# Contos Para A Infancia Escolhidos Dos Melhores Auctores Por Gue

## Chapter 6

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--É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e vê o lobo estendido na cama.

--Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»

Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e saltou para o chão, gritando:

--Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.

O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a neta para verem o que se ia passar.

Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e affogou-se.

O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o prohibisse.

*Os cinco sonhos*

Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz; sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões. Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe quizeram logo contar.

O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

--No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar aqui, e punha-o na minha cabeça.»

--Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

--E eu que estava pondo o seu manto.»

--E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua trompa de caça.»

--Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»

Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido d'um moribundo deve ser respeitado.

Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.

--Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser enforcados diante d'este casebre.»

E o sonho realisou-se immediatamente.

*A egreja do rei*

Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:

--Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não cumpriste as minhas ordens.»

--«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno, que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas à construcção da egreja.»

--«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na inscripção do monumento, disse-lha o rei.»

Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

*O valente soldado de chumbo*

Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial, d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos! A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!» que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que precisamente nos interessa.

Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões. Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.

--Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto preciso conhecel-a.»

Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o equilibrio.

Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza, emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar. Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a espreital-a.

Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

--Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro sitio.»

Mas o soldado fez que não ouvia.

--Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta enterrada entre duas lages.

A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!» tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois do aguaceiro passaram dois garotos.

--Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o navegar.»

Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus! Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a escuridão como na caixa dos soldados.

--Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas vezes maior.»

D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do cano.

--Venha o teu passaporte.»

Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o, rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:--Façam-n'o parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente. Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle, como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo, pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

--Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi devorado por um grande peixe.

Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia, e alguem exclamou:

--Olha um soldado de chumbo!»

O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso. Collocaram-n'o em cima da meza, e ali--tanto é verdade que acontecem cousas extraordinarias n'este mundo--achou-se na mesma sala, de cuja janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella, ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.

De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais que uma pequena massa informe.

No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha ennegrecido.

*João Pateta*

João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

--Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

--Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais esperto.»

Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que as não perdesse.

--Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

--Então, João, onde estão as agulhas?»

--Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não podem estar em sitio melhor.»

--De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

--Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

--Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam outro.»

--Está entendido, respondeu João.»

Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

--Queres seis tostões por essas gallinhas?»

--Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro preço, mas que esperasse o segundo.»

--E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

--Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro, mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma experiencia, e disse-lhe:

--Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

--Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

--Quanto queres por esse carneiro?

--Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

--Quatro mil réis?»

--É o preço mais elevado?»

--Pouco mais ou menos.»

--É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

--Quanto?»

--Dez tostões:»

--É menos, respondeu timidamente o João.»

--Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um preço mais elevado.»

--Tem rasão. É seu o carneiro.»

Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou comprar cousa alguma.

*Branca de Neve*

Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão, distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

--Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros como este ébano.»

Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha, que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco, que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho magico dizia-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»

--És tu, respondia o espelho.»

No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu espelho, disse-lhe:

--Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no mundo?»

--Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda, como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

--Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o coração.»

O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma mulher no mundo é tão bella como eu.

A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas, e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo, deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

--Quem comeu o meu pão?»

E os outros successivamente:

--Quem pegou no meu garfo?»

--Quem comeu o meu caldo?»

--Quem bebeu o meu vinho?»

E emfim um d'elles:

--Quem está ahi deitado na minha cama?»

Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente, e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura, que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava. Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:

--Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»

--Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»

Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias. Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda que ha no mundo?»

E o espelho respondeu:

--Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel, e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»

Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no cesto, esqueceu-se das suas promessas.

--Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao pescoço.»

Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

--Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»

Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do espelho, e disse-lhe:

--Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo? Responde.

E o espelho respondeu:

--És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete montanhas, e bateu á porta da cabana.

--Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:

--Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»

--Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já viu outro tão bonito?»

Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a porta.

--Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»

Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e Branca caiu morta.

Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria. Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio. Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que o espelho respondeu como antecedentemente.

--Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me sacrificar.

Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»

--Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»

--Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar ninguem, nem compro coisa alguma.»

--Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão bonita, quero dar-lhe uma.»

--Obrigada, não posso acceitar.»

--Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

--Ahi tens, para castigo da tua formosura.»
