# Contos Para A Infancia Escolhidos Dos Melhores Auctores Por Gue

## Chapter 5

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A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.

São os meus visinhos _remediados_.

A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.

Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do estado--nada falta áquella ditosa gente!

Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.

Que formosa criança!... Terá oito annos.

Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado--provavelmente ainda a crescer--que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.

Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do carro.

A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.

Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.

Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!

Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.

Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.

Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.

Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na casa immediata não se via ninguem--estava a pequena na mestra; no palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.

Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

--«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!...»--disse eu de mim para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...»

Retirei-me da janella.

Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.

A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia tres e quatro vezes!

Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!

Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.

Um dia,--estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos _ricos_--ouvi um grito de susto.

Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.

Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.

O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais perto de mim bradou voz timida e suplicante:

«Não atire!... Dê-m'a.»

Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até então.

Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.

Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, encolhendo os hombros, respondeu:

--«Já não presta!... Está esmurrada!...»

--É o mesmo!... Dá-m'a?...--bradou a outra, cujos olhos brilhavam de cubiça.

--«Dou...»--volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.

E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse despedaçar-se nas lages da rua.

Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que fosse sua!

Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.

A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro vezes em quatro horas!... Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente estranhas para ella!

E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!

Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo, ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.

Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.

Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de cassa---no inverno!--chaile e manta na cabeça.

Muito mal lhe ficava aquillo!... Áquella boneca custava-lhe de certo o vêr-se tão mal arranjada.

Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:

--É justo!... Cada qual segundo as suas posses.»

Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.

O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me pedir desculpa.

Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.

Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com quem sympathisei logo á primeira vista.

Chama-se Maria.

Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.

Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.

E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a minha Maria!»

E tinha razão!

Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.

--É quem vale á mãe!...--accrescentou o velho.»--Ali, onde a vê, faz o serviço d'uma mulher!... Ha seis mezes, quando a minha santa esteve doente--bem pensei que não arribasse!--a pequena era quem cosinhava e olhava pelos irmãos!... E caridade como ella tem!?... Olhe que aquella pequena esteve tres dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!...»

E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que, havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.

Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por um lenço branco.

Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á pequena.

Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca deitada nos joelhos.

--Eu conheço aquella boneca!...--disse eu de mim para mim.

E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:

--Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...

Foi ali a menina da visinha!--respondeu a pequenita, córando de prazer.

Era escusado dizer-m'o.

Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia duvidar... Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel na fronte.

De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com ella.

--Quem te viu e quem te vê!...--pensava eu.

Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!

Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia, empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim, singularissimo o aspecto da triste!

Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a fraternisar com o povo.

A misera mudára mais uma vez de nome!...

De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.

Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.

Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com a boneca.

Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que mais familiares eram á pequena.

Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a, mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.

Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.

Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!

Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos, desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.

Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi, tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.

Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

Um dia chovia a cantaros!--o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil immundicies.

Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no leito do enxurro...

Olhei... Era a boneca!...

A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me impressionou o fim da pobre boneca.

Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

--Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?

--Não fui eu...--balbuciou a pequena, chorando.--Foi ali o Joaquim!...

--E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?...

--Ora!...--respondeu o garoto com enfado.--Ora!... Estava velha... e feia!...

Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.

Pobre boneca!

*Inconveniente da riqueza*

Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.

--Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite? Não se havia de arrepender.»

E accrescentou:

--Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a trabalhar?»

--Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo, portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus quizer!»

Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:

--«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»

Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e approximou-a do trigo.

--Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a tudo!»

Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se, de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

--Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te enriquece.»

Dito isto desappareceu.

E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto como a egreja.

O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos, ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais absoluta.

*Querer é poder*

--Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

--Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas vezes--_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

--Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia, pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e horas, punha-se a resar.

Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

--Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

--Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

--Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»

Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha do rei.

*Qual será rei?*

Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer, não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle alvo, seria o escolhido para successor.

Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que por conseguinte seria elle quem viria a reinar.

O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais alegre do que o outro principe.

O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.

Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas longe de si, e desatou a chorar:

--«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus proprios filhos!»

Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais digno.

*Os tres véos de Maria*

O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve. Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em cima.

Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.

O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas lagrimas.

O véo negro só o trouxe uma vez,--no dia em que se tornou esposa de Jesus no convento da Ave-Maria.

O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.

Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou no paraizo.

*Os pequenos no bosque*

Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»

Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar, disse-lhes:

--Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a outra já não está solida.»

--Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»

--Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu ninho.»

--Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a minha _toilette_.»

E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»

--Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas, aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios, tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»

Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um pintasilgo, em cima d'um ramo.

--Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»

--Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga, que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora, preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»

Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.

*O chapellinho encarnado*

Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do chapellinho encarnado.

A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

--Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»

--Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»

Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita, que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.

--Bons dias, chapellinho encarnado.»

--Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»

--Onde vaes tão cedo?»

--A casa da minha avó que está doente.»

--E levas-lhe alguma cousa?»

--Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe dar forças.»

Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»

--É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito grandes, e no jardim ha muitas nozes.»

--Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava de te comer.» Depois continuou em voz alta:--Olha, que bonitas arvores e que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»

--O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita, visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma que fizesse bem a minha avó.»

--Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

--Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»

--É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

--Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira, e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter fechada.

O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

--Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

--É para te ouvir melhor, minha filha.»

--E porque estás com uns olhos tão grandes?»

--É para te vêr melhor.»

--E para que estás com os braços tão grandes?»

--É para te poder abraçar melhor.»

--E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão agudos?»
