Contos para a infância Escolhidos dos melhores auctores por Guerra Junqueiro
Part 7
Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e perguntou-lhe:
--Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»
E o espelho respondeu:
--És tu, és tu.»
--Até que emfim!»
Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo, as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima. «Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas, e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais pequena alteração.
Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço que fosse.
--Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que é o nosso thesouro.»
--Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me façam isto.»
Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:
--Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»
E o espelho respondeu:
--Branca é mais formosa que tu.
A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes fossem descobertos, que morreu de repente.
Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.
*A rapariguinha e os phosphoros*
Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente; quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer d'elle um terço para o seu primeiro filho.
A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido compradores, e por isso não apurára cinco réis.
Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?
As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.
Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia, porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.
A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma pontita de phosphoro consumido.
Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de si a parede fria e tenebrosa.
Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem sumptuoso.
Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe. Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo um longo rasto de fogo.
--É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»
Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.
--Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.
Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.
Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios... morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.--Quiz aquecer-se, disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua velha avó no dia do Anno Novo.
*O primeiro peccado de Margarida*
Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus tinha dito:--É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»
Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.
Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.
E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.
N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho, á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.
Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo. Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.
O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das mãos.
Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora, perguntou-lhe:
--Qual é o caminho da cidade?»
Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com um sorriso estranho e diabolico.
N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de Margarida, e pediu-lhe uma esmola.
Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.
O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre Margarida, mas o mendigo--que era o seu anjo da guarda disfarçado--cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.
*Um nome inscripto no céo*
Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:
--«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»
E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma porta.
--Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada que te dar.»
--Foi por isso que eu voltei--disse em voz baixa o mendigo.
E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.
--Aqui te fica isto, santinha--disse-lhe elle affectuosamente, indo-se embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»
Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.
*O linho*
O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.
--Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido, e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou feliz, feliz a mais não poder ser!»
--Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»
E rangendo lastimosamente, cantaram:
--Cric, crac! cric, crac! crac! --Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
--Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e florir. Sou muitissimo feliz.»
Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!
--Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»
Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o, cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois, puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.
--Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»
E ainda estava dizendo--perdidas, e já o estavam a metter no tear e a transformal-o n'uma peça de panno.
--Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:
Cric, crac! cric, crac! crac! Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto, tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida, ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva. Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»
Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.
--Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!
O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.
--Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não se fazem impossiveis.»
E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel branco magnifico.
--Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»
E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.
--Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado, quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria. Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se» tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz, immensamente feliz!»
Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros, que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda do mundo. A meio caminho já estaria gasto.
--É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu estou contente, e julgo-me feliz.
O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.
--Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»
Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também, depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir, e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho semilhante.
Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.
--«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado. Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu, quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas encarnadas.
As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:
Cric, crac! cric, crac! crac! Acabou-se! acabou-se! acabou-se!
Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»
As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.
FIM.
*INDICE*
A mãe O ouro Doçura e bondade O malmequer Não quero Piloto O rico e o pobre Como um camponez aprendeu o Padre Nosso O talisman A alma Alberto A canção da cerejeira Os gigantes da montanha e os anões da planície A creança, o anjo e flôr Presente por presente O pinheiro ambicioso Perfeição das obras de Deus João e os seus camaradas O rabequista Os pecegos A urna das lagrimas Reconhecimento e ingratidão O fato novo do sultão Boa sentença Os animaes agradecidos O ermitão Carlos Magno e o abade de S. Gall A boneca Inconveniente da riqueza Querer é poder Qual será rei? Os três véos de Maria Os pequenos no bosque O chapellinho encarnado Os cinco sonhos A egreja do rei O valente soldado de chumbo João Pateta Branca de Neve A rapariguinha e os phosphoros O primeiro peccado de Margarida Um nome inscripto no céo O linho
[A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade, residente no Rio de Janeiro.]