, e quando todos os meus materiais estavam preparados para aquele trabalho, fiz uso de algumas pessoas para auxiliarem-me no conhecimento do idioma grego, e por estes meios eu compús a história daqueles fatos. E estava tão certificado da verdade daquilo que relatei, que antes de tudo apelei para aqueles que tiveram o supremo comando daquela guerra, Vespasiano e Tito, como testemunhas minhas; presenteei-os com aqueles livros antes de tudo, e depois a muitos dos romanos que tinham estado na guerra. Eu também distribui-os a muitos dos nossos próprios homens que entendiam da filosofia grega, entre quem estavam Julius Archelaus, Herodes, [rei de Cálcis], uma pessoa de grande seriedade, e o próprio rei Agripa, uma pessoa que merece grandiosa admiração. Agora todos estes homens evidenciaram seu testemunho para comigo, como tendo estrito respeito pela verdade; ainda que nada dissimulei no assunto, nem silenciei, se eu, fora o que ignorei, ou fora a preferência de algum lado, entre me terem dado falso colorido às ações, ou omitido algo.
10. Houve realmente alguns homens maus, que tentaram caluniar minha história, e tomou-a como uma espécie de performance instrutiva para exercitar homens jovens. Uma estranha espécie de acusação e calúnia esta! Desde que cada um tomou para si comunicar a história das ações, verdadeiramente torna-se necessário eles mesmos conhecê-las em primeira mão, conforme ou relacionou-se com ela, ou foi informado dela por aqueles que dela tiveram conhecimento. Entre ambos os métodos de [obter] conhecimento, eu posso muito apropriadamente [afirmar que me utilizei de] ambos na composição do meu trabalho; pois, conforme eu disse, traduzi as "Antiguidades" dos nossos livros sagrados, que eu indubitavelmente pude fazer. Anteriormente fui sacerdote de nascimento, e estudei aquela filosofia que está contida naqueles escritos; e para a "História da Guerra", a escrevi à medida que eu mesmo participava dos acontecimentos, uma testemunha ocular em grande parte do restante, e não [me] ficou desconhecido coisa alguma, seja o que for que tenha sido dito ou feito. Quanto mais insolentes devem ser estimados aqueles que responsabilizam-se por contradizer-me a respeito do real estado daqueles assuntos! Estes, embora pretendam ter feito uso das próprias memórias de ambos os imperadores, ainda não saberiam informar-nos quem lutou contra eles.
11. Fui obrigado a fazer este desvio de rumo por necessidade, sendo ansioso por expor o orgulho daqueles que professam ser escritores de histórias; e suponho ter explicado suficientemente que este costume de transmissão de histórias dos tempos antigos foi melhor preservada por aquelas nações chamadas bárbaras, mais do que pelos próprios gregos. Eu desejo agora dizer umas poucas coisas àqueles que esforçam-se em provar que nossa constituição é recente, conforme eles simulam, porque os escritores gregos nada disseram sobre nós. Depois produzirei testemunhos de nossa antiguidade por escritos de estrangeiros; depois também demonstrarei que estes que lançam contra nós acusações fizeram-no muito injustamente.